Só isso, agora

Sinto falta, saudade da mãe. Do pai. De ambos. De forma diferente, é claro. O tempo enterra mágoas, oculta também alegrias. Saudade parece um bicho estranho que fuça na vida da gente. Com nostalgia vou folhear estes livros. Procuro uma marca qualquer na espichada caligrafia, nas datas. Engasgo com lembranças. Penso a saudade, a memória de cada um. Brincadeira boba! Penso nas conversas que nunca tivemos. Nas confidencias. Observo o mapa das lembranças. Escuto vozes… Olho para o casaco de pele jogando no braço. O sorriso contido da foto. Base aérea de Natal. Danosa saudade.  Ficou pra trás o verde, o azul, não era rosa nem amarelo. Branco e preto. Poderia ser um vestido de alças largas, rodado. Sandálias. Não, não é a roupa que eu vejo, mas a danosa saudade.

“A avareza como o amor, tem o dom da vidência, quanto às contingências futuras. Fareja, apressa.”A. M.

“As pessoas generosas dão maus comerciantes”A. M. 

Só isso, agora…

Talvez respondas

Adoro as cartas porque são registros, e são urgentes. Preciso dizer isso ou aquilo. Ou que te penso. Que estou surda, mas vi o teu chamado. Apenas não respondi.  Assim mesmo quero dizer que amo aquele jardim, aquela casa, aquela dobra de saudade. Outras coisas nos movem, a cada momento, importantes, relevantes. E a cabeça deixa de pensar, de escutar. A carta espera para ser lida, relida. Não importa a resposta. Já passou. Hoje tudo que demora a ser resolvido, passa. E as crianças crescem. Eu envelheço. Algumas conversas ficam irremediavelmente esquecidas.  Mas as cartas voltam. Tu voltas. Outras velhas lembranças, adiadas ficam penduradas no varal. Secam. Ninguém se lembra de recolher. Dobrar, guardar… E eu te conto que gostaria de ter escutado. Queria ter ouvido a história do meu pai, da minha irmã. Daquela senhora que chorou no ônibus, daquela que segurou minha mão na volta de Paris. Ou fui eu que tentei acalentar, interromper os soluços. Queria estar contigo agora.

Afinal, confesso que gosto das cartas que ainda não pude ler, e das que escrevi, mas não chegaram. Estou sempre inquieta atrás de um interlocutor. Gosto de conversas interrompidas. De repente, voltam, seguem o destino. Vivas. Gosto das coisas desarrumadas porque tenho que organizar, e fazer, arrumar. E me ocupo com esta, ou com aquela gaveta. Não tem fim esta desordem, nem esta ordem. Gosto do nublado deste dia. Espero a chuva. O frescor. Gosto de esquecer porque quando lembro parece novo. E até deste envelhecer que me agita, acabo gostando porque me sinto, afinal, corajosa. Talvez faça tudo  que  ainda quero fazer. Atravesse o mar, e vá pra África. Colherei aquelas margaridas… Darei conselhos. Ficarei muitas horas no silêncio. Esquecerei… Talvez recomece tudo outra vez porque ainda é tempo de ver o céu de Paty do Alferes, olhar pro morro, tirar o inço, afofar canteiros, brincar com o Zeca e com a Malu. Contar histórias. Afinal, estou aqui. Quero dizer que te amo. E isso importa pra mim porque te escrevo cartas, e mais cartas. Talvez leias e respondas. Gosto de esperar. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2016 – Rio de Janeiro

Avó adolescendo

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Enquanto separo fotos em caixas com nomes, datas, devidamente, etiquetadas, eu me pergunto: Em qual obscuro lugar será esquecida! Milhares de imagens do pequeno passado. Registro. Estamos todos atordoadamente apressados! Dou risada. Atendo o telefone, o que não acontece sempre. Dou outra risada. Escuto as notícias, todas. Depois, desanimo diante da louça espalhada. A desordem.

Espio a menina que se esconde. Cantarola. Brinca, e corre. As fraldas voam. Levantam, sentam. E se afastam. O tempo de ser uma só. Imagino a história da vida crescendo, dos cabelos encaracolados. Desta voz suave, clara. Suspiro desajeitada. Nem sou meiga, nem presente, nem suficientemente presente. Onde está a cadeira de balanço, o embalo, o sossego, e a história? Por que nunca sei contar, nem ler. Nem pensar avó. Faço beiço.

