cupins

Atuantes e eternos. Formigas, mosquitos, eventuais e insistentes moscas. Eternos. Livre de baratas e outros cascudos. E o tempo? O tempo civilizado se escoa nestas tarefas estafantes e cheias de veneno. O terreno, a terra de viver precisam ser domados, desinfetados. Edifícios sobem, gigantescos: o cimento se encoraja, e o jardim diminui: vida de caixas, empilhadas, envidraçadas e confortáveis. Ordenadas. Elizabeth M. B. Mattos -dezembro de 2020 – Torres

medo assusta

Estou toda errada, estou toda perdida, assustada. Também indefinida. A chuva trouxe/deu alívio, prazer. Onde está a barreira? Preciso saltar. Não aconteceu nada, eu foi tanto! Fragilidade, o repente de um instante entre o medo e a coragem, o jeito estupefato/perdido e entregue. Sentimento de…, pois eu não sei descrever. Quero me livrar / jogar pra longe. Despejar, e não sai.  Aconteceu na terça-feira de manhã. Eu carregava um desalento qualquer, um cansaço e o rapaz percebeu. Depois o dia se agitou inteiro: derramei em tanto falar sem dizer. Dormir na quarta-feira. Agora uma insônia desajeitada. Inquieta. No celular as digitais. Da perda aquela luz de espiar e aquietar se desmancha. Jogo de paciência. Estou inquieta / agitada e… No espelho vejo uma coisa estranha sem semblante, opaca imagem fundo e dolorido. Procuro a dor e não vejo, não compreendo. E estou outra vez entregue e fraca e desajeitada sem saber… O que será mesmo que precisamos saber pra voltar a ter e ao dizer estar/ sim, estar aqui agora é preciso. Neste instante, neste agora o medo. Tão rápido! Talvez passe logo, compro celular novo… A mágica será o brinquedo. Vou esquecer. Eu vou voltar. Associações. Energias esquisitas / de certo preciso rezar. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2020 – Torres

do calor

Do calor ao frescor. Já me sinto melhor. Cansaço atravessa o corpo aflito, mas escapa pelas mãos. Olhos se fecham para o sono pacífico: tudo já passou. É bom! Chove forte e chove ruidoso, cheio. Gosto de chuva. É chuva de verão. Chove bastante…Beth Mattos

alegria generosa de Luiza

De repente deu vontade/ deu saudade do e de você. Este pronome agrega/ presenteia alegria/ bastante dor, bem verdade/ bastante triunfo também. Coisas da vida. Coisas de ser você. Depois gauchei, e passei para o tu / bobagem! Coisa de F.T.! Nunca deveria ter abandonado o você mesmo tendo voltado ao tu. Agora a volta se esticou / ficou grande, quase enorme! Talvez eu esqueça de você… Mas Joana não esquece de mim, e lá estou faceirando com Clarice Lispector Todas as CARTAS – Primeira Edição – Rio de Janeiro: Rocco, 2020

Estas coisas de Primeira Edição tem gosto de Natal, de surpresa/ de amorosidade. De preciosidade de olhar / acertar e escolher. Filhos abraçam e festejam / netos iluminam… Coisas de amor. Coisa de não explicar. Abençoar e agradecer: ser feliz. Alegria de ter amiga como a Luiza. Presenteia natalina, gentil, amiga da delicadeza, daquele carinho “não explicado”, mas cheio de sentir de estar perto de ser ela, bonita e generosa. A gente sente. Você sente! Adorei o lenço (precioso) e exuberante, lindo! E o nosso estar junto piquenique de fofocas, as nossas e das doçuras. Apenas você (ou apenas tu sabes) sabe desta coisa de surpreender numa tarde amiga, eu encavernada. Já Natal! Amiga obrigada pelo punhado de risadas, as nossas, suas e minhas!

“Carta curta, mas carta sua. Já há dias recebi carta de Tania e você não escreveu por falta de inspiração. Que menina impossível. Mas eu bem compreendo e sei que às vezes não se tem o que escrever mesmo quando se tem o que falar.” (p.158) Clarice Lispector [A Elisa Lispector] Nápoles, 20 de abril 1945

Sentimento esconde o ‘desajeitado’ impróprio. Mormaço esconde desconforto. Salva-se amiga! Gloriosa, generosa amiga! Sempre ela… Ternura aquece, e o amor explode…

OBRIGADA Luiza, são tantos grandes e pequenos gestos! Somos blindadas pelo A M O R!

Chuva salva / depois de trovoadas entendo melhor, um pouco mais… Sou eu a sufocar, respiro. Livre! Obrigada! Ser presenteada tem a graça móvel! Estou pedalando uma bicicleta em volta da lagoa! Beth Mattos

coração desprotegido

Tanta coisa. Tanto tempo! E aquele quase nada escondido. Pequenos pecados. Um nada que avança. Estes pecados, os mais cruéis, sem perdão, atormentam… Contra a integridade . O Eu perdido em desencanto. Aquele Eu que perambula na criança que somos/fomos se agigantam quando jovens adultos. Velhos, voltam como tempestade. Beth Mattos – dezembro de 2020 – Torres

Terei que ter a coragem de usar um coração desprotegido e de ir falando para o nada e para o ninguém? assim como uma criança pensa para o nada. E correr o risco de ser esmagada pelo acaso.” (p.13) Clarice Lispector A Paixão Segundo G.H.

