azul pode ser feio?

Uauuuu! Encontro casual entre elevador e a porta do prédio, entre a poeira (da obra), e o azul do dia: humor encasmurrado, feito cascão! Esta analogia eu fiz, cruel! Vida nos grilhões, arregaçada. Mulher encapsulada, arrogância sem voz… Não posso deixar sem registrar. Morar em condomínios tem espantos azulejadas, o jardim precisa de gramado e sorrisos. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

 

o feio azul…

Paulo tem razão, a cada linha um jeito novo de se esconder, se perder mais um pouco, ou se reconhecer. Fernando segue escrevendo a própria vida numa reprise de desconexões porque se descobre numa cidade desconhecida, a sua velha meninice pulsa. Magda viaja entre amigos inquieta, fortalecida. Ana Cristina mergulhou nas imagens da lente, e se inquieta entre Portugal e o Rio de Janeiro: o tempo, um minuto. Sérgio agarra lasca redesenha a vontade sensual permanente da juventude. André se aquieta e mistifica o poder, depois se entrega, como um menino, para a beleza melancólica da paz. Simone cuida da vida com gentileza atenta. Celso pensa e eu penso Celso, temos um abismo a nos separar. Gustavo persegue as sombras enquanto eu choro. E o meu amado aproveita os dias para me esquecer e fazer assados neste inverno. Eduardo espia o mundo com sua lente de pesquisador e devolve tudo em letras e acertos. Francisco consome amor e música com olhos verdes de desejo alegre. Paulo Sérgio se prolonga na magia de ser jovem amado bonito e genial. Aos internautas o mundo dos boabás e descobertas: ouro com hora marcada.

baobassssssssss

– se tu vens, por exemplo, às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração…É preciso ritos.

Assim caminha o amor, descabelado a se pensar a caminho, ou todo ajustado, arrumado, penteado para o amor certo, na hora certa! Perdendo os pedaços no meio do caminho, distraído! Saudoso, abençoado e dadivoso: esparramado…

” – Que é um rito? – perguntou o principezinho.  – É uma coisa muito esquecida também. – disse a raposa. – É o que faz que um dia seja diferente de outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo,  possuem um rito. A quinta – feira então é um dia maravilhoso! Vou passear até a vinha.  Se os caçadores dançassem em qualquer dia, os dias seriam todo iguais, e eu não teria férias.” (p.99) Antoine de Saint-Exupéry  O Pequeno Príncipe

Este sol devolve colorido brilho cintilante. Hoje de manhã, tropeço numa nuvem escura saindo do elevador, com um tapetinho enrolado em baixo do braço,  cabelo escorrido,  expressão escorrida. Tudo cinzento e seco. Deve carregar o peso por dentro num esforço espicaçado sem som… Sacudi o meu sorriso e escutei os piados e gritinhos alegres da passarinhada nos hibiscos. A Ônix nem se desviou, correu sacudindo o rabo para a liberdade da calçada, eu segurei a porta e a nuvem passou. Entrei na manhã ensolarada, quase noves horas… Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2019 – Torres

P.S. Vida: todos os minutos se misturam no eterno.

Sendo assim, pensou, será que minha vida é apenas um processo de reprodução, de materialização, de uma imagem latente que guardo em mim? Até que ponto eu sou responsável por estar completamente perdida?” (p.99) Haruki Murakami 1Q84 (Livro 2)

Não sei nada de viver nem de nada. Vou devagar, distraída, sacudida, meio perdida!

 

 

 

velhos amores

Velhos amores também ficam velhos! Engraçado. De repente passou… Dois maridos, dois amores amados. Relacionamentos tempestivos e intensos, ficaram na estrada. Lembranças, passado. Estar pendurada na memória! Respirar hoje para o amanhã. Posso dizer/inventar / contar novas estórias. Não posso te esquecer. RESILIÊNCIA. Estás do outro lado. Não imaginas o quanto te desejo grande / enorme e apertado. Já tão tarde! Coloquei / colocaste / colocaram barreiras invisíveis. Envelhecer, as cordas se esticam traiçoeiras, não te preocupa mais, temos outras vidas. Teu poder, devolvo. Venceste! Ser amor amado hoje não importa, já é amanhã, e foi ontem ainda que cozinhamos juntos. É o tempo que envelhece, a terra, nós somos eternos. Quando espio para a tua vida, e te procuro do outro lado da cerca, eu explico: esqueci de te dizer O B R I G A D A! Basta apagar a luz e somos nós em 1963, não esqueci do biquíni preto, da areia, e lembro de ti menino! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

EDITAL do casamento com Jorge

Ao escrever, eu me liberto! Não importa se não respondes. Sou das missivas, e tu gostas de estar do outro lado!