Ele senta no sofá. E pergunta, sem voz, se vou sorrir, abraçar, dar os presentes. Abraço. Dou beijos. Cresceu neste tempo. Sempre crescem os netos. E através dos óculos esconde timidez, percebo doçura. Sigo rindo distraída, falando, contando da viagem, da geração Z ,– explico, pontuo. Estou eu adolescendo. Minicraft, o jogo me impressiona: vou criar o planeta. Fiz o dever de casa, li a Veja, comento. Procuro na mala os livros que comprei. Infantis. Bobos. Dou-me conto que não acerto. Mas tem selo de troca. E a biografia do Jobs? Nenhum interesse. Erro, outra vez, desajeitada. Dureza de ano, sem dinheiro, economia parada. Explico. Arregala os olhos. Assusto. Silêncio. Vamos dar uma volta? Solução.

Lá vem a bicicleta. E não vejo. Rodopia. Levanta a roda. Voa. Não vejo. Esta avó distraída, ausente. Sou eu mesma. Logo no olhar encontro o menino. O abraço. O corte novo do cabelo.  Por que eles crescem assim desconfiados estes netos? E tão rápido. É um moço.

 

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Personagem noutra vida

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Equívocos. Sem o beijo. (A última chance, o último socorro. Esticar o braço, tocar na mão! Assim mesmo tímidos e estranhados.) Como aconteceu este encontro? Justo o que não podia ser… O definitivo, completo. Ainda brincas. Fazes graça. Encolho, encabulo. A vida deveria ter sido mais justa com o amor. Culpa: penso. Se eu não tivesse interferido, se tu amasses, ou ousasses. Não sei. A última brincadeira do diabo. Fui ingênua. Vais me dizer, sempre. Nunca vieste ao meu encontro, te esquivaste. Depois de setenta anos a explicação não faz sentido.  Claro, estou insistindo. Ver nos meus olhos, entender os teus. Caminho bloqueado.

Se a vida me devolve o homem, ficarei aturdida. Não existo. Sombra, pura imaginação.  Eu me deixei derreter, desbotar, murchar. O que fazes agora? Audácia. O brinquedo. Quanto mais poderoso és, maior o meu medo.

Tenho o tamanho certo para teus braços. E tu o abraço perfeito. Na minha imaginação, mãos dadas. Sem equívoco, ao contrário. Certezas. Assim eu te vejo. Inserido na vida como ela deve ser, perfeita.

O trabalho. Nova, e já inteira, a família caiu como presente: fitas coloridas, pacote com flores. Consolo. És o meu personagem, outra vida. Beijos não resolveriam. Posso chorar. Levantei um muro entre nós dois quando falei francês naquela noite italiana. Aflita. E dizer que nunca nos beijamos! Deve existir outra oportunidade respirando para a entrega. Que venhas ao meu encontro. Perdas não se explicam. O sentimento de abandono sacode nossos aniversários. Nunca amei como se deve amar! Procurei azul, verde, amarelo. Nunca o amor. Por que te escrevo?  Porque não quero morrer sem te beijar. Milhões de vezes, próximos, e intocáveis! O olhar tira minha blusa, ou deseja. Desejada, desejei.  Fulminada, diminui. E teu olhar se desviou. Reagimos, como se o passado fosse uma brincadeira, a favorita. Incerteza. Não do sentimento. Sempre te amei. Risadas, pequenas aventuras. O sentimento fraterno. O amante. O segredo sensual. O herói, personagem preferido sem livros, sem máquina de escrever, nas rodas dos automóveis, ao vento. O homem que não toca piano, mas enche a sala de risadas.  Povoada meninice, adolescência. Ainda no colégio, através da cerca, a brejeirice. E não nos beijamos. Ser um do outro, sem tocar.

Depois de tantos equívocos, magoa. Se nos tivéssemos revelado como menino, menina. Jovem, mulher, e homem, teríamos acertado?  Ou errado. Não importa. Nunca amei mesmo por inteiro. Será que seria festa estar nua aos teus olhos? Ser possuída? Sacudida por prazer ou desespero. Saberia.

Se existe outra vida, resolvo a confusão.  Alguém, um fantasma, outra mulher, outro homem. Qualquer equívoco. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro – 2016 – Torres

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De Hélio Oiticica para Lygia Clark

Sou  mesmo atraída pelo voyeurismo das cartas. O pensamento impensado, em transe… Não mais cartas seladas, nem correio, nem papel, nem letras, nem pessoas a se escreverem, mas a contaminar… Pode ser. Não mais com envelope. Mas cartas fragmentadas em mensagens eletrônicas. Tropeçamos um no outro virtualmente. E seguimos o impulso do prazer. Navegamos teclando em celulares, afinal, com palavras… Beth Mattos

Derramado…, como nesta carta do artista Hélio Oiticica e Lygia Clark.

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“New York, 11.7.1974

Lygia:

Recebi sua carta que como sempre me deu grande alegria e espero que você esteja aí quando esta chegar. Sua carta foi muito importante para definir e esclarecer uma série de coisas e principalmente para que eu acrescente na seção de corpo (BODYWISE) do livro que faço a importante e claríssima definição sua (como sempre) e que peço aqui sua permissão  para usar coisas da carta. Penso em colocar num espaço grande em cor ou branco o seguinte:

LYGIA CLARCK:

É a fantasmática do corpo, aliás, o que me interessa, e não o corpo em si.

Essa citação seria em cor que vibre sobre o fundo como luz (complementares), pois a meu ver é uma definição e uma posição, ou melhor, colocação do ponto no ponto maior e crucial; uma revelação: um ponto de tal finura que faz justiça e expressa in totum a natureza de sua personalidade e inteligência sem par: sua carta de duas páginas diz mais que qualquer outra de mil: para mim é como um banho e um alívio vibrar com sua inteligência e afinidade criativa; como você nunca vi, e sei que jamais verei! A vibração das letras puladas da sua máquina e a euforia tão sua e “ligada” me fizeram acordar quando já ia caindo de sono ( há três dias estou de pé!).

[…] Me deu uma sensação incrível de emoção sublime, de uma paixão maior; algo que gera tanta coisa na nossa cabeça que dá então nisso que você segiu da cabeça coletiva: cada coisa engravida outra.

[…] Lygia, pensei em anexar aqui páginas ou páginas com pensamentos que me vêm com os seus argumentos na sua carta; não pense que esses pensamentos sejam ” interpretativo” já era! Pelo contrário, porque o que me leva a determinados pensamentos é o que você desencadeou, e não o que você  disse, ou é em essência; isso me fascina; sinto que a fragmentação que me ocorre é BEM TRIVIAL; sinto-me CLOWN e isso me define e me alegra; sinto você algo bem diferente mas que adoro: SUBLIME, como que tudo o que de grávido da sensibilidade feminina estivesse expresso tão forte quanto uma rocha masculina […] “

(p.225 -230) Organização de Luciano Figueiredo

Lygia Clarck Hélio Oiticica CARTAS 1964 -74

 

É Torres

Noite fresca de verão. Lua encheiando devagar. Lua no cinzento frescor desta noite de verão.

E a vida é assim. Escondida.  A vida como a lua. Jogo de apareço, não estou, ufa! Estou..A vida se esconde no vestido elegante. No encontro fugaz. No casamento certo. A vida se esconde na barra da bainha bem feita. No corte elegante daquele vestido vermelho. Naquela foto. A vida se esconde no tênis de correr. A vida se esconde no copo de vinho. Numa mulher bonita. E na feia também. Na pele escura. Na tez clara. E se esconde do medo, e no medo.  No velado olhar do desejo. Nas nuvens do sonho. Na relação perfeita. Numa tarde de compras. Nas vitrines. Nas modelos que desfilam em passarela. No ouro dos brincos. Nas pérolas do pescoço. A vida se esconde no mar. Na meninice. Nos folguedos da infância. No cheiro das pessoas, no aroma da casa.E a vida se esconde nas apostas do jogo. Nos aeroportos. Nos perdidos e achados.

A vida somos nós escondidos de nós mesmos. Como a lua neste céu cinzento, ventoso, e fresco de verão. Ela se esconde estourando de redonda, nascendo, e morrendo… No verão ventoso de Torres.

Hoje estou feliz

Que estranheza voltar… Querer bem, brincar de menina. Comer morangos. Voltar ao mar da meninice. Areia nos pés, e ficar, assim, por um momento, sem vergonha do corpo, do tempo, da risada, dos cabelos esvoaçados.

Envelhecer tem territórios particulares.  Coisa boa salta da caixa de surpresa, como os brinquedos de mola de antigamente. Estantes abarrotadas de livros, dever de casa, água do café, panela do feijão, esquecidos. Bebemos ar, vento, e rimos à toa… Somos livres. Livres para todas as bobagens sérias de gostar. Livres para virar as costas. Esquecer ou lembrar, tudo igual. Redescobrir.

