Ouve – me

Ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que te falo, e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão.” (p.14) Clarice Lispector  Água Viva 

Ela escreveu arrastando/rasgando o coração. Leitura incompleta e inquietante, não definida porque não termina… Clarice no poder de espicaçar e pisotear acerta o prazer. Constrói outro mundo, pinta e entrega o segredo de desvendar. E sempre será o mistério repartido. Tantas fracções! E todas interligadas. Beth Mattos – dezembro de 2019 – Torres

pesado

O verão não começou. As decisões estão no ar…, e as conclusões, apenas, espiam inseguras como se tudo, absolutamente tudo, dependesse do teu/meu olhar e sentimento, dependesse do verão. Acordo do sono, e dos sonho  estonteado: tantas cerejeiras em flor, videiras de magnólias e dálias. O verão com poderes de sanear qualquer frustração, aliviar qualquer mágoa e restaurar a felicidade perdida. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres2019-12-06 13.06.58

escancarado

Não consigo. Ando meio, muito, bastante enredada num jeito devagar e atrapalhado de levar o dia. Falta energia. Falta e falta um pedaço do puzzle que se atrapalha em tanto verde, nesta passarinhada que acorda, neste sol de tão cedo! E tanta noite resmungando sono picado! Estou a ler devagar, tão devagar que releio e volto.

O caminho que estamos tomando não é uma estrada. Kiyo; é um porto, e acaba em algum lugar onde inicia o mar. Não há nada a fazer.” (p.247) Yukio Mishima Neve de Primavera

Nada a fazer esbarra com desordem e com a necessidade de tanto fazer interrompido. Não faço. Deve ser a ponte…

Já foi dito, em tantas coloridas e certeiras palavras. Voa certeza, e pendurada no galho da buganvília, soa:

Todas as noites quando vou dormir penso: vai terminar amanhã, algo de irrevogável vai acontecer amanhã; então, por estranho que pareça, adormeço calmamente. Exatamente o que estamos fazendo agora – alguma coisa que não poderá ser desfeita.” (p.247)

A pensar e  a repensar e voltar.

A consciência de cada homem é limitada ao seu passado, seu presente ou seu futuro numa única vida. No meio do torvelinho da História cada um de nós constrói seu abrigo de autoconsciência do qual não pode sair.”(p.223)

Assim eu consigo entender um pouco, um pedacinho de como tudo aconteceu e entender da inconsciência de ter vinte anos, e do rumo faceiro, talvez corajoso de vida enroscada, e lambuzada de esperança. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres no seu segundo dia de um verão escancarado.2019-12-08 16.29.06

Flores para esperar o filho. Que venha apressado, mas venha para o abraço! Tão bom!

Vivendo (…) MARINA TSVETÁIEVA

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“Ouça, meu amor é leve. Não será doloroso nem incômodo para você. Entrego – me totalmente àquilo que amo. Amo com a mesma intensidade – profundamente – a bétula, a tarde, a música, Serioja e você. Eu reconheço o amor pela tristeza incurável, pelo ‘ah!’ que corta sua respiração. Para mim você é um rapaz encantador, de quem – ainda que me digam – não sei nada, a não ser que o amo.” (p.125)  Marina Tsvetáieva  VIVENDO sob o FOGO

Loucura caminha  na dor e na ausência da dor. A tonteira aperta o sentir, e depois esqueço o tamanho do sentimento… Eu me deixei arrebatar, tens razão: foi a tua pressa de tudo dizer, tudo sentir, atabalhoadamente, aturdido, também tu. Assim mesmo registro no livro que leio, na tarde, insisto em te dizer: te amo,  eu te amei.  No ardido dos olhos, no excesso e na carência, neste medo que eu sinto da morte apressada. Eu quero olhar no teu olhar a brejeirice e derramar na tua voz apressada a resposta gaguejante , urgente que guardei para te dizer e não disse. É verdade. Eu me assustei. A cada mensagem eu recuava. Recuar faz parte da guerra, da loucura consciente  ou inconsciente de amar o amor. Recuamos para vencer! Quero que me perdoes. Não pelo que não aconteceu, não temos culpa da distância, mas do meu silêncio no teu grito. Tenho culpa, deveria ter te escrito logo: amo, eu me apaixonei na ausência, a voz que desconheço. Gosto de toda a aquela loucura perfeita das tuas palavras. De todo sonho, de toda a história derramada naqueles idos tempos cariocas que tão perto, não nos vimos. Eu nada sabia/entendia  de viver, e antes, quando nos cruzávamos pelo/no verão, uma vez, uma vez deverias ter ousado… Não me perdoo. Mas, ao te escrever, sinto que também não te perdoo. E não precisaria ter sido para sempre. Podia ter apenas ter sido… Tua história, minha história: um nosso tempo! Nossas mãos! Elizabeth M.B.Mattos dezembro de 2019 – ainda Torres. Sempre teríamos o verão nas nossas mãos…

Estou plenamente convencida de que se um homem conseguir me conhecer inteiramente vai me amar mais do que a qualquer outra […]” (p.124)

sem história

Tinham um jeito particular de sentir e sublinhar o tempo, mesmo confinadas, dividindo um pedaço de pão, e ou bebendo café preto, ou leite com chocolate. Às vezes era explícito, fácil, mas escolher o filme poderia ser atrito. A hora de lavar a roupa, ou passar, o tempo de ficar conversando na sala principal, os programas na televisão. Digamos que Mara poderia ficar um dia inteiro sem acompanhar as notícias, Lúcia fazia questão de saber do seriado. O tempo da noite corria solto com seu bom hábito de dormir tarde. Antes de duas horas da manhã impossível. Ao lado da cama uma torre de livros selecionados / a dificuldade para vencer estranhos temas impunham disciplina. Pouco costumada a dar explicações, ou abrir a coragem de querer ou não querer. Livre das decisões apressadas ou impulsivas, não era possível explicar como seria aquela semana… Não se apressavam, o tempo sim, engolia os dias.

– Vais ao cinema na quarta -feira? Pergunta Lúcia. Vou me organizar, responde Mara, mas acho que quinta feira também pode ser um bom dia, Celso pensou em fazer uma visita, não sei se daremos contas de todos os acertos, do projeto. Eu o convido. Mas se esta semana se agitar demais, não vou. Irei na outra, sozinha, numa sessão mais cedo. Quero passar a tarde conversando, bebericando chá, talvez faça um bolo. Queres sair conosco? (inacabado) Beth Mattos – 2019

de volta

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“Você diz que Londres é cheia de gente. Florença também está cheia de turistas dispostos a fazer valer seu dinheiro, correndo por todos os museus da cidade. Mas não importa porque todo o resto me reconforta muito. A arquitetura, a escultura, a própria terra, tudo é tão magnífico que estou curado. Devo estar – senão, por que estaria tão feliz? Esta viagem está parecendo uma peregrinação: Griffin Moss presta homenagens no altar de seus mestres. Ficarei mais alguns dias para ver as igrejas. Tive um sonho maravilhoso e sensual na noite passada. Eu estava no Palazzo di Medici , conversando com o próprio Lorenzo, quando você surgiu de uma parede de fumaça e me abraçou. Sinto sua falta. Griffin”  Nick Bantock Agenda de Sabine

Sinto tua falta. Como explicar? Aperto dolorido, sem sentido. Estou a procurar aquela Beth tranquila e passiva. Estou sem letras, sem texto, sem vontade. Não encontro. Talvez as paredes me apertem e o ar não me deixa respirar. Caminhadas inúteis, não me levam… Preciso do mar, da areia, do calor. Dos teus braços fechados no meu abraço. Preciso do dia colorido. Por que não me libertas? Parece pouco / pequeno e apertado. Não sei. O sono me acorda apressada. Eu corro e não chego: estou na mesma calçada. Eu te espero. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres ficou desproporcionalmente, enorme, gigante! Eu não consigo te alcançar.

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colorido

A magia se movimenta nas cores quentes do sol. Escrevo apressada descuidada. Derramo vontade distraída no teclado. Se deito cedo acordo tarde… A despistar ansiedade festiva. Escadas e frestas, música recheada de alegria. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres

 

nunca mais

…não vou mais te dizer, tudo errado. Olhar insistente, esta mão que se estende. Não. Estás, livre, e surpreso. Contra tudo e contra todos… eu sigo o erro. Vou sair devagar, mansa e silenciosa, e vou voltar platônica e sonhadora, sem confundir o que sinto. Vou viajar naquele barco e dançar. Rir um pouco, e deixar passar o tempo, vou de goles e de sonecas em sonecas envelhecer, e nos sorrisos seguir. Caminhar… Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2019 – Torres