sinto receio, não desisto

A estrada seria longa. Todas as estradas que levam ao que o nosso coração almeja são longas. Mas esta estrada meu olho mental podia ver num mapa, profissionalmente, com todas as suas complicações e dificuldades, mas, ainda assim, bastante simples de certa forma. Ou se é um marujo, ou não se é. E eu não tinha dúvidas de que era um deles.” (p.58-59) Joseph Conrad

A Linha de Sombra

Mesmo quem nunca abriu um livro. Abra este. Leitura tem cheiro, forma, gosto. Posso sentir. Faço analogias, e…

O impulso: ou se é, ou não se é. Como seria melhor/maior/completo se… Parece pouco desejar, apenas desejar. Temos que ser dois, estranho/engraçado/ irônico porque sempre somos apenas um eu. Há que haver toque e beijo. A tal amorosidade para sermos dois. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2019 – Era abril quando saí da Garagem de Arte – simples assim:  ‘Não precisamos mais…’. A ruptura arranha. Despedidas! Claro!

…e a vida segue. Eu te encontrei. Elizabeth M.B. Mattos – abril – 2019

cuidado

“... O canto de Ulisses. Quem sabe como e por que veio-me à memória, mas não temos tempo para escolher, esta hora já não é mais uma hora. Se Jean é inteligente vai compreender. Vai: hoje  sinto-me capaz disso. Quem é Dante? Que é a Divina Comédia? Que sensação estranha, nova, a gente experimenta ao tentar esclarecer, em poucas palavras o que é a Divina Comédia. Como está organizado o Inferno. O que é o ‘contrapeso’, que liga a pena à culpa. Virgílio é a razão. Beatriz a Teologia. Jean ouve atento. Eu começo, lento, cuidadoso:

‘Lo maggior corno della fiamma antica

Cominciò a crollarsi mormorando,

Pur come quella cui vento affatica.

Indi, la cima in qua e in là menando,

Come fosse la lingua che parlasse,

Mise fuori la voce edisse: Quando…”

Eis que a ponta maior da chama antiga/começou a mover-se, crepitando,/ tal a que um vento ríspido castiga./ E de um e de outro lado se agitando/ um som soprava, como que saído/ de seu calor, e que dizia: ‘Quando… (p.114)

Abre os ouvidos e a mente, eu preciso que compreendas:

Considerate la vostra semenza:

Fatti non foste a viver come bruti,

ma per seguir virtude e conoscenza.’

(Relembrai vossa origem, vossa essência;/vós não fostes criados para bichos,/ e sim para o valor e a experiência) 

É como se eu também ouvisse isso pela primeira vez: como um toque de alvorada, como a voz de Deus. Por um momento, esqueci quem sou e onde estou. Pikolo pede para eu repetir estes versos. Como ele é bom: compreendeu que está me ajudando. Ou talvez seja algo mais: talvez (apesar da tradução pobre e do comentário banal e apressado) tenha recebido a mensagem, percebido que se refere a ele também, refere-se a todos os homens que sofrem e, especialmente, a nós: a nós dois, nós que ousamos discutir sobre estas coisas, enquanto levamos nos ombros as alças do rancho.” (p.116)

É a experiência de passar/dizer/explicar/ comentar um saber: a leitura de um livro de poucas páginas que leio devagar, a pensar, a voltar na leitura. Tempo urgente de caminhada penosa, porque a vida não espera o momento certo. E sempre estamos a caminho, no meio do caminho… Será certo quando estiver junto/contigo a te falar. A leitura faz transposições mágicas. Não estou num Campo de Concentração, não sou italiana,  também não compreendo alemão, como Jean posso ler em francês, como Levi há sempre, para mim, e para ti, urgência de nos olharmos porque nos reencontramos apartados um do outro. Não foi há 30 anos atrás, foi neste hoje que nos sacode. E dizer o que sinto, ou o que nunca serei, ou sublinhar todo um agora, com a pressa, a urgência da vida. Quando eu converso, ou te pressinto, eu respiro. E.M.B.Mattos  – abril de 2019 – venta em Torres porque o verão se despede.

