envelhecemos

Esforço enorme! … o sentimento em ordem certa sacode. Velhos choram… Queria ser para sempre. É fato. Estranhamento. Preciso respirar.  Na tenda de oxigênio percebo a finitude. Inexplicável conversa com o desconhecido-próximo. Penosa oscilante impossível. Nego a vida mais do que aceito. Tropeço, bebo além da conta, … transbordo. Ter ido ver/estar perto do m a r, e não a m a r, nem molhar os pés! Insegurança. Num repente venderia a alma para ser jovem bela e atraente outra vez. Envelhecer é amargo. Certeza de não ser mais. Inteligência versus maturidade resolveria. Perfeito estar na luta. Retaguarda. Arrepia limite / define, pontua. Queria poder seguir desejando … se te pergunto o porquê de sermos dois … envelhecemos. E ainda não dançamos, tu e eu. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

 

Camile Claudel  no movimento da dança.

 

 

migalhas

Percebi então a verdade sobre todo o amor: é um absoluto, que tudo toma ou tudo perde. Os outros sentimentos, a compaixão, a ternura e assim por diante, existem apenas de forma periférica e pertencem às construções da sociedade e do hábito. Ela, porém – a austera Afrodite -, é pagã. Não toma para si nosso cérebro ou nossos instintos  –  mas nossos ossos.“(p.101)  Quarteto de Alexandria Justine – Lawrence Durrell

Em se tratando do intenso, relações se tornam frágeis como…, como o fogo de um palito de fósforo?, …não sei explicar, apenas frágeis, inconsistentes. O grande sentimento  não consegue esticar outros possíveis existentes sentimentos. Ou é isso, ou é aquilo. Se raiva ódio culpa existem, todos os outros sentidos desaparecem. A traição ou o desprezo engole sorriso, perdão, ou a benevolência. Importa o que chegou primeiro, o genuíno permanece / segue saltando… Esta caça ao amor é um movimento perdido: temos que reconhecer  a austera Afrodite entre tantas tentativas / buscas frustrantes.

Cada rosto, cada história tem um jogo particular, trágico, violento, belo. Qual importa? Tenho a sensação que não existe cura para a vida porque não se esconde/ou apaga a memória. E  a esquecida dor é chaga permanente. A boneca que não chegou no abraço, o beijo apressado, o boa noite escuro, a morte da mãe do Bambi na fogueira, o beliscão por baixo da mesa. Não esqueço o tal esquecimento. E se houve abandono, nunca mais… Não vou recuperar o perdido:  não sou o que penso ser, infelizmente. Interpreto o possível. Guardo enterro com raízes a dor, e ela volta / nasce / renasce e se faz mato outra vez. Pensar a vida seria atravessar/ desbravar uma floresta e este misterioso quintal pantanoso. Não há esconderijo possível. Um livro de memórias nunca será ele mesmo a verdade, posto que a verdade não existe / tem o olhar, nada mais. O arremedo, tentativa tendenciosa.  Impressionismo, expressão da projeção: apenas palavras. Elizabeth M.B. Mattos – 9 de dezembro  de 2017 – Torres

caes caes caes

Foto de Luiza M. Domingues – Alagoas – 2017

blindada

Pouco do nada é não ter. Nem estar entre balões.  Pouco do nada é querer fazer sem fazer. Esperar por milagre. Milagre não existe, ou é ou não é …, ilusão ou miragem?  Fica a vida por conta desta fantasia. Desvio, ou é um beco. Estacionei. Espero na nuvem. Guardada, blindada. Palavra com sentido invertido. …, abraçar e beliscar, … imagino, e tu me vês. Não sou eu, não és tu. Invento. Sonho no meu sonho. Escondida. Onde estás? Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

balão amarelobalões

balão amarelo

sussurando

“Despertei Justine de seu sono inquieto e explorei sua boca, seus olhos e seu cabelo delicado com uma curiosidade ansiosa, que para mim sempre foi o principal da sensualidade.”(p.84)

…., sensualidade presa no detalhe do desejo: prazer súbito do azul, da magreza.  Sensual, a boca … Devoro a voz que se modula com consciência. O ritmo da fala escorrega, escapa, há mesmo que ter consciência! A leitura completa gozo e prazer. A descoberta das manhãs afundam na expectativa das tardes; a noite estremeço, e durmo, mas logo na madrugada o livro me agarra.

…, pois é assim a leitura, cotejante, arrebatadora. Segue o veio apaixonado da mão que procura. (…,  nunca deixamos de farejar, saltar a rotina , … sorrindo).

