De poemas

O coração tem bordas estreitas

E, feito o mar, se mesura

Por um poderoso baixo contínuo

E monotonia azul […]

 

The Heart has narrow Banks

It measures like the Sea

In mighty – unremitting Bass

And Bleu Monotony

 

EMILY Dickinson – Poemas Escolhidos – Seleção, tradução e introdução de IVO BENDER – (p.69) LPM Pocket

“À exceção de Kafka, não lembro de nenhum escritor que tenha expressado o desespero com tanta força e constância quanto Emily Dickinson.” Harold Bloom

vou te contar do sonho de te ter

Enquanto sonho com o sonho, posso te ter. Penso em cada detalhe do desejo e esparramo pela casa teus pedaços de vontade. Depois fujo para o abraço. Demorado abraço. Encabulada, ilustro o teu prazer e o meu. Não posso me frustrar de escrever / descrever e pedir… Ainda aperto teu desejo com o meu no segredo de sermos nós. E não me importo de perder para te ganhar, e te ganhar despedaçada de tanto sangrar. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torres

“[…] pois tudo que é sagrado possui a substância dos sonhos e das lembranças de forma que experimentamos o milagre das coisas das quais estamos separados, seja pelo tempo ou pela distância, e que se tornam de repente tangíveis para nós. Sonhos, lembranças, o sagrado – são todos parecidos pelo fato de estarem além do nosso alcance. Quando ficamos separados, ainda que não substancialmente, daquilo que não podemos tocar, o objeto fica santificado, adquire a beleza do inatingível, a qualidade do milagroso. Todas as coisas na realidade possuem esta qualidade sacra embora possamos conspurcá – las com um toque. Quão estranho é o ser humano! Seu toque vilipendia embora nele esteja contida a fonte dos milagres.” (p.47) Yukio Mishima – Neve na Primavera  – Mar da Fertilidade vol.I

resmungo

Se o sono não chega, eu te chamo, resmungo. Depois eu te chamo, insistentemente, outra vez. Escuta. Preciso de ti, volta: estejas onde estiveres, volta, preciso de ti… Eu me distraio para não te pensar: escuto rádio, caminho pelo/no nublado, na chuva chuvisco, dou volta inteira. Desço na noite, espio o céu. Tomo banho de prazer, molho a cabeça, enxugo os olhos na toalha. Perfumo o quarto:  cheiros novos e misturados. Reviro na cama, volto ao teu olhar… Quanta saudade sinto de ti! Dos dias que te espero/ esperei, sinto saudade. Belisco os pastéis. Devoro os sonhos. Bebo sucos, escolho doces, e peço todas as empadas de camarão… Quanta saudade sinto de ti e da tua voz e da tua timidez e saudade de te sonhar. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2019 – Torres.

será que virá?

Cinzento dia cinza que amanheceu  e se esquece de ser dia. Não me entristeço estou sol. Acordei arrumando, limpando e me excedendo no café a pensar gulodices e prazeres. Preguiçosa nas leituras, lenta e lenta. Agitada com a vassoura, com lava isso e aquilo (neurose dos cheiros, adoro alfazemas e flores). Vou comprar um ramo azul ou amarelo na feira livre de sábado, vou colorir nas frutas e claro, encerar e polir. Das bobagens envelhecidas fica uma memória que acorda brejeira, e depois do café, se esquece do trágico. Importa se debruçar no imediato da calçada. Ah! Que trabalho tenho para não esquecer, anoto aqui, ali e vou empilhando a memória. E as citações pontuadas não te levam pela mão: esqueço no livro, o último da pilha, mas te digo, estão na correspondência de Sigmund Freud e Anaïs Nin e Miller (Correspondência de paixão) e interrompo o fluxo para responder as cartas que chegaram. Agradeço e festejo! E me divirto antes de passar os lençóis, já com a máquina a funcionar. Sinto paciência no olhar manso da Ônix, eu me agito antes da chuva cair,será que virá? Tanto a necessitamos. Elizabeth M.B. Mattos

“ Se você vier mesmo aqui, provavelmente em primeiro lugar será atraída pelo que cativa a maioria das pessoas de forma exclusiva: o brilhante exterior, as multidões apinhadas, a infinita variedade de mercadorias expostas de modo atraente, as ruas que se estendem por vários quilômetros, a profusão de luz à noite, a alegria e a polidez geral das pessoas; mas para pôr tudo isto em harmonia com o resto tem – se que conhecer muita coisa.” (p.223)  Sigmund Freud

