Lembrei de te dizer

Lembrei varias coisinhas pra te dizer antes de viajar. Acordei agora, estou querendo fechar as malas.  Sigo estranhando este ir vir… Bom estar contigo! Ao chegar em casa o cheiro forte da limpeza com querosene, gimo cupim. Enfrentei. Dormi antes da noite chegar. Amiga, estou sufocada nos desinfetantes. Intoxicada. Sim, adorei o que mandaste: mel delícia, canela gosto. Estou ouvindo Stevie Wonder escrevendo cartas, melhor dizer postando emails e lembrando dos gloriosos trinta anos. Do Marco Frignani quando desembarcou com as cerejas de Modena. Do Rio de Janeiro. Boas lembranças. Aqui arrumo, arrumo e tudo segue lento. Confesso que a mala está por fazer. Não penso na viagem: limpo esfrego, dobro, estico, separo… Guardo tanta roupa para depois de emagrecer, ou caso engorde um pouco  mais! E quanta tralha no fundo do armário. O marceneiro AINDA não colocou a porta. A Ana me fez um rocambole de/com goiabada divino, comi inteiro. Que gulosa! E fico pensando que é tão bom ser magra, elegante. Roupas bem frouxas, soltas no corpo. Detesto engordar, mas como gosto de comer! Dançar. Caminhar na beira da praia. E dormir. E também engordar comendo chocolate. Ler, não fazer nada e tudo impecável e perfumado. Que bom estar viva! Assim eu me sinto aqui. Se morássemos mais perto talvez estivéssemos tricotando. Estou com o cesto de lãs coloridas a transbordar.  Beth Mattos, Torres.

Cordas do piano

Extenuada, cansada. Sensação de impotência. Gratidão porque escuto o céu e a noite. Desligo o mundo, logo amanhece. Tudo parecia / ia ser fácil. Fiz o meu melhor, penso. Preciso descansar. Como se faz para interromper inquietude/desencontro/aflição/ turbulência…  Quero horas inteiras para a preguiça. Um não fazer nada com vagar. O lado suave organizado e manso da vida prometida. Que chegue depressa o aconchego do embalo. Há de ser sempre exigente apenas respirar? Hoje estou cansada. Ontem também estava. Quero de volta a energia vital. Quero de volta a menina encantada. Quero outra vez o quintal com jacarandás. Posso confidenciar, mas por favor, estou cansada, exausta, traga rosas do jardim, esquenta o leite, e preciso da coberta perfumada, outro travesseiro. Senta ao meu lado, diz que amanhã vai ser mais fácil. Deixa eu ficar quieta. Deixa eu chorar lágrimas. Lê o livro das AmorasAzuis desde o começo. Deixa o piano tocando… Pode ser Chopin Mozart Schumann se são cordas do piano, gosto. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2017 – Porto Alegre

Comer laranjas e ver televisão

Devagar, hora a hora, dia a dia, como se o tempo fosse um banho de acidez, vou vendo com mais nitidez o negativo da fotografia. Imagem-duplo: a memória-lembrança. Esgaçado sentimento da inércia. Perdas inseridas no limite do não aconteceu. Por que não disse isso, perguntei aquilo, não fiz assim…; miúda saudade de conversa pequena. Do cheiro, do sorriso, da fala. Saudade física. O corpo se ressente. Saudade fervente/estranha/ inquieta do agora do que não existe. Ávida presença-ausência porque sendo já não é mais. Lamento a perda neste beijo ansioso. O corpo fala, o discurso se contradiz. Tudo importa, mesmo o tempo que não teremos. Abraçar e me aquietar no teu abraço. Se existisse um sempre que este sempre fosse você.  Quero mais amor raiva alegria frustração tristeza nostalgia, lágrimas. Vou quebrar este tudo. Esparramar terra no gramado, cavoucar canteiros. Pensar gerânios margaridas hortênsias. E sombra. Vou passar roupa, esvaziar armário, encher gavetas, limpar, polir, lustrar, fazer feijão, assar o peixe com manjericão. Cozinhar legumes comer laranjas. Ver televisão. E.M.B. Mattos – abril – 2017 – tuas margaridas do campo, crescidas!

margaridas-brancas

Clarice Lispector para Fernando Sabino e XICO STOCKINGER e Beth Mattos

da correspondência ao trabalho…

Missivas atravessam o olhar, o tato, o olfato, o gosto mesmo quando o mundo todo é/seja apenas silêncio. Beth Mattos

FOTO

“Tomo menos  milk-shake e levo uma vida diária vazia e agitada. Passo o tempo todo pensando – não raciocinando, não meditando – mas pensando, pensando sem parar. E aprendendo, não sei o quê, mas aprendendo. E com a alma mais sossegada (não estou totalmente certa). Sempre quis  ‘jogar alto’, mas parece que estou aprendendo que o jogo que o jogo alto está numa vida diária pequena, em que uma pessoa se arrisca muito mais profundamente, com ameaças maiores.Com tudo isso, parece que estou perdendo um sentimento de grandeza que não veio nunca de livros nem de influência de pessoas, uma coisa  muito minha e que desde pequena deu a tudo, aos meus olhos, uma verdade que não vejo mais com tanta  frequência. Disso tudo, restam nervos muito sensíveis e uma predisposição séria para ficar calada. Mas aceito tanto agora. Nem sempre pacificamente, mas a atitude é de aceitar.” (p.201) Correspondências, Clarice Lispector.  Organização de Teresa Monteiro. Editora Rocco, 2002.

xico stockinger

Xico, em pouco tempo conseguimos reunir o material para o corpo do livro. Realizar esse trabalho foi também provar das receitas culinárias, estar presente na intimidade da família, chegar perto. Agradeço a tua tenacidade, organização. Empenhados, ameaçados por computadores, limitados aos horários da rotina do trabalho, não desistimos. Neste momento quero agradecer aos amigos Flávio Tavares, Walter Galvani, Paulo Hecker Filho e Roberto Acízelo Quelha de Souza, importantes. (p. 103)  Elizabeth Menna Barreto Mattos, no livro  Xico Stockinger Memórias da Editora ARTES E OFÍCIOS Porto Alegre, RGSul, 2002.

Entre todos os gêneros a correspondência/ missivas me agrada pelo imediato, o desnudado, e assim mesmo mentiroso universo das palavras. O artista deforma ao informar. As pessoas pensam e fazem diferente do que pensam porque se dobram às exigências do outro, do entorno, da sobrevivência. Então tudo é sempre camuflado, mesmo sendo aberto. Irreal mesmo tangendo o real. E se nos jogamos de muito alto e de no muito fundo, não resistimos. Então! Cuidado! Assim mesmo tentamos este transloucado movimento de ir…, mesmo sem vontade ou querer. Quando penso no pequeno livro MEMÓRIAS do Xico Stockinger penso que os caminhos são perigosos. O maravilhoso no artista é o silêncio absoluto, tens razão, mas apenas este sentido lhe faltava … e tudo mais era mais. Quando escrevo, nada me assusta. Escrevo. Se respondes então posso gritar, dançar. Aqui está  um pouco desta estreita fronteira entre poesia, ficção e realidade a que se refere Celso Aquino Marques. As histórias da feitura/ construção de um pequeno livro.” Elizabeth M.B. Mattos – 2017 – Torres

A lista

Também eu quero a lista. A lista dos livros essenciais. Também eu quero me aproximar deste alicerce que construíste. Também eu quero procurar. Se a  casa da rua Vitor Hugo existir e se souberes o caminho… Ouvir o que tens a contar pode me ajudar a escutar o que tenho para me dizer. Eu preciso me apreender para te compreender.

