inaudível e das mulheres, velhas e jovens

E este é o relato do colóquio de Zaratustra com o cão de fogo:

“ A Terra – disse ele – tem uma pele e essa pele tem doenças. Uma dessas doenças, por exemplo, chama-se ‘homem’.

E outra dessas doenças chama-se ‘cão de fogo’; a respeito deste, muito os homens mentiram a si mesmos e muitos deixaram que lhes mentissem. Para desvendar esse mistério, eu me fiz ao mar; e vi a verdade nua, realmente! Descalça até ao pescoço.

Já sei, agora, o que há com o cão de fogo; e, igualmente, com todos os demônios da escória e da revolta, dos quais não só as mulheres velhas têm medo. ” […]

‘Liberdade’ é o vosso grito preferido; mas eu desaprendi a ter fé nos ‘grandes acontecimentos’, assim que em torno deles haja muito berreiro e fumaça.

E podes crer-me, amigo barulho infernal! Os maiores acontecimentos – não são as nossas horas mais barulhentas, mas as mais silenciosas.

Não em torno de novos barulhos: em torno dos inventores de novos valores, gira o mundo; gira inaudível. ”(p.143)

” E eu lhe respondi: ‘ Da mulher, só se deve falar aos homens.’ ‘Fala da mulher’ , a mim também, disse ela; ‘sou velha bastante para esquecer logo as tuas palavras.’

E eu fiz a vontade à velhinha e assim lhe falei: Tudo, na mulher, é enigma e tudo, na mulher, tem uma única solução: chama-se gravidez.

O homem, para a mulher, é um meio: o fim é sempre o filho. Mas que é a mulher para o homem?

Duas espécies de coisas, quer o verdadeiro homem: perigo e divertimento quer, por isso, a mulher, como o mais perigoso dos brinquedos.

É preciso que o homem seja educado para a guerra e a mulher, para o descanso do guerreiro; tudo o mais é estultice.

Não gosta o guerreiro de frutos demasiadamente doces. Por isso, por isso gosta da mulher; há ainda um travo amargo na mais doce das mulheres.” (p.80-81)

A felicidade do homem chama – se: eu quero. A felicidade da mulher chama-se: ele quer. ‘ Vê! O mundo acaba de atingir a perfeição!” – assim pensa toda mulher, quando obedece com a força inteira do seu amor.

Friedrich W. Nietzsche

Assim Falou ZARATUSTRA – Um Livro para Todos e para Ninguém

ESPIANDOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO

cheiro de feijão e saudade

Amanheceu cinza, era tão cedo! Logo o dia se esticou azul. Certeza bem certa de que o calor vem vindo e o sol se firma. Não fui ver o mar …, essa preguiça de olhar segue presa na saudade daquela janela que se abria (…, e ainda se abre na memória) para a Praia Grande, agora tenho a lagoa, outra praia, tenho montanha, e longas caminhadas. Assim mesmo sinto saudade dos verões do gosto de abacaxi, milho verde e feijão …

Sentei para escrever e pensar em ti: não fui ver o mar, nem mergulhar. Depois de descascar as frutas, vontade de voltar para nós. Conversa comprida de estar nos teus braços. Tenho saudade de ser dois. Resolvi pensar nos meus sonhos e …

…, e já estamos outro vez a  olhar, procurar. Escuto tua voz. Falo contigo, volto a escrever. Pensei: já voltamos.  Sim, preciso descansar no teu abraço.  Elizabeth M.B.Mattos – janeiro 2018 – Torres

 

olhar nos olhos

Será que prefiro você como ideia, e não como pessoa viva? Ou,talvez , palavras sejam inócuas para servir de consolo pela distância que nos separa… A relação aperta. Sinto falta quando você não está, mais do que falta, quero ver / olhar nos olhos / tocar… Elizabeth M.B. Mattos fevereiro – 2018 – Torres

eu outubro ainda

amanhece madrugada

A praia também deles, atravessam o amanhecer. Procuro a palavra, outro lado do mar, …  hora desarrumada inquieta.  …, estico a mão. Amanhece madrugando cinzento.

praia da cal cavalgada

Praia da Cal -, fevereiro se segura em noites frias. Nostalgia do nosso dia, aquele. Eu te penso. Cansaço difícil.  … estranho que não estejas aqui, eu preciso de ti. Elizabeth M.B.Mattos fevereiro de 2018 – Torres –

curvas sem luazul de sangue

Praia e sol na medida certa do sol; água no frescor de mar verde esmeralda. Mergulho. Ondas generosas transparente no fundão do prazer ; saudade da Magda! Comer milho abacaxi e carne de siri . Água, água e sono. Depois de um mês, primeiro dia de férias: acomodado filho paulista filha  carioca  filha de Recife,  e o neto japonês, e mar e mar por aqui. Integrada com veranistas. O mar o mar me salvou da nostalgia. Mergulhei no que pode ser o melhor da praia. Claro, para não esquecer, pensei nos parceiros amorosos deste envelhecer setentão. Pensei no tempo de ser menina, e no que significa este  limite que limita, mas se fortifica na audácia. E o mar e o banho delícia  delícia e delícia. Todas as respostas, todas as respostas vieram coladas, molhadas no corpo. A sesta mansa de um dia agitado ruidoso …, ! Elizabeth .M.B. Mattos – fevereiro 2018

da minha janela

Minha nova relação com Cléa também não oferecia problema algum, talvez porque evitávamos de propósito definí – la em termos mais concretos, permitindo que seguisse as curvas de sua prória natureza, cumprindo seu próprio destino. Eu por exemplo, nem sempre ficava no apartamento – pois às vezes, quando estava  trabalhando numa pintura, Clea requisitava alguns dias de solidão e isolamento completo para concentrar – se em um tema. Esses intervalos intermitentes, que às vezes duravam uma semana ou até mais, fortalecia e renovavam nosso afeto em vez de prejudicá – lo. Às vezes, contudo,  encontrávamos – nos por acaso durante esses períodos e, por fraqueza, reiniciávamos o relacionamento suspenso antes que terminasse os três dias ou a semana combinada. Não era fácil.” (p. 129) Lawrence Durrell – Clea Quarteto De Alexandria

Lua de fevereiro

DEPOIS ….

 

Praia da  Guarita dia de sol sem vento.PRAIA LINDA

Foto: Cristina Assis Brasil

verão de excesso

Madrugada silenciosa e completa. Não, não completo o silêncio, a geladeira resmunga. Cães latem, vozes na calçada. A chuva refresca verão, outono.  Excesso! Luz calor chuva e sombra. Frio, também faz frio. E o cinzento. A luz se esconde. Ah! Poderia ser apenas isso: longo esticado e lento começo de tudo. A cada estímulo uma linha.  E dizer que desde sempre eu me preparo para escrever! Uma palavra ideia inteira. Um olhar, uma história. E agora, agora travado. Interrompo. O fato se esconde / se confunde.  E logo dia, ou o telefone toca, ou a voz chega, ou a urgência aparece e o fio desaparece. Agora, hoje, neste momento, ano, dia, mês: o futuro, o amanhã, o depois, ou … sei lá se existe depois! Se vou mesmo nascer outra vez para viver tudo azul. Perco hora, tarde  a pensar. O começo não importa, já terminou… Não quero. Desejo. Eu me entrego todas as manhãs a tua fantasia. 

Ler jogar explicar repetir, voltar… E me parece inútil escrever, ou contar. Vidas iguais. Muito,muito muito, apenas, o jeito de dizer a mesma coisa.

Gostar apaixonar desaparece no amor de amar. Ansioso beijo. O de sempre. Na boca da palavra.  Se repito se penso,  eu me entrego. Toda e qualquer lembrança…, ah!, mentirosa atormentada e fantasiada. Escandalosamente recriada. Sentimento descolado, remendado, e posto ali na vitrine, na vontade. Eu me apaixono, perco a medida. Louca! De magia, de feitiço no círculo. Por um momento imóvel quieta a sentir. A querer apenas o corpo… Herói erótico. Responde, por favor. Dedos pernas pescoço olhos cabelos e braços se farão abraço. E nada, nada vai ser dito explicado pensado, repetido: um enorme silêncio. Eliza /Elisa Liza/Lisa Beth Elizabeth M.B.Mattos –  Torres janeiro 2018 livros mulheres

 

 

livros

…, não sei explicar a leitura, a cada parágrafo, …bem, uma revirada. Avanço meio cega, em choque, ou feliz, ou insatisfeita. Termino a página. Guardo o livro, volto.  …, o estranho são as pausas, os textos transcritos, sublinhados. Alguma coisa volta, ou surpreende. Nada vai me surpreender, eu digo. Philip Roth trava, ainda não consegui terminar O teatro de Sabbath: engasgo. Herman Hesse doçura, enfim, sentimentos se alternam…  Estou no quarto volume dO Quarteto de Alexandria. Amor paixão envolvimento namoro sonho, desejo se mistura. Na pele lembrança. Guardo, apalpo, salta de uma memória para outra memória, se renova. E tanto e muito, e fica tudo lembrança. E o novo? O que posso fazer com o agora…  Medo, terror do amor. A leitura perturba. De repente não é mais… O que foi se transforma.  Certeza de que ainda é apenas enquanto é /sendo / em tempo… Não se pode deixar de ver/estar/alimentar. Morre, e se transforma termina… Vira prisão horror, ou será que não foi? Um frio passa pela espinha. A leitura paralisa.  Elizabeth M. B. Mattos – janeiro 2018

A imagem outrora magnífica do meu amor repousava na curva do meu braço, indefesa como um paciente na mesa de operação. Mal respirava, não adiantava nem repetir seu nome; um nome que antigamente evocava uma magia intensa, capaz de congelar o sangue em minhas veias. Tornara -se, enfim, uma mulher. Asquerosa e gasta, deitada, como um pássaro morto na sarjeta, mãos em forma de garra. Um enorme portão de ferro parecia ter se fechado para sempre em meu coração. Mal conseguia esperar que a vagarosa aurora me libertasse. Mal podia esperar para não estar mais ali.” (p.51) Lawrence DurrellClea – O Quarteto de Alexandria

seu retorno

Seu retorno deixou-me um tanto perturbada:   desfiz -me em vários pedaços e ainda não consegui recobrar todos eles. Confesso que estou desconcertada. Vivi tanto tempo com você em minha imaginação  –   é um lugar solitário  –  que agora creio ser preciso reinventá -lo para  trazê – lo de volta à vida. Talvez eu tenha passado todos esses anos deformando você, pintando seu retrato para mim mesma. Talvez agora você seja apenas uma invenção  minha, e não um dignatário de carne e osso, que circula entre pessoas, luzes e políticas. Ainda não reuni coragem suficiente para confrontar a verdade com a realidade; tenho medo. Tenha paciência com esta mulher boba e teimosa, que parece nunca saber o que deseja. É claro, deveríamos ter nos encontrado há muito tempo,  –  mas eu fugi como um animal assustado. Quando soube que você vinha, fiquei tão irritada que chorei de puro ódio. Ou teria sido pânico? Creio que realmente consegui esquecer – me de … meu próprio rosto, no decorrer de tantos anos. Agora ele voltou  de repente para me assombrar, como o homem de máscara de ferro. Bah! Logo minha coragem voltará, acredite. Mais cedo ou mais tarde precisaremos nos ver e sofrer o golpe desse encontro. Quando? Ainda não sei. Não sei.” (p.124) Lawewnce Durrell – Mountolive – Quarteto de Alexandriasofá ótima

longa

Oficina Francisco Brennand 2017 / Recife / Pernambuco

FALANDO no restaurante

1.

despedida  sombria, ou triste = envelhecer

p r o  longa  d a

Prolongada pausa. Tem ponto, ou asas, ou desvio, ….

Esperançamos, tu e eu = eu e tu, nós.

2.

Agarra minha mão, sou eu sorrindo / sou eu,  … tenho pressa. Esta lágrima escorrega, molha… Está frio neste verão.

3.

Escrevo penso, penso: eu eu eu tu tu tu você você  nós você que veio ao meu encontro, ou fui eu que me lancei nos teus braço, abraços, beijos, sem pejo?

Mar, areia, céu:  lista de amar o amor que nos ama : abraçar apertar aquietar, ou consolar. …

Envelheço, –  m  a  i  s  vagar devagar divagando … Envelheço inquieta …, e te peço amigo amor amado: segura minha mão, não consigo ver nada. Então, tu me abraças. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro 2018 –

Sou eu a menina no jardim da casa Vitor Hugo, 229 e, a moça Joaquina, morava conosco em Petrópolis.

Joaquina e eu pequena