Resolvi começar do começo: limpar, encerrar obsessão. Trocar móveis de lugar, desfazer / doar isso ou aquilo, e limpar. Principalmente, limpar a preguiça e a indolência, a cabeça deste pensar, pensar (inútil) e…
Tua ausência desarrumou o tempo: ventania, excesso de chuva, excesso de sol, excesso de ansiedade, de calor, excesso de palavra, depois, excesso de silêncio.
Leio o último Simenon da estante : La main, céus! Livros me agitam… Literatura perfeita – ação e ‘pensasão’ (excesso de pensar), nada de reprimir e ou reconsiderar. Tritura a lógica: fazer/fazer acontecer. Furar os olhos. Ufa! Que alívio. No ato / ação elimina /mata. Assassina liberta. Este suspense maluco. Sou /somos perigosos. Estrangular sem força, mentalmente. Acertar o alvo com os olhos, sufocar com os braços no abraço. Sentimento corporificado. lizabeth M.B. Mattos – abril de 2021 – Torres
Segunda-feira silenciosa e morna. Ondulam, visivelmente, temperatura e humores. Remexo nas caixas, nas fotos. Procuro pinhas de duas cores e tamanhos diferentes, e outras coisas mais esquisitas, um coelho. Coisas indefinidas, escondidas. Procuro o sentimento fantasia. Esperança de ser/ter tempo. Transcrevo sonho e vontade. Pacote selado dias especiais, festejos. Cotidiano interiorano. Minhas caixas. A saudade não é visível. Não guardei versos nem prosa sobre lareira medieval de pedras rosadas e talhadas. Não lembro do vento verde de mato horizonte, nem das minhas árvores floridas entre jasmins. Esqueço a escada. Corro patamares da casa da Vitor Hugo. Estou em Petrópolis. Escuto o piano, vejo as teclas. Os dois cães pretos espiam esparramados de preguiça na vigília da manhã. Estou lá, não mais aqui querendo sol na babilônia dos meus vasos aquecidos / esquecidos depois da chuva. Pinhas diz o poeta, pensa saudade. Pinhas catadas, viajadas, esparramadas… Segredos pequenos, fechados em buil zipper: segredos presos nos sacos com zipper, clipes, grampos, sacos feitos na medida: vida empacotada que andou do campo pro mar, do mar pra cidade, pra cidade pras caixas ventiladas por venezianas, espremidas, construídas.
Volto ao livro da Siri Hustvedt O que eu amava, detenho-me na capa que traz uma tela Jean-Siméon Chardin (1699-1799): estou nos museus que nunca estive. Estudo arte, escrevo, sofro, construo instalações: caixas e portas, pinhas e livros. Movimento as dores, as cores, e as pessoas, toco em feridas abertas. Fecho a porta do meu quarto, o silêncio não vem. O silêncio, eu perdi…
Não escrevo, penosamente transcrevo: “Eu não quero que as palavras cheguem nuas, como chegam pelo computador. Quero que cheguem cobertas por um envelope que você vai ter que rasgar para poder tirá-las de lá. Quero que exista um tempo de espera – um intervalo entre o momento da escrita e o momento da leitura. Quero que a gente tenha cuidado com o que diz um para o outro. Quero que os quilômetros que nos separam sejam longos, reais. Essa vai ser a nossa lei – vamos escrever sobre o nosso dia-a-dia e sobre a nossa dor com muito, muito cuidado. Nas cartas, eu apenas conto a você sobre o meu desespero, não é o desespero em si que vai à carta. E eu estou enlouquecida. As cartas não podem berrar. Os telefones sim. […] Toda a correspondência é crivada de perfurações invisíveis, pequenos buracos deixados pelo que não foi escrito, mas foi pensado.” (p.213-214) Siri Hustvedt
