reentrância

No meio da noite teu corpo no meu. Reentrâncias. A língua sente a maciez da pele. Sugo teu gosto. Durmo encolhida nos teus braços que são meus braços. Não faço planos. Estou na tua cama. Toco e movo meus pés em tua direção… Diante do espelho eu me pergunto da beleza. Das rugas, do fio branco no cabelo, das olheiras. Conversa estreita com o tempo. Existe tempo quando se ama? Ou tudo é  mesmo uma projeção, uma ideia do nosso olhar. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – Torres

escondida

Desligo o celular abafo o telefone e vou dormir.

Hoje pensei conto história palavra. Pensei dia e noite. Olhei o espelho, eu vi. Tem estrela no olhar. Tem lua pela metade. Tem lagoa de água lisa. Tem a serra. Tem árvore e desenho. Quanta surpresa nesta fome de dormir. Esta coisa de ver do outro lado do mundo. Esta coisa de sentir do outro lado do mundo. Esta coisa de imaginar do outro lado do mundo. É procurar. Terei uma manhã, eu vejo. Elizabeth M.B. Mattos – Torres

SABINE CARTA e CAPA

Outra vez … Esta coisa de ver do outro lado do mundo. Esta coisa de sentir do outro lado do mundo. Esta coisa de imaginar do outro lado do mundo. É procurar. Terei uma manhã, eu vejo.

despedida ou adeus

Despedida ou adeus. Apertam. Não gosto. Não gosto de abraçar quem não vai voltar. Nem o que termina. Procuro poderes especiais para virar as costas e não olhar para trás. ” Certas pessoas tem mais talento do que outras para a realização de proezas de bruxaria, e nós sabemos muito bem escolher.”(p.316) Thomas Mann Doutor Fausto

Segunda noite desta insonia-tristeza. Não sei terminar a palavra, não sei largar tua mão. Não sei fechar o livro. Não sei explicar nem escolher. Não sei dormir, nem acordar. Não sei chegar nem dizer adeus. Não sei. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 Torres, ainda

esquisitice

… esquisito mágico perturbador esta volta retorno passado 40/50/60 anos. Não tem  passado. Tem um agora menino. Esquisitice rever  olhar, a todos nós, congelados. Sorriso brejeirice: congelados tu e eu nós. Um menino. Como podemos conceber pensar um hoje descolado do que fomos? Dor nova constatar: não existe passado. Memória deformada:  a criança menina se debruça no teclado. Sofro o sono de ontem num hoje/agora inquieto. Há que voltar aquele olhar transvestido fantasiado descoberto sem ontem. No abraço num agora morno envelhecido. Somos nós. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – depois que te vi naquele retrato.

o beijo se esconde

Torres depois da chuva, abençoada água: lavou, refrescou. A água bate forte. Janelas sacodem acompanhando o vento. Cortinas levantam o ar gelado. As pálpebras descem pesadas. O corpo cai no sono inteiro. Respiração solta.

Mar cinzento, ondas altas escondem azul verde de ontem. A lua  escondida na nuvem. Lá onde o beijo se esconde. O corpo conversa no desejo: beijo demorado colado manso: tudo lento muito lento. Estou apertada encolhida. Sinto o cheiro do corpo dele. O suor me afoga.

Vestindo as roupas devagar já nos vamos despindo um do outro.

O silêncio enche o quarto. Não há leitura preguiçosa nem sono de entrega, ou desordem. Gosto de café preto sem açúcar. Esterilizado sentimento. Despedida, não começo. É consolo. Apago a palavra. Também o sonho. O grito se dilui no rio pelo mar pelas trilhas nas coxilhas. Envelheço do prazer do beijo do abraço do corpo cansado colado.  Elizabeth MB Mattos – Torres maio de 2018

 

 

 

a volta

a vida tem magia e contorno

a vida tem retorno, volta,  encontro

a vida a ser reconhecida, vida

não posso desistir

agradecer

estou muito muito muito muito feliz

reencontro de menina

e o veraneio.

PRECISO AGRADECER

sim, volto para a terra da rainha.

Entendi a mágica.

Fomos reis e rainhas e príncipes e princesas.

E.M.B. Mattos – maio de 2018 – TORRES / Rio Grande do Sul

sem emprego

Porto Alegre 12 de outubro de 2004  – Porto Alegre  – Carta para Paulo Hecker Filho

Fiquei esquisita com a tua carta: és duro mesmo. Li e vou reler cada pedacinho para te responder, ou, quem sabe, apenas dizer outra vez o que eu sinto. Carta extravagante em impulsos de emoções-recreio. Tão completamente frívola fêmea sem ser gente. Péssimo. Fiquei em estado de alerta. Ninguém quer ser coitadinho, mas estou coitadinha. Escrevo e acordo. Ontem dormi lendo o teu último espetáculo. Alguma coisa conhecida, anotei as observações. Tudo é depois. Ler teu livro, ontem, nova lição: transpor as desgraças correntes. Depois. Necessárias culposas ou não. Trabalhar sério, depois. Escrever sério. Dar aulas sérias. Será que fui sempre fútil, apenas mulher? Agora, uma velha carente fútil, mulher? E depois? Escrever para o Paulo é ter com quem conversar. Assim eu me valorizo. USO? A cada carta recebida um ânimo novo. Mas se eu não merecer? Será que estou “me fazendo” como dizes no poema? Ou de repente achei mesmo tudo errado. Ou a vaidade queria que estivesses dentro de mim aplaudindo? Tu sabes como é, se confias menos, eu estaria me mostrando/exibindo. Preciso disso?  Sim, tudo está bem comigo. Por que não estaria?

Se a depressão me ameaça vou dormir. Espero a chuva. Nem passo pelo poema corpo e alma. Esqueço tudo. Vejo duas novelas dois jornais da noite. “Apenas queres mais”. Coisa mais simples e direta esta tua frase! Tu não queres mais? Assim gira a minha pandorga neste céu. Resolvi acordar e te escrever. Segunda tentativa, mas esta carta segue.

ENGRAÇADO ESTRANHO! Uma sacudida não esperada renova: és mestre. Conheces meu exercício diário de sedução. Alimentar a corte é bom, tens razão. O que é a vida real? Escrever, escrever. E a tal definição de solidão não explicitada …, a gata do borralho é isto? Quero a fada madrinha. Sempre fugindo e querendo. Freud explica? Mas, as tantas celulites, babados, pés de galinha superarão o desejo? Perdoa Paulo. Vou comprar um peixe vermelho para o aquário e estarei distraída concentrada nas voltas …. Desculpa a carta: o meu CARNAVAL irresponsável. Tu és uma das poucas pessoas sérias que lê e responde e pensa e perdoa. Quanto ao FARACO, a Ana leu o conto e interpretou tudo diferente. Sou mestra de ver e entender sozinha, autista. Sei lá se é bom ou ruim. Inventei a historia de descrever dentro do conto. E quanto a ZERO HORA eu não leio, não compro. Estou estudando para o concurso. Tenho aulas de manhã e de tarde. Igual angustia me estrangula. Beth Mattos

 

&

 

Relendo a carta eu me dou conta o quanto/tanto de complicado difícil foi ser despedida da Garagem de Arte. Desafio angustiante. A insegurança doeu. Era um recomeçar sem saber exatamente o início ou o ponto de partida. Medo pânico a ser controlado. A ideia de alugar o apartamento da Independência me pareceu solução, e morar com a irmã viúva de um casamento da vida toda. E … estudar seriamente e me preparar para um concurso público. Foi o que fiz naquele ano: estudar. Ganhar tempo. E.M.B.Mattos maio de 2018 – voltando no tempo.

beijo da escada

O beijo da escada. Descrever este momento, abrir a porta…Existem coisas que se faz, mas não se verbaliza porque estremece o equilíbrio necessário para suportar a vida. A palavra é volátil: pragmática ou traiçoeira? Projétil, força, permanência, desvio, contorno. A palavra escrita ou pronunciada efetiva. A história começa. Depois que mencionei o beijo, passamos a nos beijar sempre que nós nos pensávamos em escadas. As palavras fixam as coisas. Depois que foi dita, uma coisa sai da penumbra. Ali está ela – sempre. Há cinco minutos ainda não existia. Agora é uma parte de mim e de você. Assim escreveu Charles Morgan no romance A História do juiz. Foi como aconteceu conosco. Foi dito. E não foi amor, foi querer ser amado. A vontade de ser objeto de amor o fez escrever tantas cartas.

“Sim, eu me lembro. Foi junto à escada, próximo do elevador, na penumbra de uma tarde que está distante. Dois lábios se tocaram. Aconteceu sem palavra. Esse beijo talvez seja o início do romance que vivemos, sem presença física. Nós nos procuramos, nós nos apalpamos à distância, nos trocamos carícias. Escondemos nossos sentimentos, nossos desejos, na palavra reservada, nas reticências, nos subentendidos. Talvez seja este pecado que nos proíbe o encontro. Agora, teu cabelo voltou à cor antiga, natural. Gosto de te imaginar como antes. Lembro-te na transparência de tuas vestes na intimidade daquele apartamento, em Botafogo. Nunca ousei dizer o que se passava no meu íntimo. Contive-me sempre: foi timidez, foi respeito. Depois, havia entre nós (…) as crianças, a diferença de idade. Também imaginava nada significar para ti. Pensava que tinhas outro alguém no teu coração. Custa-me dizer isto, mas se falo, devo ser sincero na minha confissão.Tu evocaste o beijo trocado. Essa evocação quebrou o selo do nosso segredo. Talvez eu tenha dito o que não devia dizer. Se a palavra ofende, rasga esta carta e perdoa. Trabalho num quadro de grande formato. São três figuras. Há nelas a solidão de sempre.”

2 de junho

“Quando jovem, sempre me comovia com o toque da sirene da ambulância, porque nela sentia a solidariedade humana. Agora, na velhice, o que mais me comove é o toque do silêncio. Hoje ele soou dentro de mim: morreu meu querido amigo (…). Estou profundamente triste, jamais o esquecerei. ” Iberê

Existe um ponto final. Mesmo no imaginário a história se fecha com começo meio e fim. Há que ser assim nesta vida da pressa do digital do longe. E choramos da mesma forma. Por que somos fantoches, bonecos, personagens de uma história inconclusa, sem sentido, fantasiosa. Inexplicável. Viver tem esta ironia. Depois, é preciso ter consciência: já vivemos mais tanto do que temos de anos pela frente então somos cautelosos maduros e rígidos. Igual eu choro e lamento o gesto encolhido: rejeição sempre aperta. Junto o passado e com o hoje e me dou conta que sempre aconteceu comigo o que nunca aconteceu -, a vida nas beiradas da possibilidade, nunca real. Sempre fantasia. Patético sentimento de incompletude.  Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – Torres

sem destinatário/ da autobiografia

Rio, 11 de março …, tento organizar a viagem, mas dói por dentro. Sinto medo. Medo da nova cidade, das pessoas. Medo da dependência, e de perder a liberdade. Ainda não escrevi para o pai e para a mãe, não dei a notícia: ficarão estremecidos. Acertei os primeiros e mais difíceis passos com G., iniciei a despedida. As crianças? Como todas as crianças veem diversão/expectativa. Mudar significa aventura férias. Não imaginam ou sentem como definitivo. Aliás, a vida pouco nos pergunta quando somos crianças. Em julho irei acertar detalhes, e se vender o que preciso, e conseguir trabalho mudarei antes do final do ano. Estremeço. Escrevo no intervalo. Estou sobrecarregada. Não sei levar fardos por tanto tempo …, é como se estivesse sem ar. Literalmente sufoco. Neste desespero fico longe do principal e do que deveria ser o mais prático: aumento de salário, valores. Ou mesmo não sair do Rio. Sou inoperante, uma sonhadora e três filhos para criar. Tento estar tranquila ah! Se fosse florido este caminho! Preciso acreditar que vou conseguir. O certo é que preciso entregar o apartamento. E.M.B.Mattos / Beth

Eu e o quadro do Carmélio Cruz

Meu amigo:

Pensei nas contradições do homem que se descobre em processo. Todos os passos importam, imobilidade também. Estou tendo dificuldade de ser eu mesma contigo. A ideia de corresponder a imagem que possas fazer de mim atrapalha. Fantasia minha. Talvez não tenhas imagem nenhuma. Ideia nenhuma, parâmetro nenhum, … fico querendo entender meu sentimento, e parece confuso. Tu és direto transparente, objetivo. Eu dou voltas e voltas e voltas. Não vou chegar a lugar nenhum. É preciso alcançar o limite de nós mesmos. Conflito e tempo de longe. Longe. Queria te sentir perto. Não importa. A cada pessoa seu quinhão seu modelo sua barreira. A timidez te fez feliz e infeliz feliz. Eu distraída feliz. Dispersiva e desorganizada estabanada e feliz. E uma carta ponte, ou uma ponte que se diz carta.

Amoroso sim. Eu gosto de pessoas/gente, e gosto de doar …, nem tem valor como conquista porque é da minha natureza conciliar reunir estabilizar ordenar. Estas qualidades (acho que são qualidades) disponho para os outros. Agregadora irmã  paciente. Confesso, estou mais dura impermeável ressentida agora. Não aguentei o casamento nem a passividade nem o não fazer nada nem a tristeza nem a apatia. Penso neste monólogo e me vejo cruel. Aceitar. Apenas aceitar. E me sinto culpada por não ter ajudado. Por ter desistido. Mencionaste o dinheiro. O dinheiro não me dobrou. Posso trabalhar/sempre poderei cuidar de mim mesma. O muito sou eu. Não me submeteria a um mau casamento por uma boa situação. Foi bem complicado. Eu tinha apenas 24 anos e três filhos: um de cinco anos um de três anos e um de um ano. Difícil. O desabafo. Beth/ Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – Torres