Tanta coisa. Tanto tempo! E aquele quase nada escondido. Pequenos pecados. Um nada que avança. Estes pecados, os mais cruéis, sem perdão, atormentam… Contra a integridade . O Eu perdido em desencanto. Aquele Eu que perambula na criança que somos/fomos se agigantam/agraúdam quando jovens adultos. Velhos, voltam como tempestade. Beth Mattos – dezembro de 2020 – Torres

Clarice Lispector

Então isso era a felicidade. De início  se sentiu vazia . Depois seus olhos  ficaram úmidos: era delícia, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinada docemente, aos poucos. E o que é  que eu faço? Que faço  da felicidade? Que faço dessa paz  estranha e aguda, que já  está  começando  a me doer como uma angústia,  como um grande silêncio de espaços? A quem dou minha felicidade, que já  está  começando a me rasgar um pouco e me assusta. Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, muares de pessoas não tem coragem de pelo menos prolongar- se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é  sentir – se feliz e preferem a mediocridade. Ela se despediu de Ulisses quase correndo: ele era o perigo.” (p.76-77) Clarice Lispector-  Uma Aprendizagem ou O livro dos prazeres 

Tem sempre um perigo gente por perto, mais do que muitos precipícios e armadilhas. Ela sabia da vida e das coisas e de escrever. Estamos a homenagear a única, a especial LISPECTOR. Eu a conheci na casa do meu sogro Vianna Moog. Tão mágico, tão único, que depois do Boa Noite eu fiquei muda. Exuberante. Fumante. Incomum. Inquieta. Enfim: a Clarice Lispector que conhecemos pelos seus escritos. Livros e correspondência. E, como não podia deixar de ser, uma beleza exótica. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2020 – Torres

a gente se esconde na vida possível que encontra para viver, escolhida ou imposta, certa ou errada

…somos nós/sou eu/ és tu a respirar. Gostava de ter cabelos compridos. Gostava de ter tempo no meu ócio organizado. Gostava de brincar. Gostei de namorar, dançar. Do prazer alegre. Gosto das pessoas. Do beijo. E das palavras. Minimamente encontrada, minimamente perdida, talvez achada (Céus!) e feliz, talvez. E gosto muito de Árvore de Natal enorme / grande / ou pequena a iluminar este mês de dezembro. Até gosto de quem não gosta de nada disso. Elizabeth Mattos – dezembro de 2020 – Torres

Da leitura da tetralogia de YUKIO MISHIMA

Juventude, empenho em mudar/ transformar. Marcar a ferro cada geração: jovens definirão o jeito/ a forma/ a política / o entorno / o mundo / o jeito de ser. Trocam / alteram / desenham roupas. Sublinham rituais. Penso no quanto fui omissa, alienada e subserviente. Nada fiz de relevante, ah! esta pequena história de moça bem-educada, comportada (ou nem tanto!) de nada serviu. Enfiada em belos vestidos, exigente para bainhas bem-feitas, e cores, e tecidos ou sei lá o que exatamente. Escovar muito e muito os cabelos. Caminhar pela praia, chegar ao rio Mampituba. Dançar, dançar, dançar e, ainda, dançar. Hoje, as academias. Exercícios. O corpo sadio. Alimentação. O brilho de uma prática agregadora. Sentada na minha velha, velha, velhíssima cadeira, enquanto leio, a pensar, espio pela vidraça e vejo velhos, jovens e crianças na calçada, a grande maioria caminha num ritmo de exercício… Este movimento alegre no final da tarde me fez pensar no que era/foi e como era… Claro! Onde estarão, em outras cidades, estes jovens, estes velhos… Ninguém espera acontecer, faz acontecer. E volto para minha mansa / quieta / rotina de ser eu. Como foi, exatamente, chegar a minha serenidade agitada? Claro, Yukio Mishima conta/explica/ narra a história do Japão, atravesso o tempo. Vejo as montanhas, campos de amoras, caquizeiros, cerejeiras, carvalhos, rios, templos, devoção, crisântemos selvagens. Atravesso o livro com o coração aceso. Vou para tão longe! Entendo o Budismo, quero chegar a Confúcio. Acompanho os olhos de um leão em Isao, acompanho a reencarnação. Volto para cumprir/realizar o que não foi possível naquela vida, a outra, mas precisa ser feito. E o feito escreve a história do mundo. Somos flores, não pessoas, somos uma parcela mínima, e gigantes. Somos pássaros. O essencial importa, não o amontoado de palavras vaidosas, o silêncio real. Mas nada sei do essencial. Vejo o Sião se transformar numa monarquia constitucional. E a tarde na beira da Lagoa do Violão me parece tão extraordinariamente perfeita e adequada. As tardes de sono empurram o cansaço do meu corpo, estou revigorada. E posso fazer/ fazer/ fazer/ e também seguir lendo. Tudo me parece tão singelamente natalino! Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2020 – Torres

Yukio Mishima

O verão ameaça / sufoca, mesmo na madrugada (que deveria ser diferente),

Está tudo tão / tão, completamente, parado! Beth Mattos – dezembro de 2020 – Torres

“Tudo era em vão. Lembrou – se de um velho poema que um kendoca experiente lhe ensinara:

Tentar não pensar

já é pensar.

Portanto, até mesmo ‘Não pense!

não se deve pensar. ” (p.223) Yukio Mishima Cavalo Selvagem