Há o luto a trovejar no tempo de resguardo escondido/guardado. Há também esquecimento e lamento. O caminho proibido, a esquina ruidosa. Cheiro de sal, ou de sol, …  E desperto o melhor que paradoxalmente teimo em esconder: o desejo. Desejo do sussurro, arrepio. Vontade tenho de ser apenas mulher. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

“Recordo o langor furtivo com que nos vestimos e, silenciosos como cúmplices, descemos pela escadaria sombria até chegarmos a rua. Não ousamos dar-nos os braços, mas nossas mãos insistiam em encontrar – se poe acidente enquanto caminhávamos, como se ainda não tivessem rompido o encanto da tarde e não suportassem a ideia da separação. Foi também em silêncio que nos despedimos, em meio às árvores moribundas da pracinha, torradas pelo sol até assumirem a cor do café; despedimo-nos com um único olhar – como se desejássemos assumir um lugar eterno na mente do outro.”(p.85)

” [ …] ‘Você parece distraído. O que houve?’, senti vontade de responder com as palavras de Amr moribundo:’é como se os céus estivessem mais próximos da Terra e eu estivesse preso entre ambos, respirando pelo buraco da agulha'” (p.85) O Quarteto de Alexandria Justine – Lawrence Durrell

sofá ótima

 

contraditório

ocupa espaço

da calma

da indiferença.

tudo tomado enquanto penso

obsessivanente penso em ti,

desaprendo a ser eu, sou dois

Sonhamos supondo que o sonho é real; essa é a definição de sonho. Do mesmo modo, lemos um romance supondo que ele é real – mas no fundo sabemos muito bem que não é assim. Esse paradoxo se deve à natureza do romance. […] a arte do romance conta com a nossa capacidade de acreditar ao mesmo tempo em estados contraditórios.”

Orhuan Pamuk – O romancista ingênuo e o sentimental

 

 

 

 

casmurro

Por que te afastas se me amas? Se amas, por favor, socorre ampara segura aguenta a teimosia, e a pessoa que se mostra

Aguenta a tempestade, … aguenta.

Ela também ama.

Casmurra aborrecida inquieta impaciente, fora da estação. Esquisita amorosa, tu sabes … Elizabeth M.B. Mattos – dezembro 2017

 

 

adjetivo substantivo masculino

  1. 1.

diz-se de ou indivíduo teimoso, obstinado, cabeçudo.

  1. 2.

diz-se de ou indivíduo fechado em si mesmo; ensimesmado, sorumbático.

demoro a voltar

Não gosto de ir/viajar/sair porque demoro para voltar, e voltar importa.  Estas raízes arrancadas replantadas regadas estão velhas, cansadas. A paciência do começo, e do recomeço. A espera do definitivo … Do suspiro agarrado grudado. Do finalmente! Não encontro o outro pedaço, aquela metade tranquila perdi, … em algum lugar esquecida, amordaçada, amarrada, enterrada. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017

namorado

O corpo passa a ser preocupação: penso no teu e no meu. Sim, tens que cuidar porque ele não é apenas teu, mas nosso, uma metade dele me pertence, …e sou eu no meu ir e vir. Sou eu neste vai e vem. Se não seguras forte na minha mão escorrego. Se me alegro ouso, se duvido fujo. Não domino nada. Sei do caminho que vai nos levar um ao outro… Vou na tua direção, mesmo hesitante. Como me inquieta e aflige não saber se és/estás ou vais estar ao meu lado… É preciso voltar serenar. Que o tempo corra a nosso favor, e que meus olhos, ao encontrar os teus olhos, bem… Que se faça o melhor. Sinto medo. Que eu possa entender e controlar o sentimento de susto. O enamoramento me atropela. Imatura apressada: por que te explico estas coisas todas? Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres

 

saudade de ti

Saudade sinto de ti! […] raiva, desejo, e este gostar se mistura com fantasia. Desespero por este caminho descaminho, complicado, …e, sem volta. O sentimento se despedaça. Eu te disse: não sou romântica. Sou/estou enlouquecida com medo deste fio que se estica, por um fio… Só um fio, apenas um. E nunca és tu porque quem és é existe na minha imaginação. Este entende/sabe. Ninguém ninguém poderá te substituir, nem tu mesmo, sendo… Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2017 – Torres (te encontrar foi dádiva no meio despedaço de tanto desencontro)

tua liberdade escapou

… poema presente e expressiva imagem. Perfeita beleza, … eu me emociono. Entre flores de bronze expande-se uma rosa / trevoso mistério … Sigo a dizer que não mereço. Do teu mundo poeta/poesia nada sei. Que tempo terei? Perdoa, escorrego. Tu me fazes chorar, … como não sentir medo …, e se te esperei por tanto tempo … por que por que tão tarde!

– Tarde seria se não nos conhecêssemos …

Estamos sempre juntos e juntos, … mas quero tudo e mais, não entendo! …, tão livre tão apenas eu …  Fico atordoada sempre a me esquivar, não sei se sei, e fico a te pensar a te pensar e querer te ver/olhar … sinto teu cheiro.

– Tua liberdade escapou!

Escapou … estou presa … Estou presa… só penso em ti. (Chove faz sol chove outra vez … ) Sempre nós. Juntos.

– Sempre.

Não sei como conseguimos ficar tão perto …  Eu me assusto … sinto como se tu estivesses mesmo aqui comigo, ou eu aí contigo. Sempre nós. Juntos.

– Tu sabes que sempre estivemos perto. O olhar é que parecia estar em outra direção. Até que nós nos olhamos…