eu te espero na chuva

Não compreendo recuos, nem  silêncios. Nem surpresas. Ou o vazio. Estou preenchida,  e transparente. Seguro alegria com cuidado. E caminho, passos leves, pelos jasmins perfumados. Eu te espero, mesmo na chuva, em baixo daquela mesma árvore. Elizabeth M.B.Mattos – setembro de 2018 – Torres

sem os cães uma cabeça virada

 

história de amor

História de amor, loucura a dois, a três … De quantos forem os envolvidos, segue sendo loucura, segue sendo amor absolvido tanto quanto tenha sido desvairado, ou complicado. Paixão não é terrena. Transita (como gostamos de usar esta palavra nos dias de hoje!), pelo divino. Transcende ao comum. Alienação irreal. Foge da coerência da lógica. O mais cruel é o gesto cordial. Conciliatório. Paixão é aleatória ao controle. Ninguém exerce lógica. Não há raciocínio no amor. Assim, passado o tempo tempestivo deste amor, a história toda vira conto, anedota açucarada, lenda. Quem lê, quem escuta, faz aquele meio sorriso e diz, bonito! Havemos de pensar com seriedade, afinal, o que significa a exclamação? Nada há de bonito no desespero, no ciúme, naquele sexo ensandecido e voraz, nas mentiras, nos enganos, no tempo roubado.  Mesmo assim sinto uma sádica saudade do amor amado. Descrever, ou colocar em palavra, em discurso coerente, coeso, linha reta parece impossível. Tão repentino e tempestivo, escandalosamente, sentido este amor agora esvaziado, enlutado. Queima despedida e deslocamento, a urgência,. Foi assim que nos amamos, meio ao transtorno todo do proibido. Compulsivamente nos colocamos um a caminho do outro. Não lamento. Elizabeth M.B. Mattos  – sem data, refeito – Torres 2018

 

intolerância

Não há palavra, gesto …, tem dia assim, manchado ruidoso e inútil. EM

“A intolerância, o preconceito e a violência ou a ameaça de violência não são ‘valores’ humanos. São a prova da ausência de tais valores. Não a manifestação da ‘cultura’ de uma pessoa. São mostras da incultura de uma pessoa.” (p.186) Joseph Anton MEMÓRIAS Salman Rushdie

SALMANNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN

 

pedalar

Pedalar, voltar a ter segurança na bicicleta. Bicicletar, para substituir a caminhada a passos lentos feita pela lagoa. Uma amiga atravessa a cidade, vem lá da beira do rio Mampituba até a Lagoa do Violão pedalando, e na cesta o pão e o bolo para tomarmos chá. Corajosa. Segura. Sinto medo de me distrair, não olhar certo, desviar errado, sei lá o porquê, eu sinto medo de sair a pedalar. Procuro a coragem para seguir…, mas não vou. E a bicicleta guardada na garagem. Outra vez: tênis chapéu insegurança escabelada, mas controlada, lá vou eu na caminhada igual. Os mesmos passos, as mesmas voltas, distraída. A pensar em teclar, teclar e seguir bordando no AMORAS. Igual a todo dia, hoje com sol. Inventei um/uma personagem para chamar de eu. Nela não coloquei vaidade, nem uma pontinha da ElizaBETH que eu fui. Sem Eliza. Sem Liza e sem Beth. Assim mesmo penso nos amigos amados, nas ruas de Petrópolis, na Tatuíra, e no João C. e na Luiza W., sentados ali perto, a nos ver fazer roda. Penso na princesa. E na rainha. Aniversário da SAPT: lembras daqueles bailes?  Penso na boate Marisco, nas barracas coloridas da Praia Grande, nas tardes na Guarita, no vôlei e no tênis de praia. No futebol, nos banhos de mar, e naquela caminhada pela areia em direção aos molhes, ao rio nas nossas manhãs de Praia Grande. Lembro do primeiro duas peças, nos biquínis, nas gincanas, e nossos embalos até meia-noite na SAPT. E penso que ainda vamos nos lembrar de outras coisas … Tão bom ficar a descrever e a pensar este tempo de sermos nós, jovens, meninos e confiantes, e ter crescido um perto do outro. Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2018 – Torres. Tudo que veio depois, casamento, filhos separações, netos é um D E P O I S diferente. A magia guardamos, enterramos naquela areia torrense. Somos aqueles grãos de areia. E de onde estivermos a Ilha dos Lobos, o mar nos pertence, e esta saudade também.

BICICLETAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA.jpg

são de amor

Histórias de amor embalam a nossa particular história de amor. E eu te digo, não importa que tenha sido aos quinze aos, aos setenta anos ou aos setenta e dois. Vivida inteira, aos pedaços, ou apenas imaginação. Fervo/respiro/ sinto ao imaginar o beijo. A tua mão. Sei do teu olhar, e esqueço estrada, montanha tempo de distância. Imaginação. Gosto da palavra. Seguem sendo elas,  as palavras, o sangue das histórias/lágrimas de amor. Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2018 – Torres

Cartas de amor, apesar de serem apenas cartas de amor, seguem únicas, e menos tolas como ficaram conhecidas na literatura poética. São de AMOR.

FOTO delessssssssssssssss

Condessa.

Você sabe quem ocupou completamente meu coração. Que culpa tenho eu de que ainda está me dizendo que é verdadeiramente seu – e creia que o ano que começa há de ser como os outros de quem lhe quer como você nem imagina e pede –lhe cada vez mais o consolo de suas cartas […]. Deveras você é digna de tanta afeição e fique persuadida que tudo nela é no suprassumo. Desculpe –me falar assim, porém meu coração é ainda o mesmo e sempre o será por quem me inspira sentimentos. Diga – me se alguém já lhe quis mais do que eu e se não devemos nos regozijar de tamanha felicidade? Portanto, venham, venham cartas que amenizem este deserto e umedeçam lábios sequiosos. Não há leitura, não há estudo que supra a falta de certas cartas. Quem me dera que assim fosse e que depois me deixasse fazer as pazes com você. Não sei por quê, porém responda –me a esta pergunta: Como viveria eu sempre ativo e animado sem esta imaginação que tenho e a amizade que lhe consagro? Todo seu.

P.”

RETRATO DE LUISAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA.jpg

 Ela acabou com a timidez dele. Sua malícia era um convite. E ele aceitou, confiando nela. Admirava –lhe e lhe concedeu todas as intimidades. E acabaram vivendo um romance único. O elo que os unia era muito forte. Ia muito além das ‘ necessidades primitivas’, nome que se dava ao puro e simples desejo sexual. Era uma mistura sublime de amizade, ternura, entusiasmo pela beleza e o encontro de almas. Um sentimento construído num momento histórico especial: o século XIX, o século do romantismo. Ele era D. Pedro II, o imperador do Brasil. Ela, a condessa de Barral. (p.11) Mary del Priore – Condessa de Barral A PAIXÃO do IMPERADOR

 

Histórias de amor embalam a nossa particular história de amor. E eu te digo, não importa que tenha sido aos quinze aos, aos setenta anos ou aos setenta e dois. Vivida inteira, aos pedaços, ou apenas imaginação. Fervo/respiro/ sinto ao imaginar o beijo. A tua mão. Sei do teu olhar, e esqueço estrada, montanha tempo de distância. Imaginação. Gosto da palavra. Seguem sendo elas,  as palavras, o sangue das histórias/lágrimas de amor. Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2018 – Torres

ninho

o ninho

passarinho no ninho

amanheceu barulhento movimentado

assim perto e com sol.

Volta o ânimo esta piação.

Qualquer palavra irônica, ou mal humorada se resolve com uma taça de café . Elizabeth M.B. Mattos – Setembro de 2018. Às vezes perco as forças …, mas volto. E continuo lendo, pensando, e me olhando menos ao espelho.

 

o significado

O mundo ao qual desejo pertencer é, evidentemente, o mundo da imaginação.” Orhan Pamuk –  discurso da cerimônia de entrega do prêmio friedenspreis de 2005

“Mas é a imaginação – a imaginação do romancista – que dá ao mundo limitado da vida cotidiana a sua particularidade, a sua magia, a sua alma.

Na maior parte das vezes, a nossa felicidade ou infelicidade não deriva da vida propriamente dita, mas do significado que lhe damos.” Orhan Pamuk

Eu me apaixonei. Estou neste morno estado de paixão. Apaixonada, pendurada no “não existe, então eu quero”. Esta danada da imaginação! Vontade desmedida constante. Não quero estar nem ter, quero escrever. Quando Geraldo e eu casamos era verão e ficamos em Torres. Depois, já morando no Rio de Janeiro, íamos para Petrópolis serra carioca. Sítio Arapiranga, em Carangola. Éramos meninos, hoje me dou conta do quanto éramos meninos. E gostávamos de fazer de conta, de histórias… Geraldo pintava, eu escrevia, …e grandes caminhadas. E as três figueiras perto do lago sabiam de nossos segredos. Nossas vozes no silêncio. Nossas salas de trabalho! Vozes, colheres tilintando, riso, o cheiro da grama esmigalhada estavam dentro, tão distraídos éramos do mundo… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2018 – Torres

PAMUKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

MARAVILHOSA ESTA

162015-09-15 15.16.20

prevalece a vontade

Empaca a vida sentires entristecidos … há medo, desconfiança e silêncio. Sem palavra, sem texto, sem explicar diminui, vai murchando aos poucos. Desencontro envelhecido. Envelhecer empurra certeza incerta, fico sem respirar. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2018

 – Ando ensurdecido de silêncios. De repente qualquer palavra perde sentido, qualquer sentimento parece falso quando transformado em texto.  O insondável conflito entre sentimento, razão e suas verdades contraditórias. Só o vazio prevalece na vida que segue ou empaca, sei lá, novamente confundido pelas palavras. Geraldo Lima

sempre a mulher

Não sei bem o porquê de ter escolhido este parágrafo, ou de ter assumido assim, a culpa, a falta, a carência inteira …, eu como mulher, responsável pelo vazio, pela ausência, pela falta sem entender o porquê me sinto presa, frágil, amarrada numa insônia de amor sem amor. Talvez a chuva,  talvez o incêndio do museu (lá onde a memória queima) no Rio De Janeiro. Talvez a sensação, ou o fim.  Precariedade, morte, doença, não sei.  Sobrevivência. Hoje desceu uma coisa ruim pela garganta, uma falta maior. Se houvesse apenas uma palavra …, um  qualquer coisa, ou se eu pudesse chorar convulsivamente, se eu pudesse chorar …, mas nenhuma lágrima nos olhos, apenas arde por dentro. Nenhuma tristeza que me faça chorar, soluçar, entender. Estou tão completamente sozinha! Como diz Marguerite Duras, serei eu, apenas eu, a responsável por esta carência de amor, por este não desejo? Este não dizer. Não terá tua mão nesta história dura incoerente que me consome no silêncio … Não terás nenhuma responsabilidade? Que noite longa …, que angústia agarrada no meu pescoço! Eu me afogo. Sinto medo. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2018 – Torres

Que c’ était toujours la femme, toujours, de par son désir à elle, qui devait être responsable du lien des amants. De la permanence du désir de la femme dépendait l´amour, l´histoire, le tout. Quand le désir de la femme cessait, celui de l’ homme cessait de même. Où, s´il ne cessait pas, l`homme devenait miserable, honteux, mortellement atteint, seul.” (p.109) Marguerite Duras  La vie matérielle

 

romance

Romance no meu pensamento – lembrança. Exatamente na hora de trancar / fechar a  caverna. Empurro a pedra. Sozinha não consigo. Teoria da teoria. Inútil estudar, saber ou não saber. Acometida de …, como explicar a angústia inexplicável. Olhar carinho beijo ou abraço, paciência, destas coisas necessito, não dos livros.  Um dia eu não vou ser mais ouriço, vou ser esquilo, ou mansa atenta generosa. Imagino. Fico a imaginar como seria bom ser completa, alegre, feliz. Escorrego. Talvez esta bandida idade de envelhecer, talvez o frio dos ossos, da pele, talvez esta gana de viver estes desejos inteiros mordidos, ardidos.  Talvez seja este cinzento inquieto, ou mesmo esta piação dos passarinhos no jasmineiro … Esta primavera a chegar, e a falta de sono e este pensar em ti que não se acomoda, não te esquece, não te toca, mas te sente. …, não fala, escreve diz  o amigo.

je suis le cahier bonito

Ser plural … ser tantos e tantas que posso ficar nenhum/ nenhuma. E depois desta anulação toda a vontade de nascer (ou renascer), e te encontrar inteira / inteiro. Escutar da tua voz aquelas coisas dizeres palavras generosas inconsequente amoroso. Agarrar aquilo tudo nas mãos e nunca mais soltar. A vida, se vida é isso que sinto tem urgência com cheiro, pele, desejo, sexo e fala. Falas e falas e som …, uma ciranda interminável. Depois o desejo de silêncio. Este silêncio cheio tomado ruidoso a transbordar vozes e, … sou eu, outra vez, a querer escrever escrever e te dizer, pular a proibição, ou qualquer olhar de censura. Qualquer coisa que impeça de tu seres tu e eu ser eu. Elizabeth Mattos – setembro de 2018 – TORRES

Os romances nunca são totalmente imaginários nem totalmente reais. Ler um romance é confrontar – se tanto com a imaginação do autor quanto com o mundo real  cuja superfície arranhamo com uma curiosidade tão inquieta. Quando nos refugiamos num canto, nos deitamos numa cama, nos estendemos num divã com um romance nas mãos, nossa imaginação passa a trafegar o tempo todo entre o mundo daquele romance e o mundo do qual ainda vivemos. O romance em nossas mãos nos leva a um outro mundo onde nunca estivemos, ou que nunca vimos ou de que nunca tivemos notícias.  Ou pode nos levar as profundezas ocultas de um personagem que, na superfície, parece semelhante às pessoas que conhecemos melhor.” (17-18) Orpnan Pamuk – A MALETA DE MEU PAI