reticência

“[…]  A teu ver, o que esse absurdo pode significar?  –  […]
 – Eu mesmo não o sei plenamente; sei apenas que o meu sentimento era sincero. Ali eu experimentava momentos de vida plena e esperanças extraordinárias.
 – Que esperanças?
 – É difícil explicar, só que não eram aquelas em que você talvez esteja pensando, eram esperanças…bem, numa palavra, esperanças de futuro e de alegria com o fato de que talvez lá eu não fosse um estranho, um estrangeiro. De repente gostei muito de estar em minha pátria. Em uma manhã de sol peguei subitamente da pena e escrevi uma carta para ela; por que para ela eu não sei. Às vezes a gente sente vontade de ter uma amiga ao lado; e, pelo visto, me deu vontade de ter uma amiga… – acrescentou o príncipe depois de uma pausa.
 – Estarás apaixonado?” (p.356)
Por que transcrevo uma conversa tão simples/prosaica e cheia de reticência? Porque me apaixono pela prosa e narrativa de Dostoiévski tão tarde! Este prazer me chega tão tarde! O Idiota deve/teria/precisa de leitura lenta.Eu devoro o texto. Quero interromper, mas não consigo. Os olhos me fazem interromper a leitura/fechar o livro. Eu também escrevo cartas, cartas emergenciais, escorregadias, pontuais e, às vezes, apaixonadas porque, porque… Não sei. Queria tanto compartilhar, mas não estás aqui, e nunca respondes, sequer sei se lês o que escrevo.  Resguardas os teus sentimentos. Tu tens com quem compartilhar, eu, eu…., não tenho. Então te escrevo, e espero. Beth Mattos – junho de 2020 – Torres
o idiota e meus rabiscos bem interessante
Os três pontos, dispostos paralelamente à linha e ao lado de alguma palavra, usado para marcar uma pausa no enunciado, pode indicar omissão de alguma coisa que não se quer revelar, emoção demasiada, insinuação etc.

ventania

Almoço festivo, bonito, com fotos e presentes. Peixe delicioso, camarões e alegria. Dormi uma sesta preguiçosa. Ao acordar resolvi lavar os copos e arrumar o armário. Ordenar e limpar num ímpeto de energia acumulada. Como disse a Luiza, num sorriso, inventas logo meia dúzia de coisas para fazer. Selecionei quatro taças de cristal Saint Louis para vinho do Porto, e coloquei numa bandeja junto com a garrafa, na ponta da mesa. Bonito como nas revistas. E resolvi fazer ambrosia de muitos ovos, um luxo de doçura. Abro a janela para respirar o mar.

O vento levantou as cortinas, as cortinas derrubaram os copos, não ficou nenhum: os cacos viraram pó, os quatro copos quebraram. Susto no olhar estarrecido… A lembrança se espatifa, pelo vento, no susto. Voltei pra o doce. Beth Mattos – junho de 2020 – Torres e suas ventanias.

meu jeito

a florzinha

I

Escrever, o meu jeito de dizer as coisas, ou não dizer.

Eu me criei numa casa aonde as pessoas conversavam. Os adultos se reuniam para dizer o que pensavam sobre política, educação/ sobre música e pintura. Valores. Vozes tinham opinião.

Hoje, tramas de novelas televisivas, seriados, filmes, crimes. Valores preocupam. Vestimos! Exatamente o quê? Cosméticos, perfumes ou restaurantes. A passarela do clube, os jogos! Onde estão os textos?

Casas se esvaziam, homens e mulheres trabalham: crianças nas creches, nas escolas entre outras crianças (parece bom isso), e voltam para os pais na hora de dormir…Sou eu a reclamar a mudança! Sei lá! Por que não reconheço? Envelheço.

Crescer não é mais preocupação; sem expectativas o aprendizado competitivo entre iguais porque o mundo se faz a sua moda… Claro! O mundo das pessoas grandes! Atraente, sem sonho impossível. A criança já nasce dominando, impondo. O centro.

Quartos adaptados: guarda-roupa, brinquedos: o mundo adulto em miniatura. O velho significa o usado.  Texto antigo, altera – se a letra / o sentido. Normal! A pintura outra, o jeito misturado com isso, mais o medo prisioneiro. Não se inova? Ou tanto se inova que não consigo acompanhar? Não sei.

