tenho uma ideia a meu próprio respeito/imagem mais , ou menos livre. Agregadora /idealizada, ou mais ou menos comum, contudo, não é a verdade. Não a palavra que defina o fato / nem a pessoa/ nem uma ideia ou fantasia. Não consigo fazer real o Eu despido, nu pronto para ser ele mesmo. A cada passo uma direção nova/outra uma tentativa de revelação confessional, e mais nos afastamos da verdade -, o /DES / velamento transforma o velado / o escondido em mais mistério/aumenta o mistério, e fico mais distante ainda da possibilidade de RE /VELAÇÃO . É uma velação / um esconder constante que se repete…
Não deveria estar naquele lugar, não dveria estar com aquelas pessoas
O impulso de carregar , guardar, fazer, desaparecer aquele objeto certo/único
A idade envelhecer / exige exercício de largar / distribuir / entregar:
DESPEDIDA CONSTANTE
quando a cabeça se solta a pensar desgovernada, não escreve, mas sente, e de todos estes pequenos sentires nascem flores, tantas flores! Tenho que prestar atenção. Beth Mattos
Fico a pensar em ti como se estivesses a minha frente, sem falar. Então, eu me transporto. E tu estás sem palavra a me olhar. Quieto. O tempo nos devorou, nada a dizer ou fazer. Encabulados, não dizemos nada… Desaparece a lógica. Nós olhamos quietos. Esperamos. Alguém toca a campainha, fico constrangida e me apresso. A vizinha explica qualquer coisa que não lembro. Ela se desculpa. Sinto o rosto quente, vermelho. Não convido para entrar. Estás olhando pela janela. Se pudéssemos acender um cigarro e fumar! Nos ocupar com a fumaça. Ofereço um vinho, quem sabe uma caipirinha, ou um whisky? Abres um sorriso iluminado e me dizes: tão cedo! Olho para o relógio. Ainda não são oito horas. O azul se faz dia, devagar. Eu me sento ao teu lado. Levanto. Vou passar um café, e cortar uma maçã, (adoro maçãs), queres uma fatia de pão? Sacodes a cabeça sem falar. Desespero na timidez. Não sei o que fazer.
…e, já se passaram tantos anos! jeitos e expressões, não conseguimos segurar… não sei mais como eu sou, não sou
O tempo enrosca / apavora o amor amado: escabela o sentimento. Arranca a tal da lógica. Que situação! Não deveria ter dito aquilo / pensado assim / feito deste jeito. Não deveria ter escrito, não deveria ter atendido ao telefone… Desespero outra vez. Sento ao teu lado. Encosto o ombro, tu te surpreendes. Não resisto. Eu te beijo. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres
Casamento desfeito, acerto de ir ficando e deixando, e se lamenta o bom, amole o coração, depois enraivece. Dinheiro ataca, grita, esperneia. Separações com dor e ressentimento. Negócios perdidos/ errados, amores passados, outros atravessados. Insistente e belo, corajoso, inconsequente. Vais chegando, vais ficando, e vou indo, e nós estamos aqui e agora numa encruzilhada de prazer, porque assim rejuvenescemos. Terapia e palavras e palavras das terapias. Risco. Vou certeza e largo/permito. Acerto. Aceito. Recomeço a fantasia lúdica. Na contramão de ser eu/ sou tu. Um emaranhado, eu sei. Eu te persigo. Tiras minha roupa, visto a coragem. Não corro, não me escondo, enfrento o meu corpo, e o teu. Acerto. Aceito.
No galpão, empilhado, amontoado passado, com frestas. Hoje levarei as tabuas empilhadas para trancar/ vedar. Fechar/pregar/ acabar com o vento da primavera. Preparar nosso verão. Tua voz indefinida e titubeante não ajuda nada. Eu te peço o martelo e pregos, anda! Vamos terminar tudo de uma só vez, numa tarde. Ah! Este danado poder, do lugar certo em hora errada… Somos avessos, tu e eu ao inverno gelado, explicas. Precisas do sol. Encolhemos o apertado desejo: alegrias passadas, vamos, tu e eu, a diminuir a coragem. Vamos nos aquecer com o mesmo casaco verde, e com risos, ao sol.
Se eu fosse certeza doce, ou ainda tivesse aquele campo ao lado do teu, o campo das margaridas exibidas. Pularia a cerca, enfrentaria o rasgado do arame farpado para roubar tuas maçãs E tu, gentil, de certo abririas a porteira para pedir o pão perfumado do forno campeiro. Os cães lamberiam minhas pernas. E tu acariciarias com os olhos. Tudo tivemos. Tudo perdemos. Sedução aberta/forte que segura tua vontade, agarra a minha incerteza.
