dezembro se movimenta…

A rotina (ela se impõe exigente / dura) é inimiga da agitação. Não quer eventos, acontecimentos, nem surpresas. A rotina tem andar/caminhar, a passo preciso e cores definidas. Então, este final de ano se desenha, se risca, se agita com o tumulto dos abraços, dos beijos e da gritaria exigente da memória. Ah! estas gavetas derramadas, fotos derramadas, serões, conversas tão compridas, tão longas que a memória tropeça alerta, ao final, estamos todos exaustos… Tão completamente esgotados que o sono se converte em sonhos, sonhos coloridos, cheios de eventos e surpresas. Eu me pergunto se esta Elizabeth que acorda pode ser uma nova, uma desprevenida pessoa, com futuro e devaneios, e colorida. Sinto que as escolhas tropeçam atrapalhadas: qual a cor que o quarto deve ser pintado, e as estantes? Terão vernis ou serão, apenas, estantes, ou as quero coloridas. A grande televisão assume sua majestade! A janela parece maior e o tempo, o tempo engordou cheio de novidades! É a visita e aquela saudade acumulada que se espalha, tão liberta! Encrespa e se impõe desejo! O sono se pergunta inquieto: onde estou? Tempo escuro neste sombrio dia chuvoso, aqui em casa tem fogos, jogos, música e outra Beth chegando… Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2022 – Torres

E os cheiros se acomodam. Amanhã de manhã já estaremos a conversar susurrando…

citação: possíveel/razoável, caminho…

Não deves ler a citação pela citação, mas seguir a trabalhar o possível caminho, quer dizer, continuar a pensar no que não foi transcrito, no que deve estar antes e depois da citação: autor / texto por inteiro. O motivo do recorte, o íntimo, o segredo de quem pode estar atrás destas palavras? O já dito, escrito / já pensado. Então, insisto… Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2022 – Torres (Chove. Chove muito. Escuto a música. A noite tamborila, envolve. Pedro voltou para São Paulo – revolucionou minha alma/espírito, e este agito de vida me encanta! Sacudita eu sinto / sei que o presente foi o rastro e aquela alegria boa do amor.)

A maior parte das pessoas tem a fantasia embptada. O que não as toca diretamente, o que não atinge duramente seus sentidos com sua ponta afiada quase não as excita. Mas se acontece diante de seus olhos, perto da sua emoção, ainda que seja algo insignificante, logo desencadeia nelas uma paixão desmedida. Então, de certa forma substituem a rara simpatia por uma veemência exagerada e inadequada.” (p.11) Stefan Zweig 24 horas na vida de uma mulher

30 de novembro 2022

algumas alegrias são incompartilháveis-, incompartilháveis porque o espaço entre uma hora e outra, ora, ora,…não há minuto ou segundo desocupado = sou /estou feliz!, e a chuva lava qualquer possibilidade de amuo ou tristeza. ah! a vida tem estas certezas certas! Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2022 – Torres com bastante, muita chuva a molhar os gramados, encher a lagoa e o mar…

diferençasssssssss

Entusiasmada, ou sei lá o sentimento, o de conexão, ou desjo de se aproximar, isso, conexão e desejo. Desejo de compartilhar, entender, ou apenas me queixar. sim, várias vezes quero compartilhar um desacerto, um incomodo…sei lá! Ser alguém que diz para alguém que escuta. De repente, descrevo o cotidiano disso e daquilo, positivo, engajado, ou reclamo disso ou daquilo, mas / e surpresa!, a outra pessoa responde, mais fala do que escuta: também eu faço, o mesmo, igual, como um jato de água fria, acordo…. o mesmo do mesmo pode ser assim diferente? Arrumar a cama, tirar o pó, fazer a comida, levar, e limpar… Não, não é o mesmo. Penso, pense nos espaços… Espaços definem o fazer, não apenas a rotina descrita, o intenso envolvimento define o fazer… Energias diferentes. Não estou sabendo explicar, o silêncio que existe entre duas pessoas, não é o mesmo, então, mesmo sentadas, lado a lado, olhando para o mesmo jardim de margaridas, vemos diferente. Esquisitas diferenças! Não, não se encaixa o teu fazer com o meu fazer, as percepções são tão, absurdamente, distantes! Conversar / falar com outro também pode ser assim, um diz X e o outro escuta Y… Conversar é / pode ser, uma esquisitice se… se, se, e, porque somos diferentes, o fazer das mesmas coisas pesa tão diferente! Diferençassssss e esquisiticesssss. Perplexidade. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2022 – Torres

