O mundo se descreve pelo pecado original. Culpa da mulher. Da maçã. E tudo se reescreve na tentação. A corrupção se inicia de dentro para fora na relação primeira. O poder de transformar. Erradicar o veneno. Compreender o processo que leva/envergonha/ arrasta o país até a tal latente corrupção. O que existe dentro de cada um? Preciso entender quem sou/e como sou. Lá estará a resposta, ou a possível explicação. Detectar/aceitar/ corrigir o início desta estagnada corrupção que paralisa. Esta corrupção interior, particular, a quebra, a maçã tentadora. Sou conivente com esta duplicidade. Sigo a necessidade de sobreviver absorvida pelo Eu. O que me conduz? Minhas próprias histórias mal contadas. Enfim! Fica a pergunta. Maldito poder adquirido interno e logo absorvido. O poder potencializa foco desejo. Situação cômoda qualifica esconde Não importa quem se arrasta. Egoísmo cego engole o bom senso. Nós? Eu? Quem? Escravizamos sentimentos/ aviltamos relações/ chafurdamos na lama. Queremos mudar ou lamentar? Consolo no acaso. E ninguém é responsável.
Encharcado de lágrimas
“Chore e chorará sozinho! – Que mentira! Chore e achará milhões de crocodilos para chorar com você. O mundo está sempre chorando. O mundo está encharcado de lágrimas…, mas a alegria, a alegria é uma espécie de sangramento estático, uma espécie desgraçada de contentamento que transborda por todos os poros do nosso ser. Não se pode alegrar as pessoas apenas sendo alegre. A alegria tem de ser gerada pela pessoa: é ou não é. A alegria se funda em algo muito profundo para ser entendido ou comunicado. Ser alegre é ser um homem louco num mundo de tristes fantasmas. ” Henry Miller
A chuva parou e o mundo ficou mais calmo. Ontem a angústia. Hoje a doçura de me saber em casa. Vou curar esta fobia de ir/sair, ou melhor, do não movimento. Encontrar o eixo e estar no ir/vir/voltar/chegar.
A ideia do quarto-alugado é boa, um lugar pequeno. E coloco gerânios na janela. Eu te gosto. Nunca esquece disto, mesmo no silêncio. Sou esquisita, apenas isto. No reencontro, a fantasia com lantejoulas que só fazem sentido neste meu vestido de princesa. Sei que o príncipe não tem dor, nem sofre. Para eles as hortênsias, descabelados crisântemos não estão no jardim real. Apenas rosas, orquídeas, cravos amassados, vermelhos, sombra e prazer. As conquistas são galantes. Não existem jornadas, nenhum esforço. Tudo está completo para o príncipe, e de certo, para a princesa também. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2017 – Torres
Meninos velhos



Não irei viajar pela tua mão nem te seguir, não assim pendurada na pandorga. Eu te queria/ eu te quis escondido na caverna, e vieste. Se o mundo inteiro te chamava/atraía, sou/era eu teu singular, tua terra. Estupefatos! Espias velhos amores mais ou menos amados, e eu os amados mortos, despedaçados, mas paradoxalmente vivos. Vivos neste quintal transmutado, o laboratório. Vivos neste porão de memória, a tua e a minha. Rogéria nos cuida, e ficamos os dois escondidos.
Sou eu que tenho que contar esta história de amor descabido, estranho, e perdido tão logo achado como se fosse bruxa, feiticeira malvada. Tu me traíste com este franzido de nariz, este teu olho apertado e este sem jeito que tinhas para tudo que não fosse brilho. Aonde te escondes com esta vaidade palpitante e este poder partido majestoso. Telas aquarelas histórias de estórias misturadas. Aonde é este teu castelo sem gramado, sem guerreiros? Encontro bem a jeito de amantes que se amam sem pertencimento. Chocolate vinho uísque quiche maçã e o inusitado. Telefones tocando. Respiramos dissemos escrevemos gravamos e traçamos.
“Ainda não criei coragem para escrever o depoimento sobre a minha vida privada, mas já estruturei o esqueleto do texto, que será na primeira pessoa. E tu gostas, de usar o português lusitano: ‘estou a ler’. ”
Descalços voltamos a Torres e dançamos. Dançamos nas dunas. Sorrindo Ah!… estes dois meninos velhos. Elizabeth M. B. Mattos – Torres. 2017
Pelo menos
“Envelheço mas o sol pelo menos não me pune. Continua a nascer a cada dia.”
Pelo Menos, P.H.Filho
A HORA“E como vou morrer o mundo morre. No agora vem o ontem, e outros ontens, já sou tantos! Soa a hora. De acordo. Mas não sem sofrer a pena de abandonar tanto mundo. P.H.Filho
“Amar sempre me surpreende. Depois é que vou amando, mas não sem comprovações. Não é de ti que eu duvido. Me desdobra é estar amando sem sequer ter decidido nem poder deixar de amar.”
SURPRESA P.H.Filho
DESILUSÃO de ÓTICA
“Fecho os olhos e dou com o fundo do abismo. Sumir nele, fugir?
Abro os olhos e desapareceu …”
Paulo Hecker Filho, Aqui e Agora, Porto alegre, 2003. Editora Alcance
Não haverá outro apartamento

