brinquedo sensacional: paciência e persistência

brinquedo sensacional: paciência e persistência

…, outro tempo, tanto tempo!
Torres,19/03/99 00:46:28
Tenho certeza da emoção deste momento: saudade do pai e da mãe: do jeito que deram para a vida que não levaram, (há uma potencialidade grande! Tão grande! Enorme a vida, não damos conta, eu acho. Fica- se a querer mais e mais, eles podiam seguir, eu gostaria tanto! – Deixaram passar – como estou fazendo agora… Estou? Não sei se sei.
A vida que não levaram, o que pretendo dizer com isso? Pessoalmente acredito que a cada pequena escolha feita traz uma não escolha, um não viver. Acerta – se isso e aquilo, mas também erra – se aqui e ali, alguma coisa fica perdida na escolha. Como laranjas, deixo de comer uvas. O difícil de uma narrativa linear, explicativa são os desvios, as escolhas. Quando penso meu pai e minha mãe e penso, dou – me conta do pouco / ou muito que sei da vida deles, dou-me conta do mais e do menos. E tudo o que eu possa afirmar contém uma negação. Oculto e mostro ao mesmo tempo num fato, outros. Consciente ou inconsciente, este é o jogo.
Amor e ódio. Aconchego e frio. Enquanto o pai foi presente a mãe foi ausente ou ao contrário. Não há simultaneidade na história. Herói e heroína. Lembro dela costurando a preparar entre costuras (habilidosa e incansável) nosso pequeno enxoval de verão, eram dois meses cheios na praia de Torres. Lembro dele descascando laranjas no alpendre em invernos ensolarados. Lembro dos dois conversando, olhos arregalados e verdes os dele, os dela instigantes e vivos olhos castanhos. Das discussões. Das presenças. Tenho a nítida sensação que um empurrava o outro para a vida. Roberto, gentil e doce, Anita, generosa e exuberante. Como posso descrever o avesso? As parciais e honestas confissões: as dele, e as dela. Não consegui segurar todas. Registro uma carta do pai:
“ Torres, 9 de dezembro 1988
Minha filha querida Elizabeth
Acabo de ler tua carta, caminhando pelo calçadão da Prainha. Dia fechado, chuvoso, mas enfim é Torres e aqui quero passar meus dias revivendo minha vida, tão longa e plena de lutas para sobreviver com dignidade junto minhas filhas e minha mulher. Nunca fui Juiz e todo o meu trabalho profissional foi pleno de ‘pareceres’ […]. Sinto-me gratificado vendo hoje minhas filhas, independentes e com personalidade para darem, também, aos seus descendentes o exemplo de compreensão e coragem na luta do dia a dia que tanto exige de cada um de nós. É engraçado como vocês três são diferentes, herdeiras, cada qual, de nossos defeitos e qualidades…
Mas para meu orgulho são amigas e é o que espero nunca deixem de ser. Cada uma de vocês precisam muito uma da outra e é tão bom ter um ombro para se encostar a cabeça…
Chega de arengas do velho Pai… Dia 15 mandarei pelo Correio para a Caixa Postal 102 de Rio Pardo o meu presente de Natal para os netos “grandes” 30.000,00 para cada um, em cheque aqui de Torres que colocarás em cobrança no teu banco. Tudo de bom para ti, Jorge e filhos a benção do Roberto”
A explicar os netos “ grandes “, se refere aos meus três filhos do primeiro casamento, Moog, como já sabes. Tenho cartas do pai, outras poéticas da mãe. Sigo a te ler e a indagar. De repente entro pela noite pensando nos alunos: o jeito de fazer crescer, botar água, um pouco acreditar na leitura, outro pouco a crescer… Na verdade o que, lá no fundo, morto já está, sem saída, amarrado, esquecido, pouco vale. Mas não digo isso. Tenho alunos / boa dádiva. Desdobro a conversa: grito, faço teatro, nem respiro. Chego cansada – perdida.