P. S, Talvez eu supervalorize os meus fazeres por desejar tanto e muito e tanto ser apenas servida!

sinto

sinto tua falta

a gente passa a vida a explicar o sentimento, o remexido sentimento chamado amor / desdobramos em encantamento, nas pequenas saudades, fazemos ondas enormes, possuímos imperiosamente querendo resolver a carência, abafar as faltas, resolver matematicamente os desconconcertos… queremos, afundamos numa taça de vinho, numa cavoucação no jardim, a música entra e sai, o silêncio volta, a quietude volta, eu volto para mim. Embalo, embala, embalam… e depois, depois tudo recomeça

sinto tua falta, sinto tua falta, sinto tua falta

preciso caminhar mais, encontrar as uvas, os pêssegos, embebedar a certeza que estou bem, sempre estive, e me onvencer, não me fazes falta, é uma bobagem ! um jogo! eu vou sair. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2022 – Torres (bom da chuva forte é a ceerteza de que as calçadas se lavam e brilham no dia seguinte)

claustro / a ideia de servir /o silêncio / Beco do Carvalho

O sonho ritual / o latim, uma certeza na tentativa das teclas do piano, a preciosa rotina e tantas certezas! o silêncio e a conversa essencial com todas as mágicas de ser apenas eu comigo, e o colorido, as possibilidades de saber um pouquinho mais dos sentimentos anigos, sentimentos mansos de apaziguar, nunca tensionar. O sonho das meninas talvez fosse mesmo São Paulo e a Filosofia. A reclusão ruidosa de servir. As aulas de Teologia. As vésperas, os rosários, as missas diárias em latim. O todo da memória: a sala de música com o piano de parede, a casa da costura, a minha tortura particular. A ida para a lavanderia duas vezes por semana, caminhada barulhenta, alegre, receber as pilhas perfumadas. Roupas cheirosas, engomadas. E no tempo das pitangas e frutinhas, das amoras a divertida colheita… Se pulássemos a cerca estaríamos no mato fechado, enfiadas no mistério.

A rotina dos estudos: o pavilhão desenhado e pintado com azulejos coloridos Des Oiseaux. E nossas salas de aula, envidraçadas, arejadas. De lá podíamos ver o jardim interno dos pavilhões. Os recreios de confraternização com as Internas, Externas e Simi-Internas ao som da CEli Campello, e a música italiana e o baião. Dançavamos entre nós e com as madres. As cartas chegavam. E os Diários iam se avolumando em detalhes, os livros lidos. Alegria da alegria. Saudade. Aos domingos podíamos almoçar em casa, antes das 17 hoas deveríamos estar de volta. Lembro das chorosas, sentiam saudade de casa, dos pais, Logo que chegavam na escola chorava,. Choravam de dia e de noite. E as Madre Maria Hermínia pedia que eu caminhasse / conversasse com as novatas, mostrasse a escola, descrevesse a beleza, adaptasse as lágrimas. E as abas do hábito se movimentavam, também elas preocupadas. Eu me envolvia com a nostalgia, com a tristeza dela. Consolava minha pequena aflição, afundava nas leituras, escondia a noite nas leituras noturnas, escancarava a janela para que a noite entrasse na minha insônia. Madre Maris Stella também sofria ter saído do Stella Maris, em Santos, lá cuidava das séries inicias – as gaúchas eram diferentes das paulistaas! Ah! As diferenças! Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2022 – Torres (repassando o passado)

no sofá

Tanto tempo não nos visitávamos! Sentei no sofá de onde posso ver os verdes e o céu. Ela trouxe um cálice de vinho, um copo com água, frutas secas. O apartamento é impecável, decoração cuidada: quadros enormes, vasos importantes, alabastros, mas estranha impessoalidade. Ninguém vive naquele salão / naquela casa. Heloisa senta, olha feliz para mim, depois inquieta, depois intrigada, num sobressalto, fala. Pensei, será que posso mudar a vida? Respondo de imediato: sempre se pode. Mas, por quê mudarias agora? Largaste tanto de tudo por este homem! Estás nos túneis da vida dele, a respirar os desvios… Já é a tua vida. Agarraste a vida dele, e assim, entre idas e vindas, já tens o livrinho de colorir completo, cheio, bonito… O mundo nas tuas mãos, sim, ou será nas mãos dele? Não é limite, minha amiga, mas escolha. Entraste. Por que sairias agora?, por capricho? Ou recomeçar? Sei lá Heloisa. Sei lá. Tens razão. A cada recomeço nova / diferente vida. Por que não? Mas, não te iludas, se tu sais, ele fica, não chora, segue… Ele não desarruma nem o fio do cabelo. Aceita tu ficares, aceita tu ires. Por que não te acomodas? E ficamos a conversar sobre recomeçar, parcerias, casar ou separar. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2022 – Porto Alegre –

revisão novembro de 2022

Acordar assustada, no meio do caminho, significa que ela dormiu no meio do caminho, ela, simplesmente, dormiu. Há uma lacuna. Fadiga, ou alucinação.

