Um desastre

Às vezes acho que não faço nada, outras que faço tudo e muito. E hoje foi desastroso …

” …Tenho pressa de deixar este lugar … Não sei se você pretende me deixar aqui, mas é muito cruel para mim! …Dizer que a gente está tão bem em Paris e que é preciso renunciar a isso por causa das bobagens que vocês têm na cabeça … Não me abandone aqui sozinha …”

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Camille Claudel, fragmento de uma carta ao seu irmão Paul Claudel

Com gelo

Entrei com toda a desenvoltura possível.

Não vou beber nada, obrigada.  Água? Sim, um copo, por favor. Vinho? Não obrigada. …  Bem, … pode ser  uísque. Sem gelo. Mas não esquece a água. Uísque e com gelo, bastante gelo. Bebo raramente. Aliás, nunca bebo. Estou nervosa. Não, não precisa ter pressa … quero água, e uma taça com uísque, aliás, não importa o copo. Uísque, por favor. Aliás, pode ser vinho!

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sonho de Alguém

O livro traz de volta o que terminou, o concluído, o exorcizado. Reafirma que o Outro existe. Estou no sonho dele, e ele está no meu. O sonho me cerca. Intrometidamente Alguém entra no meu desejo. E não quero. Quero ser Eu, não Ela. Não vou ao teu encontro, não preciso tocar, nem abraçar. Não és Alguém. És a fantasia do meu sonho. E os sonhos são os sonhos… Eu acordo.  O vento uiva e a maresia se instala confortável na sala. O vento é real. É preciso anular, derrubar estas coisas de amor.  Ou de voltar no abraço e no beijo. Não quero o teu olhar. Não quero estar lá… Vou semear margaridas, plantar hortênsias. Colher amoras e pitangas.  E vamos ser amigos sem ser amantes. Elizabeth M.B. Mattos 2017 – Torres

“Com efeito, se o mundo for sonho de alguém, se houver Alguém que agora esteja nos sonhando e que sonha a história do universo, como prega a doutrina da escola idealista, a aniquilação das religiões e das artes, o incêndio geral das bibliotecas não será muito mais importante do que a destruição dos móveis de um sonho.  A mente que alguma vez os sonhou voltará a sonhá -los; enquanto a mente continuar sonhando, nada se terá perdido.”(p.81)  Jorge Luis Borges, Outras Inquisições, Nathaniel Hawthorne, texto de uma conferência proferida no Colégio Livre de Estudos Superiores, em março de 1949.

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Depois da voz

Depois de escutar tua voz e depois de gritar te gosto bem alto no meio da praça… Depois que peguei na tua mão e olhei nos teus olhos, arrumei as malas, duas, e joguei as roupas lá dentro e peguei a rede. Depois, depois, fui entrando feliz naquele apartamento aonde o mar nos espiava. Lá temos vento, e temos a Ilha dos Lobos, e temos nós dois abraçados, quietos. E o amor. De repente uma coisa triste entrou…  Tu a pensar nos quadros, nas esculturas, nas artes e nos tapetes persas.  Eu a pensar nas estantes, nos livros, nos livros, nos livros, nas panelas na mesmice de ser só eu. E nas amoras azuis …  Esquecidas.

Fechamos os olhos e nos beijamos. Elizabeth M. B. Mattos – março 2017 – Torres.

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Apaixonada por Francisco

Estes amores  presos soltos atuando…  reviram memória. Presentes. A memória conversa… Iberê Camargo não está mais aqui! E ainda quero dizer tantas coisas! Entender  e amar  dois universos. Os artistas plásticos escrevem, pintam, esculpem, e se reviram a pensar e a dizer, nunca alcanço o suficiente. Beth Mattos

received_1226201020748136Francisco-brennand-011 cerâmicas“A escrita constante e reflexiva de Francisco Brennand, iniciada em 1949 é caso singular do memorialismo no Brasil. Por que um artista plástico potente precisa escrever com essa determinação O Diário não busca legitimar sua arte nem seus relatos de encontros significativos são atos vulgares de esnobismo, mas a revelação de ideias, imagens escrituras e experiências que se incorporam a seu processo. Tanto fôlego para escrever exigiu ainda mais fôlego pra viver, para lembrar-se de tanta urgência, para aceitar ser impossível esquecer como condição inquieta do artista. A memória despontou e Marcel Proust e se estende em suas profundezas, diapasão e vagueares desde a evocação sensorial da madelaine, agora matéria calcinada, ou pelo piano do pai na casa em São João e nos percursos míticos de Ganimede na celebração do intelecto e da virilidade para converter o barro bruto em carnação do humano.”

