Curso de Caligrafia

images (3)download (3)

“Aprendi sobre letras com serifa e sem serifa, sobre variar a quantidade de espaço entre diferentes combinações de letras, sobre o que torna excelente uma tipografia excelente. Era lindo, histórico, artisticamente sutil de uma maneira que a ciência não pode captar, e achei fascinante.

Era mais um exemplo de Jobs posicionando-se conscientemente nas interseções entre artes e tecnologia. Em todos os seus produtos, a tecnologia estaria casada com excelente design, aparência, elegância toques humanos e até mesmo romance. Ele estaria à frente da promoção de interfaces gráficas amigáveis ao usuário. Desse ponto de vista, o curso de caligrafia se tornaria um ícone.

Se eu nunca tivesse aparecido naquele curso da faculdade, o Mac jamais teria tido fontes múltiplas ou proporcionalmente espaçadas. E como o Windows sempre copiou o Mac, é bem provável que nenhum microcomputador as tivesse. ” (p.59)

Steve Jobs: a biografia por Walter Isaacson, Companhia das Letras, São Paulo,2011.

Velho, novo amigo

Pessoas se reconhecem pelo olhar. Beber do mesmo vinho. Escutar, falar, dizer,e responder.  A música importa, o livro importa, a cor. Observo, e me espanto. A voz importa.

O corpo responde. Dores precisas. E o tempo se esvazia em menos um dia, menos uma manhã, menos uma tarde, menos uma noite. Inchaço no coração: excesso.

Preguiça de viver. Insisto na leitura repetida da tua voz. Esforço para me fazer compreender. Risco, pontuo, estabeleço analogias, conclusões, depois esqueço. Nenhuma relação afirmativa. Mas tu me falas…

Confuso mundo de desvendar mundo. Vendar, esconder, apagar, abrir e descobrir. Vou completar a caminhada, duas vezes a Lagoa do Violão, e depois, volto a te escrever.

Desespero suicida

20141104_090539

O tiro se aloja na porta. Não removem a marca. Anguloso começo. Sinal vivo de gesto esquerdo. Ebulição, processo.

Também nela vejo marcas. Arranhões, a violência. Como será morrer de um golpe? Devagar ela sabe. Esvazia alma, corpo. Transparência progressiva…

A naturalidade como entra na sala, pega a xícara de café, e vai contando, modulando a ferida, surpreende. A violência abocanha, acovarda. Defesa contra o indefensável. Não é apenas duro viver, mas duríssimo. Esdrúxulo. Ela fala enrolada nas pérolas, impecável, sentada na ponta da cadeira. O potencial suicida emoldura seus cabelos. A dor iluminada pela voz se espalha pela sala. Perde, aos poucos, a vontade de dizer. Sorri. E se interrompe. Entrega as hortênsias azuis presas por uma fita. E posso, então, ver a menina. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2016 – Torres

SURPREENDE o amor

No amor, a entrega. E nos confessamos… Como se amar fosse absolvição ou redenção. Submissão. Difícil segurar esta narrativa verborrágica que inunda o outro de informação, e fantasia inadequada. O amor deveria ser jornada, caminho. Confidência delicada que desvenda, mas não se confunde amontoada com dores e pecados. Nem segredos.  Estar no estado de amor, deveria ser prazer, alegria generosa. Cumplicidade. Planejar juntos, não em órbitas esquizofrênicas. Sedução constante. Sem posse nem violência. Sem submissão. Sem poder. Não basta chegar lá. Cuidado com a vaidade que engole o senso do ridículo. Invalida honra. Desnuda fragilizando. Existe um lugar mediador, tranquilo onde amar se estende no verde. Sem a faca sangrenta do excesso. Meio termo sereno. A beleza no detalhe, na diferença. Inteligência na solução, até no desvio. Amar está no olhar silencioso. E, o estado de amor surpreende…

Tempo de reverter

Quase um ano no espaço…Aeronave precisa pousar. Onde? Quando? Em que hora?No meu jardim?