Não sem medo. O medo estremece, arrepia, sacode o corpo. Destemidos como adolescentes. Porta aberta. Indecente esta alegria toda. Libertária. Casmurra, mas infinitamente rejuvenescedora. Carnaval, luz serpentina, música maestro! Não é o ontem que eu quero, mas hoje. E hoje estou feliz. Elizabeth M.B. Mattos –  janeiro de 2016 – Torres

Quinta – feira

A Rua Padre Chagas pulsa às 21 horas de uma quinta feira – verão em Porto Alegre. Prazer súbito se cola na pele como se fosse possível sentir e suar com eles, os jovens sem idade. Estico o pescoço. Balanço o corpo e os olhos brilham. O começo. No começo estes encontros anônimos, frescos, abertos importam. Sentar num café, e agarrar, fazer saltar prazer como pipoca. Uma frase, um gesto. Um sorriso. Olhar. Olhar.  Estes  instantes escrevem o sentido. Certeiro, expectante. Posso me deixar ficar no meio deles. Amontoam-se para a balada. Caminhar no ruidoso. Copos de cerveja, petiscos em bandejas…, já é Rua Hilário Ribeiro.  Restaurante iluminado, portas fechadas, portas abertas. Burburinho na calçada. Já estou em casa, outra vez. Da sacada, converso com eles…

Confesso

…que comove, impressiona oitenta, ou setenta anos. A consciência do tempo é alarmante. Sonhos inquietam pontuados pela perda. Lembrança assertiva. Volta esta, ou aquela pessoa. Alguém comanda a memória. Fico pequena, ou velhíssima. Sinto o prazer de um abraço. Certeza do abandono. O meio fio da calçada, e a rua vazia. O grito preso. Os livros saem, e voltam para os lugares. Papéis se confundem misturados. Ou não encontro a roupa que preciso vestir. A hora que termina antes de fechar os minutos… O ciclo sinaliza urgência. E o sono, o sono pode ser o melhor lugar para se passar o tempo.

É urgente dizer, e não contar apenas uma história. O que faço agora com esse danado assobio do vento?Elizabeth M.B. Mattos – 2016 – Torres

10291_1107551725946400_3161375923347889145_n.jpg MARINA

Maryur SILBER

Este texto que segue foi escrito pela Maryur está no Facebook. Está registrado, ou ali solto para nos iluminar,  e , entender o sentimento, a realidade, – envelhecemos. Pequenos presentes, prazeres. Peguei emprestado. Estas questões sobre velhice importam.  E importam porque amamos a vida. Penso. Não quero que imaginem, ou me vejam morta, mas que lembrem de mim como A Boneca de Kaffa (outro encontro no Facebook), aquela que  saiu para viajar, e  não voltou. Pensar neste envelhecer, ou na morte, é intensificar a vida. Na foto: Lucas Ana, eu e o João. Torres, 2015.

NATAL 2015

 

Memórias do Baú ( nov. 2012) Um olhar sobre a velhice.
“Sei que tenho muitos anos. Sei que venho do século passado, e que trago comigo todas as idades, mas não sei se sou velha não.” (Cora Coralina)
“E se vivêssemos todos juntos” (filme francês)
Dois momentos, duas situações vividas na última semana me levaram à reflexão sobre a velhice, sobre envelhecer, sobre aceitar a inevitabilidade do último ciclo da vida: 3ª idade, melhor idade…enfim vários eufemismos criados para desviar o foco da realidade que, apesar das conquistas da medicina e da estética, é inexorável.
Podemos ser mais saudáveis, mais ativos, mais úteis. Podemos fazê-lo da melhor maneira mas não deixaremos de envelhecer. E a mim parece que é sabedoria fazê-lo com dignidade, aceitando as marcas do corpo e da alma, com alegria, com serenidade, sem a busca desesperada da manutenção da eterna juventude, exercitando a mente, o corpo e o espírito sem fazer do plástico ou da clínica de estética nosso maior credor.
Assim, o texto que recebi sobre Cora Coralina e o delicado e profundo filme francês que assisti: “E se vivêssemos todos juntos”, me fizeram refletir sobre este momento da vida, sobre as emoções às vezes desconcertantes, às vezes surpreendentes que vivemos diante da onipresença da morte, quando a memória falha , o coração dispara e a doença se instala.
Claro que ainda não chegamos todos lá, que temos driblado com energia, com disposição o momento em que os cuidados e a solidariedade serão indispensáveis a cada um de nós, quando mergulharmos e submergimos nas nossas lembranças e experiências passadas.
Por isso vivamos o hoje da melhor forma com nossas famílias, nossos afetos, nossos amigos fortalecendo as redes e as ligações que estarão estendidas e disponíveis até o fim.
“Velhos não são crianças, não são anjos, não são os adultos que foram. São novos sujeitos em busca de ser…”