Ao escrever imagino/desenho/faço um mundo só meu. Apreendo a escutar ?!? Não sei. Observar, marcar leituras, esperar. Palavras vazias, ou tomadas de tantos sentidos! Luto por novos significados, tento me fazer entender, e termino por dizer não importa o quê. Não há tempo. Nem para convencer, muito menos para ser convencida de alguma coisa. A coisa acontece depressa demais.  A receita pronta não exige riscos. E estamos espremidos na rua, no bairro, no grupo certo.  As janelas não são abertas, são desenhadas de vento e sol e beleza necessária.

Estou trancada, protegida contra mim mesma, e tenho medo do ridículo. De um modo geral, aplaudimos o que já foi ovacionado. Lemos os livros que jornais, revistas, propaganda, crítica mencionam. Lemos o explicado, o premiado. Caminhamos no rumo certo, sem entrar nas picadas nem por atalhos.

Não há o que descobrir, o mundo foi devidamente revirado… As estantes de livros inúteis possibilidades: poeira. A música, a pintura, a escultura… Onde está o homem, o grito, o desejo? Reticências por todos os lados.

Quando dançamos ferimos os pés…

Estamos sem dançar sem abraçar sem acreditar e sem respirar, virou tudo do avesso.

II

A casa tinha uma enorme biblioteca. Meu pai e minha mãe, sempre com livros sobre as mesas, entre as mãos. Um enorme sofá com listas azuis e brancas, uma poltrona grande. Pés de luzes de alabastro, uma grande mesa redonda com gavetas que se encaixavam na circunferência. Uma cadeira de couro, com braços de madeira, tapete sobre forração. Silêncio. E as portas janelas que se abriam para um alpendre arredondado com três degraus. E o gramado. Aprazível. A lareira com rosáceas desenhadas em madeira e um acabamento em mármore cinzento.

Ali/dali eu ouvia as vozes a encher a casa. Abajures iluminavam numa meia luz de beleza quando a noite chegava. As revistas tinham lugar de destaque: eram francesas, alemãs, e traziam as mais belas casas que se podia imaginar. Esta beleza perturbava, porque entrava pelos olhos, pelos poros… A sala nos pertencia, nos impunha e se agigantava. Quantas vezes desejei me sentar, cruzar as pernas, corpo ereto e conversar/participar. Advogar, ponderar, escolher o melhor autor ler em francês, saber geografia e história, acompanhar jornais. Escutar e compreende. Saber. Educação precisa do cenário. Não nos damos conta do quanto apreendemos pelo olhar, sem falar, pelo cheiro, pelo toque.

Esta casa fez/era é a diferença.

A delicadeza das xícaras de café, dos copos e das bandejas polidas. Palavras atravessam paredes.

As palavras do meu pai, da minha mãe, e das tantas pessoas na casa. As histórias. Eu não sabia usar aquele vocabulário todo, dizia as coisas por aproximação: o que causava risos.  O dicionário me atrapalhava; não sabia se era s ou c ou se juntava as duas letras, ou que som teria aquele r, talvez fosse com h, tinha novelos inteiros de dúvidas. Eu me perdia a procurar o assunto que se esgotava: eu não compreendia o sentido inteiro. Não perguntava, e quando o fazia, a cada resposta, uma longa explicação, e elas me levavam a novas pesquisas…

Escrever parece a solução perfeita para a ansiedade.

Eu era apenas criança bonita, tranquila e obediente, e sabia escutar.

Talvez esta seja uma das vantagens de ser o último filho: aprende-se pelo cheiro, pela espera, por medo ao ridículo. E a turbulência, o movimento alimenta. Gosto do resultado. É isso.