Grande, bem grande. E se prolonga no que deveria ter sido uma varanda, agora envidraçada. A luz se espalha na peça. Além da cadeira de balanço tristonha a reclamar da palha escabelada do assento (precisa ser restaurado) o elegante armário de louro explica/ agiganta o quarto. Uma mesa redonda com diâmetro para acolher uma bandeja que comporte uma xícara de café um açucareiro um bule pequeno e um prato para dois brioches. Luz de um abajur de alabastro, uma escultura com dois personagens, um inclinado sobre o outro, voltados para a pequena cadeira estofada de couro castanho avermelhado. O lustre central tem cúpulas com listras apertadas esverdeadas, estampa que se repete na colcha da cama. Um grande tapete persa macio ilumina o quarto com suas faíscas vermelhas, e nas laterais da cama os escuros com suas franjas penteadas. Um bom colchão acolheu o jeito moderno. Estrutura de madeira que se faz cabeceira. Estante horizontal. Livros, caixas de tamanhos diferentes, pequenos objetos. Livros. Mais livros. E, nas pontas das cabeceiras outros pés de alabastro com cúpulas discretas. Almofadas, muitas almofadas.

Francisco apoiou o cálice de vinho na mesa. Vestiu o suéter que estava nas costas da cadeira, e sentou esticando as pernas. Descansou a cabeça, apertou os olhos. Desenhou mentalmente o projeto para o novo apartamento. Tirou do bolso uma caderneta pequena e fez contas. Sempre precisou de muito espaço para viver, sempre caminhou pela casa contando as peças, orgulhoso da largura das paredes, certo de que este seria o seu lugar definitivo. Não importava estar sozinho. Sorriu para si mesmo, não haverá um novo apartamento, disse em voz alta. Elizabeth M. B. Mattos, Torres.

Vaidosas e cintilantes amarras

Fico aqui falando comigo mesma e pensando nisso e naquilo. No que fomos/somos: um somado ao outro. Esgaçados, intensos, adolescendo em praia, sem segredo. Eu a me sentir culpada: coisa minha. Grande culpa bíblica escancarada. Tão falante e murmurante sem dizer o que importa. Deveria ter ficado ao teu lado ouvindo devagar esta alegria. E teu rosto aberto em sorriso a me espiar. Sempre apressada corri para este longe que sou eu. E tudo que queríamos era mesmo estar/ser. Que castigo! Não precisavas ter morrido apressado, também tu, inquieto. Por que fugiste?, … assim neste teu mal súbito,entre um boa noite e um silêncio. Debruçada sobre mim mesma te imaginei já dormindo e me consolei no meu próprio sono. Amanhã. E não houve amanhã. Atravessei a distância, exausta. Eu dormi, e tu morreste. O começo amado, não o fim, não desaparecer. Não morrer. Mas os medos saíram correndo apressados, antes de mim. Correndo assuntados como se pudessem compreender o grito. E na palavra, na voz, na volta seríamos dois.
Sabíamos que não eram de amor as tuas prisões, não eram amorosas, mas apenas vaidosas e cintilantes. Elizabeth M.B. Mattos
Labirinto
Não encontrei o livro A trégua de Mario Benedetti. Os livros caminham livres ao impulso de qualquer mão, eles se mudam … Desisto de procurar.
Estou sempre a comprar/ procurar, os mesmos, sempre os mesmos. A viagem não termina. Bons livros voam. Este LABIRINTO é de Jorge Luis Borges em Um ensaio autobiográfico, partilho o descaminho. Abro portas, fecho janelas. E digo obrigada, merci beaucoup. “Num dia do homem estão os dias do tempo, desde aquele inconcebível dia inicial do tempo.Não haverá nunca uma porta. Estás dentro da terra. E não tem nem anverso nem reverso nem externo muro nem secreto centro. Não esperes que o rigor do teu caminho que teimosamente se bifurca em outro, que teimosamente se bifurca em outro tenha fim. É de ferro teu destino como teu juiz. Não aguardes a investida do touro que é um homem.” Que Borges me perdoe! Não haverá biográfico, nem dança, nem desenho, nem recortes, nem beijos.
Não existimos. Não esperes nada porque tudo lhe foi devido. Descansa.
Elizabeth M.B. Mattos

