Casas desmontáveis

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 (…) pagamento dos nossos honorários e despesas com a obtenção da PATENTE De INVENÇÃO n.6946, concedida aos Senhores Pedro F. Teixeira e Pedro Alexandrino de Mattos, cuja patente tem por objecto: Um systema de construccção de casas desmontáveis, que denominaram – “Casas século vinte” –

Rio de Janeiro, 24 de Março de 1912

Moura Wilson

Pedro Alexandrino de Mattos que é o pai de Roberto Menna Barreto de Mattos e filho de Francisco Cardozo de Mattos

Meu amigo Francisco

Existe um motivo para que eu leia este livro. Existem dois motivos para meu amigo Francisco não ler aquele artigo. Existe um motivo sério para Cristiano estar apaixonado por Madalena. Não consigo entender por que Isabel não casou com Cassiano. E a lógica desta separação, nenhuma lógica. Existe uma forma de chegar a este resultado. E não existe nenhum motivo para que eu assuma um novo compromisso. Todas as rugas atrapalham a geografia do meu rosto. Se estou a rir, digo: a vontade é chorar. Todas as leituras na comoção. As incompreendidas, mais importantes. O prazer por Miller é incompatível com Clarice, e assim Philip Roth encerra aquele espetáculo americano. Por que ler Saramago? Comprei Guimarães Rosa, e quero voltar ao Machado de Assis. Nunca fui tão jovem! Nem tão atrapalhada! Perder tempo com tanto tempo! E tu não estás ao meu lado. Velho como eu, o meu Francisco argentino! A reza purifica. Pulo amarelinha, penso Sábato! Não Borges! Leio deitada na grama em baixo do jacarandá. Durmo com estrelas acordo com a lua. Sinto bom cheiro! Magnólia. Cinamomos. Escrevo para despontar ou para apequenar? Hoje vamos todos ao teatro. Elizabeth M.B. Mattos – 2013

Manuscritas

CARTAS manuscritas. Caligrafia. Tinta. Selo. Papel arroz. Seda. Amarela. Relida.Guardada… Cortejada!

Se transcrita, digitalizada, nem mais datilografada… Apequena-se,  encolhe, repete, e sufoca… Já não é aquela carta, mas outra…

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Quanto mais queremos

Quanto mais queremos, melhor queremos,

Quanto mais trabalhamos, melhor trabalhamos e mais

Queremos trabalhar. Quanto mais produzimos,

Mais fecundos nos tornamos. 

Após uma orgia, nos sentimos mais sós, mais aban-

donados.(p.81)

 

Charles Baudelaire  – Meu coração desnudado Ed Autêntica: tradução e notas Tomaz Tadeu

 

Plus on veux, mieux on veut,

Plus on travaille, mieux on travaillhe et plus on veut travailler.

 

 

…que adianta tentar?

Procuro nas caixas de sapato, na papelada guardada… Nas estantes de tijolos. Encontro. Abro cartas, laudas e bilhetes… Como sigo descabelada, ansiosa, igual nestes anos todos! Quando o amor devora jeito, trejeito de saudade e sorri brejeiro… Ele volta.  Nas tuas cartas, nas minhas, a trilha, a picada, o rio, a praça, o hotel, caminhadas… Areia, mar, janelas abertas. Mosquitos. Tecido bordado, repassado. Tu e eu, os mesmos.  F e l i c idade?  Vivos, iguais!  Risadas nas minhas gargalhadas. Ponho-me a te escrever na absurda saudade daquele amor amado, compartilhado, imaginado na GAAL, na Albertina, no Gafa, no Y e no H. Como todas as normas de um documento eficaz.  Em qualquer letra misteriosa usada pelo ciclista, na curva da praça. Retrato riscado, e azul. Ausência de lantejoulas e vermelho. Ausência. O ciclista se aproxima, e nos sorri, ele também. No percurso de um ir e vir  esquecimento de pacotes azedos, e fitas pretas e verdes. Uma jovem moça loira se atravessa, tropeça, e cai nos teus braços cruzados. Esquisito.  Telefone, cartas, telegramas. E a minha sempre doente ansiedade! Ciúmes, carência, e transbordamento. Que saudade meu amado de amor passado, presente! Porque existia a vida toda escondido, a cutucar, cochichar nos meus ouvidos, chegou velho… Que droga! Mas ficou. Velho. Escondo outra vez o tremor deste amor… Máscara. Letras. Despistes, ou exposição. Beijo. GAAL