Completo o bordado com pontos apertados, apressados. Fecho os olhos no teu abraço desajeitado. Fecho os olhos. Entramos. Diminuo o som da música, perfumo os lençóis. Eu te sonho e tu me beijas. Este lado do quarto não conheces. Céus! Não fomos para a academia acertar os pontos da autoestima. Olhos fechados, encolhidos embaixo das cobertas. Não basta? Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2020 – TORRES
” Elícia – Estou indo mal com este luto. pouco visitam minha casa, pouco passam em frente. Não me dão alvoradas, nem canções dos amigos, nem há facadas ou barulhos de noite por minha causa; e o que mais sinto: nem dinheiro nem presentes tem entrado pela porta. De tudo tenho a culpa, que se seguisse a que me quer bem, a verdadeira irmã, quando fui lhe contar o triste assunto, não estaria agora só entre paredes, com ninguém querendo me ver por repugnância. É o diabo ter dor por quem não sei se eu morta também teria. Ela ousou me dizer a verdade: nunca mostres mais dor pelo mal ou a morte de outro do que ele teria por ti. Se eu morresse, G. não ia deixar de se divertir; por que, louca, me aflijo com ele degolado? Bem podia ter me matado impetuoso e doido como era, como fez à velha que eu tinha por mãe. Vou seguir a ideia de Areusa, que conhece melhor o mundo; vou procurá – la seguido e tratar da vida. Sua conversa é agradável e doce, a ação suave. Não se diz em vão que vale mais um dia do homem a par, que a vida inteira do ignorante e simplório. Vou largar luto, tristeza, lágrimas, que tão prontas me vieram. Aas sendo o primeiro que ao nascer fazemos, chorar, não estranha que seja mais fácil começar do que parar. Para isso sirva o bom senso, vendo a desfiguração e sabendo que o enfeite torna a mulher bonita, mesmo que não seja, e a velha, moça, e a moça, ainda mais. Não são outra coisa as cores e os pós do que a isca para os homens. Ande, pois, meu espelho que tenho os olhos abatidos; andem, minhas toucas brancas, minhas gorgeiras bordadas, minhas roupas de noite. Vou fazer uma tintura para os cabelos que já perderam o louro; feito isso, recolho as galinhas, faço a cama, que a limpeza contenta o coração, varro a frente e molho a rua, para quem passe sentir que a mágoa já se foi. Mas vou antes visitar minha prima para ver se Sósia foi lá e o que houve com ele, que não mais vi depois que lhe disse que Areusa queria lhe falar. Queira Deus que a ache só, que nunca está sem galã, como uma boa taberna não fica sem borrachos.” (p.180 -181) Fernando de Rojas – tradução de Paulo Hecker Filho – Editora Sulina A CELESTINA – Tragicomédia de Calisto e Melíbea
Fernando de Rojas nasceu em Montalván, por 1465 e se estabeleceu em Talavera de da Reina e ali morreu. A Celestina, já é lida em 1492, se bem que editada em 1499, com fulgurante êxito e traduções para todas as línguas. O autor tinha menos de trinta anos quando a concebeu.
O destaque no texto foi feito por mim, tanto me identifiquei com as dores engavetadas /enlutadas.
“Para isso sirva o bom senso, vendo a desfiguração e sabendo que o enfeite torna a mulher bonita, mesmo que não seja, e a velha, moça, e a moça, ainda mais. Não são outra coisa as cores e os pós do que a isca para os homens. ”
O amor hoje e o tempo agora…, mais forte e poderoso do que nunca foi o amor de ontem. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres
Sem luxo, nada do supérfluo, apenas tu e eu, nós dois no espaço de ser/ter um do outro. Parece nada: feijão com arroz, laranjas e couve. Céu aberto (com sol, como gostas),
cheiro de mar
cheiro de mato
cheiro de vento
Sem luxo nem supérfluo.
Ah! Não posso te contar
do tanto
do tudo
do nada
Não posso te contar, eu e tu/tu e eu, parece pouco, meu querido, parece tanto! E tu sabes. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres – JMCLX
Citação de Stefan Zweig: “Toda matéria possui certa medida de resistência, além da qual a elevação não é possível, a água tem seu ponto de ebulição, os materiais seu ponto de fusão, e também os elementos da alma não fogem a essa lei irrevogável. A alegria pode atingir determinado grau, qualquer acréscimo já não será percebido, e assim também ocorre com a dor, o desespero, a depressão, repugnância e o medo. Quando cheio até a nossa, o vaso interior não absorve nem mais uma foto do universo.“(p.137-138) Stefan Zueig – Êxtase da Transformação
Quero saber / saber deste homem/menino; descobrir quem és, sem me importar com certeza ou ciência, certo ou errado… Sabes bem de ti mesmo, sabes o suficiente. Não precisas convencer ninguém, nem a nós dois, nem a ti mesmo. Assim, deste jeito que és, como és. Engolimos problemas, complicações, e seguimos tu e eu, amorosos. Ignorância é Paraiso. Por que este interesse em autoconsciência e lucidez? Sem penitência o amor, nem consequência ou consciência. Pareces apressado, estourado, mas não és. Mistura magias: as negras e as boas magias: feiticeiro inconsequente. Ativo. Não te atormentes com o que não deu certo / ou com o que podia ser diferente… És/ou tentas ser um indivíduo de lucidez (citação de Amiel) “indivíduo de lucidez parece um feiticeiro” … Tua vida faz círculos, em algum deles te sentes preso. Isso alucina. Aquieta. Depois de adormecer, depois de acordar, depois de cair, e, depois de levantar…, de cair e levantar, tu acordas, dás um passo, e pronto, saíste do círculo. Consegues. Estás no outro tempo: no outro círculo, o olímpico…Como feiticeira eu te denomino herói. Aquele que vence um dia depois de outro e depois se arrepende, mas ama o amor, amo o dia tanto quanto o entardecer e a noite porque nos abraçamos enlouquecidos. Do jeito que sou/do jeito que fiquei abarrotada de feitiço, felicidade. Seduz. Desespera, e espera. És tu meu amado. Senta e fecha os olhos, um segundo. E já és outra vez menino. Difícil ficar homem, adolescer, também envelhecer. Envelhecer dói como crescer, depois, ora, depois nos beijamos quietos. Divino isso. Esta receita das misturas tu mesmo assinas. Registras e vendemos em vidrinhos reaproveitáveis: álcool, desinfetante, detergente, amor, raiva e desejo. Volto ao que escreves, aos teus sentires. Pontual. Verdadeiro. Eu te abraço. Teu mistério, meu objetivo. Eu apreendo. A passo pequeno, chego onde estás. Ao teu lado sou eu. Comigo és tu. E estás descalço. Sem correções meu querido, nem conhecimento de defeitos e muito menos de qualidades. Joga fora o excesso, fica a existência melhor quando descuidada. Estoura os balões, não quero aprender nada. Sem correções. Adoro o teu, o meu conhecimento incompleto de qualidades ou defeitos. Gosto da existência desamarrada a surpreender. Sem manual. Esquece arestas. Pelas frestas entra vento, entra calor, pelas frestas entra o teu amor. Conta outra vez e mais outras aquelas histórias loucas de marcar amor em cada mesa, em cada tapete esticado, na areia da praia…, na loucura de querer sem poder ter, mas igual livre/rei/ com luz e sol. Calor da tua pele. Deixa de questionar, segue voluntarioso, temperamental e amoroso. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres
“Primeira prensa é apenas porque o azeite não foi fervido. Prensado a frio. E não coado. Persistem impurezas. Aprendi a gostar, quando conheci. Mas não se encontra fácil. Correto quanto ao destino: nunca para cozinhar.” […]
“Por fim, saindo da cozinha, além destes dois, o ‘desde’, em quantidade certa, é genial para algumas coisas específicas. Estes últimos dias, sobretudo os últimos, tem sido de mergulhos…, não sei exatamente onde…, mas perto do convencimento de que nossas “convicções” não são tão convincentes, para os outros, e nem para si próprio. Sempre é tempo de ser melhor, o que exige um crescente e permanente autoconhecimento, do qual careço muito. A idade e velhice podem ser comparadas os copos, com certa quantidade de líquido. Ângulos diferentes para a mesma quantidade de líquido: meio…, cheio ou vazio. Nós nos fazemos velhos, ou nós nos fazemos jovens. No pensar, no vestir, no comportar-se, enfim em tudo. Uma opção do ser humano. A beleza da velhice é incomparavelmente igual, ‘estranho não, incomparável e igual?’ à beleza da juventude. Explorá-la permanentemente deve ser mistério e objetivo. Não de sofrimento.“