 

Aquarela do artista plástico Carmélio Cruz – Porto Alegre 1964

desordem

Estranho efeito! Desordem no espelho: tudo fora do lugar num descuido completo e preguiçoso. Um dia azul verde  enrolado no xadrez  do xale macio de um inverno que, talvez, aponte. Os pés em meias de lá. A pele macia e doce sustenta / conversa com o imponderável. Se estamos vivos tudo é possível, inclusive, sentir doer, perder os pedaços porque envelhecemos. Somos parte deste todo que se despedaça, sem referência, apenas se despedaça… livro de iberê e danúbio.jpgEscreve Danúbio no seu livro SER OU NÃO SER ARTE (p.61) : “Vicent nasceu morto. Irmão  homônimo  do pintor Van Gogh,  esperança para a família,  herança  nominal de um esperado vencedor. O cognome maldito pesaria como traumática cobrança.  Recusado como homem e artista. Fracassado.” E transcreve de Vincent escrita no hospício de Arles para a irmã Wilhelmine. ‘Se eu tivesse elevado minha voz desde o começo,  em vez de me calar em todas as línguas do mundo!’  Segue: Arrependimento do pintor. Van Gogh  vendedor de objetos de arte,  Van Gogh pregador religioso,  Van Gogh socorrendo a mineiros explorados no Borinage,  Van Gogh aprendiz desenhista,  Van Gogh apaixonado frustrado,  Van Gogh sustentado pelo irmão,  Van Gogh mutilado, Van Gogh internado no hospício  de Arles,  Van Gogh apedrejado e batido pelos intrusos antropófagos, Van Gogh suicidado pela sociedade. A carta: ‘É   muito provável  que eu ainda venha a sofrer muito. E,  para lhe dizer a verdade,  isso não me agrada, pois em hipótese alguma eu desejaria uma carreira de mártir. Porque sempre procurei algo diferente do heroísmo, que não tenho, que evidentemente admiro  em outros, mas lhe repito, não acredito que seja meu dever ou meu ideal.’.

Releio este e aquele livro para agarrar este sol de hoje, porque tudo é dolorido. Despedaçado. Uma sequência de perdas. É constatação, e de repente, preciso do heroísmo. Agarrar o cotidiano / segurar a vela da jangada mesmo que as lágrimas e os soluços me sufoquem. Envelhecer: um relâmpago de lucidez. Insperado, ligeiro / passageiro. Como um sonho? Desejo, confiança na voz do soluço… Saudade. Saudade do teu urgente dizer! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

enxurrada de amor

PITANGAS AMORAS AMEIXAS: pomar da lagoa.

Jasmim em tufos. Alameda de camélias. Abertas rosas gordas a desfolhar. Vejo pitangueiras floridas. Amoreiras modestas, atrasadas, e apenas uma ameixa amarela. Araçás verdes, sem fruto. Cheiro de mar … e uma esperança desesperançada de viver para sempre. Irei sob protestos agarrada amorosamente neste galho de vida, e …cheia de pensamento engraçado. A morte virá, eu sei. Penso na vida. O corpo descreve/conta/explica curiosas histórias. Floresta campina, e sonhos … Desencontro. Bafo quente do último olhar. Alguém virá me chamar, dizer meu nome, e dar a mão. Outra vida se estica e o sorriso alegre acolhe. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2018, já em Torres.

Se tivesse / se fosse / se o tempo voltasse! Uma luz / chance / outra volta / não sei. Queria poder enxugar tuas lágrimas e te cuidar!

de te pensar

Porque acordo e sinto dor no corpo,

porque acordo, e não tenho corpo.

Porque acordo, e sei que dormes.

Enfim, afinal, o que posso mudar?

Reconheço o balanço do tempo

 

Já tanto envelheço, – estupefação,

e agora / hoje desperto a te esperar.

Vem! Chega perto, e toca meu corpo, – eu respiro.

Deita ao meu lado,

e respira respira…  Eu respiro.

A juventude volta, fechamos, nós dois, os olhos

e já amanhã… Somos nós dois, lado a lado. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

 

 

caminhante solitário

Depois da mensagem: “caminhante solitário”

Alvoroço agitado dos pardais. O sol entra esparramado pelas vidraças. Cães ruidosos. Preciso fazer, mas estou nas memórias. E voltas. Escuto a voz rouca. Imagino que precisamos ficar mais velhos para então, olhar nos olhos um do outro, e falar, falar. De todos os que foram, os que ficaram… E destas incertezas evidentes. O chá gelado, uma torrada sem geleia, as empadinhas de siri vendidas na praia. Mate gelado na praia de Ipanema, Leblon. Nunca estivemos no Rio de Janeiro. O bom da lembrança é que dançamos, inúmeras vezes dançamos. Embora eu sempre me escondesse no imponderável, nunca nos teus braços. Certeza do não ver / pensar ou explicar. Estarei encabulada retraída, desconectada, escondida quando chegares. Sonolenta. Indefinida forma de ser gente. Como um novelo de lã que não se abre, mas enrosca, aperta e comprime. Não consigo tecer. Impossível olhar zombeteiro de uma lembrança audaciosa e preguiçosa. Vontade de te tocar. Já é tarde. Eu sei… Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2019 – Torres

 

óbvio

Pensei, reli, repassei até onde foi possível reler. Pensei: estou sem escudo, desarmada. Repassei o teu alerta da exposição, do óbvio. Enfim! Daquele nada que a fragilidade produz, e deste pedido/grito de socorro ingênuo e evidente. Um amado, homem certo para me entregar, e não sei como fazer. Deu vontade de chorar. Tens razão, tudo o que precisamos é calma e de…, pois é, não veio a palavra. Três pontinhos: não existes. Não tenho tudo o que preciso, nem poderia ter. Existem crateras internas. Não adianta…, esta proteção (falsa), e esta fragilidade (real) estarão dentro de mim. Tantas quantos forem as manhãs de amor saciado. Não terei manhãs sedutoras, eu moro bem longe do perigo, estou numa ilha afastada. Difícil acesso.

Espero atada / amarrada por mim mesma a cadeira, perto da janela, então eu posso te ver. E me dou conta que não existes, não chegaste.  Não posso te querer, nem ousar nem sentir medo, nem olhar, nem nada, nem não querer. Vês. Eu me arrebento antes, antes… Antes de poder compreender.

Depois entendi o motivo de escreveres. Ficaria furiosa frustrada (talvez) se o sonho desaparecesse de repente. Se o mito desparecesse e surgisse um nada no lugar, um amontoado de palavras. Talvez eu quisesse te ver para te dizer / e ou mostrar o quanto envelheci exausta, e que foi sempre ilusão. Chorar um pouco o que falta chorar, se é que ainda sei…, pois é. Não sei. Depois de tanta juventude, desencontro sem voz nem gesto, um agora tão íntimo digital. Obrigada não quer dizer nada, o que eu gostaria de sentir seria um abraço. Um estremecimento. Não tenho certeza se sei dar um abraço. Ou pensei penso talvez não importe mais. Precisava te dizer, já que não vamos mesmo nos encontrar nem na rodoviária, nem em casa, nem tomar um café, nem na calçada, em lugar nenhum. Parece tão tarde! Mas se tu me pedisses, eu iria até o meio do caminho, eu iria a qualquer lugar para te olhar, mesmo que não pudesse falar, nem te tocar. 21/06/2019 05:54 e também te estremecer (sorrindo) se pudesse.

P.S.  “Não queres parceiros viáveis -, queres manhãs sedutoras – cheias de perigo”.

Retiraste do meu vocabulário o exausta e o cansada. Fiz a correção. Eu te pergunto: O que faço agora insone e…  E assim, sem rumo? Pois é, antes eu estava exausta e cansada, mas numa quietude confortável a inventar desencontros. E agora? Volta. Atende ao telefone.

P.S.

Não tenho intenção de ser irônica. É isso mesmo que quero dizer. A frase quer dizer isso mesmo que já disse. Estou/sou velha, e não vou me apaixonar. Não tenho mais tempo para dizer o que não quero dizer. Ou fazer o que, absolutamente, não quero fazer.

O certo é um limão cortado ao meio, gelo, água. Vou beber água com mais limão. E entender o silêncio. Vou pegar o ônibus da meia noite. Mais silencio. E não vou emagrecer. É tarde. Não vou me apaixonar, e você sabe o motivo. Vou chorar um pouco. E tu não virás ao meu encontro.  Assim mesmo eu te espero: vício de te amar. Elizabeth M.B.Mattos – junho de 2019 – Torres

com os olhos

S’il y a mille et une façon de faire l’ amour – et je le crois – il en est une exceptionnelle, et qui n’ est pas à dédaigner. Se existe mil  jeitos de se fazer amor – e eu acredito – existe um excepcional, e que não se pode desdenhar. La chose peut se faire devant trente personnes et cela ne dure que dix secondes – et cela se fait avec les yeux. E se pode fazer na frente / diante de trinta pessoas e dura apenas dez segundos –  e fazemos isso com os olhos. (p.82) in ELLES ET TOI

volto

Não posso segurar o tempo, nem voltar aos dezessete anos, nem te encontrar…, eu me surpreendo! Apaixonada. Pequenas loucuras, as minhas. As tuas grandes e intensas e apaixonadas loucuras! Desespero a te procurar na memória. E te escrevo grandes, enormes, imensos e loucos bilhetes. Eu te procuro dentro das fotos, não és tu. Em lugar nenhum estás! Desapareces … não consigo segurar o tempo. Volto ao jogo! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019