Esta coisa de se amar de amor, – nudez de alma  – importa! Tu me descreves do jeito que sou ‘voltada pra mim mesma’, excessiva em tudo. Barulhenta no convívio… Reflexiva ao escrever, repetitiva: cruela talvez! Carinho, presença, transbordamento criativo. Tua generosidade! Eu me vejo egoísta, egocêntrica, exigente. Tu desdobrado, presente. E nestes momentos de ‘reencontro’ amoroso que eu me permito dou-me conta do tamanho todo daquele sentimento enorme que foi te amar, enfiada agora no teu amor por mim. Dizes numa das cartas:

Às vezes tenho medo de nós. ‘O que salva nosso amor é nossa juventude’, escreveste numa das tuas lúcidas cartas. Mas tenho medo dessa juventude tardia, que me domina na velhice. Talvez só se possa ser verdadeiramente jovem na idade adulta, quando se perdeu a juventude.”

Sigo lendo tuas cartas descritivas, as minhas acometidas fúrias desenhadas. Tremo a cada encontro. Grito. Entre triste e furiosa, nervosa eu te beijo… A última vez que nos encontramos, e fomos assistir ao horrível filme sueco O submarino… E nos deixamos ficar na aba do velho prédio do Correio do Povo (acerto?). Eu me esforçava em te contradizer, negar, alterada. Sem nenhuma concentração, só vontade de abraçar. No amor não existe palavra, tens razão. Como não te beijei na chuva… Como picavas meu coração sem saber eu me precipitei numa volta de rompantes… Estrangulava-me o ciúme, a dúvida, e me sentia pequena, inútil, e sei lá quantas mortais doenças… Com esta natureza fervente me recolho! Importa ainda que saibas quanta força me entregas, quanto do explicitado amor. Inflama vida. Chego à França e só em ti penso. Chego aos amados atravessando teu corpo… Traindo a ti, a mim. Só contigo me ocupo. Não me esvazio do cheiro, do beijo. Tu me dás coragem, mesmo na fragilidade… Eu te abraço voraz!  Atropelo. Mas é bom saber que teclei na velocidade de toujours… Talvez nem leias, não respondas, não estejas, não vejas, não queiras, repudies… Que importa! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2013 – Torres

O trono vazio

Nunca suficiente. As horas, e os dias. Este infindável amanhecer de angústia. Noites e noites… Crimes! Furtos. Acidentes! Pedras, lixo. Prisões e mortes. Injustiça! Ou justiça cruel: não vou mais cantar/contar! Nem sei por onde começar! Matei, mas não queria! E nem pensei em morrer! Protesto! Não parece lamentável? Deveria ter terminado a faxina no quarto, lavado a roupa, limpado os livros, comprado flores… E houve tempo pra que toda a violência, a pobreza, aquelas insolentes carências desaparecessem… As manchetes! Não resolvi. E nem o repente sinalizado, iluminado por bandeiras, gritado nas ruas deu-me tempo de rezar, purificar, saldar as dívidas! Minhas terras serão tomadas, as casas esvaziadas. E eu? Tal qual Hugo Chaves não tive tempo de me despedir! Não queria ir! Vou, fui sob protestos! Portanto fiquei… Tarja preta ao braço. Lamento. Lágrima. As minhas lágrimas secaram. Todos lamentam? Lamentam? As revistas, os jornais falam em despedidas! Notícias! Droga! Não sou eu que morri!  Eu fiquei. Toquem música todo o dia, é uma ideia da morte… Morte? Somos eternos. Cada passo é a marca da minha eternidade. Sou pra sempre, sigam meus passos! A eternidade do poder! Eu vivo, viverei, e todos viverão! Nada altera a minha vida, nem a morte. O legado do vazio… Um mito. O Papa apenas se retirou. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2013 – Torres

Conversa com Paulo

Porto Alegre: 10 de Outubro de 2001.

Lá estava eu na fila de autógrafos ansiosa, cansada e com calor. Apenas trocamos um olhar apressado. Estou a me adaptar com a cidade. Absorvo a inquietude do excesso. A convivência suga… O dia é longo, termino exausta. Com alunos era/é  fácil, natural. Agora tenho uma chefa menina – auxiliar – competitiva! Lidar com ela exige, permanente, atenção. Oito, nove horas em alerta. Sinto-me culpada por não estabelecer limites. Perdoa as queixas! De Porto Alegre a janela livre com verde e sol. Que delícia! No entanto ainda não usufruo como gostaria. Não leio. Não estudo, nem me deixo ficar… Estou mentalmente agitada e preocupada. Há que haver certeza –, L. ainda não chegou. Enfrentaremos uma certa adaptação. Estou procurando um estágio-trabalho para que fique mais perto de mim… Paulo manda a data da feira do livro. Relapsa, não tenho lido os jornais. A menina da galeria lê e recorta, cola na pasta, e… Eu olho. Vou mudar isto. Sei lá. Assumir. Definir. Apertar e chegar no equilíbrio. É um bilhete de saudade. Logo te escrevo mais. Alguma coisa no ambiente / neste estar pesa. Uma crueldade qualquer, desencontro. Não sei descrever: catástrofe! Beth Mattos

ANTONIO CARLOS RESENDE

RESTAURANTE BEIRA RIO 062 DANÇANDO COM O DESTINO

   “Encontramos história recente do Brasil, em especial do Rio Grande do Sul. Ali está a Legalidade, com Brizola; o golpe que derrubou João Goulart e ergueu os militares; o exílio, a anistia, a redemocratização. Tudo ligado ao mundo, como o emblemático 1968. (…) No plano da frente, estão as cinco personagens principais: Sebastião Bontempelli, César Romero, Luciano Ollan, Aldo Vallone e Dácio Rivero. (…)

Cinco personagens, construídas pela imaginação de um autor. Mas Bontepelli se inspira no ex governadore Silval Guazelli, Luciano Ollan, no escritor Paulo Hecker Filho, Aldo Vallone, no ex-senador José Paulo Bisol, Dácio Rivero, no professor de literatura, Dionísio Toledo. E César Romero no próprio Resende. Aqui outra porta se abre. Para a autobiografia. Mas Gide não se fotografava nas suas páginas. Tampouco, José Lins do Rego era o menino do engenho. Entre os autores e as personagens, havia um livro repleto de linguagem. Depois dela, ninguém mais é o mesmo e, agora, pode ser tudo. Porque houve uma ficção, como em Dançando com o Destino.

 Celso Gutfreind (psiquiatra e escritor)

CULTURA/ZERO HORA/ Sábado, 02 de março de 2013.

RESTAURANTE BEIRA RIO 061

A imagem

Milagres pequenos, raros, legítimos. O esforço de chegar, mostrar  a verdade escapa pelos dedos como trigo moído! Pão -, a doçura de uma prece! Tua chegada na minha vida… As montanhas que falam são cúmplices da voz que olha pra longe. Acendo um cigarro. Penso no silêncio fresco, e atordoante. A fumaça sinaliza o esforço que faço…Vejo flores brancas presas no tronco rugoso.  Ficção, arremedo de suspiro que caminha fluído… A vida se esconde nas feridas abertas. E vemos  indícios do que nos seguirá neste acaso do ocaso…

De tanto bater meu coração parou, (De battre mon coeur c’ est arrêté) um filme de Jacques Audiard. A música remexe o coração no esforço de estar… A violência do amor!

A grande sedução (La grande seduction) um filme de Jean François Pouliot. Delicadeza e  simplicidade.

Ainda um filme de Joseph Cedar, – A fogueira (Campfire).

Estou lenta na busca do essencial. O amor está no homem comum que nos olha do outro lado da calçada. Abra os olhos. Segure a luz que está ali, tão perto! Ainda Noites com Sol (Il sole anche di note). Baseado no livro O Padre Sérgio de Leon Tolstói, – filme de Paolo e Vittorio Taviani.

Se existe beleza ela está na imagem, na música, na natureza…As palavras nunca alcançam a perfeição…Tu és a perfeição. Elizabeth M.B. Mattos