***

Lembro de duas camas com pontas altas nas beiradas, e a colcha descia até o tapete. Não lembro dos brinquedos. De caminhar silenciosa e dormir cedo. Brincar com os dedos no escuro. Dormia no mesmo quarto da tia, irmã da minha mãe. Colecionei pedras, tampas, e gostava das bonecas de papel. E esfolava joelhos nas correrias. O quintal, os jacarandás, e os cães. Logo iniciei pequenos diários, colava figuras bonitas. De roupas, de flores: detalhes das revistas picotadas. Ilustrava cadernos. As irmãs guardavam/tinham bonecas cobiçadas. Um dia ganhei uma tão linda! Preciosa. Francesa, Chapeuzinho Vermelho: cestinha nos braços, capa vermelha, cabelos loiros naturais. Eu deveria ter quatro ou cinco anos. Esta boneca ficou intacta na lembrança. A mãe voltava de um longo/grande/enorme período no estrangeiro. E aquele avião tinha se espatifado no Morro do Chapéu, uma tragédia terrível anuviou Porto Alegre. Minha amiga perdeu a mãe, eu fiquei órfã junto porque ficou tudo escuro na rua Vitor Hugo. A mãe ainda estava em Paris nesta data. A boneca chegou com ela, de certo eu me consolei. Elizabeth M.B. Mattos – relendo o passado: junho ventoso e quente, entrou um inverno morno, esquisito e…, deve chegar uma chuva. 2020 – Torres

a estatueta da mãe a lul

real/perfeito

Finalmente o sonho real/perfeito: posso acordar e olhar pro mar. Respiro, sinto o vento. Sento nos degraus como se fosse uma menina. Espero o sol enquanto brinco com a água no vai e vem lento. Carrega sua barra branca de espumas. Estou em casa: todas as moradas de praia desfilam na memória… Acumulei espaços e conchas. Agora tenho areia e gravetos, e vazios neste infinito. Beleza completa.

Preparei os mexilhões, e as saladas: verdes, vermelho e o rosado. A toalha branca, guardanapos coloridos amarelos. A mesa cheia de flores como eu tinha imaginado. No gramado, as cadeiras. Esperei. Escolhi o vestido azul e segurei os cabelos com grampos. Escolhi o anel com pedra da lua, os brincos se divertiam ao movimento da minha cabeça. Que ela chegue cedo!

A palavras tinham se escondido atrás das pedras, foi constrangedor o meu silêncio. Bom que os braços se mexeram e o abraço disse o que eu sentia. Depois eu sorri. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2020 – Torres

turbulência

Assustadora tempestade! Inacreditável! Raios e trovões simultâneos. Impossível sentir dor de cabeça, ou abandono, ou carinhoso, ou doçura. Uma avalanche. Mergulho, pedras amarradas aos pés, e a cabeça? Não sei…, não há explicação. Falta de ar, e neste medo, nenhuma vontade, um nada a nossa volta. Não posso pedir ajuda: estamos sentindo a mesma coisa… Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2020 – Torres – Rio Grande do Sul – Brasil…e silêncio.

e…

O teu silêncio está ruidoso / inquieto me agita. Vontade de saber um pouco, um nada, ou tudo da tua vida longe de mim, no isolamento imposto, mas fico em silêncio, ciumenta. Podes estar…, que importa? Avanço na leitura surpreendida, escrevo ao final de cada capítulo a nova ideia que acorda, depois… Depois me apercebo/sinto ou me convenço: domino a noite. Sapateado ruidoso do terceiro andar, já não faz diferença. Se agitam os jovens, festejam, batem palmas e cantam Feliz! Aniversário! Festejam nos tempos de pandemia! Não sendo propício… Que fazer?Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2020, numa rua chamada Brasil, em Torres

Superamos o amor

“Superamos o amor, como outras coisas

E o colocamos na Gaveta –

Até que ele exiba um feitio antiquado –

Como as roupas que os ancestrais usavam

Ainda os poemas, não entendo deles, e naturalmente, sendo traduções a alma de cada um estremece um pouco… Assim mesmo dos poemas nasce o denso e o importante, a luz.Um abraço, um beijo, um ficar…, e, certamente, te abraçar. Chega mais perto. Beth Mattos junho de 2020, ainda Torres

Noite Loucas – Noites Loucas! / Se estivéssemos juntos / As noites Loucas seriam / O nosso Prazer! /Fúteis os ventos – / Para um Coração no porto – / Inútil a Bússola – Inútil  o Mapa! / Singrando o Éden – Ah! O Mar! 

Pudesse eu aportar – esta Noite –

Em ti!