DESCONEXÃO
Histórias de interdições do amor, cartas duplas de um duplo momento: dúvidas. Fio do ontem, e do amanhã sem o agora. Duplo na desconfiança do primeiro movimento: “porque, geralmente, é o bom”. E nós não o consideramos bom. Recusamos, escolhemos o segundo momento. É uma elaboração secundária, a inteligência não permite saboreá-lo. Imagem da realidade tal como eu preferia que fosse, e não imagem da realidade como ela é. Existe o espelho, estamos lá e cá, ao mesmo tempo. É no duplo que se localiza a interdição das primeiras experiências. Trágica impossibilidade do imediato. Desconfio do imediato, precisamente, porque duvido que ele seja realmente o imediato. Este imediato que se apresenta como o primeiro; mas não seria, antes, o segundo? Aqui está o sentido da reminiscência. Nada jamais é descoberto: tudo aqui é reencontrado, trazido novamente à memória graças a um reencontro. Em suma, para ser real é preciso copiar alguma coisa, repetir alguma coisa, fixar-se em algo já conhecido, real, pelo menos para nós. E o segundo lance nos parece uma repetição de alguma coisa já vivida, inacabada, mas sentida, e, definitivamente vivida, presente na memória. Talvez estas emoções não sejam nada mais do que a desconexão. Abandono. A lembrança, luxo presente. Para a percepção do eu, do que eu sou, são úteis certas lembranças do passado mesmo que se anulem no presente. Elizabeth M.B. Mattos

Conversar a conversa
Daqui a cinco minutos serás enterrado, ou não sei o que farão com teu corpo, não estou lá, estou desfeita. Longe. Queríamos a estória. Posso contar dias, minutos, repassar mensagens, ouvir os áudios, voltar a cada encontro. Poderei voltar no tempo, estarei eu comigo mesma. Não estarás aqui. Não posso te olhar, nem te tocar, nem ser beijada, nem te beijar. Não acredito que foste embora … Não compreendo por que me largaste aqui no meio do nada. Tinhas que ter pedido mais tempo. Tempo para nós dois. Não sentirei teu cheiro, teu gosto. Nem posso dizer te gosto. Nada mais será tu e eu. Não vestirás o jeans, nem os tênis. Não chegarei com cabelos desarrumados, bolsa superlotada, unhas sem esmalte. Nem vamos rir e conversar a conversa. As perguntas que não fiz, as respostas que querias não existem mais, desapareceram contigo. Textos autobiográficos que se cruzavam travados agora se enrolam no vento. Atravessamos a linha proibida e na urgência de sermos apenas nós fomos atropelados. Querias olho no olho, mão na mão. E agora nada. Talvez estejas ao meu lado. Estar ao lado parece sempre possível quando nos penduramos no amor. Talvez eu escreva o livro por nós dois. Talvez eu me sinta confiante. Talvez tu voltes. Talvez consigas entender, e me escutar… abril de 2017 – Torres – eu não estava presente. Elizabeth M. B. Mattos – Torres – inventamos uma conversa, e, não conseguimos terminar.

Quando jovem
Quando se é jovem temos coragem, audácia. E o sexo não faz medo, – é fácil confiar. E mesmo quando há entrega não se tem a dimensão da perda. Quando se é jovem a confiança está toda depositada na nossa própria consciência, posição lógica. Não temos medo quando somos jovens, nem mesmo nos perguntamos se seria possível ser diferente. Ou isso ou aquilo. Acreditamos que É como É. Beth Mattos – 2017 – Torres