bilhete de amor

Por que escrevo bilhetes de amor? Porque me apaixono, abençoadamente, eu me apaixono, inexplicavelmente, eu me apaixono. O amor sacode pensamento estremece ciúme, acorda prazer, dá tranquilidade desesperança, e também paz. Sei que estás lá … Do lado de fora estou a envelhecer inquieta, dentro estás a te estabanar animado. Agradeço a juventude que se inclina e me abraça. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2017 – Porto Alegre

cogmelo na janela linda a foto

Ler fora sempre o seu maior prazer, e agora, na narrativa dos triunfos e derrotas dos outros, das dores e alegrias alheias, encontrava refúgio contra o espectro obsedante do próprio insucesso”. (p.73) Irving Stone – A vida trágica de Van Gogh – José Olympio Editora – 1945

repetição, não reparação

Histórias familiares omitidas. Rastros obstáculos. A memória soluça como lamúria. Sim, sinto saudade do campo enquanto olho nostalgicamente para o mar… “Ah, Anna, quanto tempo passou. Quantas lacunas que não podem ser preenchidas, quantas coisas dignas de serem esquecidas. Aquilo que se meteu no meio de nós sem ser chamado, e depois tinha de valer como calorosamente desejado. Aquilo com que nos fizemos felizes. Aquilo que considerávamos belo. Aquilo que era enganador. Razão pela qual nos tornamos estranhos um ao outro, nos machucamos mutuamente. […] Seríamos um casal de sonhos, diziam de nós. Inseparáveis e nascidos um para o outro, nós parecíamos ser, e também éramos: do mesmo nível. Tu voluntariosamente orgulhosa; eu treinadamente autoconfiante. Em imagens que mudam vertiginosamente, adequadas para festejar o jovem casal, vejo – no unidos a dois. Em teatros no Leste e no Oeste, onde presenciamos o Círculo de giz caucasiano e Esperando Godot, ou no cinema na Steinplatz, onde vimos os clássicos franceses Hotel du NordA menina com capacete de ouro, A besta humana. Eu subi no teu quarto de solteira, tu disseste: ainda não.” (p.320) Günter Grass Nas Peles da Cebola – Memórias

Desta memória um novo jeito de viver. Perseguir a paz, acalmar angustia. Agarrar a velha alegria. Estar aqui e agora. Fecho portas, abro janelas. O feito era/é natural. Fácil recomeçar, colocar uma pedra em cima da tristeza, abrir um verso, uma frase, fechar uma história e desenhar outra. Beth Mattos – janeiro de 2019, nada assustava a desesperar. Sempre recomeçar, outra história. Como mudar de bairro, de casa, de estado. Mudar de país. Renovar seria inovar. Trabalhar. A força física, a mão laboriosa, bordar e consertar. Sim, sinto saudade do campo enquanto olho nostalgicamente para o mar… Horizonte.

 

emprestado

Vida emprestada ou alugada, enfeitada de palavra. Desavisada. Desânimo grotesco, pesado. O tal chavão do silêncio ruidoso. Vivo eu comigo. Imaginação. Houve tempo de mudar, hoje não. Se agitam as calçadas. É assim. Dorme de dia acorda na noite. Dança de noite se amoita no dia. Se o sol  queima a noite refresca. Se a conversa se esgota o olhar arde. Dito feito, ou nada. Desordem interior. Apego desnecessário. Querer sem rumo. Tô triste porque é tarde! Beth Mattos – 2019

não raciocinar

A gente aprende a escrever, a cantar, a falar bem, a emocionar -se, nunca a pensar. E as palavras nos conduzem, e elas deturpam até mesmo os sentimentos. […] Tenho observado que as pessoas, quando falam ou escrevem, abandonam imediatamente qualquer pensamento para tirar deduções artificiais. Utilizam – se das palavras como de uma máquina de calcular de onde deve sair a verdade. É uma tolice. É preciso aprender não a raciocinar, mas a não raciocinar. Não há necessidade de uma sucessão de palavras para compreender alguma coisa; caso contrário, elas falseiam tudo; nós confiamos nelas.” (p.105) Antoine de Saint-Exupéry Carta a sua Mãe

suicídio

É verdade. Tenho que tentar, mas parece suicídio. Que seja, ainda tenho tempo para morrer, e para dizer. Desespero porque não encontro solução. Sim, hei de encontrar. Palavras como encaixes aleatórios, sem sentido, ou todos os sentidos esquisitos e brutais. Lá vai a perfeição distraída nestas Cartas Exemplares de GUSTAVE FLAUBERT,  Beth Mattos – janeiro de 2019