Adoro saladas, o tempero me importa, ou não tem nada, ou tem azeite especial, com acidez perto do zero, ou tempero no capricho (misturinhas) e…, algumas bobagens importam. Não compro roupas, não vou arrumar os cabelos, não me olho no espelho, mas sigo minuciosa com o azeite de oliva, com a manteiga então! Bem, o que eu gosto? De comer coisas boas, as mesmas. Hoje fiz feijão, e aproveitei para refogar couve, e a farofa! Ficou delícia. Não coloquei nada diferente no arroz: branco e, muito bom. Descasquei uma laranja. Estava/fiquei dentro do prazer. Céus! Como passa depressa o gostoso do prazer! A cozinha / minha meia cozinha, um caos, sou loucamente dispersiva. Colheres, vasilhas, copos e pratos e panelas e confusão. E por mencionar panelas, confesso ter apenas duas. Faço um passa para cá, depois ali, aqui, e bota nesta: confusão ao quadrado. Como sou apenas eu, se cozinho, sempre sobra comida. Congela isso, divide aquilo. Amanhã não quero pensar. (Droga!) Prazer de minutos, chatices multiplicadas. Não vou fazer agora. Faço. Dor nas costas! Raios! Envelhecer me parece catastrófico. Vou contratar uma pessoa para me ajudar. (Ufa!) Num dia, no máximo dois, estarei implicando. Basta a faxineira. Eu tão neurastênica! Sei lá. Hoje acordei esquerda. Tarde. Esta coisa de sair da cama na preguiça da manhã acaba comigo. Assim mesmo vamos caminhar um pouco, já coloco as toalhas na máquina, fiscalizo os cheiros, fecho os olhos pra desordem. Troco a água dos vasos, corto os caules. Flores me transtornam, iluminam meu prazer. Olho. Olho. Troco tudo de lugar! Céus! Ainda não consegui sair e a chuva está começando a pingar. Vamos assim mesmo. Esqueço de me pentear. Melhor ninguém me ver. Caminhamos na calçada molhada. Vamos. Apresso o passo, e voltamos correndo. Esquisitos passeios no cinza. Direto ao banho. Troco de roupa. Eu desanimo. Dou uma passada de olhos pelo celular, um filho, outro, o que dizem os amigos, respondo. Estou enrolada na toalha. Sinto frio. Droga de frio! Droga de calor! Droga de vida! Irritada com isto e com aquilo, com tudo, e com nada. Por que escolhi viver assim? Por que fiz tudo ser do avesso? Por que não fiz melhor? Por que não estou casada? Por que espirro? Por que eu me irrito quando não estás aqui comigo? Por que não trabalho mais, onde está minha vida? Meus alunos? Meus amantes? Meus amigos? Por que desligo o celular e deixo o telefone tocar. Por que motivo irrito os queridos. E este silêncio todo! A chuva! Bom que a chuva se ponha a tagarelar. E começo a rir de mim mesma. Ia falar do azeite e das saladas. Eu guardo os vidros do Colavita, Olymp ou Herdade do Esporão, e tem o Mykono! Claro me excedo. Para que sejam úteis encho com álcool, nada com a epidemia, adoro desinfetar. Adoro arrematar a limpeza da cozinha com álcool no chão, nas bancadas, por tudo. E foi aí, nesta obsessão misturada com cansaço e cabeça viajando que aconteceu. Por algum motivo (esquecido agora) o vidro de azeite com álcool, igual ao que eu estava consumindo, estava na bancada, fora do lugar. Preparei uma salada maravilhosa: palmitos, tomates especiais, alface crespa e lisa…, dos deuses! Cozinhei ovos naquele dia, estava eu tão alegre e festiva! Arrumei a mesa no capricho. O que fiz? Claro! Em vez de pegar o azeite, que ainda estava dentro do armário, despejo álcool do vidro bonito e decorativo! Droga! E se coloco fogo na casa? Vou precisar de uma babá. Escondo o desastre. Na verdade, os filhos iam mesmo rir. O neto ficaria preocupado. Alhos e bugalhos! Hoje acordei aborrecida com a vida e com as escolhas. Por que escolhi / e sigo escolhendo isso e não aquilo? Por que a escravidão de limpa lava, e pendura. Passa, cozinha, desinfeta. Separa. Todos dividem o fazer. Tu fazes isso, eu aquilo. Ou mexes na panela do molho, enquanto eu descasco as frutas. NÃO! Não seria e nunca foi assim: detesto alguém mexendo nas minhas panelas, ou me cercando enquanto cozinho. Detesto cozinhar com/junto ou aquela coisa de partilhar / dividir: enquanto a água do macarrão ferve, tu ralas o queijo. Não! Adoro cozinhas fechadas / privadas / sem bisbilhotices. Na verdade, estes cheiros/perfumes (como as pessoas dizem) se misturam com vida partilhada. Não sei compartilhar afazeres, brincar junto, dividir. Detesto a mão do outro, a conversa, o palpite no que estou fazendo. Loucura e mais loucura. Uma coisa de cada vez. Nada de romance no meio da faxina, nada de pés passando enquanto tiro o pó, nada de conversas enquanto trabalho. Obsessiva. Ou viver num hotel, ou não fazer nada dentro de casa, apenas escrever, ler e escutar música, tocar piano, pintar meus quadros. Ser servida e ser amada. Os dois lados não funcionam juntos. Tenho que aprender a ligar no automático. Se começo a pedir um favor, pode escrever, que logo abuso da gentileza. Adoro mandar. Faz isso, faz aquilo… E estou fazendo cada esquisitice! Descobri na terceira máquina de lavar, que estava usando dois amaciantes diferentes, um deles cor de rosa e outro azul. Jurava que o azul era o sabão. Água, luz e dinheiro jogados fora! Insisto em não usar óculos. Nunca precisei de óculos. Fico a repetir irritada. Nem para ler. Bem, agora mudou tudo. E eu me pergunto até quando ficarei assim esperneando? Dois minutos os óculos no nariz, outra meia hora a procurar o dito que larguei, nos lugares mais incríveis, estes dias procurei na geladeira. Ficou enorme a minha confissão. A ideia era contar dos maridos e destes dois casamentos desencontrados da Beth que eu sou. Fica para mais tarde. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres com chuva e cinzenta faz tempo! Céus! Fiquei de ligar para um amigo! Ufa! Haja coisas para fazer! E desencontros para me confundir!
Sem jeito de dizer e querendo contar, descrever. Teclar e escrever manso sobre a história sem vento nem ventania, sem desejo ou sei lá quantas estórias ditas histórias (gosto desta invenção da ortografia de estabelecer a diferença entre o real e o inventado), quando penso suponho que inventado faz mais sentido. Desarrumado, assustado no meio das armadilhas das palavras. Já me aconteceu de ser pressionada a viver o inventado/fantasiado, neguei tudo. Apaguei o bom e tudo ficou falso. De outras alegrias descobri não serem inventadas, aconteceram. Um jeito de acontecer tão distraído, nem me dei conta da felicidade. Naquele dia comemos maçãs, bebemos vinho, e eu desastrada falei/contei nos/dos idealizados (eternos) e atuais / presentes amores cambiantes, os mesmos: cercam o passado, o presente (aquele momento), e estão/são o futuro. Gosto confidencial das relações que se impõe. Empilhadas /embaralhadas as cartas, e os quatro curingas. Mais fácil vencer o jogo. Gosto de cartas. Dos jogos. Magda e eu ficávamos hipnotizadas. Qualquer jogo. Fosse o pingue pongue de mesa, Banco Imobiliário, tênis, e ou espiar o basquete ou o futebol. Nas piscinas do Petrópolis Tênis Club inventávamos competições. Apostávamos corrida e jogávamos amarelinha. O jogo amanhecia e entardecia: damas, dominó ou xadrez. Girar, arriscar, picar/quicar. Fascinadas. E jogávamos a vida com bonecas: príncipes e princesas de papel. Desfiles e competições. Inquestionavelmente, competir é mesmo um vício. Não pelo jogo em si, nem pelo primeiro lugar, mas pelo desafio. Li bastante, muito ou quase toda a obra de Henry de Montherland, grande jogador! Perigoso romancista. Perfeito. Cruel. Maravilhoso. Não se consegue parar… Importante! Estas questões sérias e definitivas: vida a ser aberta/descoberta… Depois, anos depois, Amiel.
Aflita neste dia “engraçado ” indefinido, “torto”, um dia assustado, Somos este/um/ o amontoado de palavras a ser escolhido/ assimilado, depois selecionado. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres
“Ninguém é constrangido, ninguém é explorado, ninguém representa um papel interesseiro. Todos oferecem o seu talento, ou algum dinheiro, e contribuem, conscientemente e alegremente para a obra comum, para a superior finalidade que brilha ante seus olhos. Até o amor-próprio a concorrer à ação coletiva, sob pena de prejudicar-se fazendo-se notar.