Voltar no tempo, presa, amarrada. Assim, surpresa… No hoje, circular vaidade, ou expectativa?

Bebe o café, acalma o corpo. Enche a caneta com tinta preta, os dedos ficam levemente manchados, escreve no caderno: Colégio Nossa Denhora das Graças – Cônegas de Santo Agostinho . As Madres.

Decidido, iria para o internato, as lágrimas impressionaram Madre Paulina. Aceitaram a menina que morava em Porto Alegre, da excessão, outras vieram, como a Lala e a Zênia, Cristina, Marta. Éramos poucas portoagrenses, muitas de fora. Eu me sentia recompensada. Teria as minhas histórias de colégio como a mãe que estudou em São Leopoldo no Colégio São José. Como minhas irmãs que estiveram internas no Colégio Americano em Porto Alegre. Ah! Eu tocava / materializava a felicidade.

O enxoval incluia, além dos uniformes, camisolas: lindas! De algodão / cambraia branca, rosa, amarela e azul. Muitas! Duas abaixo dos joelhos, e, as outras, mais compridas, na altura dos pés. Chinelos de couro pintado. Tênis branco. Um sapato de verniz. O bordado inglês segue movimentos variados conforme decotes e abotoados. Lençóis macios, brancos. Dois travesseiros. Cobertores eram mantas coloridas, e uma colcha toda branca. Livros permitido: uma caixa. Entusiasmada acolhendo sugestões eu fiz a seleção acatei sugestões da mãe elucidando a importância deste ou daquele autor, essenciais. O pai sugeriu biografias, ponteiam a história e caminham na geografia. A biblioteca da nossa casa era separa das salas por um biombo precioso, pintado /desenhado em nanquim de Glauco Robrigues representando A Lenda da Salamenca do Jarou. Imponente biblioteca aquecida por uma lareira em lambri mármore. As estantes, em louro separadas e decoradas com lambri entalhado, rosáceas, iam até o teto! A pequena escada de quatro degraus me ajudava. Os livros de Direito ocupam a parede principal, e a Revista Forense com lombada vermelho, tinham letras doradas, as iniciais do pai R.M.B. Mattos. Sentiria saudade dos livros, e da aventura: Eça de queirós. Gilberto Freire, Dionélio Machado, Vianna Moog, Graça Aranha, Euclides da Cunha, Antônio Tores, o teatro de Paulo Hecker Filho, Érico Veríssimo, Alcides Maia. Enciclopédia. Dicionários, e, as revistas de decoração da mãe, em estante especial. Difícil seleçao. Na caixa foi Charles Morgan, W.Somerset Maughan, Thomas Mann, Guy de Maupassant, Georg Sand. Audaciosas leituras para uma menina, Tanto devorei livros! Muitos sem entender exatamente, atropelando, voltando. Riscando (para escândalo de minha mãe) e acertando, como dizia meu pai: faça fichas. Coloque as datas das tuas leituras. E voltes e voltes naqueles que fascinam.

A ida para o Internato, uma conquista pessoal, meio a lágrimas: teria, finalmente, um quarto só para mim, meu quarto, minhas coisa entendidas secretas, e a independência presa/pendurada nos horários obedientes. E toda a altivez das Madres francesas. Educadoras que nos preparavam para a Filosofia. Aulas de piano e solfejo, jardinagem, costura, culinária, cerâmica, desenho com Madre Santo Ambrósio. Caberiam minhas leituras…E o silêncio da mata. Os eucaliptos. ah! Eu estava/era/fui feliz. Gostava dos aventais fechados, como vestidos de verão: blusas brancas, impecáveis. E meias brancas, sapatos pretos. As saias com pregas largas de lã. As passadeiras que da cintura iam para os ombros e finalizavam atrás, permitiam identificar pelas cores a série escolar, o ano que estávamos. Verde, azul, amarelo, branco com risca vermelha, branca (acho que esqueci algumas).