O amor se espalha. Quando / quanto menos se espera volta como onda cheio de força. Esqueço idade,  já nasci velha. Envelheço como menina ansiosa, barulhenta.  Encantados. A vida leva a vida traz. Este mar  somos nós, eu e tu. Estou a esperar a voz, o olhar: tua voz. Olha para mim. Elizabeth M.B. Mattos

Clareza sem proveito

Brecht livro

[A doença do sr. Keuner]

“Por que está doente?”, perguntaram ao Sr. Keuner as pessoas. “Porque o Estado se acha em desordem“, respondeu ele. “Por isso também o meu modo de vida não está em ordem, e meus rins, meus músculos e meu coração ficam em desordem.Quando chego à cidade, tudo anda mais rápido ou mais lento do que eu. Falo apenas com quem está falando, escuto quando todos escutam. Todo o proveito que ganho do meu tempo vem da confusão; a clareza não traz proveito, a não ser que apenas um a possua.”  Bertolt Brecht

BRECHT

Virando a página

casa dois

Não sei medir o apressado da leitura nem o quanto posso ser lenta para terminar o/um/ ou dois livros… Ou uma página de amor apressado/ malvado. Intenso tempo despedaçado sofrido arrastado atropelado  e encantado. Descabelado como gosto de usar, ou melhor,  atabalhoado, real e fantasioso. Qual é a medida? Não sei.

Quem escreve só começa a respirar quando produz/escreve/ diz… Verdade parcial. Tem grito sobressalto gemido. Há tempo de divertir, tempo de arrumar, lavar.  Tempo de doçura. Há tempo de fechar a porta. Tempo da preparação. Há o tempo sol/luz gloriosas janelas abertas. Tempo de não existir, desaparecer. Não falar, nem ouvir. Tempo de dar voltas e voltas pela lagoa. E aquele precioso tempo do vazio completo em que o tédio parece constituir o próprio tecido da vida. Mas é virando a página de cada história que respiro. Ficam os/as/ tantos /muitos personagens: mentiras verdades fatos sentimentos de raiva e amor. Eles aparecem desaparecem se estratificam… Como a página virada do livro. A página escrita de um Diário, o prazer de um sábado que termina e se atira no domingo manso da Páscoa. Penso que se atirar no mar, no rio, nadar é coisa boa. Elizabeth M. B. Mattos abril de 2017 – Torres

CASA

és um amor perdido

“És um amor perdido não esperava encontrar“. Indigno ou achado amor. Perdido achando. Jogo de palavras brinquedo/ estória no jogo. Amor amor. O que é mesmo que sabemos de/ com /sobre amor. O toque do beijo. Aquela coisa física inexplicável e fugaz “acordando do sonho acordado que sonhamos juntos“. E não existe mais nada que estes versos a martelar sonho insônia tristeza nostalgia apatia tristeza. E  lembranças de amores amados encanto do encontro com outro, o não amor. O que são se já não são? Outro beijo outro caminho descaminho. E me pergunto por que invadir entrar insistir se te escondes no achado. Eu me perco neste não / descaminho “ouvindo o marulho do mar.” Afinal quem sou eu que não sou que na sombra sofro  o desamor deste nada. Fantasma errante que se assombra. Não sabe o rumo, assombra. O que é mesmo viver e viver nesta asfixia de dor e de nada. “Juventude de dois velhos namorados,” ou de dois enamorados velhos. Elizabeth M.B. Mattos

Beth Albertina ElizaBeth

PEDRO

Chegou Roberto. Chegou o livro. Obrigada. Em remota lembrança escuto tua voz dizendo/mencionando o projeto. Também lembrei de nós quatro: Fátima e o Flávio …  Tu tão meu herói …  Lembro deste livro. Linda a edição.  Feito criança patino na saudade. Saudade do Rio, deste Rio de Janeiro que amo. Rio de Janeiro alegre felicidade sensação de juventude livre. Copacabana sem Ipanema. Tenho que me levar/ voltar como turista. Ler as cartas que não me escreves, sem mapa delimitado. Tenho ido/priorizado Paty do Alferes. Apego enviesado ao Geraldo. Sim, fico plantando árvores e me esticando por lá. Sou enraizada / grudada na nostalgia. Bobagem isso … a Viúva Lacerda não existe, a Laila não existe, Geraldo foi quase remoto, Carlinhos Lyra não canta, o Colégio da Providência não existe nem a Notre Dame existe … Rio de Janeiro foi um sonho dentro de alguns pesadelos inacreditavelmente assustadores. O colorido generoso ainda escorrega na memória. Estórias de contar a Prudente de Morais com aquele mar verde a me dizer bom dia e seguir meu último bocejo. Leblon, não a Gávea. Depois Búzios, e toda a geografia recheada de histórias Beth, Albertina e Elizabeth viajando pelas quadras jardins praças e no mar. Elizabeth M.B. Mattos

Pedro  e o Leonardo na Livraria Travessa. E o Rio de Janeiro o meu Rio de Janeiro  Pernambuco, e Recife, e Torres e o mar,  sempre o mar, a praia e o mar

PEDRO MESA

LEO

lattoog e AnaVITRINE

A juventude de volta

Quando  nos reencontramos com o amor depois dos 70 anos… O que acontece? A vontade insana da juventude nos abraça. E  não se pode vender a alma pro diabo. Há que resistir, aguentar o tranco. Viver tem destas surpresas. De repente sai tudo do lugar.  Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2017 – Torres

OLHO para um Lado

olho para o outro lado
olho para trás
não há mais ninguém
então é comigo mesmo ?
quem és tu que acenas
chamando ao longe ?
não consigo discernir
vou caminhando na tua direção
vens caminhando na minha direção
vamos nos aproximando
cada vez mais
um ao encontro do outro
atravessando eras

Com a aproximação
agora te reconheço
agora já sei quem és
apalpo meu próprio corpo
mal consigo acreditar
és um amor perdido
não esperava encontrar
a cada passo que damos
ficando sempre mais perto
vamos ficando mais jovens
vamos ficando despertos
acordando do sonho
sonhado dentro do sonho
acordado que sonhamos juntos

finalmente paramos
um na frente do outro
totalmente rejuvenescidos
adolescentes na praia
nossos sorrisos se abrem
no mesmo instante
estendes teus braços para mim
eu seguro tuas mãos nas minhas mãos
nos olhamos bem dentro dos olhos
mergulho meu olhar no teu olhar terno e eterno
verde-mar que nenhuma fotografia captura
e entramos no espaço-tempo infinito
entre, galáxias, nebulosas, constelações e estrelas
acessamos a imortalidade da mente de Deus
antes da criação do mundo
e saímos pacificados e iluminados
caminhando pela beira da praia em silêncio
de mãos dadas na eternidade
jogando conversa fora
rumo ao Mampituba
ouvindo o marulho do mar
vendo o que as nuvens dizem com as suas figuras
desenhando corações com nossos nomes na areia
a juventude de dois velhos namorados “

José Celso Aquino Marques

abraco-modificadopelo-chao

Celso, Celso ! Lindo o poema! Voltei num tempo que sequer vivi, mas voltei para te encontrar. Estranho! Apenas senti. Muito estranho tudo isso. Justo neste momento de perda, o encontro sem encontro, eu reencontro.  TRaavadaaaaaa eu estou, sem tempo. Filhos netos chuva sol trovões eu cansaço. Desanimo. Risos. Tudo acontece ao mesmo tempo. A vida assim nesta pressa toda de ser vida… (Pensei em transferir o poema pro Amoras,  já estamos no Amoras.) Obrigada por estares, afinal, a me devolver o mar. Assim me levas a fazer este passeio… estamos na beira do mar. Muito bom caminhar contigo de mãos dadas em direção ao rio Mampituba. O mar conversa. E.M. B. Mattos ( ainda ) sempre. TORRES