16 de fevereiro de 1871 (meia-noite) Compreendemos as mulheres como a língua dos pássaros, pela intuição, ou de modo algum. O trabalho, o estudo, o esforço aqui não servem de nada: é um dom ou uma graça. Para compreender estes enigmas vivos, é preciso amá-los; mas isso não basta, pois podemos adorá-las sem nelas chegarmos a ver mais claro. […] O indivíduo de lucidez parece um feiticeiro. Mas é um libertador, e as mulher bem o sabem. Para ele, as confidências, porque ele sabe compreender e consolar. Para ele, a gratidão apaixonada, porque ele tem a chave dos corações e porque guarda fielmente os segredos. Felizes e afilhados da fada, porque dão felicidade. Quem conhece a linguagem dos pássaros é iniciado em muitos outros mistérios. É rosa-cruz de nascença e grão-mestre na franco-maçonaria do amor.” (p.319)Henri-Frédéric Amiel Diário Íntimo
Temporada dos jogos. Não consigo assistir, ou entender, nem torcer. E gosto. Fico a voar… Desanimo. Passo ao xadrez, movimento as peças: escuto música. Insisto. Absurdo tempo de te perder! Escapa… queria de volta avaliação / lucidez e ilusão. Quero guardar/esconder/expor/jogar histórias no tabuleiro. Escuta / fala comigo e agarra o meu lado esquerdo. Os pecados gritam / ouve, por favor escuta as histórias que quero te contar / escuta todos os silêncios a me acarinhar. Atropelo. Misturo criancices e descobertas, aventuras, as minhas e te envio com as flores. Impaciente eu. Distraída. Bons jogadores não se importam se o adversário ganha pontos ou vantagens, até trapaceia… Importa o jogo. Aposta. Desafio. Não quero reclamar, apenas eu me estranho. Eu te estranho. Eu te desejo. Apago memória e lembrança, a morte se aquieta na passagem… Eu perdi, eu fiquei. Já passou. Não choro, nem reclamo, nem lamento, nem volto. Teu jeito distraído. Sem me esperar na rodoviária, entrar no ônibus sem olhar para trás. Coisa tua de ir sempre assim em frente. Não esperar. O meu limite bate com o teu. Somos o jogo natural. Da memória / do escamoteado daquele tempo inconsequente e bem do nosso jeito! Não lamento nada. Eu me surpreendo. Outras regras/normas/ jeitos de fazer. Tu menino! Eu não sei. Teus olhos, o meu espelho. Bom que a noite faz sombras. E o escuro nos embeleza, e o tato perfuma e delicia… A sedução arranca o medo. Jeito preciso, eu vou vestindo a luxuria, e me esqueço do resto… Escuto tua voz, e volto ao Rio de Janeiro a te esperar surpresa. Volto ao mar. Volto a jogar cartas. E sinto o gosto do sorvete com calda de chocolate. Eu também gosto de espiar, e concordo com a Lucila, desconverso com a Sonia. Igual dançamos e vamos trançando/tramando livres a história daqueles veraneios inesquecíveis. Acelerada no tempo, insisto em te prender, não quero que vás, mas apressado voltas. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres
Recorto a lembrança e colo figuras coloridas. Imagens em branco e preto. Desenhos. Uso boa tesoura, cola e imaginação. Tenho a história toda. Colo no caderno de capa amarela. Abro o fichário escolar, aquele com repartições a identificar matérias e professores: neste um vaso com flores e também xícaras, no outro duas bonecas de pana, sentadas numa gaveta: na foto aparecem as camisetas dobradas de tal forma! Milimétrico. Naquele recorte um urso branco, enorme. Algumas folhas brancas, perfeitas para matemática. Logo me distraio e vou colorindo os quadradinhos. Ah! Os pincéis molhados, um quadro inacabado. Estas folhas quadriculadas cheias de uma matemática imaginada. Sigo a folhear as revistas. Recortar, colar. Todos os dias, repasso aulas de história, culinária e geometria. Também ciências. O risco dos bordados e latim, um pouco de inglês com letras desenhadas. Escrevo. Identifico cores. É o tempo desmaiado a cantar. Solfejo. Clave de sol. Identifico. Dó Ré MI FÁ SOL LÁ na musical memória. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres