“chutamos o balde”

Chutamos o balde. O meu pai organizou tua chegada. Casa espaçosa, enormes janela festivas. Uma espécie de escritório ateliê. Luxo de sofás brancos. Nas paredes quadros do Eduardo Vieira da Cunha. Alegria em sorriso largo. Escancarada descontração. Descalços, rimos muito, sem planos: a pandemia limita a vida ao jardim de rosas da Marina. Pitangueiras, um gramado ensolarado. Imediatamente te levei uma pilha de papéis. “Vais me ajudar a montar um livro, quando tudo se resolver, a publicação. Vais cavar meu sonho!” Eu jovem, muito jovem neste dezembro. Tu com teu sorrisão! Como faz frio nos enrolamos numa manta como dois meninos. Fiquei tão pequena ao teu lado! No fundo da sala, em baixo da escada que leva ao solário baldes coloridos, deveriam ser uns dez ou quinze. Rimos muito. Quatro horas da manhã! Vou voltar para a cama… Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2020 – Torres

Eduardo Vieira da Cunha

o peculiar dos segredos

Há algo de muito peculiar nos segredos. Há certas coisas que, pelo próprio fato de serem tão simples, tão bem conhecidas, se tornam secretas. Seja como for, aqueles de nós que conhecem esses segredos carregam, de fato, uma pesada responsabilidade.

Se a pequena verdade vira / ou se transforma em som/palavra, o constrangimento. Existe qualquer coisa de secreto que se esconde na dobra do vestido. Na cortesia. Existe o secreto que salva. Depois de pensar e pensar. Abro o armário para a limpeza anual, a contagem da guerra. Devagar arrumo aqui, ali. Ainda não encontrei o livro do Alberto Maravia (faz semanas que procuro), e me aborreço com as perdas… Copos se foram, um pires. Dois pratos. Inventário amoroso. Do meu farol a música. Sou útil. Podes ver, fotografo.

E apesar de que nós conduzimos este povo ignorante, e que persiste em sua ignorância, passo a passo ao longo da estrada que leva à felicidade suprema, ele desanima, pois o caminho é íngreme. Logo dão ouvidos ao diabo que sussurra: ‘Olhe aqui, veja como este caminho é mais fácil’. E quando eles veem como é encantador o outro caminho, com flores em profusão de ambos os lados, atiram – se nele de cabeça e acabam mergulhando no abismo da ruina. Como os empreendimentos econômicos não são nada benevolentes, devemos previr que uns dez por cento se tornarão vítimas, enquanto os restantes noventa por cento serão salvos. Mas se não tomarmos nenhuma medida, será a totalidade dos cem por cento que irá alegremente para a destruição. Suponho, então, – replicou o Visconde de Matsudaira -, que os dez por cento que são os agricultores devem resignar – se a morrer de fome?“(p.165) Yukio Mishima Cavalo Selvagem / Mar de Fertilidade vol. 2

O segredo se movimenta inquieto quer saltar / se libertar: a conversa precisa existir/acontecer completa, sem rastejar nem reticências, mas nunca acontece por inteiro. Não se trata de confissão. Dou voltas, e voltas, a cada um seu próprio rumo. O inesperado. Não vais resolver. Há qualquer coisa de sério a ser dito, mas eu não falarei/não direi: meu pecado, não denunciar/ não expor, apenas escutar, covarde? Ou cautelosa. Vou escolher um sorvete, logo vai parar a chuva. Dezembro diferente. O livro de Yukio Mishima empurra a noite. […] “se mantivermos nossas reservas monetárias a um nível adequado, evitamos uma queda em nossa taxa de câmbio, e ganhamos a confiança das nações. Essa é a única maneira de o Japão se dar bem no mundo.” (p.161)

balanço

Acordei cedo hoje! Dormi cedo. Hora errada, pobre da Ônix!, esquecida na varanda-canteiro alarmou o prédio, e CÉUS! Como responder e agradecer e pedir desculpas? Revolução. Fechei janela e apaguei a luz, dormi outra vez. Dormir: passar o apagador num quadro de giz. O livro terminou. Estou naquele período intermediário, sem vontade de fazer limpeza / ordem, ou qualquer coisa prática. O tempo? Estranho! Um novembro frio. Sinto a garganta. Espero não me resfriar. E me enrolo nas mantas. Talvez chova, talvez fique apenas cinzento. Pessoas caminham nas calçadas, dia começa. Amanhece. Liguei o rádio. Arrumei as camas. Passei o café. Esquentei pão. Nada de regime. Quero emagrecer: ao longo do dia me concentro na dieta, mas amanheço com pão e manteiga. Automático. Vício. A geladeira, coitada! Cheia, lotada! Como se aqui vivesse uma família inteira. Não. Sou apenas eu: gulosa e compulsiva. As frutas pintam a casa, dão toques de vida e cor e ainda perfumam… Viver em sabor de chocolate, a doçura de ser amado / amada / acarinhada. Céus! Preciso organizar e fazer e ter e ser e começar e fazer/ e fazer e fazer… Alugo uma casa e alugo um jardim, planto roseiras e cravos e crisântemos. Pequena fantasia. Estica na janela: olhar perdido! Eu a vejo se movimentar, penso na Mabel e no Bento, por que não estou numa casa? Com árvores, jardim, cheiro de mato e vida nova… Vida nova. Será o mar o bruxo do tempo! Preciso arrancar memória, passado. Depois transformo em jardim sem inço, sem rosetas, apenas jardim… Outra vida. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2020 – Torres