Um amigo acaba de me dizer que está em tempo de reverter histórias desencontradas, e mal resolvidas. Haverá mesmo possibilidade para setentões durões? Tempo de mudar afetos? Amor. Chegar mais perto? De quem? Colher amigos? Será que não estamos, de fato, cristalizados?

O calor das coisas

“Eu sei que errei, mas não me deixe agora. Eu protestei contra o que parecia sua culpa. Você me olhou afiando os olhos no meu rosto. Me senti retalhada, diferente das vezes em que me cortou e não sofri. Bem ao contrário, a carne me sorria, e u deixava que você me tivesse, porque a carne era a minha alma.”(p.121)

“Não sabes então que me amas, amas-me muito mais que podes saber/ Mas mesmo sem o socorro da tua consciência. E se não me amas com a paixão do meu amor, te ensinarei novamente a amar-me. Não te peço tempo, dias, horas. Sou mulher das longas estações. Serei verão quando exigires calor.” (p.123)

O calor das coisas : contos, Nélida Pinõn, RJ: Nova Fronteira,1980.

Relações Perigosas

Cartas na pauta. Da Dilma, do Delcídio, da Sandra,  do Tavares, e do Manoel. Não são pronunciamentos, declarações, muito menos bilhetes. Nem decretos, ou desculpas. Avisos? Não. São cartas a serem lidas, publicadas, relidas. Não são do pôquer, ou cartas ciganas. Talvez políticas. E não são de Ruy Barbosa. Talvez a primeira página do romance epistolar: Ligações Perigosas, Pierre C. de Laclos, 1782. O jogo continua.

É preciso explicar o amor amado de ZMXCL ou FHXH, ou sabes, não te escondo. Amar é urgente. Proponho almoçarmos ao menos uma vez por semana, todos os meses, mas preciso te olhar todos os dias. Atenta ao cuidado, confiante. Acredito que devo marcar um dia da semana. Juntos, uma, duas, três, ou quatro vezes ao mês. duas vezes ao dia.  Poderás me ensinar a jogar. Combinamos domingo. Se te parece muito, de quinze em quinze dias. Sempre me atrais / tu me encantas. Eu te abraço, neste dia cuido de nós dois, e dormes aqui, naquele quarto envidraçado, verás que a noite te cobre e o sol te ilumina todas as manhãs. Eu te amo. Beth Mattos

images (1).jpg coringadownloaddownload.jpg cartas ciganasdownload.jpg poquer

Só isso, agora

Sinto falta, saudade da mãe. Do pai. De ambos. De forma diferente, é claro. O tempo enterra mágoas, oculta também alegrias. Saudade parece um bicho estranho que fuça na vida da gente. Com nostalgia vou folhear estes livros. Procuro uma marca qualquer na espichada caligrafia, nas datas. Engasgo com lembranças. Penso a saudade, a memória de cada um. Brincadeira boba! Penso nas conversas que nunca tivemos. Nas confidencias. Observo o mapa das lembranças. Escuto vozes… Olho para o casaco de pele jogando no braço. O sorriso contido da foto. Base aérea de Natal. Danosa saudade.  Ficou pra trás o verde, o azul, não era rosa nem amarelo. Branco e preto. Poderia ser um vestido de alças largas, rodado. Sandálias. Não, não é a roupa que eu vejo, mas a danosa saudade.

“A avareza como o amor, tem o dom da vidência, quanto às contingências futuras. Fareja, apressa.”A. M.

“As pessoas generosas dão maus comerciantes”A. M. 

Só isso, agora…

Talvez respondas

Adoro as cartas porque são registros, e são urgentes. Preciso dizer isso ou aquilo. Ou que te penso. Que estou surda, mas vi o teu chamado. Apenas não respondi.  Assim mesmo quero dizer que amo aquele jardim, aquela casa, aquela dobra de saudade. Outras coisas nos movem, a cada momento, importantes, relevantes. E a cabeça deixa de pensar, de escutar. A carta espera para ser lida, relida. Não importa a resposta. Já passou. Hoje tudo que demora a ser resolvido, passa. E as crianças crescem. Eu envelheço. Algumas conversas ficam irremediavelmente esquecidas.  Mas as cartas voltam. Tu voltas. Outras velhas lembranças, adiadas ficam penduradas no varal. Secam. Ninguém se lembra de recolher. Dobrar, guardar… E eu te conto que gostaria de ter escutado. Queria ter ouvido a história do meu pai, da minha irmã. Daquela senhora que chorou no ônibus, daquela que segurou minha mão na volta de Paris. Ou fui eu que tentei acalentar, interromper os soluços. Queria estar contigo agora.

Afinal, confesso que gosto das cartas que ainda não pude ler, e das que escrevi, mas não chegaram. Estou sempre inquieta atrás de um interlocutor. Gosto de conversas interrompidas. De repente, voltam, seguem o destino. Vivas. Gosto das coisas desarrumadas porque tenho que organizar, e fazer, arrumar. E me ocupo com esta, ou com aquela gaveta. Não tem fim esta desordem, nem esta ordem. Gosto do nublado deste dia. Espero a chuva. O frescor. Gosto de esquecer porque quando lembro parece novo. E até deste envelhecer que me agita, acabo gostando porque me sinto, afinal, corajosa. Talvez faça tudo  que  ainda quero fazer. Atravesse o mar, e vá pra África. Colherei aquelas margaridas… Darei conselhos. Ficarei muitas horas no silêncio. Esquecerei… Talvez recomece tudo outra vez porque ainda é tempo de ver o céu de Paty do Alferes, olhar pro morro, tirar o inço, afofar canteiros, brincar com o Zeca e com a Malu. Contar histórias. Afinal, estou aqui. Quero dizer que te amo. E isso importa pra mim porque te escrevo cartas, e mais cartas. Talvez leias e respondas. Gosto de esperar. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2016 – Rio de Janeiro

Avó adolescendo

download (3)download (4)

Enquanto separo fotos em caixas com nomes, datas, devidamente, etiquetadas, eu me pergunto: Em qual obscuro lugar será esquecida! Milhares de imagens do pequeno passado. Registro. Estamos todos atordoadamente apressados! Dou risada. Atendo o telefone, o que não acontece sempre. Dou outra risada. Escuto as notícias, todas. Depois, desanimo diante da louça espalhada. A desordem.

Espio a menina que se esconde. Cantarola. Brinca, e corre. As fraldas voam. Levantam, sentam. E se afastam. O tempo de ser uma só. Imagino a história da vida crescendo, dos cabelos encaracolados. Desta voz suave, clara. Suspiro desajeitada. Nem sou meiga, nem presente, nem suficientemente presente. Onde está a cadeira de balanço, o embalo, o sossego, e a história? Por que nunca sei contar, nem ler. Nem pensar avó. Faço beiço.

Ele senta no sofá. E pergunta, sem voz, se vou sorrir, abraçar, dar os presentes. Abraço. Dou beijos. Cresceu neste tempo. Sempre crescem os netos. E através dos óculos esconde timidez, percebo doçura. Sigo rindo distraída, falando, contando da viagem, da geração Z ,– explico, pontuo. Estou eu adolescendo. Minicraft, o jogo me impressiona: vou criar o planeta. Fiz o dever de casa, li a Veja, comento. Procuro na mala os livros que comprei. Infantis. Bobos. Dou-me conto que não acerto. Mas tem selo de troca. E a biografia do Jobs? Nenhum interesse. Erro, outra vez, desajeitada. Dureza de ano, sem dinheiro, economia parada. Explico. Arregala os olhos. Assusto. Silêncio. Vamos dar uma volta? Solução.

Lá vem a bicicleta. E não vejo. Rodopia. Levanta a roda. Voa. Não vejo. Esta avó distraída, ausente. Sou eu mesma. Logo no olhar encontro o menino. O abraço. O corte novo do cabelo.  Por que eles crescem assim desconfiados estes netos? E tão rápido. É um moço.

 

images (3)images (2)