Correspondência de Amor e outras cartas) 1873 -1939

 

Freud

túnel do tempo

Olha o tempo, o pai é aquele apoiado na perna do meu avô

O meu pai é aquele menino que está com a mão no joelho do meu avô Pedro Alexandrino. E neste recorte volta a vida, ninguém se preocupou com o passaporte português… A vida tem desvios, chamamos de caminhos… Atravessamos bosques / florestas e nos deixamos ficar atraídos pela paz de apenas existir, imóvel. Elizabeth M. B. Mattos –  setembro de 2019 – fragmentos

verdade bem grande

“Diego. É uma verdade, bem grande, que eu queria falar, nem dormir, nem ouvir, nem querer. Sinto – me encerrada, sem medo de sangue, sem tempo, nem magia, dentro do teu próprio medo, e dentro da tua grande angústia, o mesmo no ruído do teu coração. Toda essa loucura, se a ti perguntasse, sei que seria, para o teu silêncio, pura confusão. Peço – te violência, na desrazão, e tu me dás a graça, tua luz e calor. Gostaria de pintar – te, mas não há cores, por haver tantas, em minha confusão, a forma concreta  do eu grande amor. F. “(p.205)

Frida Kahlo O Diário – um auto-retrato íntimo

 

 

eu te pedi para não me escreveres

Tu me pediste para não te escrever, tu me pediste para não responder, tu me pediste para ler e não responder. Já passou quase um ano ou são dois? Por que não posso falar contigo, ou te ver, ou te pensar… Vou a me esquecer devagar. Lenta no amor, lenta para dizer, lenta para compreender o porquê de não te escrever, ou de não te ouvir… E não te ver / olhar / olhar bastante e muito.

“Ontem te aconselhei que não me escrevesses todos os dias, hoje continuo pensando o mesmo; seria muito conveniente para ambos, e volto a aconselhar – te ainda uma vez, com maior insistência ainda; mas por favor Milena, não me faças caso, e escreve – me igual todos os dias, embora seja uma carta muito breve, como a de hoje, apenas duas linhas, uma só, uma mera palavra; privar – me dessa palavra me custaria horríveis sofrimentos. F.” (p.90)

Ainda aguardo uma linha, a palavra, ou tua voz. Não mudaria nada, eu sei, seguirias onde estás… Tuas proteções interiores resilientes. Não podes dizer, nem pensar em nos querer / não podemos. Este é o jogo. Estas são as regras.

“Talvez o que acontece é que ambos estamos casados, tu em Viena, eu com a angústia em Praga, e que ambos nos torturamos inutilmente para libertar – nos de nosso matrimônio.”(p.91)

Não consigo reverter ou mudar tua verdade. Sigo o vento, ou corro na chuva, ou aceito o sol  a queimar. Para o reencontro  a coragem se faz necessária. Aceitar o desafio de recomeçar e recomeçar e recomeçar acelera a loucura. Fica – se no velho e conhecido amor amigo desbotado, desgastado, silencioso, mas conhecido. Eu te compreendo.

“Cartas tão breves, alegres ou pelo menos espontâneas como as duas de hoje são para mim quase (quase, quase, quase, quase) o bosque e o vento em tuas mangas e uma vista de Viena. Milena, como se está bem ao teu lado” (p.97) Frank Kafka Cartas a Milena – Editora Itatiaia Ltda. Belo Horizonte – 2000

amenidades e queixas

  1. Maridos se misturam no enredo da história, aos pedaços espalhados pela dinamite, pela guerra. Quero fugir do óbvio, não posso: educada para casar e ter filhos e estar entre o quintal e o jardim, ou chás programados. Cabeleireiro e o costureiro. E ser bonita. Se a meta parece restrita e a cabeça se inclina, a vida se impõe. Das escolas, todas acidentais, do internato a autonomia e a liberdade. Esdrúxula observação. Regras definidas: liberdade. Apreendi a administrar ansiedade e solidão armazenadas na rotina, aplacadas pela ida a capela (missa) diária, não imposta, mas eletiva. O dormitório possibilitava cantinhos pessoais. Podíamos ir para casa aos domingos, almoçar. Poucas internas porto-alegrenses. Eu era exceção. Destes / nestes anos de internato nada guardei da casa ou de meu pai e da minha mãe, muito pouco das irmãs. Toda a memória atraca em períodos curtos de ser criança, depois a jovem dos bailes, num ano a tentativa de trabalhar e escrever. Na verdade, não me ajustei… Deste período a fantasia: casa, família e amigos. Nunca perdi veraneios em Torres, alguns no apartamento da SAPT com os Franciosi. Depois daquele noivado interrompido houve tanta pressa para entregar o pacote. Minha mãe me apresentou para o G. que lhe parecia um marido adequado e em seis meses num verão muito quente nos casamos. Resposta apressada ao abandono do primeiro noivo. E logo vieram os filhos. Os três num espaço mínimo possível e este baile terminou antes dos meus 24 anos. A presença materna e o poder manipularam decisões e interesses possíveis. Sempre supervisionada como se fosse uma boneca de vitrine. Segui meus estudos de francês e li muitos, muitos, muitos livros. E nunca estudei com método. De natureza preguiçosa alimentava sonhos como fugas passivas e derramadas. E os veraneios se transformaram em colônia de férias para minhas crianças.
  2. Tudo que fosse ligado à  vida porto-alegrense assustava e surpreendia. De certa forma, no emocional, os meus mecanismos internos rejeitavam a história gaúcha de casar e ser feliz, fui infeliz. Idealizava relações com pessoas diferentes, nada que lembrasse a moça dos bailes, aquela devidamente enterrada e amordaçada por mim mesma. Na memória da Vitor Hugo a fonte, ou a raiz. Reabastecer a palavra saudade. Quantas outras memórias se escondem no poder de mãe. Que bom ser amorosa ou generosa. O relato é pacote opressor, culpado carimbado na figura materna. Paternidade provedora e funcional. Irmandade distante. A crueza da analise atravessa permissividade e lacuna. Atravessa o desencanto dos meus relacionamentos truncados despedaçados, salvo com meu segundo marido. Exceção. Foi provedor, acolhedor, bom homem, bom pai para meus filhos que receberam apoio, abastança disciplina e carinho. Os quatro se dão as mãos. Quando quis me separar e consegui (problemas internos e apenas meus), Jô (minha penúltima filha) queria seguir morando com ele, ficar em Santa Cruz do Sul. Esdrúxulo, mas verdadeiro. A mais velha estava na Alemanha e o meu filho já tinha voltado para o Rio de Janeiro. Aconteceu Torres. Por que me separei? Concluo que não sou talhada para fazer dupla, tenho no sangue a liberdade, ou a dor profunda de ter sido sempre, em última análise, eu comigo mesma. Autonomia estranhada, medrosa e inquieta. Más lembranças do primeiro marido. Nenhuma relação com os Moog que foram em muitos, ou quase todos aspectos, cruéis com a minha assustadora juventude e não esqueço. Apreendi a reconhecer pedras. Não vitrines, nem o mais ou menos. Insegurança e estabilidade se apoiam no trabalho. Nada de regalias, muito menos freios. No afeto, na vida, no dia a dia, quero o limpo, o honesto, o eu, sempre o eu. A minha mãe morreu quando a minha quarta filha nasceu, assim, tomei, pela primeira vez, decisões por minha escolha e cabeça. O pai esperou mais três anos e também se foi…  Neste momento terminou a explicação ou reverência. Amadurecimento consciente, ancora necessária. Da família o colorido dos sobrinhos e a coragem dos meus filhos, e agora dos meus netos. Torres aquece o tempo, e respirar, ler, escrever, e lançar pontes, nova etapa.
  3. Amores amados acontecem. Desastrosos tanto quanto intensos. Outro capítulo delicado. E a formação e os estudos seguiram. Passadas (de passos) mais firmes. Incertezas ficaram seguras. Os livros assumiram lugar importante. Importantíssimo. E a irmã acolheu, e os acertos e as últimas decisões me trouxeram de volta para Torres. E a crueza e a dor de julgamentos se amenizaram… Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

 

não te esqueci

Eu te provoco e eu te penso nas beiradas do lembrar: livre ou solto, eu te penso, ora! E tu respondes “eu também não te esqueci“: circular, atrapalhada, seduzida, interrompo a conversa e o desejo. A brincadeira das estátuas, lembras? Correr e imobilizar, estátua!  Escolher a improvável! As calçadas. Confiança absoluta. As mãos se tocam num repente. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – TorresEUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU