perdi

Perdi e encontrei os óculos, isso me alegrou tanto e tanto! Um dia que tudo deu / dá certo / ou fiz certo, inclusive conversei uma hora com minha irmã. Estive com a Ana.  Abri o livro de Durrell e leio: “As curvas e tangentes vagarosas do rio castanho jaziam lá embaixo, pontilhadas de pequenas embarcações. Estuários vazios e bancos de areia – as regiões desabitadas do interior, onde peixes e aves se reúnem em segredo. […] – a leveza das palmeiras deixando marcas sobre a paisagem plana e exaurida, com sua atmosfera sufocante, suas miragens, seus silêncios úmidos. Quadrados de terrenos cultivados à custa de muito esforço deixavam o cenário parecido com cobertor gasto de tecido xadrez; alternavam -se com segmentos de pântanos betuminosos abraçados pelos contornos lentos da água castanha. Aqui e acolá viam-se também  as marcas rosadas do calcário.”(p.112) Mountolive – Quarteto de Alexandria Lawrence.Durrell

Cada palavra, cada silêncio úmido, reuniões em segredo, curvas tangentes e vagarosas do rio castanho, – prazer! Merecemos o perfeito. Tormento assistir televisão! Vale um bom texto. A completa alienação. Afinal encontrei os óculos perdidos. Fiz as compras, fui ao banco, emagreci um quilo: ótimo! Sou feliz, sou comprometida. Então agradeço. Viver é bom. Amanhã um dia mais rosado, ou mais azul. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2018 – Torres -, e o João está no Japão. Lucas em Recife, e eu no mar.

tu eu você e nós

Da ilha ao farol. Chuva pesada trovoando. Sem ansiedade em silenciosa manhã. Preguiça no corpo. Presa, amarrada, e tanta agitação na despedida. Não sei se volto, é preciso, teu sorriso afirmou: ‘descansa cuida e te aquieta’. Sol no corpo, tua presença. Antes do agora eu te escrevo para dizer da falta que sinto deste tu e eu, nós dois. Apego ao vazio povoado / avoado, tu sabes. Fico a pensar que este encontro / desencontro pode ser o que melhor nos acontece no entardecer envelhecido. Eu me demoro no espelho. Rugas na testa, nos olhos, em cima da boca: um mapa. É a vida. Corpo abraçado na vontade empurrada enlaçada que resguarda o sonho. Silêncio na ausência que se pensa amor. E, palavra, rabisco que se imagina sentimento. Tu e tu, tantas vezes nós. Você e você, eu, outra vez nós.  Experiência azul verde rosada amarela e violeta. Experiência do corpo com memória. A lembrança flutua. Imagem que volta… Nós: a pensar um no outro, tu sabes, eu sei. Somos azuis. Elizabeth M.B. Mattos que se quer floresta.  Liza no bosque, ou no mar…, sim, no mar. Elizabeth M. B.  Mattos – janeiro de 2018 – Torres

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…,vou contigo no espanto.

se eu pudesse

se eu pudesse estaria do outro lado

se eu pudesse seria nuvem;

se eu pudesse estaria no Japão

se eu pudesse seria magra magra, magérrima,

e o neto me levaria nas costas (ou na mala).

Creio que para o artista, assim como para o público, arte é uma coisa que não existe; ela existe apenas para os críticos e para quem é dominado pelo cérebro anterior. Artistas e público são como sismógrafos, limitam-se a registrar uma descarga eletromagnética que não pode ser racionalizada. Tudo o que sabemos é que alguma transmissão acontece, verdadeira ou falsa, bem ou malsucedida, ao sabor do acaso. Não adianta tentar decompor e analisar seus elementos – não se chega a lugar nenhum. (Suspeito de que essa abordagem da arte é comum àqueles que são incapazes de render-se a ela!) Um paradoxo. Enfim.” (p.89)  Lawrence Durrell Mountolive terceiro volume do Quarteto de Alexandria

E.M.B.Mattos – janeiro 2018

cerejeirassssssssssssssssssssssssssssssssslindas

Foto:  Japão 2018 Julho in Yugawara – Nanique Kok  Instagram: naniinnihon

 

 

 

palavra não substitue vida

Fantasmas existem. Os mortos voltam, e os vivos não entendem nada. E, se queixam escorregam, …enquanto lotam aviões trens e barcos. E cansam em reuniões! … e, são felizes! Este mundo segue, não estou nele.

Pensando no vazio deste dia: …,  uma certa angustia  transborda (inexplicável): com que olhos diferentes vejo a vida aos dez anos, aos vinte, aos trita, aos setenta anos!  O solitário tem consciência dessa metamorfose psicológica. Causa admiração a necessidade de esconder tristeza esquecer sofrimento doença  e a morte. Sufocar queixas. Esquecer ontem. Passar um pincel por cima das tintas daquele quadro, e pintar outro sol outra ventura, … estranho! Como esconder em poucas horas o sentimento dolorido de tanto tempo? Nada substitui a perda, nem  o novo agora / ou novo encontro.  Ilusão, não verdade … Palavras não substituem vida. Sou eu exatamente eu na fantasia. Amanhã quero amanhecer silenciosa, inteira. Não tenho nada para dizer. Estou cansada. Amanhã vou contar histórias. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2018 –

 

felicidade

muro na lagoa

Entrega sem volta nem resposta ou pergunta: aos poucos, com vagar, lento e constante a vida dentro do outro. Amálgamas alimentam  velhos amores, e doces esperas. Sonho acorda o passado: voz sorriso, … há qualquer coisa de trágico na separação, e na desejada liberdade. Uma espera constante. Um depois para depois, e o tempo da espera se esgota. É preciso preencher a ruptura. Reconhecer premência. Nesta madrugada sinto um vazio maior. Sem socorro. Uma vontade de parar …

Não se pode improvisar a felicidade. É preciso esperar, ficar de tocaia, como se ela fosse uma codorna ou uma garota de asas cansadas. Entre a arte e o ofício está posto um abismo.” (p.55)  Lawrence Durrell Monuntolivre – 3 volume – Quarteto de Alexandria

se fosse

…, começo 2018 -, ano plano. Susto espanto consciência …, filhos netos vozes. Memória, traços. Começo de tanto começo!

