vontade adolescente

Preciso escrever/dizer as cartas que me esperam. Dizer o que não consigo falar. Escrever do sol e da lua. Ler, ler e ler estes livros empilhados. Ler o que foi antes. E tentar dormir sem sonhar. Confusas histórias de sono e de vigília.

Talvez eu escreva por ser um modo de pensamento sem paralelo. Pensa-se mais claramente quando se tem de colocar algo em palavras. Mesmo pessoas que não são escritores profissionais clareiam a mente escrevendo cartas ou mantendo um diário. ”

Estou abafada, sufocada, sem vontade. Possuída estou pela vontade adolescente de fechar a porta do quarto e olhar para o teto. Mas não tem ninguém de quem precise me isolar, ou reclamar, ou dizer, ou choramingar. Abro as janelas. Dia lindo. A lagoa brilha e as árvores se movimentam faceiras. O dia se ilumina depois do frio. E se alguém estivesse ao meu lado eu o exasperaria azeda. Iria até o fundo da irritação. Para que no final desistisse de me ajudar. Pouco racional. Cruel. Abro, aleatoriamente, livros e cadernos. O espanhol Javier Marías: cartas e diários diz ele com razão. Escrevo para pensar melhor, para identificar ou chegar nas bordas. Escrevo para reconhecer quem é quem. Escrevo para aproximar e afastar. Coloco a burca e estou na fantasia. Quem quer chegar perto vai me tocar. Importa este gesto esta voz esta irreverencia amiga generosa: eu preciso. E me entrego e viro pessoa/gente, não mais letra, nem ideia nem frase nem ponto nem interrogação. Fico eu mulher menina criança, entregue. …,afinal é tudo mesmo um nada. Eu me escondo atrás de Javier Marías:

Já se disse que escrever é um jeito único de conhecer, mas é mais um jeito único de reconhecer. Acontece com frequência em Proust, em particular. A gente lê uma coisa e diz: ‘Sim, é verdade, já passei, por isso antes, já vi isso, já senti isso, mas não seria capaz de expressar como ele fez. Agora é que sei realmente o que é”. É o que o romance faz melhor do que qualquer outro gênero ou arte, na minha opinião. Não diria que penso melhor quando escrevo. Mas penso diferente. ”

Entro no livro escamoteio sentimento, absorvo outra ideia um alguém que não sou eu, apenas parte de mim. Esqueço tudo o mais, nem respiro, nem durmo, apenas me escondo no livro amordaçada. É fuga ou  caminho. Não sei. Nem quero definir. Quero parar de sentir o abandono. Diz Marías e eu concordo:

Se fecho um livro e não ficam ecos, é muito frustrante. Gosto de livros que não sejam só espirituosos e hábeis. Prefiro alguma coisa que deixe uma ressonância, uma atmosfera. ”

Volto aos alunos que se perguntam como e quando ler? E eu respondo. Quando houver coragem para caminhar dentro de vocês mesmos, quando estiverem livres para se reconhecer ou se diferenciar diametralmente do outro, quando quiserem abrir todas as janelas e todas a portas ao mesmo tempo, quando se permitirem ser invadidos. Sim. A leitura é violação ou prolongamento, descoberta, entrega. Há medo amor raiva ciúme dor desejo ardente. Continua:

É o que acontece comigo quando leio Shakespeare e Proust. Há certas iluminações e vislumbres de coisas que proporcionam uma forma completamente diferente de pensar. Estou usando palavras que tem a ver com luz porque, às vezes, e acredito que foi Faulkner quem disse isso, acender um fósforo no meio da noite num descampado não permite ver nada mais claramente, apenas ver com clareza toda a escuridão em volta. A literatura faz isso, mais do que qualquer coisa. Não ilumina, exatamente, mas, como o fósforo, permite enxergar o tamanho da escuridão que existe. ”

Não. Não é possível conversar com quem não nos ouve, nem escutar, nem olhar, nem pensar, nem quer saber de você …, outra coisa esquisita é o monólogo quando se espera o diálogo. A certeza que não tem interlocutor e a voz se perde no infrutífero monólogo. O equívoco. Estou a me sentir assim, perdida. Não consigo domar nem o sentimento, nem meu ânimo.  Engano. Segue o espanhol a explicar seus livros:

As ilusões são importantes. Aquilo que se prevê ou de que se lembra pode ser tão importante quanto o que realmente acontece. Tendemos, em geral, a contar a própria história mencionando apenas as coisas positivas, mas também há uma parte negativa da vida que nos forma: o que não fizemos, aquilo a que renunciamos, o que não ousamos fazer, o que desacreditamos e descartamos, aquilo com que sonhamos, o que esperamos, o que deixamos de lado, o que não chegamos a estudar mas pensamos que estudaríamos, o emprego que não conseguimos, o emprego que não nos deram, ainda que o quiséssemos. As coisas que não somos são parte da gente também. Evitamos falar delas, até para nós mesmos, como se não contassem. ”  

“[…] o princípio do conhecimento que rege a vida: não dá para mudar alguma coisa que se fez aos quinze ou vinte anos de idade. Quando se chega aos quarenta, pode-se desejar não ter feito aquilo aos quinze anos ou vinte, mas já está feito e não dá para mudar. Algumas pessoas tentam, outras querem inventar outro passado, algumas se tornam impostoras, outras escondem o que fizeram, mas na verdade não se pode desfazer o que está feito. É preciso aceitar o que aconteceu. ”

Javier Marías explica seus romances. Eu estou tentando entender como eu me sinto, como eu sou. E de onde está vindo este desânimo e desânimo e desânimo: quero reagir. Preciso reagir. Então escrevo. Peço desculpa por todas as respostas que não tenho, pelos sorrisos que não posso dar, palavras alentadoras ou engraçadas que estavam presas. Eu vou sair e respirar. Sei que vou. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – Há qualquer coisa maior.

…vou esperar. Logo teremos lua cheia.

Triste

Às vezes é assim mesmo…, triste. Nada mais do que esta lânguida e derramada tristeza que imobiliza. Nada altera o vazio de estar cansada e triste. Sem palavra sem voz sem graça. Triste. Apenas triste. E a voz tem lágrima. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 –

 

o atleta que procuro

Um gosto de nada. Um nada de nada preguiçoso, mas sem sono. É preciso escutar a voz, e seguir em frente. E eu me pergunto: seguir exatamente para onde?

Um dia de sol. Quente neste outono que se apresentou gelado. Beth Mattos

Máximas de EPICTETO

“ De que te queixas? A Divindade te concedeu o que há de maior, de mais nobre e mais divino, o poder de fazer um bom uso de tuas faculdades e de achar em ti mesmo os teus verdadeiros bens.Que mais queres? Regozija-se, adora a tão carinhoso pai e não te esqueças de dar-lhe graças, do fundo do coração. ”

Não queres ver contrariados os teus desejos?Nada desejes que não dependa de ti.”

“Se empreendes uma tarefa superior às tuas forças, o pior não é que a abandones, mas que te esqueças da que poderias realizar.”

“ Qual é o homem invencível? Aquele que, imóvel em seu assento, não se perturba pelas coisas que não dependem da sua vontade; considera –  como um verdadeiro atleta. Sustentou um combate. Sustentará o segundo? Resistiu ao dinheiro. Resistirá a beleza? Venceu em pleno dia, em meio à multidão. Vencerá a noite e sozinho? Triunfará da glória, da calúnia, da adulação, da morte? Dominará todos os desconfortos e todas as tristezas? Numa palavra, será vitorioso mesmo em sonhos? É este o atleta que procuro.”

“Somente o sábio é capaz de amizade. Como pode amar aquele que confunde o mal com o bem? ”

Máximas e Reflexões- EPICTETO

BEth de pijama

 

tempo de perguntas

A vida dói. O tempo de fazer perguntas passou. Escrevo e procuro a alma das coisas. A criação é um desdobramento contínuo uníssono com a vida. Eixos conexões são pessoais. Para quem escrevo não é, absolutamente, claro/definido: talvez  um fantasma de amor que não é, não foi, apenas vislumbrei. Estranha conexão. Um ponto. O que define o caráter do indivíduo é a prevalência maior ou menor de perfeição ou de imperfeição, isto é, do bem ou do mal que convivem no âmago do ser. Sou andante. Carrego comigo o fardo do meu passado. Minha bagagem são os meus sonhos. Miragem e realidade se confundem. Viver é andar, é descobrir, é conhecer e tocar. Caminho para o ignorado com o mesmo ânimo com que vivo agora. Continuarei polindo minha pedra com a paixão de sempre, até que o sono me vença. Na velhice perde-se a nitidez da visão, e se aguça a do espírito. A diferença talvez esteja no tempo. Elas as experiências passadas é que se misturam ao presente. Estranhamento: a conexão pode se quebrar num segundo … Há que se acostumar com as quatro paredes, e o silêncio. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – Torres num outono invernoso, azul e perfeito.

Solidão

Sobre a solidão dos objetos. Um dia, no meu quarto, ao olhar para uma toalha sobre uma cadeira, tive a nítida impressão de que não apenas cada objeto estava só, como tinha um peso – ou melhor, uma ausência de peso – que o impedia de pesar sobre o outro. A toalha estava só, tão só que eu tive a sensação de poder retirar a cadeira sem que a toalha se movesse. Ela possuía seu próprio lugar, seu próprio peso, e até seu próprio silêncio. O mundo era leve, leve …” (p.45) Jean Genet – O ateliê de Giacometti

” A solidão, como a entendo, não significa condição miserável, mas realeza secreta,  de uma singularidade inatacável, nem incomunicabilidade profunda, mas conhecimento mais ou menos obscuro.” Jean Genet

2018-01-07 12.30.57

Para viver um grande amor

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso – para viver um grande amor. Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma mulher só; pois ser de muitas, poxa! é de colher … – não tem nenhum valor. Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro – seja lá como for. Há de fazer do corpo uma morada onde clausure -se a mulher amada e postar – se de fora com uma espada – para viver um grande amor.[…] Para viver um amor, na realidade,há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade – para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor. “[…] Vinícius de Morais

Protesto

Adormece o envelhecido corpo. Cabelos ralos, rosto deformado. A velha se remexe na cama procura o sono: nada. Uma palavra puxa outra. Ideia firme de fazer  e desfazer. Trocar ficar ou ir. E o fluxo segue … O desconforto da idade. O poder vai diminuindo no passar do tempo como acontece com as crianças. Fico desastrada distraída ensimesmada susceptível. Copiamos e erramos. Pequenas observações pontuam um jeito de ser.  Ouvir a reprovação incomoda. O olhar tolerante desaparece. Ao envelhecer cada passo tem o peso de um ano. O gesto define desenha reafirma. Cavernas necessárias! Não é possível lutar nem querer nem mudar. Aceita-se o mundo. A greve é um protesto. O protesto um grito. O grito a revolução. E depois a guerra. Elizabeth M. B. Mattos –  maio de 2018 – Torres

Aparência

A China comunista não permite canteiros de flores, nem arte, nem devaneios. Durante a Olimpíada de Pequim beleza cerimônia e eficiência. A China mudou?

A beleza é um castigo. O reflexo do belo pelo belo pode enganar e burlar. Pessoas bonitas são surpreendidas por uma aparente batalha sem mérito.

Boca cabelo olhos. Pernas pescoço nariz. Se a perfeição está no corpo como não estaria nos gestos, nos sentimentos? Ela entra três vezes por semana na loja e rouba pequenos objetos. Sente medo. Assim mesmo rouba. Caminha esticando a cabeça abraçada nos livros como se fosse apenas um olhar transitório de lazer. Vez que outra compra um disco, um lenço. Desafia, mesmo observada, a moça que rouba.

Vasos enfileirados pratas polidas. Amontoa objetos. Apalpa tudo com prazer. Um dia chega com três vestidos sobrepostos. Sente sono no meio da tarde.  De manhã se aquieta.  Ser bonita faz parte do circo doméstico que a inferniza. Segue roubando: a beleza se concretiza no furto.

Roubo institucionalizado. Política encoberta por boas intenções. E o público faz ah! Que venham palmas para os espertos. Será que roubar alivia a alma?  Elizabeth M. B. Mattos –  agosto de 2008  – Torres

 

 

liberdade vazia – da autobiografia

Acordei assustada do sonho. Fiz chá, acendi as luzes. Vi o dia nascer. O significado da necessidade está neste construir e destruir peculiar a natureza humana. É preciso ser livre para viver, mas desanimo no ócio. Absorvo a minha separação, esbarro na liberdade vazia: há urgência na vida.

A vida queima, nós queimamos.

Qual será o momento do encontro. Chegaremos à margem do Guaíba? Ao poente?O lençol cobre a terra, mas o ar conterá todas as transgressões … Algumas passagens da vida têm a pincelada da corte da ruptura com o pedaço interno lá de dentro do corpo. Dói: cheira a morte, cheira a doença.

Acabamos sentindo fisicamente aquilo que temos no coração.

Será justo,  ou não será? Por quê? Porquanto fizemos e desfizemos começamos recomeçamos. Desfazemos fazemos.  Não saímos do lugar, apenas morremos um pouco. Dias longos chegaram. Não estavas aqui, poderias estar. Desânimo. Cansaço igual ao teu. Quero voltar para nós. Costura minha dor e faz bordado deste meu arrependimento. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – Torres

 

Porto Alegre, 7 de janeiro de 1992.