Volto a pensar no tempo em que F.T. estava/ficava aqui, e eu podia discutir, convencer, recuar, aceitar, e brigar para depois escutar, continuar a pensar. E tudo já te contei do Tavares, cartas perigosas, raivosas e ferventes. Inclusive, como o conheci na casa de Iberê Camargo. Tralhamos/ trabalhei no livro Gaveta dos Guardados, manuscritos que nos foram entregues, aos dois tanto Iberê confiava, para serem transformados em livro. Iberê em seus últimos dias de vida. E toda uma polêmica pressão sobre esta edição que acabou nas mãos da Edusp (mas esta já é outra história com tantas interferências! Mereceu discussões via jornais de Porto Alegre, São Paulo e Brasília. Cito página 84 / Gaveta dos Guardados, sei que tua crítica é severa, suavizo:”Agora tu e eu aprendemos a dissimular, a enganar, para que o amor sobreviva. […] Por muito tempo vivemos felizes. Mas um dia se desfaz o misterioso laço que une os amantes. O vento da desesperança, de que fala Mário Quintana, soprou entre nós e nos separou. ” Iberê Camargo, no conto intitulado: ela mora no outro lado do rio. Sabes, e gosto. E volto. O curioso que na carta que me escreve Iberê menciona “O vento da desesperança“, transcrevo:
“Porto Alegre, 7 -5 – 1988
Cara Beth
Tu não escreves mais. Teu silêncio me faz pensar no Vento da Desesperança de que nos fala Quintana. Este vento que ninguém sabe onde mora e de onde vem, vento que uiva como cão, que sopra sobre os charcos, que enraivece o fogo e propaga incêndios, que sopra sobre tudo podre, morto e ruim; este vento separa os irmãos, os amigos e faz com que não mais se vejam, não mais se falem e, tudo isto, sem explicação ou razão. Ele transforma o amor em ódio. Ele apaga a vida. Será, Beth, que este vento mau soprou sobre nós? Desconfio que ele nasce e mora no coração do homem. Com afeto, o Iberê” Deve ser o exercício que me imponho visto que romance não escrevo. Droga! Então!Tudo te conto, e repetidas vezes Paulo, eu te conto. Perdoa. Escreveria um livro de / com cartas, fragmentadas, deste jeito mesmo. Curiosidades. Em 1974 no Rio de Janeiro Iberê expõe guaches na Galeria da Aliança Francesa de Botafogo. Vianna Moog começa sua coleção de Iberês. O atelier da rua das Palmeiras em Botafogo inaugurado em 1972. No intervalo de uma aula de francês conheço o pintor Iberê Camargo e Maria, sua mulher da vida inteira. Aqui segue fragmento de outra carta. Saudade do amigo, também sinto. E já sei porque me repetes: preciso caminhar sem muletas, sem Iberê e sem Tavares. Mas…, transcrevo:
“(…) encontraste felicidade nas coisas simples: marido, casa, arvoredo, gado, e para alimentar a tua fantasia, as nuvens que, nos dias ensolarados, povoam o campo com um rebanho de sombras. Reencontraste o sabor do pão feito em casa, tu que por tanto tempo te nutriste com o pó do asfalto da grande cidade. Eu te compreendo, mas não deixo de pensar na tua formação esmerada, nos teus companheiros, clássicos e modernos, da língua francesa. Tu os abandonaste? Também gosto da vida da campanha — bem a conheço –, vida arrastada, modorrenta, feita de dias longos, demorados. Em Porto Alegre também há muito remanso, muito sossego. Mas eu não me deixo adormecer na modorra. É preciso estar atilado, se não, a gente vira coisa, morre por dentro. Tenho saudade das rosetas, dos mata-cavalos, das marias-moles, das guanxumas e dos carrapichos que jogava, por judiação na corujinha da minha irmã preta. Hoje tudo isso é lembrança. Eu também sinto falta dos amigos do Rio, não da cidade. Tenho trabalhado muito, de sol a sol.” Iberê
Diferentes cenários, idênticos e domésticos sentimentos. Nostalgia ao reler a carta. O tempo da campanha foi paz, e crianças; depois tempestade. Somos nós que mudamos, ou a vida nos surpreende e atropela? Ou se desdobra mansa…
Abro o livro outra vez: Saudades de Voltaire. Como me agrada tanto! Começo pelo começo, volto para recolher pedaços. Obrigada pelos volumes que mandaste. Chegaram a/em tempo. Os alunos estão a ler também O caráter de Jesus e Juventude. Eu já te digo que muitos olham aflitos, e me perguntam se é só ler e depois?! Ainda não cheguei no depois. Começo, na madrugada, o trabalho pela leitura do teu Voltaire, Rio Grande. Bobona!! Agora há que se dizer e ter escolaridade nesta leitura. Ler, ler, apenas ler?! Como explicar/incitar fazer trabalhar e desdobrar a leitura? Cada turma um livro diferente. Com Paulo Hecker Filho, instigados. Flávio por conta de Memórias do Esquecimento, livro que também foi lido em sala de aula, fez uma sessão de autor presente, um debate em sala de aula, virias a Torres? Quero botar uma vida inteira na panela do feijão. Citações da minha leitura, teu livro.
“Esse apego, a seguir, busca se apoiar nas doçuras do campo, que não são poucas (nem as amarguras), dando vez a um bairrismo que inclui uma falsa imagem de autonomia e dignidade. ” Donde sai este gaúcho descrito como é / ou pensa ser. Ou sou eu a ler o que escreves como reza de catecismo certo? Bem, eu morei na fazenda, em Rio Pardo, sabes, senti as coisas do verde, das curvas de nível, das porteiras. Tomei do ar e, na intuição escrevi sobre exclusão. Encaminho no final. Parte da minha narrativa perdida… A reacionária gaúcha sem nunca querer ser gaúcha, renegar, bater pé e fugir. Ignorância no assunto dos sem-terra, na luta pelos excluído e incluídos. Gaúcha a se pensar carioca, mas sempre gaúcha, adorei estes teus versos!
“[…] há um vestido por ano,
há sexo de todas as maneiras,
ou não há, nunca se fala disso.”
Leio, releio e vou em frente, penso e não digo, escrevo. Vontade de conversar. Já sei, nada de café. Nem água. Muito menos cerveja ou destilados. Então releio tua crônica:
“Vá que a ideia de afrontar qualquer poder é antes romântica e conduz à imoral tentativa de submeter os outros. Mas acresce a pessoa a noção de resistir sem reclamar, de enfrentar por si o adverso, de buscar se respeitar enquanto homem. ”
Volto ao tema/tempo: sinto saudades de pai e de mãe, de colo e do mundo que era deles, nunca meu, – sou espelho. Resvalo na literatura citada pelo / no teu livro. “Simões Lopes Neto, ou O Continente com Ana Terra (mulher) Antônio Chimango, Fronteira Agreste.” Agarrada ao Érico, metódico, triste ou melancólico. Lembro bem dele. Quero voltar, repassar encontros com a Mafalda, com a Olga, a Reverbel: fofocas, com mel com fel. Se abrisse um parêntese aqui seria outra história de Porto Alegre, de Petrópolis de Porto Alegre, histórias deles. Não minhas. Conversas que muito bem dizes / explicas na crônica EU GOSTO. Passo a poesia, mas fico nos versos, procuro tua prosa. Choramingo a beleza, e me incluo:
“Mas o povo não gosta de poesia. É gênero difícil, que exige iniciação, exige familiaridade com o sentimento e o êxtase. E quem tem sentimento? Quem tem êxtase? Bem poucos, Deus me perdoe. ” (p.24) Paulo Hecker Filho, in Eu Gosto
E lá estou eu entre os que não leem a poesia nem sentem o gosto deste todo que pode ter – preconceito – dificuldade, abandono de que pedaço? Nas prateleiras os poetas não lidos. Não gosto. E gosto dos teus poemas, todos que leio, e então eu me sinto em casa. Fernando Pessoa é claro, tudo, inteiro. Alguns outros. Poucos. O que eu fiz do meu tempo por que não posso escrever “sou antes da casa e, em particular, da cadeira em que leio...” Suspiro inquieta. Fico outra vez querendo te dizer, contar, resmungar no teu ouvido e querer saber se todas as coisas inacabadas. Minha cura da doença deste silêncio deste viver no faz de conta em que vivo. E gosto. Da gente toda que eu toco na lembrança, por telefone, num encontro casual… Fantasmas que caminham na memória. E os nomes significam, quase todos. A revista Crucial mencionada(tem alguns volumes perdidos aqui…), Vera Mogilka Josué Guimarães segurando a mão da mãe no hospital, entre a vida e morte de uma morte que houve, nós sabemos. José Otávio, Tânia Faillace e sua primeira edição apadrinha por Érico (isso é o que dizia), Luiz Fernando Veríssimo humor e genialidade com o seu Pedro Veríssimo, e eu com o meu filho Pedro Vianna Moog. Encontros de conversas silenciosas e gordas. (Acho engraçado existir um Pedro Moog, um Pedro Veríssimo selando amizade de tantos anos!) De Antônio Carlos Resende para quem não voltei a encontrar, por quê? Li os livros todos embora guarde preferência pelo O rapaz que suava só do lado direito (1979) e Magra mas não muito, as pernas sólidas, morena (1977) – Antônio Carlos Resende, também gosto. Consegui que fosse a Santa Cruz do Sul, por estranhas coincidências, amigos/primos em comum. Sociabilidade. Podia insistir, telefonar, escrever. Silenciei. E tu ficaste aí plantado deste lado de lá como parte, já te disse, da família do lado de cá. Coisa estranha! Medo feio destas coisas que não sei, não se acabam. Ficam. Por quê? Conversas nas frestas do verão.
