as conversas

Conversar em voz baixa e respeitar o silêncio. Ouvir a quietude agitada do mundo: um exercício diário. Escuto felicidade, tristeza e lágrima. Meus passos ao teu encontro…  Estendo as mãos cheias de esperança. Na madrugada a ordem acalma esta desordem laboriosa do dia. Elizabeth M. B. Mattos – 31 de março de 2019


abajour que eu gostava

também estás…

Melancólica tarde. Parece estranho falar/dizer ou pensar em amoras…  Difícil se entregar ao instante vazio da exaustão; sinto tua falta atravessada, ausente. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2019 – Torres. Prosaicamente eu penso em sonhos, pastel, coca-cola e suco de laranja. E o mar conversaria por nós dois.

o que não vais ler, posto que me confesso

Estou com enorme preguiça de te dizer as coisas que não vais ler. Tu estás fechado, trancado, atento, mas feliz. Ah! Viver é tão desconfortável! Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não pára e a lagoa se contradiz, o silêncio não importa e te desejar, ou querer, significa tão pouco. Estou no meio de uma obra, os cabelo com caliça, os olhos ardem. E o corpo espicaçado. Trabalho sério, real, te amar. E é tão pequeno! E como pesa! É apartado? Pois fui dormir e sonhei: um lago majestoso / enorme, e era mais verdade ainda do que te escrevo: era sem medo. Logo tudo voltou para o nada… Tudo acabou, mas o que te escrevo continua, por que não me queres, cheguei tarde, cheguei depois da hora.

Meu querido, o melhor ainda não te escrevi, está nas entrelinhas. Hoje é sábado e é feito do ar mais puro. Estou sem orgulho nenhum: O que te escrevo é um isto fantasia. Não vai parar: continua. Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo. O que te escrevo continua e estou enfeitiçada. Serei tua em todos os lugares serei tua… escandalosamente tua. Elizabeth M.B.Mattos – março de 2019 Torres com Clarice Lispector dentro de mim.mesa preta com ibere camargo

 

 

qualidade sacra: pensar em ti

Penso que posso voltar. O deslocamento, o sonho ele mesmo se diluiu… Penso e penso, não é nada, assim mesmo vejo beleza leveza e sinto gratidão. Quero materializar. Quero ser a mesma: escapaste do toque, deste milagre que seria tua mão na minha mão. O sagrado da ficção nos alcança: “[…] tudo que é sagrado possui a substância dos sonhos e lembranças de forma que experimentamos o milagre das coisas das quais estamos separados, seja pelo tempo seja pela distância, e se tornam, de repente, tangíveis para nós.  Sonhos, lembranças, o sagrado – são todos parecidos pelo fato de estarem de além do nosso do nosso alcance. Quando estamos separados, ainda que não substancialmente, daquilo que podemos tocar, o objeto fica santificado, adquire a beleza do inatingível, a qualidade do milagroso. Todas as coisas, na realidade, possuem esta qualidade sacra embora possamos conspurcá -las com o toque. Que estranho é o ser humano! Seu toque  vilipendia embora nele esteja contida a fonte dos milagres.” (p.47) Yukio Mishima, Neve da Primavera Mar de fertilidade Volume I

Empurro a reforma, respiro poeira, caliça e desejo. Vejo através do vidro e da possibilidade… E estou contigo no toque, no desejo, na loucura, da interdição. Sou infantil quando te desejo. Repito as pequenas frases! Narrativas. A tua história sedutora a se colar na minha vida. Conseguiste bulir e remexer e transviar, preencher. Prazer de menino protegido. Tens o muro. Ontem te escrevi uma enorme carta cheia de explicações e bobagens. saltando pedaços de mar, areia, vento, cheiro, e o corpo suado nos acalmava. Claro! Vivo e divinizo…, uma brincadeira. Foste a mais séria. Ao chegar aos setenta anos, o mundo se ilumina com camélias, anêmonas, cravos e jasmins e trabalho. Fome. E bebemos muita água com alecrim. Tantas vezes eu preparo a casa para tua visita. Ainda te espero. Elizabeth M.B. Mattos março de 2019Esta no POST

Trancaste todas as possibilidades: não importa. Igual eu sonho contigo. Quando abro os olhos: estás apressado a te vestir, e eu te vejo fechar a porta…Elizabeth M.B. Mattos

letras…

O inverno se despede, com ele este ano de magia, de sentimento adverso convergente. Turbilhão que enlouquece; paciento e deixo a inquietude plantada, e já sendo hora de amanhecer, de despedir, resolvo escrever para contar, Viver para Contar (Gabriel Garcia Marques), ou seria Contar para Viver

Viver contando, ao contar se  vive, revivendo…

Neste descrever sem ponto. Texto solto, sem alinhavos, aberto. Beth Mattos – março de 2019 – na releitura. Aqui está azul, não exatamente frio. Fiz a pequena caminhada e resolvo te escrever. Sabes tudo e tão pouco sobre minha vida, mas assim mesmo te debruças e espias. Estimulas meu fazer estendes a mão, e me fazes escrever. Então digo: tens razão na afirmação: criança bonita doce. Também da saudade tens razão, e desta desordem da/na vida. Um sonho que nos desperta às duas horas da manhã. E aquele dia fica um ontem agonizante.

Esta coisa de estar importa, eu me pergunto por que nunca estou? Porque nunca estou perco o tempo a vida e o espaço. O que faço parece sempre um mergulho noutro mundo. Então eu chego com atraso. Depois. Estupefata porque, afinal, já passou … Deveria me dar conta que viver tem urgência, e os olhos, o sentimento, o corpo precisa estar atento, aberto. Não se pode ser muro, fortaleza, floresta. Não se pode ser o medo. Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2019

 

Labirinto

O labirinto (27/03/2019 02:30) no sonho, e acordo. Acho que pode ser mais tarde, ainda amanhã, logo, hoje. Tenho pressa. Erótico sonho sem saída. O medo maior, talvez, seja dizer ou fazer o viável: conversar e chegar, definitivamente, um no outro. Eu me aproximo na urgência de ser tu e eu, nós dois. Mas eu me escondo (perigosamente) de mim mesma, não consigo. Das amarras quero me livrar, neste momento invisível, aparentemente, intransponível. Ne bavarde pas. Não diz, não fala nada. Estou amedrontada. Teus olhos serenos. E a mulher que não sou volta inteira para te tocar. Sinto medo. Sinto medo. Desafio, anos de insegurança, e hoje, sem falar / sem explicar, audaciosa te procuro. Tu pegas na minha mão e começamos a descer as escadas. Por todos os lados chegam vozes, eu seguro / prendo o passo. E tu, surpreso, apertas meus dedos. Não vamos desistir. Sem dizer penso: Não posso ter medo. Não temos mais o tempo esperando / acontecendo a se arrastar paciente. Somos dois fantasmas daqueles meninos que fomos, e sempre nos querendo bem, apertados um contra o outro. Interrompemos a descida para sentir o escuro. Teu sorriso aberto está preso no meu. Trocamos um beijo no vão da escada. O passado se apresenta ruidoso, mas temos um hoje rasgado e inviolável. Os malabarismos seriam impossíveis se não houvesse esse querer. Enquanto vou descendo e identificando as vozes eu me agarro na tua certeza. Temos convicção. Releio tuas cartas, não vou pisar nos sonhos de um homem que vaga / caminha num eterno e solitário passeio pelo desejo oculto, tão visível para nós dois: prazer terreno. Os mais secretos porque silenciosos. Vou andar pelo nosso sonho obscuro e latente. Não precisamos de vozes. Apenas o toque. Não precisamos de luz, atravessamos o tempo. É tão fácil estar perto! Tão possível! É uma espécie de surpresa / missão humana, a nossa. Este passo / este caminho nos pertence. É preciso materializar / fazer acontecer ainda nesta vida: não somos promessa, temos que ter coragem de avançar. Não importa o limite. Somos nós. E somos transponíveis. E possíveis. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2019 – Torres

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pássaros

Depois da vã imaginação sinto um forte tremor no coração como se estivesse em tua presença. (E todos os teus vestígios foram apagados, não tenho uma linha, nem a tênue possibilidade para saber se és ou não real.) Tive uma visão do Amor, do homem que certamente és. E de tua alegria preguiçosa. Tua vida nova, ou tua nova vida a porejar de paz… De longe acompanho teus passos alegres e teus pássaros voam pelo outono. Elizabeth M.B. Mattos – março em Torres de 201920140801_134947

Sim, hás de pensar que resvalo na voz do silêncio, outra vez atrapalhada. Eu me esforço para não correr ao teu encontro. Corro pela rodoviária como se atrasada fosse perder o último ônibus. E depois, eu me deixo ficar naquele café. Olho para todos os lados como se fosses me surpreender.

…aceito: nunca virás. Embarco no ônibus e me distraio pelo caminho. Será que foi / é real o teu nome? O que faço com histórias que saltam incomodadas? Liza, Eliza ou Beth, não. Elizabeth (sorrindo) Beth Mattos na tua memória.

mesa preta com ibere camargo

 

falar dizer explicar

…esvaziar a alma. Enredo, narrativa, até mesmo conviver, sentir o outro, incompatível. Pensar e se expor: suicídio. O espaço vazio da possibilidade se transforma em gentileza e cortesia. Não é possível vender imaginação nem sentimento. E nem é possível transitar entre direita e esquerda. Escrever deve ser desaparecer, falar sufoca. Olhe pela janela. Não saia de casa, não abra a cortina, muito menos a veneziana. Mantenha buganvília folhuda, verde. Cuide dos espinhos. E que o jasmineiro perfume as frestas. Beba chá, e coma maças aos pedaços, ou peras. Use suco de limão na água. E que o chuveiro seja forte e quente. Mantenha os olhos fechados. Corpo entregue ao fluxo da vida, não ouça a voz, mas a melodia… Elizabeth M.B. Mattos – março de 2019 – Torres

“O romancista e poeta australiano David Malouf nos avisa que o ‘verdadeiro inimigo da escrita é a fala’. Ele alerta particularmente contra os perigos de falar sobre uma obra em andamento. Quando se está escrevendo, é melhor manter a boca fechada, para que as palavras saiam pelos dedos. […] ‘Influência’. A própria palavra sugere algo fluido, algo’fluindo’. Isso parece certo, até porque sempre visualizei o mundo da imaginação não tanto como continente, mas como um oceano. Flutuando, aterrorizadoramente livre, sobre estes mares sem limites, o escritor tenta, com as mãos nuas, a tarefa mágica da metamorfose. Como a figura do conto de fadas que tem de fiar palha em ouro, o escritor tem de descobrir o truque para tecer as águas até se transformarem em terra; até haver solidez onde antes havia apenas fluidez, forma no que era amorfo: passa a existir chão sob seus pés. (E, se ele fracassa, evidentemente se afoga. A fábula é a mais cruel das formas literárias.)” p.87-88  Salman Rushdie Cruze esta Linha.

 

velho quarto

escorreguei

Passo apertado depois da chuva. Encontrar depressa o outono: frutas, casacos e voltar a tricotar. Uma pacífica taça de chá. Um livro de histórias. Lápis apontados, casa limpa: cheiro  de lavanda nos lençóis. Nenhum atropelo. Ser eu outra vez. E.M.B.Mattos Voltar a fazer uma volta ou duas pela lagoa, olhar o mar.

boa

tempos difíceis

“Vivemos tempos estranhos” é frase repetida em todos os níveis. Tempos confusos, surpreendentes, cada dia uma chateação maior, uma confusão mais elaborada, uma perplexidade mais pungente. ( Ainda bem que nos salvamos com novidades boas: os bebês que nascem, as crianças que começam a trotar naquele encantador jeito só delas, os amigos que recuperam a saúde, a família que se encontra, os amados distantes que se comunicam mais, o flamboyant delirando em vermelhos surreais na rua.) Lya Luft Que tempos, estes! Zero Hora de 25 e 26 de março de 2019

Não consigo pensar, nem ler nem escrever. Viver e respirar, trepidante. Não consigo achar nem isso nem aquilo. Turbulência crescente. A lógica destes personagens escorrega. Há tanto para navegar!

Carta, gente, memória, tempo, mar, silêncio, tinta, lápis e repetições, não são palavras expressivas, mas minhas. Será? Como se escolhe a cor de uma fruta, de um vestido? Um perfume para ser cheiro. Água, luz, escuridão, neblina. E esta escolha se perde porque nunca pensei em palavras, volteios sobre elas. Arandelas! Expressar. Expressivo sorriso escondido que eu vejo nos teus olhos! As palavras se puxam, ou travam com nossa falta de habilidade, ignorância, desconhecimento. Elizabeth M.B. Mattos