“106. A Mme Maurice Schlésinger 

Paris,

14 de janeiro, 1857

[…] Agora irei retomar minha pobre vida tão monótona e tranquila, em que as frases são aventuras e em que não se recolhem outras flores a não ser as metáforas. Escreverei, como no passado, pelo único prazer de escrever, para mim só, sem qualquer interesse em dinheiro ou em fazer barulho. Apolo, sem dúvida, me acolherá e chegarei um dia talvez a produzir algo belo! pois tudo cede, não é verdade, à persistência de um sentimento enérgico. Cada sonho acaba por encontrar sua forma; há água para todas as sedes, amor para todos os corações. E depois nada faz a vida passar melhor que a preocupação incessante com uma ideia, com um ideal, como dizem as  cocotas… Loucura por loucura,fiquemos com as mais nobres. Já que não podemos arrancar o sol, é preciso fechar todas nossas janelas e acender os lustres em nosso quarto.” (p.165)

aleatório

Anaïs Ninn:

“- Você se apaixona pelas mentes das pessoas.” (p.15)

“A vivência excessiva desgasta  a imaginação.” […] “Para ser grato é preciso primeiro saber amar.”

A vida não é racional; é louca e cheia de magoa.”

“Raramente odeio, mas quando odeio é com furor assassino.”

“O luxo  não é uma necessidade para mim, mas coisas bonitas e boas são.”

“Existem duas maneiras de chegar a mim: por meio de beijos ou por meio da imaginação. Mas há uma hierarquia: só os beijos não funcionam.” 

“Não busque o porquê  –  no amor não existe porquê, nem razão, nem explicação, nem solução.” (p.64)

Proust escreve que felicidade é algo livre de paixão.”(p.65) “Quando estou com problemas, confusa, perdida, invento a amizade de um velho sábio com quem converso.” (p.66)

Nunca percebi claramente quanto hoje à noite que meu hábito de escrever em diários é um vício, uma doença. Cheguei em casa, […] Jantei, fumei sonhadoramente. Deslizei para meu quarto, tive a sensação de ser envolvida, de cair dentro de mim mesma. Peguei meu diário de seu último esconderijo debaixo da mesa-de-cabeceira e joguei – o sobre a cama. E tive a sensação de que esta é a maneira de um fumante de ópio preparar seu cachimbo. O diário, como um fragmento de mim mesma partilha de minhas duplicidades. Para onde foi minha enorme fadiga? E então um sentimento demoníaco me impele a continuar.” (p.97) HENRY JUNE e EU

Sei que não me lês, mas se ainda lês, (eu imagino e desejo) te digo: hoje pensei apertado na tua imaginação, e… Beth Mattos ou Elizabeth M.B.Mattos

 

 

Adélia PRADO para ANA

“A vida inteira para estar aqui

neste domingo,

nesta cidade sem história,

nesta chuva

mensageira de um medo

que não o dos relâmpagos,

pois é mansa.

É inapelável morrer? “(p.53)

Adélia Prado Oráculos de maio 

Não achei, ainda, o livro, minha Ana Maria: presente de Geraldo Lima. Esta desorganizada assustadora desordem contínua louca me entristece, mas tu és poema, filha.

Tua poetisa Adélia  Prado:

“Estou como quando jovem,

a inteligência muito ignorante.

Pode ser que o ônibus demore,

não ligo, não tem importância,

já fui, já voltei e, além do mais,

não quero sair daqui.”

(p.99) Oráculos de maio

Ana Moog:

Ela é maravilhosa…apaixonante. Escreve de dentro da alma com uma lucidez invejável.”

sair e se perder

“A ideia das páginas desaparecidas não tinha saído a contento, e ele a arquivara e esquecera.”Philip ROTHHHHHHH dois

Não desisto. Fantasma / gente / pessoa segue na minha vida e faz o dia continuar sem interromper, nem por um minuto, a ideia errada ou nova ou estranha de que acordo ao teu lado no amor amanhecendo… Penso no invisível. Nós dois.

Converso com quem está na calçada, abraço a filha. Faço caretas: não vou viajar. Deveria. O dia está lindo! Lindíssimo.