sem estrela

Como era estranho ter uma impressão tão misteriosa, porém tão distinta, de já ter estado ali! Talvez isso se relacionasse a uma experiência real. Talvez quando criança seus pais o tivessem trazido àquele lugar. De qualquer modo, sentia que a forma daquela casa se preservara perfeitamente em seu coração, como um jardim pequenino mas cheio de detalhes, envolto em bruma.” (p.120) Yukio Mishima Cavalo Selvagem – Mar da Fertilidade vol.2

Talvez o único lugar definitivo de minha vida tenha sido perto/junto de meu pai e de minha mãe. Não sei bem riscar / determinar. Se quando criança, ou jovem – mãe ao me socorrerem de inquietudes. Se do tempo dos desenhos aleatórios de um Rio de Janeiro triste que eu vesti / pintei de alegria. Não existe lugar seguro. Todos podem ser tenebrosos e incertos. Infância seria o bom país, mas escutamos/sabemos das barbaridades / insanidades que ocorrem. Depois, depois sem pai e sem mãe; uma luta cega no tempo. No casamento certezas ambiciosas e corajosas, mas violadas. Há quem se volte para a luta engajada, e arraste ideal. Ao resultado pífio de uma decepção lavada. Com certeza no braço do amado seria a paz , um jeito certo / ou esquerdo de acertar a quietude. Depois vazio. A idade descreve outro mundo, outro rumo, outra força ” tudo isso era estranho ao seu modo de pensar” -, qual será meu modo de ser, quem eu sou? As palavras escorregam: pelo fio telefônico, por uma carta encabulada, um pensamento desarrumado. Uma incerteza. Queria tanto descansar a cabeça, esticar o corpo num lugar colorido. Encher de gostosura uma xícara de chá. Saudade de abraçar e ficar muitas horas, sem relógio, a dizer o impreciso. Caminhar por atalhos e chegar ao mar… Hora esquisita de contar o tempo: sou a loucura deste vazio. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2020 – Torres sem eco, sem chuva nem vento. Deve ter estrelas no céu, mas não vejo.

…, não sei! beijos embrulhados

Sentei para escrever sem foco, sem assunto. Dezembro chegou, o ano termina. Expectativa pessoal zero/oca, não sei. Vou sacudir o Natal. Bom! Esforçar – me. A vacina bate em várias portas: o vírus, talvez, deixe de assombrar. Serão chuvas, depois ventos. Seca e frio congelado. Estes fenômenos enrijecem o corpo. Descrevo o amor: descongela, esfria, desaparece na ventania. As certezas chegam lentas e famintas. Passo os últimos lençóis, as fronhas da semana, e aproveito o encerado do assoalho, a limpeza. Imagino organizar outro armário, revisar o conto de Natal, amontoar papéis. Olhar pela janela o castanheiro. Tirar fotos. Olhar revistas. Passar um café. Descobri que estou no tempo dos dinossauros: uso pó de café, coador, e aquele jeito já passado de passar café. (Claro! não deve ser apenas eu.) Sem máquina. Sem micro-ondas, sem panelas mágicas, faço tudo como era antes, e gosto. Corto meus cabelos com uma tesoura de picote (ficam engraçados), e este não cuidado, claro! Deve ser o novo cuidado. (Repito a mãe: cabelos jeitosos, fartos, arredondava os seus em casa). Adoro tesouras!  Prazer em abrir gavetas. Roupas, quinquilharias, o passado tão, milimetricamente, dobrado, ordenado. Prazer! Elizabeth Mattos – dezembro de 2020 -Torres

beijos embrulhados, o presente, no futuro vira carinho e amorosidade / Natal feliz?! esforço e alegria

sem sentir

Sem sentir escrever se esvazia. Não adiante insistir. Escrever precisa alma e porquê. Escrever precisa dizer. Impulso. Garra, incerteza… Dança. O livro feito, a história contada, o enredo perfeito. Oco. A beleza intrínseca murcha. Dor escabelada. Sentimento a gemer, agarro as palavras, desenho o/este tempo de sofrer a te consolar. H á de passar. O grito se perde. Rua vazia, mundo vazio: a morte carrega todos. Sentimento devastado e loucura. Há que chorar, chorar, chorar. Lavar a calçada, a praça, o tempo, com lágrimas, com lágrimas lavar alma. Cuidado…esfrega o rosto, deixa correr o tempo. Não vai embora a dor, mas ela se esconde no possível do meu/do teu corpo. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

irmã não pode morrer

Ando muda. Muda. Triste. Minha irmã morreu, parada cardíaca. Estava bem. Foi um choque. Irmã não pode morrer, Beth (diz/escreve minha amiga). Leva tua metade. Tua mamadeira. Tuas cirandas. Tuas brigas. Tuas bonecas. Tua primeira bicicleta. Teu equilíbrio no muro. Teu brinquedo de casinha. Teus brinquedos. Tuas invejas, teus namoros, teus primeiros cabelos pubianos, teus medos, teus sonhos, teu ódio por ela, teu amor amor por ela. Faz um mês. Chorei alto como criança! Não deixei ninguém falar comigo. Não quis que me dissessem ‘meus sentimentos’ (que sentimentos????????) fiquei três dias sem falar. Nem filhos quis ver nem falar. Estou assim ainda. Vai passar. Todos morremos. Mas irmã não pode morrer. […] Claro que estou louca para falar sem parar. Sem vírgulas, sem respirar.” Luiza Silla