Dissipado o sonho e recobrado o senso comum, aquilo não teria grande relevância – eis a história dos delitos imaginários.”

Estou/ ando/ sou distraída atordoada cansada. A lembrança corta e abre a dor miúda. Se esquece passando e depois segue igual. Acontecido fato …, não é mais; como seria se fosse? … penso encolhida, triste. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2018 – Torres

martelo e objetos

ansiedade devora

…, tem uma ansiedade que devora. E pressiona pescoço braços. Ela agarra pelas costas. …, vai ver é particular, apenas comigo assim. Preciso usar o silêncio e a quietude. Usar a ciência inteira, … céus! Estou toda tensa! Bom que veio a chuva. Maravilhoso ver/ter a chuva, este céu que se derrama! Não sei o que escrever. Estou inquieta, com medo também, mas sei/acredito/tenho fé. Atravesso o mundo, e vou chegar…

Vou ter que voar, mas eu sei “ Nossa vida deve estar enraizada na terra, e não no sono. Isso não é uma técnica específica. É silêncio. Apenas isso. O silêncio significa que você tem de ser você como realmente é –   aquilo que é em si mesmo. […] tudo o que temos de fazer é sentir o próprio gosto, como somos. ” Dainin Katagirik

 

entre nós, o muro

Estranho como o desejo se esconde, ou se expõe latente: não importa se sentes ou vês ou explicas. Não queres, rejeitas. Não importa. Os caminhos são mesmo cruzados. Se eu olhar nos teus olhos vou saber. Depois, depois, depois cada um pega seu rumo e sua voz e seu desejo e segue.

Carta mensagem bilhete verso, ou divagações! O que há para ser dito / narrado ou confessado. Escrevo / caminho pelas beiradas. Eu me perco no abraço no beijo e deixo escapar suspiros! Já como se despedida fosse, nunca permanência. Desejo de querer sem saber. Gostar medroso, estranho. Imagino, afinal, é mesmo, apenas um querer/desejo.

muro na lagoa

Muro feito com  folhas miúdas que se enfiam entre rachas flores brancas. Muro de frestas: vegetação selvagem tomando conta. Muro que se colocou/ postou/ ergueu entre nós. Não me perguntes como foi que aconteceu, não sei explicar. Na verdade, entrei na tua vida distraída, curiosa, entregue. Esqueci de imediato a cabeça em um canto da casa, e fui buscar, é claro, teu desejo.  Voltando eu me dei conta, devagar, que ali não era o meu lugar, mas o teu sonho. Levantei os olhos e prestei atenção no teu olhar. Atento, alegre, em fresta ele também. Como gostei! Nem tu, nem eu vimos o muro. Cuidei de espiar a figueira que nascia apertada e se debruçava entre construções a buscar luz no teu terraço. Elas demoram tantos anos para crescer! Têm aquelas folhas miúdas tão verdes! E as escadas. Tantas escadas que vinham e iam, a cada degrau uma canção, um instrumento, uma melodia. Uma orquestra. E tudo estava no seu devido lugar. Assim, eu entendi que o muro faz sentido. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2018 – Torres (muro de contenção na beira da lagoa)

muro desenho com folhas

Sabe, Justine, acredito que os deuses são homens e os homens, deuses; imiscuem –se nas vidas uns dos outros, tentando se expressar por intermédio dos demais – nasce daí essa confusão aparente em nossos estados de espírito, essa intuição acerca de poderes imanentes ou transcendentes … E além disso (escute) creio que raras pessoas percebem que o sexo é um ato psíquico, e não físico. Esse acoplamento deselegante de seres humanos não passa de uma paráfrase biológica da verdade – um método primitivo de colocar duas mentes em contato, de atraí–las. Mas quase todas as pessoas se detêm nesse aspecto físico, alheias ao rapport poético que com tanta deselegância ele busca transmitir. É por isso que todas essas repetições tediosas do mesmo erro não passam de uma enfadonha tabuada de multiplicação, e permanecerão assim até que você tire esse saco de papel da cabeça e comece a raciocinar de forma responsável.’ (p.97)

Lawrence Durrell  Balthazar O Quarteto de Alexandria

loucura grande ou pequena

…, sim, estou velha, bem velha. Um dia foi ontem, e construí / fiz uma história mineira, lembras?  Nem sei como nos perdemos, nem como nos encontramos, e reencontramos.  Loucura grande, ou pequena.  Passou tanto tempo!

…, amores, outros sentires; o estranho desta lembrança toda é a memória minuciosa. O cheiro da terra. Vigor da beleza, do sertão … E lembro daquela Minas Gerais que guardei apenas para mim …Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2018 – Torres

ouro preto