Agora, porém, ele se deu conta de que poderia dar a essa historinha sobre uma guerra entre linguagem e o silêncio um significado que não era somente linguístico; percebeu que a história ocultava em seu interior uma parábola sobre liberdade e tirania cujo potencial finamente compreendera. A história estivera além dele, por assim dizer, e agora sua vida pessoal o alcançara. (p.166) Salman Rushdie – Joseph Anton Memórias. 

Estou a misturar leituras, emoções genuínas. Particularidade: bordado necessário,  decifro teu abraço. Agarro a coragem silenciosa para escrever. Escrever pode ser pintar, pintar e pensar em nós dois. Jogar tinta na tela, na pele e esconder o primeiro desenho indefinido. Lá estou eu incapaz, espichada, tropeço. Priorizo a dor na perna esquerda, o silêncio. Três livros abertos, uma voz fantasma, e sou eu a pedir perdão, outra vez. Que seja perdoada. Leio releio, leio A MALETA DO MEU PAI de Orhan Pamuk, – Flávio Xavier tem razão, livro precioso:“Escrever é transformar em palavras esse olhar para dentro, estudar o mundo para o qual pessoa se transforma quando se recolhe em si mesma – com paciência obstinação e alegria”. (p.13) Orhan Pamuk. Atrapalha esta carência-fantasia  a imaginar o encontro: tua voz, teu olhar, tua sedução. Como seria bom conversar contigo! (suspiro sorrindo) Beber água / vinho / leite  ou café e poder te espiar / olhar. Sigo apaixonada. Insistente, desvio do que de fato importa. Brinco com bolas de gude, e sonho sonho açucarado. Achas graça: a vida é assunto sério. Vou / devo / terei que me dar conta… Beth Mattos – janeiro de 2019 -PhilipRoth OrhanPamuk SalmanRushdie EliasCanetti GustaveFlaubert PaulAuster MachadodeAssis HenryMiller PauloHeckerFilho MilanKundera JavierMaríasJaneAusten MarianaAlcoforadoGabrielGarciaMarquez Krishnamurti Anaïs NinnClarice Lispector J.M.CoetzeeAmósOzKatherineMasfield AdéliaPrado e Francisco Brennand

retomar tomar voltar

“Paris,

14 de janeiro. 1957

[…] Agora irei retomar minha pobre vida tão monótona e tranquila, (refere-se ao frisson provocado pela publicação de Bovary na Revue de Paris) em que as frases são aventuras e em que não se recolhem outras flores a ser as metáforas. Escreverei sem qualquer interesse, como no passado, pelo único prazer de que escrever, para mim só sem fazer barulho , sem qualquer interesse em dinheiro. Apolo sem dúvida me acolherá e chegarei um dia talvez a produzir algo belo! pois tudo cede, não é verdade, à persistência de um sentimento enérgico. Cada sonho acaba por encontrar sua forma, há água para todas as sedes, amor para todos os corações. E depois nada faz a vida passar  melhor que a preocupação incessante com uma ideia, com um ideal, como dizem as cocotas… Loucura por loucura, ficamos com as mais nobres. Já que não podemos arrancar o sol, é preciso fechar todas as nossas janelas e acender as luzes do nosso quadro.”(p.165)  A Mme. Maurice Sclésingeer – Gustave Flaubert – Cartas Exemplares

Gosto de cartas. Escrevo freneticamente muitas, e muitas cartas. Ler intimidade, espiar. Entrar / imaginar outro mundo / outro tempo.  Sigo assustada e perdida longe de ti. Escrevo na esteira de novas possibilidades de retomarmos palavra / voz, intenção. Eu me acostumei, mal acostumei com tua presença. Saudade.

Meu querido, choramingo: perdoa. Tua interferência foi correta, mas sem energia sinto a tua falta. Escuto tua voz. Coisas de menina apaixonada. Recomeçar do zero e do nada. Difícil. Vou conseguir.  Não sei se vale o esforço. Estou a me pedir perdão todos os dias… Se eu pudesse me esconder! Encontrar ânimo e prazer! Poderíamos recomeçar juntos? Gostamos das mesmas coisas. Gosto do teu esconderijo. Do teu beijo, tua fantasia, tua voz, tua irreverência, teus equívocos, teus cães. Tua saudade, tua resistência. Gosto desta sombra e da dança. Gosto deste amor desgovernado. E.M.B.Mattos – janeiro 2019 – Torres