Curiosidades! Digo que se gasta em jornal, não acrescenta. O Moacyr Scliar que morou na Vitor Hugo 229, surpreso com a surpresa coincidência me deixa ir / voltar a entrar na casa que hoje pertence ao cunhado. Os acasos, depois da palestra na ULBRA, jantar na beira do rio Mampituba, confraternizar e homenagear o autor convidado. O tempo se revira. Na conversa descobrimos a casa da Vitor Hugo em comum. A casa que conheces por conta da Anita e do Roberto. Eu era criança (risos). Tudo radiografia…
Outra curiosidade da vida foi trabalhar na galeria Garagem de Arte e já ter feito, aos 18 anos, entrevista com o Xico Stockinger publicada na Revista do Globo. Queria que tivesses avaliado. Walter Galvani, depois, publicou na íntegra, no jornal Folha da Tarde: por simpatia, galanteio, como flores, eu sei. Vaidosa, como gostei?!!!! Estou nostálgica! Sérgio Jockymannn e o Celso Gutfreind, citas na crônica. Claro, eu gosto. Tagore está na lista preferida. Liliam Lemmertz! Vejo na casa, outra vez. Lineu Dias – eu sei. Ao ler teu livro volto a todos com saudade. E a correspondência embrionária de tudo. Adoro cartas! Já sabes! Adoro teus poemas, tuas crônicas. Eu te gosto. Já sabes também. Cartas são o embrião. Quando releio outra história comprida e bonita! Enfim! No final é pobre. Pobre! Tudo pobre e coincidente?!!! Que doença é esta que me toma quando eu te leio? O que é isso que tenho amolecido, sem forma, apenas quero pedaço do que já foi porque o fazer não se faz, acontece. E fico lenta, quieta, espreitando a noite. Quero carinho, aconchego, sinto saudade e arrependimento. Tristeza grande, outras vezes pequena, e uma solidão, engraçada, tumultuada pela fantasia louca daquele passeio entre tecidos que são os quadros, tu sabes. Os quadros daquela pequena galeria da Coronel Bordini. Renderam um conto. Este já leste. Longe da minha vida de agora a lembrança segurando um tempo esquisito de esquecer, duvidar e nada ter. O que eu quero eu não sei. Agora, hoje, eu queria poder te escutar, ouvir… Não. Eu preciso continuar a ler e preparar a aula do novo milênio que repassará o gosto de ler, escrever… Estudar, continuar. Não parar. É isso.
Segue o texto escrito sobre aventurar – se no outro mundo a inteligência for desperta para o puro prazer do prazer. Este, ainda não comentaste. Elizabeth M.B. Mattos – carta para Paulo Hecker Filho com quem mantive correspondência e amizade – julho de 2019 – Torres
Quem são os excluídos do prazer? (Título e texto, provisório)
O prazer, a libido dentro do homem, o nosso prazer sexual, cultivado; não segue apenas o instinto. Desenvolvemos a sexualidade como desenvolvemos a intelectualidade e todos os nossos potenciais. O uso da inteligência nos qualifica e o uso da sexualidade nos amplia, nos potencializa como seres humanos completos.
Desenvolver a sexualidade, usar a sexualidade, saber o prazer depende da possibilidade intelectual de cada pessoa, da complexidade do homem, da interioridade do homem, para não radicalizar afirmando: depende da nossa inteligência. Os menos favorecidos socialmente terminam por ser os excluídos do prazer pois abandonam muito cedo as potencialidades do próprio corpo. Desenvolvem uma sexualidade limitada na própria necessidade de sobreviver e não viver. Menos preocupados com os limites do eu e do corpo se abandonam. Esquecem quem são eles e o que poderiam vir a ser. Não há, assim, completitude, mas deformação.
As pessoas que não desenvolvem potencialmente a inteligência terminam por abandonar a sexualidade. Abandonam a preocupação com o corpo, com os limites do corpo, abandonam o conhecimento interior. Preservar a sexualidade, desenvolvê-la é preservar a completitude da vida: alimentá-la, usufruir não como um alívio de tensão, não como órgão de função mecânica. O gozo não se concretiza apenas nas fezes se compararmos com alívio premente. O gozo sexual transforma o homem pois atravessa a inteligência e aguça a sensibilidade. O sexo não é paliativo como o álcool, o cigarro, mas parte de enriquecimento (o requinte) do ser humano; trabalhar com a inteligência – o pensar – então o homem se conhecendo, sentindo, cresce.
O homem do campo, o operário comum não desenvolve este tipo de libido, não da mesma forma. Está bloqueado pelas necessidades primárias da sobrevivência. Não possui conhecimento do seu corpo e nem o explora. A inteligência fica bloqueada no trabalho mecânico do não pensar, não agir além do limite, apenas aceitar. Trabalham surdos as próprias vozes e preocupados com o barulho do mundo, dos outros. Se estamos surdos ao olfato, ao gosto, a nossa voz, perdemos, também, a sexualidade. Surda está a nossa sexualidade e estamos assim apenas metade de nós mesmos. O sexo se esconde dele mesmo, assim como olhamos sem ver, choramos sem sentir, comemos sem fome nem gosto falamos por falar, vivemos por viver, fazemos sexo por fazer.
O ócio, o não fazer nada com as mãos e com o corpo, a despreocupação diante do trabalho-fazer, olho-fazer pode ser parceria com o prazer, com o sexo, somente, quando a inteligência aflorou e desenvolveu no homem o sensitivo: sentir, ter percepção completa. O sexo pensa o sexo, o olhar pensa o ver, o nariz pensa o cheiro, a boca pensa o gosto, o corpo pensa o corpo, o homem se pensa. Pois que o ócio pode ser ópio, mas também a contemplação, a meditação. Seres especiais convivem e sabem do ócio, do corpo e da alma. A sensibilidade precisa ser aguçada e trabalhada em parceria com a inteligência.
O ofício, a ação mesma do homem, pode ser apenas a fuga. A igualdade entre operário e patrão, mas o excesso de trabalho termina no poder. O que é externo ao ser é pernicioso. Este poder pode ser entendido como o resultado do trabalho. Não o poder sobre si próprio, sua vontade: é um poder vazio, projeção dos outros. Assim, o excesso de trabalho, a contínua agitação física é a fuga. As grandes cidades e suas parafernálias são as caixas dos desesperados, solitários operadores: solitários porque esquecidos deles mesmos. Agitam-se meio as massas e jogam-se uns contra os outros nos brinquedos do barulho; desconhecem suas interioridades, limites. Os que possuem a sensibilidade criadora de se fazer homem encontram o prazer. Possuem o conhecimento essencial para a explosão da sexualidade e longevidade. O homem do campo, reconfortado com a natureza do mundo, com o ar, com o verde, e com outros animais encontra diferente paz, diferente prazer… (Pretendo ampliar e explicar um pouco mais, depois te encaminho o definitivo.) Trabalham a sobrevivência, apenas sobrevivência, esquecem a sexualidade. Abafam inquietudes interiores no trabalho físico, exaustivo. Abafam a própria potencialidade da inteligência. Não mais pensam, apenas são conduzidos por necessidades evidentes.
O sexo banalizou-se como o consumo de drogas: fuga. Descarregam a libido por outros meios, a cada um, uma saída. O sexo banalizou-se através do olhar e das urgências, sem tempo, sem hora, sem vagar não pode haver sexo.
Barbarela, a máquina de fazer amor que pode ser a televisão, o computador, o cinema, o livro, os jornais, as ruas, mas nunca duas pessoas. Solitários, esquecidos do sexo, da cama e dos murmúrios do orgasmo afundam: morrem em vida. Elizabeth M.B. Mattos. Torres, 24/10/1997 19:03:17.
P.S. Os homens esquecem a medicina do sexo. Fugindo do prazer, fugimos da própria vida, fugimos do nosso corpo e de nós mesmos; e nós nos entregamos à doença da sobrevivência. Estar vivo não é evidente, nem igual. A energia corre nas veias. Como são eles, estes outros? Como são eles?
Enquanto procuro um texto perdido nesta desordem do meu computador, encontro a velha carta para Paulo Hecker Filho. E já outros textos das cartas/ nas cartas trocadas. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres: tentando organizar o passado dos escritos.

Vendo (de olhar ou de vender?), ou deixo passar a vida por efêmero sonho. Indefinido sonho de criança. Velha, recolho sobras do tempo: tu e eu. O que fazes aí tão longe da tua vida de menino, de reencontro? O que faço eu nesta cidade senão borboletear! Brinco entre o café, o chá e o chimarrão. Esperar, sonhar, abafar, sai pesadelo… Impotência ausente, escuto tua voz. Cartas, malditas cartas que rasgam e espicaçam a vida amorosa… Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres
(…, coisa da madrugada)
Por que te escrevo? Porque estás a ler, e preciso de ti. Mas não choramingo. Não, não quero te pedir nada, nem que olhes nos meus olhos, passou tanto tempo desde o primeiro dia que nos encontramos! Já sei o que sentes. Estás acomodado/ instalado na vida, – e lembranças disparatadas te assombram. Já tens o gosto acomodado na memória organizada do reencontro generoso, e do pequeno prazer de ser tu contigo. Eu atrapalho. Mas repito, preciso de ti. Lembro como és envolvido, abarrotado de tarefas e exigências. Não quero te pedir nada. Mas não vou esquecer de nós dois. Então eu te conto como sou, porque não sabes, não podes saber tudo. Ainda não sabes (sorrindo). Mais ou menos agitada dispersiva quieta inquieta curando apalpando esquecendo. Mãos na terra cavoucando, mãos nas nuvens. Apago equívoco para te gostar do jeito certo de gostar. Escrevo a lápis, e vou e volto com a borracha. Espalho anotações. Amontoo prazer para te entregar, desordenado, mas nosso. Pega agarra. Sou desorganizada, tu não imaginas o quanto! Ficarias logo aborrecido comigo se eu te perguntasse dos óculos. E a xícara, o casaco (sorrindo) espero que não brigues comigo. Lembras quando deixei queimar a panela Creuset (maravilhosa!), e tiveste uma inundação em casa, um cano com problema num dos banheiros… Estávamos juntos naquela confusão. Fogo e água. Aquela febre que não cedia, ardia. Perguntas inquietas, paciência. Teu sorriso. Estico o braço para tocar no abraço, depois vou recuando, não virás, não irei. Posso esperar. Não vais acreditar na vontade grande que tenho de te olhar quieto, retraído, tu também esperando. Outras vezes te sinto feliz, esparramado na cama. E sei que sentas para ler, escrever, vagamos pela nuvem virtual, estamos viciados. Vejo pouco televisão, saio pouco, e gosto de andar de camisola pela casa. Faço chá de madrugada, escuto música e respiro. Abro as janelas. Gosto do vento fresco da noite, e acho uma droga que envelhecemos/ envelheço…, afasto este desgosto e penso nas noites ao relento, respiro. Devem existir outras vidas, outras formas de prolongar /esticar porque não damos conta de tanto fazer e tanto sonho! A menina se apressa dentro de mim, espia e aguarda, dá gargalhadas quando me impaciento. Então espero ela adormecer para sossegar o espírito e agradecer. Afinal estás aí do outro lado, mesmo se choro, se suspiro, eu te tenho / penso, e sou feliz para poder derramar tudo no teu colo quando chegares. E qualquer claustrofobia se desarruma quando me sinto feliz como agora. E volto para os objetos amontoados. O desfazer. Coisas me atrapalham, mas não consigo me livrar dos livros. Vou limpando uma estante depois a outra, decido que não lerei este nem aquele outro livro, jogo na caixa. Preciso separar os preteridos / esquecidos e dos que não me querem / rejeitam, dos amados, deste amanhã que ainda teremos. Fiz tantas mudanças ao logo do tempo! Estive a morar aqui e ali. Estes dias lembrei de Montevidéu, da casa e das tardes enormes, do leite do doce da boa comida, das bicicletas dos meninos em grupo com as mochilas nas costas, do fogo da lareira, do bom queijo ralado na massa, o bom vinho e a preguiça. Por que te conto estas histórias? Gosto que me escutas, gosto de te embalar. Enquanto digo/ alongo as palavras. Eu te beijo, e te aperto e assim mesmo fechas os olhos. Estamos um a pensar no outro. Cada um amolecido no próprio corpo. O meu falante, o teu silencioso e amoroso. Como os dias eram enormes, como viver tinha um tempo um tempo um tempo, como vou te explicar… E com tamanho de vida inteira. Sentia saudade das crianças, sempre senti saudade dos filhos, já te contei isso, na minha vida de ser gente grande, mulher, bem, antes dos dezessete anos eu queria apenas ficar gente grande e escrever, mas depois, – esqueci todo o resto. Comecei pelos bebês, pelas crianças. E agora quero te amar assim, devagar com os olhos, com o pensamento, com todas as estas coisas boas que guardamos um para o outro. Elizabeth M.B. Mattos março de 2018 / volto em junho de 2019 perdida no computador. Deves estar do outro lado a me esperar. Eu sigo em Torres, definitivamente.
Quisera ter amado mais, e não ver poeira na estrada, mas sentir o constante palpitar de saudade… Ao ter teus braços no meu corpo estremecer. E o amor voltasse/fosse/continuasse. Oxalá não me sentisse vazia como agora. Quisera o beijo sem equívoco sem lamento. Não percebeste o particular encontro. Haja perdas! Tudo ficou menor. Jamais seremos Tristão e Isolda nem Abelardo e Heloísa. Jamais teremos o sabor da vitória ou da consciência: absurdo fardo carregas.
Assim, amar-te foi equívoco. Prosaica igualdade! Luta perdida, a tua, a nossa. Sempre haverá dignas diferenças e imundas lutas, vergonha, roubo! Que jeito sem jeito… Elizabeth M.B. Mattos (sem data)
Se eu pudesse dizer, se eu pudesse abrir aberto este desejo fechado… Estaria, ainda uma vez, solta e livre. Olhos frestados, adormeço.
Lenta, lentamente, desço as escadas do viaduto, ao lado da igreja. Embarco, sem bagagem, no último ônibus. Sigo / vou rumo ao mar, aquietada desta saudade doente. E não estarás lá. Não estarás. Então, como me pedes, esqueço, não penso, adormeço.
Escondida nas letras, possíveis palavras. Caminho no escuro, possibilidade impossível. O o tempo inquieto espera. Tu e eu não esperamos, inquietos no tempo, olhamos através/pelo aberto olhar triste… Já passou. Outra vez a fechadura arrombada. Larga memória de uma lágrima.
Quando eu te escuto a ler poemas pelo fio, eu te vejo nas palavras. Ouço pela metade, escuto o aperto da tua dor. Quando te escuto, ouço o feitiço. Tua voz agarrada ao passado fechado, sem presente, sem fita nem surpresa… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2006
Uauuuu! Encontro casual entre elevador e a porta do prédio, entre a poeira (da obra), e o azul do dia: humor encasmurrado, feito cascão! Esta analogia eu fiz, cruel! Vida nos grilhões, arregaçada. Mulher encapsulada, arrogância sem voz… Não posso deixar sem registrar. Morar em condomínios tem espantos azulejadas, o jardim precisa de gramado e sorrisos. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres
Paulo tem razão, a cada linha um jeito novo de se esconder, se perder mais um pouco, ou se reconhecer. Fernando segue escrevendo a própria vida numa reprise de desconexões porque se descobre numa cidade desconhecida, a sua velha meninice pulsa. Magda viaja entre amigos inquieta, fortalecida. Ana Cristina mergulhou nas imagens da lente, e se inquieta entre Portugal e o Rio de Janeiro: o tempo, um minuto. Sérgio agarra lasca redesenha a vontade sensual permanente da juventude. André se aquieta e mistifica o poder, depois se entrega, como um menino, para a beleza melancólica da paz. Simone cuida da vida com gentileza atenta. Celso pensa e eu penso Celso, temos um abismo a nos separar. Gustavo persegue as sombras enquanto eu choro. E o meu amado aproveita os dias para me esquecer e fazer assados neste inverno. Eduardo espia o mundo com sua lente de pesquisador e devolve tudo em letras e acertos. Francisco consome amor e música com olhos verdes de desejo alegre. Paulo Sérgio se prolonga na magia de ser jovem amado bonito e genial. Aos internautas o mundo dos boabás e descobertas: ouro com hora marcada.

” – se tu vens, por exemplo, às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração…É preciso ritos.”
Assim caminha o amor, descabelado a se pensar a caminho, ou todo ajustado, arrumado, penteado para o amor certo, na hora certa! Perdendo os pedaços no meio do caminho, distraído! Saudoso, abençoado e dadivoso: esparramado…
” – Que é um rito? – perguntou o principezinho. – É uma coisa muito esquecida também. – disse a raposa. – É o que faz que um dia seja diferente de outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. A quinta – feira então é um dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem em qualquer dia, os dias seriam todo iguais, e eu não teria férias.” (p.99) Antoine de Saint-Exupéry O Pequeno Príncipe
Este sol devolve colorido brilho cintilante. Hoje de manhã, tropeço numa nuvem escura saindo do elevador, com um tapetinho enrolado em baixo do braço, cabelo escorrido, expressão escorrida. Tudo cinzento e seco. Deve carregar o peso por dentro num esforço espicaçado sem som… Sacudi o meu sorriso e escutei os piados e gritinhos alegres da passarinhada nos hibiscos. A Ônix nem se desviou, correu sacudindo o rabo para a liberdade da calçada, eu segurei a porta e a nuvem passou. Entrei na manhã ensolarada, quase noves horas… Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2019 – Torres
P.S. Vida: todos os minutos se misturam no eterno.
“Sendo assim, pensou, será que minha vida é apenas um processo de reprodução, de materialização, de uma imagem latente que guardo em mim? Até que ponto eu sou responsável por estar completamente perdida?” (p.99) Haruki Murakami 1Q84 (Livro 2)
Não sei nada de viver nem de nada. Vou devagar, distraída, sacudida, meio perdida!
Velhos amores também ficam velhos! Engraçado. De repente passou… Dois maridos, dois amores amados. Relacionamentos tempestivos e intensos, ficaram na estrada. Lembranças, passado. Estar pendurada na memória! Respirar hoje para o amanhã. Posso dizer/inventar / contar novas estórias. Não posso te esquecer. RESILIÊNCIA. Estás do outro lado. Não imaginas o quanto te desejo grande / enorme e apertado. Já tão tarde! Coloquei / colocaste / colocaram barreiras invisíveis. Envelhecer, as cordas se esticam traiçoeiras, não te preocupa mais, temos outras vidas. Teu poder, devolvo. Venceste! Ser amor amado hoje não importa, já é amanhã, e foi ontem ainda que cozinhamos juntos. É o tempo que envelhece, a terra, nós somos eternos. Quando espio para a tua vida, e te procuro do outro lado da cerca, eu explico: esqueci de te dizer O B R I G A D A! Basta apagar a luz e somos nós em 1963, não esqueci do biquíni preto, da areia, e lembro de ti menino! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

Ao escrever, eu me liberto! Não importa se não respondes. Sou das missivas, e tu gostas de estar do outro lado!
Aquarela do artista plástico Carmélio Cruz – Porto Alegre 1964
Estranho efeito! Desordem no espelho: tudo fora do lugar num descuido completo e preguiçoso. Um dia azul verde enrolado no xadrez do xale macio de um inverno que, talvez, aponte. Os pés em meias de lá. A pele macia e doce sustenta / conversa com o imponderável. Se estamos vivos tudo é possível, inclusive, sentir doer, perder os pedaços porque envelhecemos. Somos parte deste todo que se despedaça, sem referência, apenas se despedaça…
Escreve Danúbio no seu livro SER OU NÃO SER ARTE (p.61) : “Vicent nasceu morto. Irmão homônimo do pintor Van Gogh, esperança para a família, herança nominal de um esperado vencedor. O cognome maldito pesaria como traumática cobrança. Recusado como homem e artista. Fracassado.” E transcreve de Vincent escrita no hospício de Arles para a irmã Wilhelmine. ‘Se eu tivesse elevado minha voz desde o começo, em vez de me calar em todas as línguas do mundo!’ Segue: Arrependimento do pintor. Van Gogh vendedor de objetos de arte, Van Gogh pregador religioso, Van Gogh socorrendo a mineiros explorados no Borinage, Van Gogh aprendiz desenhista, Van Gogh apaixonado frustrado, Van Gogh sustentado pelo irmão, Van Gogh mutilado, Van Gogh internado no hospício de Arles, Van Gogh apedrejado e batido pelos intrusos antropófagos, Van Gogh suicidado pela sociedade. A carta: ‘É muito provável que eu ainda venha a sofrer muito. E, para lhe dizer a verdade, isso não me agrada, pois em hipótese alguma eu desejaria uma carreira de mártir. Porque sempre procurei algo diferente do heroísmo, que não tenho, que evidentemente admiro em outros, mas lhe repito, não acredito que seja meu dever ou meu ideal.’“.
Releio este e aquele livro para agarrar este sol de hoje, porque tudo é dolorido. Despedaçado. Uma sequência de perdas. É constatação, e de repente, preciso do heroísmo. Agarrar o cotidiano / segurar a vela da jangada mesmo que as lágrimas e os soluços me sufoquem. Envelhecer: um relâmpago de lucidez. Insperado, ligeiro / passageiro. Como um sonho? Desejo, confiança na voz do soluço… Saudade. Saudade do teu urgente dizer! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres