Não é erudição

Por que não escrever com as minhas palavras. Não tenho. Contar o impossível? Distorções e deformação. Inevitável. Fico confusa quando as citações parecem pedras, e não flores… Vejo jasmins, hortênsias, pequenas orquídeas, e não pedras. Como pitangas, amoras, jabuticabas, manga, e não ostras ou caviar. Bebo água da torneira. Não é erudição, muito longe disto. Os livros são cacos, aparas, comida, estranhamento. E se comungas… Dá vontade de sair lendo em voz alta caminhando atrás das pessoas, qualquer ouvido, qualquer par de olhos, todas as horas, é a hora pra despejar no outro um pedaço do livro, uma página rasgada que possa instigar. Eu sou a voz comum. O caranguejo que vai pra frente e pra trás, O autor, aquele escolhido… É diferente! Como explicar? Transcrevo. Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2013

“O amor é o drama da inteireza, da unificação. Pessoal e ilimitado, ele leva à libertação da tirania do ego. O sexo é impessoal, e pode ou não ser identificado com o amor. O sexo pode fortalecer e aprofundar o amor, ou trabalhar destrutivamente.  (p.74-75)

O mundo do Sexo – Henry Miller.  Ed. José Olympio. 2007.

 

Aroeiras queimam

Volto os olhos. Velha infância de pecado. Não me converti em estatua de sal. Nem fui amaldiçoada. Ninguém me apedrejou. Caminho por Porto Alegre. Sim, foi preciso tirar as roupas, rir em voz alta, choramingar pelas praças… Gritar. Escabelar-me. Voltar a Rua Vitor Hugo, ao Petrópolis Tênis Clube, as calçada da Fernandes Vieira. Entrar no bonde João About, voltar ao cinema Ritz, assistir a missa na Igreja São Sebastião. Entrar no Colégio Santa Inês, dividir a merenda com a Maria do Carmo. Chegar à Escola Estadual Rio Branco, rever as professoras, Nair, Virgínia, e as outras. Espiar pelos muros do Colégio Israelita. Voltar pra casa caminhando pela Avenida Protásio Alves. Depois comprar balas no bar Tupi antes de ficar sentada em baixo dos jacarandás. Ver as bonecas na vitrine… Sentir o inverno, também o verão, assim desnuda… O sol queimando a pele! Preciso deste palco, desta retomada penosa para voltar a ser quem deixei pra trás. Preciso rever. Olhar a menina que brinca no pátio da casa de Ipanema. Aquela que pula no sofá contigo. A mesma que entra nos caixotes pra poder cantar, falar…

Choro com espanto. Nada escorreu como deveria ter escorrido. Ainda estás a me escutar Francisco. As sutilezas da proibição são urtigas. Estou me repetindo, já disse isto antes. São aroeiras que me queimam! E pensei em jasmins… Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2013

Voltas pelo Pátio

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Gosto da limpeza! Tapetes perfumados. Chão com cera, lustrado. Um galho de hortênsias azuis junto às garrafas de azeite, do balsâmico, perto dos temperos e das velas. Saudade de ti naquela noite tão louca, tão minha, tão tua! Noite do fundo do porão! E dizes ser de tarde! Num almoço alongado! Vai ver que não era mesmo pra ser nem noite, nem tarde, imaginação! Tua e minha.  Agora estás aqui, e eu aí nesta cidade turbulenta em que vives! Confesso saudade,  confesso escondida! Camuflada outra vez.

Bom que venhas! E eu não vá nunca mais. E ficas no quintal como o tigre de olhos azuis da Lya Luft… E eu como a boneca esquecida em dia de chuva… No meu planeta, esquisita terra destorcida, infernal, meio divina, eu te escondo, e tu me prendes. No meu planeta, te protejo. Enfeitiças ao escrever… Te aquieta. Malditas palavras inventadas!

Teu cheiro, tua voz lenta… Mansa, ou como é mesmo esta tua voz? O que diriam aqueles que nos interditaram se nos vissem agora? Vou caminhar um pouco. Inquieta e prisioneira. Faço voltas pelo pátio. Encontro-te. Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2013

Vianna Moog, Monteiro Lobato, Oswaldo Aranha

Clodomir Vianna Moog entre os 50 grandes brasileiros e seu legado, destaque em amorasazuis.com

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A revista Veja que chega aos assinantes e às bancas hoje, 24 de dezembro, véspera do Natal de 2011, em sua tradicional edição com a retrospectiva do ano, tem uma interessante matéria, organizada por Diogo Schelp e Julia Carvalho, cujo título é:

50 GRANDES BRASILEIROS E SEU LEGADO

A epígrafe da matéria:

AS IDEIAS, CAUSAS E LIÇÕES DE VIDA DE CINQUENTA PERSONAGENS HISTÓRICOS QUE AJUDARAM A CONSTRUIR O BRASIL E QUE AINDA INSPIRAM AS GERAÇÕES ATUAIS NA TAREFA DE ANTECIPAR O FUTURO.

A lista inclui personagens como Maurício de Nassau, Frei Caneca, José Bonifácio, Duque de Caxias, D. João VI, D. Pedro I, D. Pedro II, Visconde de Mauá, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Carlos Chagas, Oswaldo Aranha, Monteiro Lobato, Juscelino Kubitschek de Oliveira e mais figuras do mesmo nível de importância para a História do Brasil.

Há um tipo de verbete de enciclopédia para cada personagem e, no final, um comentário sobre se ele ficaria satisfeito ou insatisfeito com determinado aspecto do Brasil de hoje.

O verbete sobre o jornalista e escritor,  sociólogo, antropólogo e historiador, escrito por Fernando Figueiras, é o seguinte:

“Clodomir Vianna Moog (1906-1988)

Clodomir Vianna Moog dedicou-se ao processo de formação do Brasil. Em sua obra mais conhecida, Bandeirantes e Pioneiros, Vianna Moog especula sobre o nascimento do país pelo viés de nossa cultura política. Ele compara os processos de formação do Brasil e dos Estados Unidos interpretando os personagens principais da cultura brasileira e da americana, observando os valores e o meio material em que essa cultura existe. Por essa comparação das culturas políticas, Vianna Moog identificou que, enquanto os pioneiros edificaram uma cultura de progresso geométrico, que valoriza o bem comum, os bandeirantes edificaram uma cultura de progresso aritmético, a qual é uma cultura pública fraca, dependente do governo, predatório e privatista. Essa é uma perspectiva ainda bastante atual sobre a cultura política no Brasil, tendo em vista a democracia e os desafios do desenvolvimento.”

Na nota de fechamento sobre como sentir-se ia Vianna Moog hoje:

Ele ficaria insatisfeito em conferir que o país ainda luta com as consequências de elementos que formaram a cultura política do 021 (2)Brasil.

(1882-1948) Monteiro Lobato hoje:

Ele se sentiria vingado ao verificar que seu sonho de autonomia em petróleo é uma meta estratégica da atualidade.

( 1894- 1960) Oswaldo Aranha hoje:

Ele se decepcionaria com a postura antiamericana, sem fundamento prático, de muitos diplomatas brasileiros.

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Fragmento

“São nove horas da noite. Nesta primavera escurece tarde em Lisboa e ainda há luz do sol. Se esvai, mas existe. Vejo do meu quarto as muralhas do Castelo de São Jorge no morro iluminado em parte pelo que lhe resta de sol, em parte pela eletricidade para “tusistizar” o ambiente e fazê-lo espetacular. Esta parte velha de Lisboa – bem no centro da cidade – me emociona. Fazia calor, muito sol esta manhã quando sofregamente caminhei quilômetros a fio pela cidade, revendo cada edifício antigo, cada pedrinha na rua. Parecia o resumo (em poucas horas) de anos. ” FHT

CARTAS e diários

Diários e cartas. Alguém na intimidade. Retrato, história. Conjunto de cartas e sucessivas páginas de diário, o indivíduo. 

Novas Cartas Portuguesas: “Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. E já foi dito que não interessa tanto o objeto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício.“

Lautréamont: “Il y en a qui écrivent pour rechercher les applaudissements humains, au moyen de nobles qualités du coeur que l ‘imagination invente ou qu’ ils peuvent avoir. Moi, je fais servir mon génie à peindre les délices de la cruauté!”

Umberto Eco: “Não teorizamos já em outro lugar acerca da sua necessidade de ser e estar com outros, esquecido das alegrias da solidão silenciosa? Tal é a essência presente da chamada democracia, cujo mandamento parece ser: repara no que os outros fazem e segue a lei dos que forem mais numerosos; qualquer um é digno de qualquer lugar, contanto que outros se reúnam em número suficiente para elegê-lo; e quanto aos cargos não excessivamente importantes, são tirados à sorte, porque o aleatório está bem na lógica do homem-massa.”

Virgínia Woolf: “A essência do snobismo é querer impressionar outras pessoas. O esnobe é uma criatura com uma mente agitada, de lebre, tão pouco satisfeita com sua posição própria que, a fim de consolidá-la, está sempre brandindo um título ou uma honra na cara das outras pessoas, para que acreditem e ajudem a acreditar naquilo que ela não acredita: que ela é, de alguma forma, uma pessoa importante. Este é um sintoma que eu observo em mim mesma. Vejam esta carta. Por que é que ela está sempre por cima de todas  as minhas cartas? Porque tem um brasão timbrado.”

Katherine Mansfield: “Dezembro – Sem sombra de dúvida, sei mais que os outros: sofri mais, suportei mais. Sei com se aspira à felicidade e qual o preço de uma atmosfera de ternura, de um clima que não inspire terror. Porque será que não tento evocar estas coisas, cultivar o meu jardim? Agora, estou reduzida a ocupar o lugar de uma estranha entre estranhos. Porque não serei eu capaz de fazer sentir que sou uma autêntica força espiritual? (Mas para quê?) Ah, sim, deveria fazê-lo… tenho uma experiência que os outros não têm. Sim tem de ser…”

Marguerite Duras: “Li Um quarto só meu, de Virginia Woolf, e A feiticeira de Michelet. Já não tenho biblioteca alguma. Desfiz-me dela, bem como de qualquer noção de biblioteca. Acabou. Esses dois livros são como se eu tivesse aberto meu próprio corpo e minha cabeça e lesse o relato de minha vida na Idade Média, nas florestas e nas indústrias do século XIX. Quanto ao Woolf, não encontrei um único homem que o tivesse lido. Estamos separados, como ela diz em seus romances, (…)

PRA ZMXCL: Com carinho derramado, indecente, tanto desejo! Se o beijo me consome, a ausência do abraço me enlouquece. Se consegues me despir com os olhos, sem me tocar, eu arranco as roupas louca, despois vou me vestindo devagar… devagar, ao teu deleite. Preenchida da gula posso te esquecer por uns dias. Volto para casa. Sou eu organizada e pudica. Esqueço tudo para imaginar o amanhã /quando será se é verdade que virás e que será. Elizabeth M.B. Mattos / Beth Mattos março de 2021 – Torres

 

É História ou estória?

Foto de Iberê Camargo com Ana Maria  Vianna Moog. Rio de Janeiro, Viúva Lacerda. 1975 1976. 1977.

Rio, 11 – 7 – 88. Amiga Beth, Remeto-te estes recortes para que saibas da minha luta, luta que é de todos. Nas entrelinhas sou agressivo para acordar a nossa condição de gente, a nossa nacionalidade. Pena que tu e teu marido tenham visto minhas coisas na Tina Presser, pois, o que não foi vendido veio para o Rio para ser exposto na ocasião do lançamento do livrinho. Vocês terão outra oportunidade de ver quando eu voltar à pintura após esta parada forçada. Devo permanecer no Rio mais um bocado de tempo a fim de ser assistido pelo médico e também porque quero fugir do frio. Disseram-me que aí faz um frio insuportável, frio de renguear cusco. Isto é o efeito estufa. O homem vai matar a terra. O homem é o cupim do mundo. Sua meta glória é ir mais cedo para o cemitério: ir de carro. Diz para teu marido que não precisa um montão de dinheiro para ter meus quadros. Tu sabes que para mim, o amigo é o amigo. Eu também gostaria de saber quando vou para casa nova. Eu apresso a construção como posso, isto é, aos gritos. Desejo que tudo seja bom ti e para os teus. Até breve. Com amizade, o Iberê. Porto Alegre, 13 – 2 – 90. Última hora: Não vou a Santa Maria. Querida Beth, Tua carta tem uma presença quase física, nela tu revelas a alma. Gosto de te ouvir, gosto de te sentir perto de mim. Espero que o muro de Berlim que nos separa, termine por ruir. Não é compreensível, hoje, uma atitude machista, medieval. Não se pode aprisionar um coração. Eu te recordo sempre, com um carinho de amigo, mas a recordação, a lembrança, não tem a concretude do agora, que é o presente da vida que flui. O agora é este momento que já não é mais, quando acabo de pronunciá-lo. O tempo é um rio que nos arrasta, que nos leva para o nada. “Somos seres transitórios” – nos diz Dickens. A certeza desta transitoriedade nos deveria tornar mais vivos, mais atuantes, mais independentes. Somos no fundo bois de carga, passivos, domesticados, vivendo de mentiras. Não sei por que enveredei por este assunto. Amiga, eu sempre procurei e procuro a verdade das coisas, tenho um sentido metafísico da vida. Às vezes atravesso períodos de profunda depressão, sem motivo determinado, objetivo. Estranho e limitado é o ser humano, incapaz de entender o seu próprio ego. Não raro sinto-me como meus ciclistas, que vagam por um mundo deserto, morto. No fundo, querida Beth, eu sou eles. Mas eu tenho que dizer, tenho que pintar a verdade porque só ela importa! E a beleza? Talvez verdade e beleza seja uma só coisa. Gostaria que visses esses meus últimos quadros, esses ciclistas de que falo. Não sei o que foi exposto aí em Santa Cruz. Talvez sejam serigrafias ou desenhos. Estamos planejando ir a Santa Maria na próxima semana, se não começar a chover adoidado. Gosto de rever aquela cidade e, principalmente, reencontrar os poucos amigos que ainda me restam. Para mim é santo o lugar onde estão os meus mortos. Ah, seria bom se na passagem pudesse te ver aí em Santa Cruz. Para ser sincero eu receio os ciúmes do teu marido. Eu não quero te criar aborrecimentos. Não quero magoar ninguém. Eu seria feliz se tu pudesses vir amiga, com muito carinho – o Iberê – Não esquece: eu te quero muito bem.

É História ou estória IBERÊ CAMARGO

Louca por tomates

Estou com preguiça até de respirar…

Leio uma reportagem de Daniel Swinburn ( El Mercurio, Nova York) com Harold Bloom, autor do livro Shakespeare A invenção Humana.

Cita Hamlet: ”Devo eu, como uma prostituta, desafogar meu coração com palavras”?

Depois Nietzsche: “Aquilo para o qual podemos encontrar palavras é algo que já está morto em nossos corações.”

E segue: “Sempre há uma espécie de desprezo no ato de falar.”

Escrever também evoca este desprezo? Ou é o esvaziamento da preguiça? Não fazer. Sequer levantar da cama. Estou num destes dias de quietude. Mas vou caminhar. Caminhar entre a chuva de pedras, as ventanias, aproveito esta nesga de sol. Vou comprar abacaxi, bananas e tomates. Sou louca por tomates…

Procuro meus amigos

A saudade está na garganta. Certeza que o tempo certo, o bom, o feliz,  il revient… Il est là  pour toujours! Estes tipos  voltam. O tempo da música barroca, de estudar francês, esquiar na Itália, trazer o Marco, dançar, morar na Prudente de Morais, na Barão da Torres, na Viúva Lacerda, e ir pra São Paulo nos fins de semana… Escutar o Carlos Lyra! Onde é que vocês estão? A Guilhermina e o Pierre, o Willy… o Claude, e aquele imenso prato de cerejas naturais que veio de Modena? Quero tudo outra vez!

Procuro meus amigos