Seguro Pikolo, é absolutamente necessário e urgente que escute, que compreenda o que significa esse come altrui piacque, antes que seja tarde demais: amanhã, ou ele ou eu poderemos estar mortos ou não nos rever nunca mais, devo falar – lhe o que era a Idade Média, esse anacronismo tão humano e necessário e no entanto inesperado, e algo mais, algo grandioso que acabo de ver, agora mesmo, na intuição de um instante,  talvez o porquê do nosso destino, do nosso estar aqui, hoje…”(p.117) Primo Levi É ISTO UM HOMEM – Tradução de Luigi DEL RE – Editora  Rocco  Rio de Janeiro – 1988

Ouso repetir que o livro conta a vida, seguro todos o nosso momento premente e importante. Sacode o coração. O hoje e o agora importam. Então eu te chamo. Talvez eu não tenha nada para dizer, talvez tu também fiques constrangido, apertado no instante de ser tu e eu, no entanto, a vida, como um trator nos largou neste

A G O R A.

Estupefatos, porque vivos. E aqui tem sol, vento, água e tempo. Não importa mais a poeira, a reconstrução, a beleza e a ordem que persigo. Tratarei do possível. Trarei flores para nos distrair da desordem. E seremos amigos. Isso é muito bom. Embora blindados somos.  Ulisses volta para Penélope que o esperou uma vida inteira. Mas não se deixa ficar, a inquietude o carrega. A vida se transformou nesta agitação ansiosa.Beth Mattos

 

 

voltei para ti

Estranho o peso deste vazio. Volto a te pensar. Eu confesso: comecei a te esquecer, doeu. Esqueci. De repente voltaste azul. E eu vi teus olhos castanhos, brejeiros. Saudade de uma coisa boa que tu me devolveste junto com tua memória. Eu acreditei. Elizabeth M.B.Mattos – abril de 2019

2018-07-10 14.36.57.jpg foto do PEDRO num passeio EU

identidade

Identidade e posse.

O vaso de cristal está no  centro da mesa: coloco  pratos coloridos, copos transparentes e talheres de prata. Guardanapos com monograma. Para a mesa redonda seis cadeiras. Todas diferentes. O sol entra pela fresta da veneziana, e o cheiro de grama molhada invade a sala. Qualquer objeto aquece aumenta o sentimento.  Eu me sinto poderosa, iluminada, embora meu vestido seja preto, e os brincos pequenos. Espero.

Imagine-se, agora, um homem privado não apenas dos seres queridos, mas de sua casa, seus hábitos, sua roupa, tudo enfim, rigorosamente tudo que possuía; ele será vazio, reduzido a puro sofrimento e carência, esquecido de dignidade e discernimento – pois quem perde tudo, muitas vezes perde a si mesmo; transformando -se em algo tão miserável, que facilmente se decidira sobre sua vida e sua morte, sem qualquer sentimento de afinidade humana, na melhor das hipóteses considerando puros critérios de conveniência. Ficará claro, então, o duplo significado da expressão ‘Campo de extermínio’, bem como o que desejo expressar quando digo: chegar no fundo.” (p.25) Primo Levi  É isto um homem

Não posso deixar de pensar: identidade nos gestos, na casa, na voz, sou eu a me descrever. O que me impede de ser mais eu? Tua ausência. Sem vida social, escorrego menos. Quase não choro. De natureza alegre, careço de pessoas. Então, não sou. Os objetos me definem, e não possuir isso ou aquilo, também. Sou uma tola se penso nestes pequenos sentimentos. Levi menciona nos dá uma dimensão maior da vida. Um dia depois do outro. O desejo de viver…

“Steinlauf, porém, passa-me uma descompustura. Terminou de se lavar […]. Justamente porque o Campo é uma grande engrenagem para nos transformar em animais, não devemos nos transformar em animais; até num lugar como este, pode-se sobreviver, para relatar a verdade, para dar nosso depoimento;e, para viver, é essencial esforçar – nos por salvar ao menos a estrutura, a forma da civilização. Sim, somos escravos, despojados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, destinados a uma morte quase certa, mas ainda nos resta uma opção. Devemos nos esforçar por defendê -la a todo custo, justamente porque é a última: a opção de recusar nosso consentimento.” (p.39) 

A leitura dá uma dimensão louca da vida. Acorda! Insana é a guerra, e a tortura quebra um homem, a disputa. No entanto sabemos: ” A convicção de que a vida tem um objetivo e está enraizada em cada fibra do homem; é uma característica da substância humana. Os homens livres dão a esse objetivo vários nomes, e muitos pensam e discutem quanto à natureza. Para nós, a questão é muito simples. Hoje, e aqui, o nosso objetivo é aguentarmos até a primavera.” (p.71)

Palavras libertam… Enquanto escrevo acordo, desperto. Também adormeço. Se espero o impossível, elimino o impossível, o mal, a dor. No papel a experiência fica plana, dividida. A memória irreal se transforma em experiência: uma química. Pedro Levi nasceu em Turim, em 1919, e formou- se pela Faculdade de Química. Este livro o liberta de terríveis experiências em Auschwitz. Estranho como a leitura faz uma caminhada. As experiências se misturam. De repente, eu penso, o homem/ o ser humano é o mesmo sempre…, como posso ser cruel? Haverá forma de negar, de reconhecer o mal? Insano quando gritamos, e deixamos de ser! Ele conta:

Hoje é um dia bom. Olhamos ao redor, como cegos que recuperam a visão, e nos entreolhamos. Nunca nos víramos no Sol! Alguém sorri. Se não fosse pela fome…

Porque assim é a natureza humana: as penas padecidas simultaneamente não se somam em nossa sensibilidade; ocultam-se, as menores atrás das maiores, conforme uma lei de prioridades bem definida. Isso é providencial, e nos permite viver no Campo. E é esse o motivo pelo qual ouve-se dizer, amiúde, na vida livre, que o homem é incontentável. (73-74)

Entrega o sentimento bem explicado. Esta leitura se atravessou, assim eu me surpreendo lendo dois textos. Estou presa… Elizabeth M.B. Mattos –  31 de março de 2019 – Torres

as conversas

Conversar em voz baixa e respeitar o silêncio. Ouvir a quietude agitada do mundo: um exercício diário. Escuto felicidade, tristeza e lágrima. Meus passos ao teu encontro…  Estendo as mãos cheias de esperança. Na madrugada a ordem acalma esta desordem laboriosa do dia. Elizabeth M. B. Mattos – 31 de março de 2019


abajour que eu gostava

também estás…

Melancólica tarde. Parece estranho falar/dizer ou pensar em amoras…  Difícil se entregar ao instante vazio da exaustão; sinto tua falta atravessada, ausente. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2019 – Torres. Prosaicamente eu penso em sonhos, pastel, coca-cola e suco de laranja. E o mar conversaria por nós dois.

o que não vais ler, posto que me confesso

Estou com enorme preguiça de te dizer as coisas que não vais ler. Tu estás fechado, trancado, atento, mas feliz. Ah! Viver é tão desconfortável! Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não pára e a lagoa se contradiz, o silêncio não importa e te desejar, ou querer, significa tão pouco. Estou no meio de uma obra, os cabelo com caliça, os olhos ardem. E o corpo espicaçado. Trabalho sério, real, te amar. E é tão pequeno! E como pesa! É apartado? Pois fui dormir e sonhei: um lago majestoso / enorme, e era mais verdade ainda do que te escrevo: era sem medo. Logo tudo voltou para o nada… Tudo acabou, mas o que te escrevo continua, por que não me queres, cheguei tarde, cheguei depois da hora.

Meu querido, o melhor ainda não te escrevi, está nas entrelinhas. Hoje é sábado e é feito do ar mais puro. Estou sem orgulho nenhum: O que te escrevo é um isto fantasia. Não vai parar: continua. Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo. O que te escrevo continua e estou enfeitiçada. Serei tua em todos os lugares serei tua… escandalosamente tua. Elizabeth M.B.Mattos – março de 2019 Torres com Clarice Lispector dentro de mim.mesa preta com ibere camargo

 

 

qualidade sacra: pensar em ti

Penso que posso voltar. O deslocamento, o sonho ele mesmo se diluiu… Penso e penso, não é nada, assim mesmo vejo beleza leveza e sinto gratidão. Quero materializar. Quero ser a mesma: escapaste do toque, deste milagre que seria tua mão na minha mão. O sagrado da ficção nos alcança: “[…] tudo que é sagrado possui a substância dos sonhos e lembranças de forma que experimentamos o milagre das coisas das quais estamos separados, seja pelo tempo seja pela distância, e se tornam, de repente, tangíveis para nós.  Sonhos, lembranças, o sagrado – são todos parecidos pelo fato de estarem de além do nosso do nosso alcance. Quando estamos separados, ainda que não substancialmente, daquilo que podemos tocar, o objeto fica santificado, adquire a beleza do inatingível, a qualidade do milagroso. Todas as coisas, na realidade, possuem esta qualidade sacra embora possamos conspurcá -las com o toque. Que estranho é o ser humano! Seu toque  vilipendia embora nele esteja contida a fonte dos milagres.” (p.47) Yukio Mishima, Neve da Primavera Mar de fertilidade Volume I

Empurro a reforma, respiro poeira, caliça e desejo. Vejo através do vidro e da possibilidade… E estou contigo no toque, no desejo, na loucura, da interdição. Sou infantil quando te desejo. Repito as pequenas frases! Narrativas. A tua história sedutora a se colar na minha vida. Conseguiste bulir e remexer e transviar, preencher. Prazer de menino protegido. Tens o muro. Ontem te escrevi uma enorme carta cheia de explicações e bobagens. saltando pedaços de mar, areia, vento, cheiro, e o corpo suado nos acalmava. Claro! Vivo e divinizo…, uma brincadeira. Foste a mais séria. Ao chegar aos setenta anos, o mundo se ilumina com camélias, anêmonas, cravos e jasmins e trabalho. Fome. E bebemos muita água com alecrim. Tantas vezes eu preparo a casa para tua visita. Ainda te espero. Elizabeth M.B. Mattos março de 2019Esta no POST

Trancaste todas as possibilidades: não importa. Igual eu sonho contigo. Quando abro os olhos: estás apressado a te vestir, e eu te vejo fechar a porta…Elizabeth M.B. Mattos

letras…

O inverno se despede, com ele este ano de magia, de sentimento adverso convergente. Turbilhão que enlouquece; paciento e deixo a inquietude plantada, e já sendo hora de amanhecer, de despedir, resolvo escrever para contar, Viver para Contar (Gabriel Garcia Marques), ou seria Contar para Viver

Viver contando, ao contar se  vive, revivendo…

Neste descrever sem ponto. Texto solto, sem alinhavos, aberto. Beth Mattos – março de 2019 – na releitura. Aqui está azul, não exatamente frio. Fiz a pequena caminhada e resolvo te escrever. Sabes tudo e tão pouco sobre minha vida, mas assim mesmo te debruças e espias. Estimulas meu fazer estendes a mão, e me fazes escrever. Então digo: tens razão na afirmação: criança bonita doce. Também da saudade tens razão, e desta desordem da/na vida. Um sonho que nos desperta às duas horas da manhã. E aquele dia fica um ontem agonizante.

Esta coisa de estar importa, eu me pergunto por que nunca estou? Porque nunca estou perco o tempo a vida e o espaço. O que faço parece sempre um mergulho noutro mundo. Então eu chego com atraso. Depois. Estupefata porque, afinal, já passou … Deveria me dar conta que viver tem urgência, e os olhos, o sentimento, o corpo precisa estar atento, aberto. Não se pode ser muro, fortaleza, floresta. Não se pode ser o medo. Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2019

 

Labirinto

O labirinto (27/03/2019 02:30) no sonho, e acordo. Acho que pode ser mais tarde, ainda amanhã, logo, hoje. Tenho pressa. Erótico sonho sem saída. O medo maior, talvez, seja dizer ou fazer o viável: conversar e chegar, definitivamente, um no outro. Eu me aproximo na urgência de ser tu e eu, nós dois. Mas eu me escondo (perigosamente) de mim mesma, não consigo. Das amarras quero me livrar, neste momento invisível, aparentemente, intransponível. Ne bavarde pas. Não diz, não fala nada. Estou amedrontada. Teus olhos serenos. E a mulher que não sou volta inteira para te tocar. Sinto medo. Sinto medo. Desafio, anos de insegurança, e hoje, sem falar / sem explicar, audaciosa te procuro. Tu pegas na minha mão e começamos a descer as escadas. Por todos os lados chegam vozes, eu seguro / prendo o passo. E tu, surpreso, apertas meus dedos. Não vamos desistir. Sem dizer penso: Não posso ter medo. Não temos mais o tempo esperando / acontecendo a se arrastar paciente. Somos dois fantasmas daqueles meninos que fomos, e sempre nos querendo bem, apertados um contra o outro. Interrompemos a descida para sentir o escuro. Teu sorriso aberto está preso no meu. Trocamos um beijo no vão da escada. O passado se apresenta ruidoso, mas temos um hoje rasgado e inviolável. Os malabarismos seriam impossíveis se não houvesse esse querer. Enquanto vou descendo e identificando as vozes eu me agarro na tua certeza. Temos convicção. Releio tuas cartas, não vou pisar nos sonhos de um homem que vaga / caminha num eterno e solitário passeio pelo desejo oculto, tão visível para nós dois: prazer terreno. Os mais secretos porque silenciosos. Vou andar pelo nosso sonho obscuro e latente. Não precisamos de vozes. Apenas o toque. Não precisamos de luz, atravessamos o tempo. É tão fácil estar perto! Tão possível! É uma espécie de surpresa / missão humana, a nossa. Este passo / este caminho nos pertence. É preciso materializar / fazer acontecer ainda nesta vida: não somos promessa, temos que ter coragem de avançar. Não importa o limite. Somos nós. E somos transponíveis. E possíveis. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2019 – Torres

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