“Na geração surgida no pós-guerra, a aventura do atelier permite associar criticamente o signo voluptuoso de José Cláudio, Francisco Brennand e Iberê Camargo.” Escreve Paulo Herkenhoff.

Iberê Camargo

Iberê Bassani de Camargo (Restinga Seca RS 1914 – Porto Alegre RS 1994). Pintor, gravador, desenhista, escritor e professor. Em 1928 estuda pintura com Frederico Lobe e Salvador Parlagreco (1871-1953) na Escola de Artes e Ofícios, em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Entre 1936 e 1939, em Porto Alegre, faz o curso técnico de arquitetura do Instituto de Belas Artes de Porto Alegre e estuda pintura com Fahrion (1898-1970). Muda-se para o Rio de Janeiro em 1942 e, com bolsa de estudos concedida pelo governo do Rio Grande do Sul, freqüenta por pouco tempo a Escola Nacional de Belas Artes – Enba. Não satisfeito com a proposta acadêmica, estuda com Guignard (1896-1962) e funda, em 1943, com outros artistas, o Grupo Guignard. Em 1947 recebe o prêmio de viagem ao exterior e vai para a Europa no ano seguinte. Em Roma, estuda com Giorgio de Chirico (1888-1978), Carlos Alberto Petrucci, Antônio Achille e Leone Augusto Rosa, e em Paris, com André Lhote (1885-1962). Volta ao Brasil em 1950 e, em 1952, torna-se membro da Comissão Nacional de Artes Plásticas. Funda, em 1953, o curso de gravura do Instituto Municipal de Belas Artes do Rio de Janeiro, hoje Escola de Artes Visuais do Parque Lage – EAV/Parque Lage. Em 1954, participa com Djanira (1914-1979) e Milton Dacosta (1915-1988), da organização do Salão Preto e Branco e, no ano seguinte, do Salão Miniatura, ambos realizados em protesto às altas taxas de importação de material artístico. Promove curso livre de pintura no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, em duas temporadas entre 1960 e 1965. Em 1966 executa painel de 49 metros quadrados oferecido pelo Brasil à Organização Mundial de Saúde (OMS), em Genebra. A partir de 1970, leciona na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Em 1980 Iberê Camargo mata a tiros um homem que o agride na rua. É absolvido sob o argumento de legítima defesa, mas o episódio marca profundamente sua vida e sua obra. Em 1986, recebe o título de doutor honoris causa da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM. Entre suas publicações, constam o artigo Tratado sobre Gravura em Metal, 1964, o livro técnico A Gravura, 1992 e o livro de contos No Andar do Tempo: 9 contos e um esboço autobiográfico, 1988.

José Cláudio

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José Cláudio (Ipojuca PE 1932)

Pintor, desenhista, gravador, escultor, crítico de arte e escritor.

Em 1952, José Cláudio, ao lado de Abelardo da Hora (1924), Gilvan Samico (1928) e Wellington Virgolino (1929 – 1988), entre outros, funda o Ateliê Coletivo da Sociedade de Arte Moderna do Recife – SAMR. Posteriormente, em Salvador, José Cláudio é orientado por Mario Cravo Júnior (1923), Carybé (1911 – 1997) e Jenner Augusto (1924 – 2003). Viaja para São Paulo em 1955, onde inicialmente trabalha com Di Cavalcanti (1897 – 1976), estudando também gravura com Lívio Abramo (1903 – 1992) na Escola de Artesanato do Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM/SP. Recebe bolsa de estudos da Fundação Rotelini, em 1957, permanecendo por um ano em Roma, na Academia de Belas Artes. De volta ao Brasil, passa a residir em Olinda e escreve artigos sobre artes plásticas para o Diário da Noite, do Recife. Realiza pinturas de caráter figurativo, retratando cenas regionais e paisagens do Nordeste, evitando, porém, o caráter pitoresco. O artista escreve, ao longo de sua carreira, vários textos de apresentação para exposições de pintores nordestinos, como a mostra Oficina Pernambucana (1967). Publica, entre outros, o livro Memória do Ateliê Coletivo (1978), no qual reúne depoimentos dos vários artistas que integram o grupo.

E Francisco Brennand

A Oficina Cerâmica Francisco Brennand: um museu de arte brasileiro localizado na cidade do Recife, capital de Pernambuco. Foi criada pelo artista plástico pernambucano que dá nome ao conjunto arquitetônico, Francisco Brennand.

de repente

Eu te amei tanto e completamente que todo o teu corpo e o que tu pensas me pertence, tudo. Todos os segredos, as ideias O incerto também meu amor …  E tu me amaste. Cartas, telegramas. Amor e paixão e raiva e por inteiro e pela metade. E terminou.

O esquisito é que  num átimo eu volto a te amar e te abraçar e beijar …

Não te vi neste verão, nem vou ver no inverno, não importa. Ainda te amo e sinto ciúme. Não sei o que fez na tua vida aquela personagem loira deslumbrada com quem resolveste de repente morar … estranho aquilo, mas fizeste…e eu te amando e ela não. As pessoas cometem equívocos. Bem, hoje precisei dizer que te amo.

Duas

Portugal linda e invernosa

Tu andando avoando pela Europa Ásia e Américas

E eu curiosando  andando pela lagoa em Torres

Não é texto. Não é nada. Diferentes, velhas as duas.

Tens o  colorido mutante, eu o mar e a lagoa.

Tens a terra se desdobrando … Eu invento, e não lamento.

predio da lagoa

Um equívoco

maravilhas do Claudiodo Claudio

Claudio Bohrer  fotografou. Sul do Chile, Ilha de Chiloe. E vou vendo o mundo… Ver fotos.

Talvez o/um equívoco possa ser o final do jogo. Interrompi o processo parei de pensar. A lembrança está/parece esvaziar, murchar. Por que estamos vivos? O que é estar vivo?  Cozinhar lavar passar a roupa. Encerar abrir as janelas fechar as janelas. Guardar as roupas. Sacudir os lençóis. Arrumar as gavetas. Varrer. Fazer o café comer as torradas e beber o café. Olhar para a chuva. Olhar para o sol. Ler o jornal. Abrir o livro, rabiscar. Sentir tristeza. Regar as flores. Escutar a amiga, beijar o filho, o neto. Sorrir. Prender o cabelo, e olhar a foto. Escrever. Que coisa bem estranha, e sou eu…  Eu me escondo encolhida neste envelhecer sem graça. É preciso cuidar, arrumar, perfumar, e principalmente, beijar, abraçar e seguir.  Como é bom te abraçar! É precisa amar quando envelhecemos: tristeza súbita. Casas destelhadas, arruinadas, desolação. Vou sentir frio, vou encolher mais depressa. Desejo ardido. Vontade ensandecida de amar o amor outra vez. Beijar acarinhar veranear festejar. Restrição. Complacência. A coragem sangra…  Desinteresse plantado na indiferença que murmura. A fraqueza está acampada dentro de mim. Tudo desproporcional. E o vento, o vento que venta leva tanto vento de encontro as janelas, as frestas e os vidros sacodem…  No tabuleiro soluções. A rainha e o rei atordoados, os peões gritam. As torres parecem firmes. Os cavalos correm…  Os cavalos galopam. Eu parei. Por favor, estende tua mão. E eu vou me reconhecer outra vez no teu olhar. O inverossímil. Alguém que somos, mas não podemos ver, nem entender. És aquele que és sem eu saber quem és. E eu sou sem me imaginares possível.  Vou investigando, arrancando raízes, adubando, aplacando ansiedade. Tens razão quando me desejas um bom dia!  Ter um boa noite, ter um esteio, ter um amado, ou ter um amigo. Estou esquecida…  Vou fazer as malas. Vou para mais perto, ou mais longe desta Elizabeth. Vou brincar de ser a outra. O jogo de ser achado e ser perdido…  Estar e não estar. É quando não se espera mais nada para si mesmo que se pode amar. ElizaBeth M.B. Mattos –  março de 2017 -Torres.

Beth hoje

Toda palavra é cicatriz

desenho o sonho brennandA história circula azeda e tendenciosa.  É preciso lavar  angustia medo e o escuso. Lavar na calçada (em bacia) lavar no tanque na máquina de lavar ou pelo fio do telefone… Limpar tristeza decepção escondida, mas lá dentro ativa a espernear e a se defender do outro, no outro… Estórias se multiplicam estranhas e assustadoramente as mesmas… Velhos chafurdam desconfiados nestas delícias putrificadas das esquisitices do outro, do sucesso do outro da dor achada do outro. Corrompidas histórias escalavradas, e medrosas. Toda palavra é cicatriz diz André Ricardo Aguiar, poeta pernambucano de Itabaiana. E o que importa? A pergunta ou a resposta? Não resisto: “E, quanto a mim, exultante e comovido com a descoberta de O Leopardo, de Lampedusa senti uma tamanha identificação com o príncipe Salina, como se fôssemos de fato os últimos a possuir recordações insólitas, distintas de outras pessoas. ” Diário de Francisco Brennand, O Nome do Livro Vol. II  1980 – 1989.

Quando eu desaparecer não haverá mais mundo. Não vou abandonar nenhum mundo porque o mundo é apenas o meu olhar…  Eu sou o mundo. O amargo da vida e o azedo da conversa, estas angustias pequenas não importam, estão certamente do/no outro lado. Beth Mattos, Torres. Elizabeth M.B. Mattos

“De repente perguntou a si próprio se a sua morte seria semelhante àquela: provavelmente sim[ …] Como sempre, a consideração da sua própria morte serenava-o tanto quanto o perturbava a morte dos outros, talvez porque, no fundo, bem lá no fundo, se a sua morte fosse, em primeiro lugar, seria a morte do mundo inteiro. ” (p.230) O Leopardo de Lampedusa

DESENHO Brennand

Desenhos de Francisco Brennand

Tudo precisa ser entendido

Donnafugata ragusa2012

“No centro do tanque redondo, sobre uma ilhota, modelado por um cinzel inábil, mas sensual, um Netuno descarado e sorridente agarrava uma Anfitrite complacente; o umbigo da deusa úmido da água dos borrifos, brilhava ao sol, ninho, dentro em pouco, de beijos escondidos nas sombras subaquáticas. Dom Fabrízio parou, olhou, recordou e teve saudades. Ali permaneceu por muito tempo. ”

O Leopardo de   Giuseppe Tomasi, príncipe de Lampedusa. Inominável. Delícia de livro. Absoluto e correto testemunho. Tudo precisa ser entendido …. Que agudo observador e preparado escritor. Obra prima. Senti o calor escaldante da Sicília e caminhei pelos jardins do palácio com Bendicò.

“Dom Fabrizio havia tido muitos aborrecimentos naqueles últimos meses: tinham vindo de toda a parte, como formigas ao assalto de uma lagartixa morta. Alguns haviam nascido nas fendas da situação política; outros haviam -lhe sido atirados para cima pelas paixões alheias, outros ainda (e eram os mais pungentes) haviam brotado de si mesmo, das suas reações irracionais perante a política e os caprichos dos próximos (quando estava irritado chamava de caprichos aquilo que, quando calmo, designava por paixões); e todos os dias passava em revista estas preocupações, fazia- as manobrar, juntar -se em coluna ou dispor – se em fila na praça de armas da sua consciência, esperando vislumbrar nestas evoluções qualquer finalidade que pudesse tranquiliza – lo, mas não conseguia.“

Vais abrir o livro e reler. Ou pensar ou esquecer porque o tempo de hoje (também o de ontem e o de antes de ontem) fervilha impossível em nossas cabeças e é melhor afundar mesmo na preocupação doméstica do dia e da hora em que a sobrevivência grita e assalta, mas eu te digo, ler ou reler! Vale cada minuto. A leitura passa por cima de todas estas coisas. Alternância de classes sociais tão alardeada pelos injustiçados e …  Se ambiciona tanto poder e dinheiro …  E no final, tudo igual. Trocam os lugares, mas o mundo e as pessoas não mudam.  Divertido aprender a ser rei e poderoso no lugar de um rei e poderoso que se esconde na mansarda …  Há que se entender a vida no seu prazer máximo, viver. Não existem substituições.

O LeopardoFilme O Leopardo