E eu só poderia abraçar. Abraçar abraçar e entrar no teu silêncio. Tens razão, irmã não pode morrer. Elizabeth M.B. Mattos – novembro 2020 – Torres

Foto: Marina Assis Brasil Pfeifer

poder do inacabado…

Tempo…, e poder. Aconteceu tudo/tanto, mas não conosco. Escrava rainha. Livre submissa. Amante/amiga, sem me tocares, meu amado. Sabias de mim. Do meu eu. Permitias meus voos e desvios e desmandos. O que aconteceu? Não sei. Homem fiel em todas as tuas infidelidades. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

Artista menciona/discursa/agarra o inexplicável sem aprisionar. Agarra/ persegue. Viagem que não termina / não terminou…, não se repete / e continua. De repente eu sinto diferente… Bom reencontro. Obrigada. Obrigada. Furiosa tantas vezes! Amarga desiludida: agora agradecida.

No passado, Honda gostava de falar sobre os dias que vivera com Kiyoaki. Mas à medida que o homem envelhece, a lembrança da sua juventude começa a agir como uma verdadeira imunização contra futuras experiências. e estava agora com trinta e oito anos – uma idade em que a pessoa se sente estranhamente despreparada para dizer que já viveu, mas reluta em reconhecer a morte da juventude. Uma idade em que o sabor das experiências se torna um pouquinho amargo, e dia a dia se sente menos prazer nas coisas novas: uma idade em que o encanto de cada diversão logo se desvanece. Porém sua devoção ao trabalho o protegia das emoções. Honda se apaixonara por sua vocação, estranhamente abstrata.” (p.10) Yukio Mishima Cavalo SelvagemMar da fertilidade (tetralogia) – vol. 2

Esquisito voltar a te encontrar: atração. Frio vazio neste verão de novembro após temporal, chuva e vento batendo forte nas janelas: já me visitavas, e eu não compreendi.

“Quero acariciar o tempo”, Teresa

“O Tempo que me interessa é apenas o Tempo que eu fiz parar e do qual minha mente cuida com toda a atenção.“(p.402)

Fico a me deter no amanhecer cinzento, pós chuva e frescor / cor/ ardor/ dor, (estou presa nesta rima Nabokoviana, como se fosse pedaço meu. Efeito da bebedeira borbulhante desta leitura. Não. Não aconselho. Transito/vou/caminho por cavernas estranhas e peculiares ao descontrole de amar. Estou intensa, esfuziante o que responde ao comentário ardente / ardoroso/ amoroso do Fernando.

[…] “Presente é a extensão de tempo da qual temos uma consciência direta e efetiva, com resquícios de Passado recente percebido ainda como parte do momento imediato. No tocante à vida cotidiana e as confortos habituais do corpo(saúde razoável, músculos relativamente fortes, a possibilidade de respirar a brisa verde e de sentir ainda na boca o gosto mais deliciosa do mundo – um ovo cozido), pouco importa que não possamos jamais gozar o verdadeiro Presente, que é um instante de duração zero, representado por uma bela mancha, assim como o ponto geométrico não-dimensional é representado por um sinal bem visível em tinta impressa num papel palpável.”(p.410) Vladimir Nabokov – Ada ou ardor

Teresa, minha amiga, como agradecer a indicação desta leitura plural, intensa! Sigo presa ao livro (todas as despedidas de amores ardorosos demoram a sair do corpo, apontam/despontam numa coceira irritante, prazerosa). Palavra, expressão, ou afirmação me faz ou me leva a refletir. Vocabulário. Filosofia, botânica, ou viajar pela Suíça a brincar com sabores e perplexidade. A vida proibida do amor, e as implicações diabólicas. Este é Nabokov.

Quando eu era menino, disse Van, e visitei a Suíça pela primeira vez – não, pela segunda -, pensei que ‘Verglas‘ (gelo derrapante) nos sinais da estrada era o nome de alguma cidade mágica, sempre além da próxima curva, no fundo de cada descida cheia de neve, nunca vista, mas esperando para aparecer na hora certa.”(p.415)

Não posso dizer nada que não seja sorrir… Acompanho a viagem /o prazer / a surpresa de quem conhece a Suíça de anos e anos.

Através do livro Lolita conheci os Estados Unidos, longa viagem de carro. Agora estou noutro lugar, noutra temperatura… Amo viajar.

Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres