pontilhado chave vírgula

Tenho um fazer organizado. Costurei  investidas lembranças no espaço limpo, polido, estupidamente e escrupulosamente branco/ sem poeira, e o volume da minha saia era/ficou estupendo! Ali eu vou me deixar ficar: pernas esticadas, olhar no entardecer e o dia apontando. Vou para o hotel hoje. Serão minhas férias de rainha. Existem aqueles que fazem do fumar, uma arte, e gostam de livros que dizem o que já sabem. Eu já sei que ser rainha é bom. Limpeza é minha evidente soberana. Vou a guerra. Farei pequena mala, bens preciosos. Dormirei duas noites no hotel. Escreverei olhando para o mar, ou dormirei escutando o mar. Serão minhas boas e merecidas férias da poeira, dos azulejos caindo, das marteladas. Dois livros para serem terminados e louvados. Oxalá permitam que a ÔNIX me acompanhe. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 – Torres

disquei o número

Repetidas vezes disco o número decorado, mas, logo após o primeiro chamado, volto a colocar o fone no gancho. Uma vez alguém atendeu. Assim, cheia de medo, cultivo meu amor em estado bruto. Deveria me bastar tua hesitação. Por que recuaste? Vaidade inconsequente, teimosia minha. Às vezes eu volto…, gosto de te pensar/imaginar/sentir. Tu me devolveste, na sedução, a melhor alegria. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro- Torres

“Uma vasta imagem…vem turvar minha visão” 

Tu entraste derrubando janelas, arrombando a porta. Naquela violência do abraço inteiro e terno. Precisei te perder para saber…

“Os melhores carecem de certezas…” 

Se não houve certeza, se não existe o menino escondido… também não existo. Apenas o rasgo se tranca no prazer. E do passado esquecido, um momento, e eu nem te contei. Estranho! Tanto tempo, ou de toda vida passada, corrida… Na costura das palavras e das aventuras, as tuas.

“Girando e girando”

O que eu lamento? …, não sei. Bater na tua porta, entrar na tua vida. Ficar quieta presa no teu olhar, e tu preso na minha voz. Eu queria tanto ficar na tua vida! Um pouquinho…, o tempo daquele café.

Sabine: Temos que fazer alguma coisa. Não posso ficar parado vendo a porta que existe entre nós se fechar. Dê um sinal. Precisamos encontrar uma forma de nos encontrar ou estaremos para sempre perdidos um para o outro. […]” Nick Bantock

Eu queria estar onde estou: ao teu lado. Para sempre.

 

 

cronologia

Seguras minha mão. Passo apertado, não correndo, atravessamos corredores e corredores… Procuro o talvez possível do futuro. Em seguida, volto a revirar nas gavetas os anos precoces… Do corredor, da areia, do mar… O que houve antes disso? O que houve depois? E tu olhas nos meus olhos. Vejo nos teus curiosidade. Quando se trata de tempo, eu tenho de admitir o fim pontual. Tocaste a campainha bem / tão mais tarde, e não foi no Morro da Viúva, mas na rua Marquês de Pinedo, Laranjeiras, perto do Palácio da Guanabara. E já não lembras… Quanto mais velha fico, tanto mais frágil se torna para mim a  cronologia. Tenho certeza que eu te vi, com amigos, rindo, do jeito teu, esparramado… A lua e o entardecer enlouquecem a memória. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 – Torres

o bebê

Atravesso a sesta sem praia depois do rosto iluminado da filha, a voz da irmã. Olhos fechados me levarão ao sono pesado sem sono! Calçada iluminada. Lua reflete na lagoa. Temperatura cálida. Ansiedade do sono incerto. Abandono em luz própria, sou feliz, apenas alegria boba!  Beth Mattos – amanhã segue o quebra-quebra, novos livros. O bebê do terceiro andar resmunga. Gosto de crianças para abraço e aconchego. Beth Mattos – fevereiro de 2019 – Torres

irritante

Tomada, desgovernada, inoperante, irritante. A ser descartada esta mulher poluída, não me importo. Ônix reage ao calor, ordens incoerentes, horários invertidos. Desordem, refeições irregulares. Como pode ser a vida assim  invertida? Esse enlameado criativo, não de Brumadinho, invade concentração, organização, implementação e manutenção. Não consigo pensar. Pertubação.  Excesso de trabalho. Excesso de lazer, fadiga ou medo. Preciso ficar imóvel.

Sonho ficar com as pernas balançando no ar. Segurar um bebê no colo. Sentar-se num círculo de árvores. Secar o cabelo ao sol. Assistir ao nascer do dia. Tocar piano. Orar. Escrever escrever escrever escrever.Elizabeth M.B.Mattos – fevereiro de 2019 Torres

quando termina

Eu me sinto pior ao final da leitura. Eu me agarro impotente, sugando o que o livro tem de pior ou melhor. Bonito ou bom. Ou demoníaco. Demoro muito/demais ou bastante. Vou me deliciando aos poucos num gozo que se quer maior, melhor, lento, vagaroso, quase oscilante. O prazer da leitura. Eu com o livro.. Ninguém deveria pensar memória. De repente em guerra. Desafio constante de me superar, sobreviver. E neste estado oscilante de sobrevivência, eu me perco. Não posso te amar. Tenho/sinto saudade do amor derramado que tenho por ti. Beth Mattos

substituível

Memória se prevalece apontando… Vasculhar e procurar, desviar. Vida em linha reta. No horizonte azul. T U D O embutido no substituível! Dor de cabeça, dedo quebrado, costas ou braço ou perna estropiados. Mágoa ou alegria. Envelhecer  pode ser trocar de eixo, de importância. Variante. Esperteza. No bojo, sentimento depurado, perdão. Sem contorno ou bainha, envelhecer é rasgado, aberto. Elizabeth M.B. Mattos fevereiro de 2019 – no meio da obra, da poeira, da loucura ruidosa do quebra-quebra.

poeira pesada

A noite engole o dia seguinte. O sono se agarra no corpo desgostoso, é preciso reagir ao desagrado. Depois de esperar esperar esperar, deixo a poeira se espalhar tudo: pelo livro, pelas mesas, grudar no tapete entrar nas frestas. Perfeita memória esburacada. O que devo mesmo lembrar? Teus olhos castanhos. O desgoverno de apaixonar derruba qualquer lógica, ou acerto. Durante cinco minutos, extremamente/ intensamente, alegre: a felicidade dura mais tempo que sete minutos? Aglomeração de palavras desconexas. Tranqueira de cismas silencia a coerência. Atordoado silencio. Nada me aquieta. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2019 – Torres.

BANHEIRO demolido

desejos que se bastam e não precisam ser realizados

Neste silêncio quieto renuncio ao teu amor que se alçou exibido, e logo se fortificou na quietude pacífica. Dois sanguíneos setentões nada saberíamos um do outro que não fosse se encantar, outra vez um pelo outro, atravessados pelo vinho. Apalpando, chorando e rindo nos transformaríamos no  inverosímel. Somos este silêncio que se fecha… Elizabeth M.B.Mattos – fevereiro de 2019 – Torres

“Eu fui – ela ficou. Mas ainda hoje, depois de mais de cinquenta anos de distância persistente, que só uma vez, no princípio dos sessenta, foi interrompida e acabou levando a algo que deve permanecer não dito, nós damos sinais de vida um ao outro e não esquecemos nada, nenhum segredo na escuridão da igreja, nenhuma das palavras sussurradas, nem os momentos de da proximidade fugidia.“(p.290) Günter Grass  Nas peles da cebola – Memórias