Amiga, querida amiga:

Tua carta é desesperada, é um grito. Eu me preocupo. Estou ao teu lado, quero te ajudar. Tu não podes te deixar abater, afundar na desesperança. Cuida da tua forma física, pinta teu cabelo, renasce. Basta perder peso que voltas a ser o que sempre foste, uma mulher bonita e sensível.

Oportunamente vou te fazer um desenho, será o presente de Natal que passou. Mas não posso fazer uma ratinha, porque não é assim que eu te vejo. Se eu o fizesse mentiria. Precisas sair deste poço, dessa prisão imaginária em que vives tuas cadeias, essas amarras são psicológicas. Não te deixes aprisionar num círculo de giz como acontece com as galinhas.

Eu, atualmente, enfrento muitos problemas. As reformas que fiz no atelier não deram certo! Agora vou jogar a última carta: remover o telhado, substituí-lo por […], única possibilidade de ter a tão necessária luz zenital, a luminosidade do céu. Tudo isso devido ao erro do arquiteto que projetou o atelier. Nesse país a incompetência é geral. Nós estamos sempre pagando a burrice dos outros. A situação do Brasil é a prova maior da incompetência e da irresponsabilidade. Desculpa, mas estou muito irritado com a situação que estou vivendo. Há ainda o caso da Lopo que não se decide, pois o tribunal está em férias. A justiça é lenta, não tem pressa, é preguiçosa. Seja o que for nós temos que lutar.

Comecei um novo quadro, também de grande formato. Há nele a evocação dos carretéis. Abstenho -me de mais comentários para não esvaziá – lo emocionalmente.

Sei que vais reagir. Para começar cuida do visual, pinta o cabelo, volta a ser bonita. Manda – me uma foto, mas não tão pequena, quase invisível, como a que mandaste tempo atrás.

Tô com saudade de ti. Quero te ver. Se te libertares dessa prisão imaginária, isso será fácil. Tu já vieste uma vez aqui, conheces o caminho. Por infelicidade, nesse dia eu não estava em casa. Estou ao teu lado. Muito carinho.” Iberê Camargo

 

 

 

 

 

 

No Bazar – autobiografia

Meu amigo:

Li no jornal o teu protesto sobre o preço das tintas. Que a tua voz seja ouvida. Estamos nesta luta juntos. Continuo trabalhando no Bazar Praiano. Mar verde água limpa. Sem ondas. Verão. Sol e sol. Natureza quieta: silêncio no barulho do mar. Muito a ser vivido neste momento. Convite às famílias. Quando pretendes aparecer? Vem logo. Pessoas carecem de amigos. Eu te necessito. A vida segue aberta. Vivo experiência curiosa. Estar no bazar concretiza o tempo. Abri mão de valores de posição social. Termino o dia com as mãos doloridas e gretadas quando limpo prateleiras. Esta experiência é uma porta que se abre para o comércio. Aprendizado. Gosto deste tablado. Laboratório fantasia observação. Olho, faço, estou dentro do ritmo quente das vendas e compras compulsivas. Respiro pessoas numa troca cúmplice de olhares. Todos em férias.  Muito calor entre pastas de dente colheres chapéus redes cestas brinquedos. O necessário e o inútil. Livro vela pote enfeite. Perfumes vidros vasos e tudo o mais que possas imaginar. Preciso ter dinheiro para comprar uma loja e investir. Estou agitada, fervendo por dentro…

Má notícia: engordei para todos os lados. Estás rindo? Sim. A vida não é fácil. Enfim, cá estou diante de uma porta aberta colorida engraçada. Vou entrando… Temos castelhanos como praga. Tropeço neles. Se  alguém me dirige a palavra em português  eu me surpreendo. Gritam. Alguns conversam e são educados, mas poucos. Não há mais Torres, mas colônia. Enxame de gente lota corredores. Produtos desaparecem das prateleiras numa rapidez inacreditável. Meus olhos caem pesados num sono crônico. Azedo. Mas a tristeza não se põe lá. Se guarda em casa. O movimento entra na madrugada cobre a noite e as  tardes. Apenas as manhãs são silenciosas e mansas num acordar lento. O sol entra pela janela  gotejando  o dia.

Hoje é segunda-feira, não irei ao Bazar e posso, assim, planejar o trabalho acadêmico. Já levei os cães na praça. Bebi café preto. Comi pão com manteiga e mel. Hoje é  segunda-feira da última semana de janeiro. Elizabeth M.B. Mattos – Torres 1992.

dia do casamento com GERALDOOOOO rasgada