Emily Dickinson (1830-1886)

 

 

preciso de ti

Escrever, este vicio intoxicante que se usa explorando exaustivamente as palavras, eu gosto. Lúdico e belicoso. Confirma a “capacidade de algumas pessoas de se fazerem sonhar.” A leitura também? José Eduardo Agualusa em ” A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” escreve: ” Existe, é claro, a possibilidade de que eu tenha inventado tudo o que contei aqui porque preciso de ti ao meu lado. Preciso de ti, porque decidi enfrentar o medo, e sempre que me abraças eu cresço um pouco e fico mais forte. Preciso de ti para ser uma pessoa melhor.” (p.221)

escuro

Quando amanhece no inverno, ainda entardece. Aquele cinzento preto no céu esconde o frio gelado. Grita/chama por ele… A infância me espia iluminada e eloquente para explicar do tempo. Passou, mas tu estás aqui, viva e festiva por dentro. E envelhecer…,bem, altera um aspecto, acerta outro. Tuas tardes e dias se esticam tranquilos, isso deve ser muito bom: podes assar aqueles biscoitos, tentar fazer bolo de chocolate, escolher outro chá, e, te aconselho, apesar da truculência do vizinho (estragou o cimento fresco da garage, de jeito selvagem) podes encontrar a beleza atravessando os vidros gelados da janela… Diz a infância festiva. O inverno tem tantas coloridas e perfumadas nuances! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2020 – muito, bastante frio em Torres, imagino como deve estar Porto Alegre…

je t aime

Direitos são direitos e tempo, apenas tempo…

O telefone silenciou. A rede de informações também. Extravasada aflição nas lágrimas não derramadas, fechou os olhos para dormir. Mas do outro lado a cena continua. Ninguém pode saber o que acontece de fato. Quem são estas pessoas?

Soubemos que a mulher, mãe dos filhos dele, agora, pegava a lotação para trabalhar numa corretora de imóveis. Na idade dela, sem nunca ter trabalhado antes, penava…

Vender ou alugar moradias, ou vender pastel e refrigerante. Alugar vestidos, vender alguma coisa: educada apenas para respirar. Entrou no ramo imobiliário, aberto para qualquer faixa etária depois de prestado o tal exame. O ramo imobiliário abraça uma gama diferenciada de pessoas. Diferenciada não pela qualificação específica, mas por ser necessário saber lidar com as pessoas: polidez pode se ótima qualidade. Vender o produto. Nem sempre negociar, apresentar, convencer. Fisgado o peixe o negócio se faz sozinho.

O empregado da corretora, ponte necessária ao fluxo de procura: isca útil coberta de delicadeza. Apesar da pobreza e da situação calamitosa do país as pessoas querem morar, buscam sua caixa/ seu quadrado particular: comércio imobiliário.

As corretoras acolhem para o trabalho pessoas de todas as idades, e não perdem dinheiro: comissão.

É esta situação a situação que ela se encontra depois da separação litigiosa de um casamento de já vinte anos. Se, naturalmente, conseguirmos qualificar de emprego tal situação. Está quebrada por dentro, na alma também. O dinheiro perverte, vende, compra, aluga, destrói.

A igualdade da mulher, direitos humanos, o caráter e a convivência de trinta ou vinte ou dez anos não modifica o senso prático nem o valor da moeda, das cifras. Afinal, negócios são negócios: relação direta de pai para filho. Depois do dinheiro tudo o mais pode ser também o resto.

Nesta situação caótica meio ao litígio de uma partilha, dita importante, seguem os dias formando anos…

Embalada na própria solidão, divide o pouco entre aluguel e comida.

E as pessoas pensam que sabem do passado do outro… Tudo que for referencial ao já conhecido tem a marca de uma faceta; o visceral que se deteriora na lembrança. Não é isto nem aquilo muito menos aquilo outro… Metafísica, filosofia barata/ popular, comum. Como saber a história toda, a alma inteira, o sentimento?

Pessoas a viam entrar na lotação, cumprir o horário, sair da lotação cansada se detinham nos sapatos com salto muito alto, na saia justa. Maquiagem, bastante. Cabelo puxado pra trás, arrumado. Olhar de quem procura. O que mais?! Vazio.

Foi quase um ano neste silêncio. Nenhum irmão olhou por ela. Ninguém veio vê-la, ou oferecer ajuda. Ela saíra roubada pelo direito de quem tem diretos, não pela lei. A lei se esfrega/ou se joga na sarjeta com os desvalidos. A lei dos salões, toda engomada com falsas rendas, soluções rápidas.

Para ela sobrou a mortadela com leite e pão. Ovos batidos e bananas.

Agora aquela história estranha do desaparecimento da filha.

Não chorou. Por que o faria?

Apenas engasgou e ficou seca, quieta.

Ninguém bateu na porta. O telefone não tocou.

Roupas bonitas. Sorriso farto. Mimosa do pai, beijada pelo noivo, amparada pelos irmãos. Não perguntou nunca por ela, apenas apontou a estrada estranha / desconhecida que se apresentou. Ela foi.

Com quem conversaria? Bateu na porta da vizinha que sabia estar vendo o último programa da TV Bandeirantes. Ritual. Pediu uma cerveja, comentou da insônia, as duas ficaram ali mesmo segurando as portas no corredor no meio de três palavras.

Julieta, a vizinha, aproveitou pra devolver o quilo do café da semana passada; deu boa-noite, ia desligar o noticioso, nada interessava. Sônia pegou a Antártica… Vou fazer pipocas, disse resmungando e não contou nada.

Hedionda beleza.

Beleza devorada pelo valor que mede e rasga. Há muito tempo esquecera o dinheiro. Assim não podia entender esta troca de gente por dólares, câmbio, juros, lucro…

O que poderia entregar no resgate da filha? Ela mesma? As contas ou a possibilidade de vender o apartamento do último andar do prédio da esquina?

Talvez a pensão indefinida, ou a parte do patrimônio que ainda não fora dividida?! Esquecera a questão dos direitos.

Esquecera o processo. Não pensava neles, trabalhava para ter comida, luz e onde morar. E o senhorio era gentil se atrasava o aluguel.

Agora, subitamente, o telefone lhe comunica o fato: tragédia, a filha sumira, sequestro, disse o marido.

E, ainda gritou com ela: Fica quieta para não pôr em risco a negociação… Não sai de casa. Aguarda. E desligou o telefone.

É a beleza, outra vez. A beleza…Se ela se espalha, ilumina e enquadra uma mulher ou um homem, um animal até… Não adianta divagar. Há que haver dureza, dor e paga. Apenas a beleza não basta; hediondo preço que devora. O que estaria afinal acontecendo?

Olha as fotos espremidas entre o vidro e a mesa de jacarandá. A sala apertada. Duas cadeiras ladeando. Nenhum quadro naquela parede. Perto da janela pratos antigos: tantos! Coloriam aquele lado.  Na outra, uma janela,  e a  porta  abre para a sacada estreita com folhagens, sem flores. Nada que precisasse demorar no cuidado, nem um gato. Uma poltrona, almofadas. O cheiro de pó. O armário tinha prateiras externas com livros. Olhou pra porta entreaberta do banheiro. Sem ventilação, branco, mas, escuro assim mesmo, opaco, com bolor no teto.

Encolhida na cama turca olha seu universo, e, bebe a cerveja, come as pipocas. Desliga o rádio.

Talvez alguém quisesse saber o que sentia enquanto a noite avançava. Talvez o telefone tocasse enquanto a noite sumia. Não sabia se podia dormir ou deveria apenas esperar para saber como seria o desfecho disto tudo.

A filha voltaria a conversar com ela? Ia querer saber o que fazia? Nunca se importou. E se morresse neste sequestro? Fosse abusada ou coisa assim. Deixariam que fosse enterrá-la, que chorasse como os outros? Haveria um corpo para velar? Guardou mágoas telefônicas, aliás, o silêncio.

Era ela, a mãe, a única responsável pela catástrofe toda que se seguiu? Péssima mãe, mulher vil, companheira tresloucada dizia o marido. Ele bonachão, debochado, prepotente.  Bom pai lhe dizia a filha. Carinhoso, zeloso, confiante, fiel. E todos estes adjetivos seguiam a um olhar recriminador.

Foi a reação dos filhos, dos amigos afastá-la. Deveria, depois destes impasses, assinar os papéis; terminar com tudo de uma vez e viver em paz a vida escolhida.

Não, uma única vez entestou posição, mas não fez nada. Direitos são direitos. Há que entender o destino e o outro. O dinheiro é o dinheiro. Ponto.

Uma noite terminou.

Uma noite. Um dia inteiro presa. O vazio e o nada. O medo traduz pânico. Pousada no escuro, na fome. Batida pela chuva. Trovões. Molhada sem poder mexer o corpo. A fresta da madeira deixou entrar enxurrada… Lavou o chão de barro do quintal deste térreo. Gelada. Não há som na garganta. A fome de luz e calor devora o corpo que se contorce. Observo o corpo: cada pedaço dela vem chegando vivo na memória. Engolir a lembrança. Pra que serve a boca, a língua e os dentes? Estala entre a saliva e o sonho o último sorriso. Imagina o riso de cerimônia tímido que esconde o agrado que vê.

É a beleza corrompida pela luz da própria beleza. Peito e pernas espremidos. Olhos abertos, na luz arregalados pro medo. O que apaga o pavor? Um revólver gelado. Tortura do riso com lágrima; engasgado medo.

Volto à placenta quente do útero materno. Bebe champanhe ou fel? Conforto sonoro da chuva. Chove agora e aqui. Também chove onde ela está… Não sei. O telefone não tocou.  Já é outro dia. Metade de dia novo. Não vou escutar a memória. Esta memória esquisita, desvairada que se esconde e se espraia…. Seca, quieta, feia, sem dor. Arrancada a beleza na espera insana do dinheiro que tarda. O dinheiro sempre se arrasta na noite, no dia… Sujo, novo, esquecido ou não. Guardado no colchão, espremido da mão. Esquecido na gaveta…

Está com fome. Tem sede. Sente medo. Não vai trabalhar.

O telefone tocou, outra vez o marido, engasgado. Gritou com ela sem motivo, choramingou um pouco. Sônia não respondeu, escutou:

– Estamos fazendo tudo. É dinheiro. Muito dinheiro. Estou desesperado. Tempo curto.  Fica quieta. Vou resolver…vou resolver. Não sai de casa. Fica quieta, Sônia. Se te chamarem, não diz nada, não sabes nada.

Abriu a janela pro nada, um corredor estreito entre o este e aquele edifício; a luz meio de lado querendo espichar. Molhou os verdes presos na grade da sacada. Botou leite na caneca e pegou o pão da geladeira. Comeu em pé entre a poltrona, a cama, a mesa e a cozinha:  fogão de duas bocas, pia com bancada, a geladeira e uma estante de variedades como mel em pote, ervilhas em lata, macarrão no pacote, queijo ralado, pão ensacado e as panelas. Nada escrupulosamente limpo. O que fazer o dia inteiro? Hoje, certamente, não venderia nem alugaria nada; sequer gastaria em condução.

Depois da noite sem dormir… Encolhe as pernas e puxa as cobertas. Faz frio nesta primavera de chuva, de vento. Faz frio.

Dormiu a tarde inteira. Acordou. Uma batida seca na porta.

Vestiu o casaco para proteger o corpo. Normalmente ninguém entrava no edifício sem avisar.  Seria Julieta?

Abriu e ele entrou acompanhado de uma mulher. Ele o pai da sua filha. Já uns três anos ou quatro sem o ver… Parecia mais jovem, mais magro, mas os cabelos estavam brancos. Vestia um terno cinzento escuro e o colarinho da camisa aberto. Uma pasta de couro com muitos fechos na mão. Olhou para ela constrangido sem saber como começar.

Sonia perguntou:

– E Antônia? São notícias de Antônia?

A mulher passou a mão na saia, largou a bolsa na poltrona; e abriu uma pasta que trazia em baixo do braço. Onde posso colocar os documentos?

– Que documentos? Olhou intrigada. Mas já empurrava a coleção de pedras esparramada no jacarandá.

– Coloca aqui. E ficou muda esperando decidirem-se a explicar.

– Acertamos tudo, e já entregamos o dinheiro. Soltaram Antônia que está no hospital fazendo exames, recuperando-se do susto. Foi apenas um susto. Não aconteceu nada com ela. Ninguém a maltratou. Fomos eficientes: falei com ela duas vezes por telefone e acompanhei pacientemente. Largamos o dinheiro no lugar combinado e largaram Antônia no lugar combinado. Sem violência. Transcorreu normalmente. Precisamos, é claro, manter o silêncio para que ninguém corra perigo. Como sabes, às vezes, o medo enlouquece, mata.  Vamos evitar a tragédia.

Fiz um empréstimo no banco, alguns amigos ajudaram…Consegui o dinheiro todo. É claro, comprometemos tudo. Elizabeth M.B. Mattos – texto encontrado, perdido. Escrito em Porto Alegre. Encontrado hoje, junho de 2020. Torres