Agora, meu amigo amado, escrevo ansiosa, fora do palco. É preciso secar o pânico, a tristeza do desânimo, a síndrome escolhida. Reler tuas cartas: os rótulos e padrões são destruidores. A beleza não termina, muda de forma. […] Tuas palavras são de quem ama […], uma explosão de desejo, […] a única trilha que mereces. É a alavanca de mudar o mundo […] mundano jeito de viver. Louca / distraída / apaixonada / perdida ou achada, eu te quero. Todos os dias o medo terrível que abras a porta. Tens a chave. Abras a porta numa hora desavisada em que a camisola não esteja perfumada, que o tapete possa estar tomado de álbuns de fotografia, caixas e sapatos, e a mesa entulhada, e a pia cheia de louça e copos, as camas desfeitas, a música alta demais… E eu grite de susto, não do toque. Depois enlouqueço no teu beijo. Quantos beijos necessários, como posso recolher os perdidos? Acabei de reler tua carta. Um encontro físico agora, não precisamos, enquanto isso… Todo o ‘fazer bem’ substitui qualquer dúvida. Faz bem! Não pensar! Fazer! Ler, ouvir, fazer silêncio – menos gritar – nunca discutir – são antídotos que arrepiam deliciosamente. Aproveita! Não questiona! A adolescência empurra para a maturidade, como é bom sentir os puxões rumo a adolescência…
Tudo lento como se estivesse curvada, às vezes acocorada, usando meus bifocais a catar ensimesmada tuas palavras, teu sentir, teus arrepios. A carta aberta com cuidado por ti, com certeza rindo de mim. Saltará uma boneca de papel com as roupas, um desejo, um beijo materializado. Coisas esquisitas, no fundo uma perdida manhã de carnaval, ou uma segunda-feira de sol. A chuva empacotei também. Amigo-conhecido, desconhecido: fecho a caixa, posto saudade indefinida, queimo pinhas no fogo aceso da lareira, bebo o vinho. Como te amava, como me amaste eu vou te amar…Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – Torres
Se falta ar / se aperta / se não compreendo nem entendo, olho fotos / viajar pode dar certo… ElizaBeth M.B. Mattos
Santo Ângelo, na casa da Mariazinha e do TelmoCom Vera Mattos, minha madrinha na casa da rua Vitor Hugo, 229 – PetrópolisTorres, veraneando com a Magda Franciosi, na SAPTpatota de Petrópolis, aniversário da Magda
Arrepio na alma, uma certa consternação (as notícias), depois, estupefação / calor / medo / prazer. Alma sente assim, desgovernada, ama e desama, tem raiva… e se debruça, sem vergonha. Beth Mattos
Amor deveria ser desmaterializado, como fantasma, imaginação. O amor não deveria ser justificativa disso ou daquilo, nem andar solto por aí a enfeitar cadernos, ou estar nas gavetas. Do amor, se amor fosse o nome deveria ser servidão necessária, completa e obscura. A servidão que abre espaço para o outro ser e respirar e fazer até crescer. O amor tem / deve ser silencioso, manso e cuidadoso, quieto. Agigantado fica musculoso, cheio de poder! Toca o céu, mergulha fundo demais ou no escuro ou na luz, devastador. Engole tudo e termina acaba por triturar aniquilar o que pretende amar. O amor não deve existir como astro, ou como selo, ou como explicação para toda e qualquer loucura. Se colocar no lugar da pessoa a fantasia colorida, saímos a dançar. Desaparece o desejo físico, o tesão. Desaparece o alucinado desejo de querer se satisfazer/ ou satisfazer. Permanece / fica/vira encenação para ser aceito/a entre todos, para exibir no baile, nas calçadas, entre amigos, no bar. O performático atuar / representar destrói qualquer possibilidade de satisfação, tira do foco / exclui o sentimento. Tira do foco o desejo, a tesão. Se necessários / importantes são estes artifícios: passeios imperdíveis, viagens extraordinárias / incríveis/ cenários suntuosos, cuidado! Desconfia. O sentimento desaparece. Os pretextos se transformam em essência. Fantasia e malabarismo nada acrescentam. A igreja, o altar, os convidados, a pompa da cerimonia, a tal mencionada / sonhada viagem, o banquete, e as pessoas também são acessórios luxuosos, supérfluos. Este cenário camufla / esconde / atrapalha / abafa os gritos, as risadas: tira a fome, afoga, aprisiona no vazio. Eliminam a dor. As palavras matam, assassinam. Se fosse possível desmaterializar o sentimento, desvirtuar (tirar o véu da virtude/destas mentiras formais / convencionais), deslocar, eliminar palavra. Nós nos jogaríamos um nos braços do outro naquele gramado, naquela praia, naquela praça, naquela cama. Tu e eu, eu e tu. Vejo, sinto, pressinto, sinto outra vez, desconfio do amor. Já tirei a roupa, já me deixei tocar e beijar. Subi as escadas, desci as escadas. Vesti o estampado de verdes e avermelhados, o mais curto, depois o mais longo. Usei decotes insinuantes. Uniformes e meias escolares. Andei nas pontas dos pés, unhas pintadas de vermelho (porque eu gosto). Calcei os sapatos com saltos altíssimos, e as sandálias brancas. Encontrei as botas… Sentei sem modos, cantei nos teus ouvidos desafinando. Ensaboei o corpo para que tu pudesses sentir o perfume e me pentear depois da chuva. Embarrados, afundando os pés e cavando com mãos para plantar cravos, violetas no canteiro das rosas. Ah! O que choramos, o que gargalhamos já esquecemos. Não é amor, somos nós dois do jeito que somos. Inventamos. Experimentamos. Desafiamos, descobrimos o corpo um do outro. O mundano dos excessos a escandalizar os vizinhos puritanos deixamos / permitimos o tesão desejo alucinar. Homem / mulher/ criança juventude/ velhice / desesperança ou…, tudo igual. Exausto sentas na frente da televisão, aumentas o som, procuras o canal dos jogos, os teus preferidos, abres a cerveja nem tão gelada… Vou saindo devagar e eu te espio, dormes na cadeira, os sapatos jogados, a camisa aberta (esqueceste de fechar os dois botões, o rasgão do arame farpado parece maior… E ontem estavas tão elegante para viajar!
Ah! Esqueci de te dizer que comprei os chocolates para a Páscoa – terás o que distribuir. Não sou a mulher mais bonita, não sou a mulher mais inteligente, não sou intelectual, ou especializada, se vasculhares nas minhas gavetas e remexeres e procurares vais encontrar pedaços engraçados/divertidos de te amar, desejar, fantasiar e fugir… Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021 – Torres (já estou na praia, outra vez)
O fantasma da Ópera (The Phantom of the Opera é um musical composto e co-escrito por Andrew Lloyd Webber, baseado no romance homônimo de Gaston Leroux. As músicas foram compostas por Andrew Lloyd Webber, com letras de Charles Hart e letras adicionais por Richard).
Ao confessar se desvia, ao contar se esconde. Quando diz…, esquisito! Eu completo, e me engano, tu acertas, eu me surpreendo. Sou o que desenhas na tua lembrança/memória, e gosto de mim quando estou em ti / contigo. Volta logo. Simenon escreve/diz que uma pessoa não morre enquanto permanece viva na memória de alguém. Estico os dedos, as mãos, os braços e posso te sentir, tocar porque te penso… Beth Mattos – março de 2021 – Torres
“[…] un être ne meurt pas tout à fait tant qu´il reste bien vivant dans le coeur d´un autre” George Simenon – Memoires Intimes – suivis du livre de Marie -Jo
Existe o tempo, aquele tempo que não espera, existe uma estória, uma história -, e na verdade não esquecemos nada, nada, nada, nada. O passado segue hoje. Pois é assim… (te apressa)
Apenas continuamos a caminhar. E os fatos atropelam: precisamos reagir, sobreviver. Sem machucar ninguém. Ninguém. (difícil, eu sei)
E se vamos levantar a cabeça, sair, esquecer, recomeçar, igual seguir, ou começar, o tempo volta, e nos atropela. Será a memória um bem, um mal, uma permanência? Beth Mattos – 25 de março de 2021, em algum momento desaparecemos.
Rio de Janeiro 1976/ 1975 – Viúva Lacerda – Largo do Humaitá
Espetáculo, palco e vida na plateia, contigo (escolha minha/ gostaria que tivesse sido tua), sigo a linha e a tua voz, tuas inquietudes positivas, teu agora… e esta tristeza enfiada no quarto, na sala, distraída e revolucionária. (24 de março de 2021 – vacinada em Torres)
Aquarela de Marina Pfeifer / março de 2021 -Florianópoles – mastercopy do aquarelista John Yardley
1.
Reli as confissões, não exatamente confissões, estas deixo com Santo Agostinho, digamos, relatos atropelados, tuas grandes e boas histórias salvas na minha memória. Claro, não te perdi em nenhum momento, e te encontro/reencontro em outros tantos momentos esquecidos, agora lembrados, (por que não fui seduzida, desencaminhada, ou achada por tuas artimanhas?). Colei o que escreveste, às pressas, na minha memória, arejei nomes e lugares. Aborrecida por não ser eu contigo. Nem eu comigo como sugeres. Não protagonizei nada. E, casualmente, fatalmente, estávamos, tu e eu, nos mesmos corredores. No mesmo palco, com os mesmos holofotes. Escutar tua voz, acertar os intervalos. Dançar, escutar Roberto Carlos, (Eu te proponho!) ou mesmo Aznavour, ou…, céus! Elis Regina. E dançar, assistir filmes arrastando as cadeiras, jogar cartas, e praia e praia e sol e sol. Fizemos tudo juntos, separados pela rede.
2.
Se agora aos setenta, bem, por/com sorte, aos oitenta, me fazes retomar / repensar / cuidar destas vontades reprimidas, deste tesão (vontade grande / desengonçada) guardado. Se alucino durante a reclusão confusa desta pandemia, sem data, sem atino, eu te gosto. Se pudesse esquecer tudo, pegar tua mão e fugir, se contigo ou sem tigo, eu sairia da tristeza? (Vamos lá rir de nós dois, consertar o passado, ouvir música no escuro.) Um beijo, dois, ou três beijos escondidos no breu da noite escura/preta/ estrelada; ah! O concerto de violinos, alegria musical, engraçada (?), não, alegria séria, seríssima, e ousada. Transgressora e, um pouco, ou muito satisfatória. Escondida de mim, escondido de ti mesmo, de todos, dançaríamos ou não, dançar não, mas provar desta estranheza de fazer o proibido, que pode ser livre, um agora, ora… Ou um escândalo amoroso…, eu espero: amorosidade = generosidade. Cúmplices. Numa adolescência compreensível. Com fantasia, agarrados no impossível, suados pela caminhada, desconcertados neste conserto com música, a música das tuas canções.
Investigo. Converso com Poirot, embora ocupadíssimo, abre a porta. Num envelope com data entrego mais uma mecha dos meus cabelos. Explico o assassinato, e num sorriso confiante, digo que foi teu conselho resolver este caso descabido. Ele me olha integrado. Resolve me atender. Explico que estava familiarizada, com o trabalho de Maigret, mas devido a preciosa indicação… Eu entregava minha vida aos seus cuidados. Contei em detalhes a tentativa de suicídio (não aconselhada por ti), e, logo, imediatamente, rechaçada por mim. Da tristeza do momento. Preocupação de deixar a pobre peluda, minha Ônix, desacorçoada a recomeçar a vida com outro dono, coloquei o problema da cozinha, dos quilos excedentes, e desta vontade ensandecida de te beijar, numa espera lenta de reviver a vida. Ele me fez sentar. Escutou paciente. “A sedução física, funciona e se mantém no mental…, imaginário.” Explico apressada, amor avassalador, leio em voz alta as cartas escritas por ti. Reflexões, e vou logo perguntando: Como posso curar esta loucura sem cometer outros assassinatos, sem invadir portões, seduzir cães para roubar-lhes o dono? Sempre os cães! E querer o que de fato/razão não me pertence. O gramado, o jardim, o calor, as alucinações. E já suada e ansiosa. Com medo da pandemia, das sirenes, e da polícia, que sem máscara me interpelaria… Sou eu mesma que cometo estas loucuras? Desatinos de morte? Quem está envolvido? Tantos desparecimentos determinantes e não mencionados / descobertos. Serei apenas eu a responsável? Preciso de ajuda.
3.
Aquela tristeza aguda da melancolia trava qualquer alegria, e o ânimo se espicaça apático. Estou a me questionar o que significa alegria? Saúde. Estarei doente? Uma coisa feia escondida dentro de mim, alguma coisa que não se explica. Dores de cabeça ou qualquer coisa presa na cabeça, nos olhos, nos pés, neste estado permanente de desconforto… As boas e as péssimas energias. Frestas / portas abertas…Toda força desaparece, quero voltar para mim. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2021
Foto de Ana Moog – março de 2021 – Praia da Cal – Torres