tragédia

Trágico acidente na estrada: juventude e fatalidade. Jeito esdrúxulo de dizer adeus, o que se ama e o que se rejeito se misturam. Não houve tempo para o adeus.

A morte do ídolo (triste, triste, triste, tão triste!) a morrer aos poucos… Consciente, devagar a se despedir, a chorar… Limite da tragédia. Beth Mattos – novembro – Que 2020 se apresse, galope, corra, acelere… Uma pausa azul, um sorriso de amor

escrever sem medo

Tomou o café-da-manhã na varanda – fingindo que não via uma gaivota em missão de reconhecimento. Permitiu-se uma opulenta sesta após o almoço tardio; tomou um segundo banho para afogar o tempo […]” Vladimir Nabokov Ada ou ardor Alguns livros não conseguem terminar / findar… Há um detalhe em cada frase agarrado no prazer, então me debruço com preguiça, indo e voltando. Não. Não é preguiça, prazer completo. Surpresa. Magia, não, não exatamente magia. A certeza do tema a perseguir o autor. o autor precisa burilar, rever, acertar, errar ou vencer em um ,dois, três livros… Escrever tira o sangue. E nunca tem um ponto final definitivo, sangra até o fim… Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

As agulhas 2

Não fosse o excesso de móveis, o espaço entre as duas poderia ser território de paz. Avizinhadas nas tarefas, mas pressionadas por sentimentos diversos, desordenados, se ignoram…

Isabel tricota, e Lucia mastiga as pontas de um lápis a fazer as palavras cruzadas do jornal.

As cadeiras floridas colocadas lados a lado, e a mesa entre elas abarrotada de livros e bugigangas pode ser o bom divisor. Desordem. De qualquer forma toda a sala está fora do lugar, num vendaval de incoerências. Os livros empilhados no tapete, e as revistas já empoeiradas pelo descaso. Pela janela escancarada sobe/entra o som de marteladas. E o sol não chegou embora já perto das onze horas. Enfadonho domingo. Restrições, conversar, ou pensar, ou assistir televisão, escutar música, olhar nos olhos uma da outra, tudo irrita. É a pandemia. Com energia, também bastante irritação Lucia abre o livro, Lê um parágrafo. Achei interessante, sublinhei, estou sendo engolida pelo texto, talvez te engasgue também. Escuta.

A conhecida capacidade dos pensamentos, descoberta pelos médicos, de dissolver e distrair conflitos profundos, morbidamente enredados, que nascem de regiões abafadas do eu, repousa provavelmente apenas na  natureza social e exterior, que liga o indivíduo com outras pessoas e coisas; mas  infelizmente aquilo que lhes confere força curativa parece ser o que reduza sua capacidade de serem pessoalmente experimentados.”

Estou sempre a te dizer Isabel, esta picuinha e choramingo que emprestas a perda, deste ou aquele momento, ou ao que poderia ter sido  se, se, se… Não aconteceu, está lá do outro lado do quintal, no jardim, enterrado na cabeça maluca daquele vizinho, nas extrapolações da tua fantasia. Não são reais. Não são tuas, e mesmo assim te fazem sofrer, não compreendo. Não compreendo. Mais vezes penso nas histórias, mais entendo, e me avizinho da certeza dos teus insistentes equívocos. A tragédia te ronda, mas nada é autentico. Isabel levantou os olhos, interrompeu o trabalho, deixou escorrer lágrimas sentidas, e não respondeu. Lucia continuou a leitura:

“A menção casual de um pelo no nariz vale mais do que o mais importante pensamento, e ações, sentimentos e sensações transmitem, ao se repetir, a impressão de que se participou de um acontecimento pessoal mais ou menos notável, por mais comuns e impessoais que sejam.”

Lucia, escuta uma vez, não compreendo a tua dificuldade em aceitar o que tento explicar, diz ela, num tom de voz escabelado, não posso aceitar o equívoco.  Isabel retruca levantando mais a voz e ataca numa peroração de dor. Eu estava preparada, certa e animada para uma conversa diferente, franca quando estendi meu olhar e minha mão para ele. Concordei, afinal, com a possibilidade de um namoro, um encontro/entrega quando ele me assalta a emoção dizendo, ‘vou ter que sair!’. E logo. Talvez se ausentasse por uma semana ou duas… Continuou dizendo que tinha o número do celular, ligaria para dar detalhes. Tomou a cerveja num gole, e saiu. Já te contei mil vezes.  Não consigo entender. Eu nem tive tempo para falar. O que fiz de errado? E voltou a chorar. Outra vez Lucia se impacientou. Vou terminar o que Robert Musil escreve sobre esta interferência do externo, do mundo, das circunstâncias em nosso eu, em nosso íntimo, que de tão íntimo (e sorriu), desconhecemos. Céus!

“‘É pena, mas é assim’, pensou Ulrich. Lembrou-se daquela impressão totalmente profunda, excitante, diretamente ligada ao eu, que se tem ao cheirar a própria pele. Ele se levantou e abriu as cortinas do quarto. A casca das árvores guardava a umidade da violenta. O sol brilhava, as pessoas moviam – se com animação. Era primavera no asfalto, um indefinido dia primaveril no outono, como só as cidades conseguem produzir magicamente.” (p.83) Robert Musil O homem Sem Qualidades

Não me olhes deste jeito disse Lucia, fecha o livro. Tudo que sei fazer é mesmo ler histórias, em voz alta, não exatamente criativo. O meu jeito de dizer aquilo que já foi dito. Tudo já foi sentido, feito e dito. Reafirmo. As leituras, os livros, no meu entendimento, a melhor conversa / a melhor cura. No entanto, talvez, eu também te compreenda… De que resolve um amontoado de palavras se não sei, com precisão, fazer uso delas! Eu diria, de que vale a vida se eu sequer entendo do prazer de ser eu, apenas eu? Sim, porque depois do prazer do corpo, de cada pedacinho sentido, usufruído, posso, minimamente, entender o outro. A outra pessoa, aquele desastrado interlocutor que queres amar, e, céus! Pensa Isabel, eu também quero amar misturar cheiros, e minhas vontades. Distribuir abraços e receber beijos. Atormentados beijos de desejo, mas seguro a fantasia, e contenho ímpetos. Queria te dizer. O dia de esquecer, te apaixonaras, perdidamente, por ti mesma, o mundo ficará afinal azul e rosado e perfumado. Estou errada? Eu me sinto uma louca a te dizer isso, minha amiga, mas não sei dizer diferente, e cansei de escutar… Lucia se levantou. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

de volta ao impossível/possível

Suponho ser inevitável que, após semelhante perda, a gente queira guardar cada corda que se rompeu, cada franja que se esfiapou nas últimas horas. (p.372)

“[…]nenhum volume de ternura carnal podia ou pode fazer passar pelo verdadeiro amor, […]” p.373

Em outros mundos mais profundamente morais que esta bolinha de lama, devem existir impedimentos, princípios, consolações transcendentais e até um certo orgulho em fazer feliz alguém a quem não se ama de verdade, mas, neste planeta, as Lucettes estão irremediavelmente condenadas.” (p.373)

Não sei dizer, caro Van, o quanto estou infeliz, tanto mais que nos bosques de Ardis nunca aprendemos que podia existir tamanha infelicidade.” (p.374)

Hípica Santo Amaro – São Paulo

São marcas do livro Ada ou Ardor dos últimos capítulos. Sofro, eu também, ao me despedir da leitura, de Vladimir Nabokov, o autor. Da paixão amor, dos desencontros amorosos que se misturam na vida de verdade. Enlaçados fazem um nó dolorido com perdas e dores. Perdas, perdas, perdas e desencontros. Penso, uma vez vividos, os momentos de especial paixão, amor, deveriam abastecer até o fim, preencher vida inteira. Abastecer. Mas não acontece assim, aos poucos me esvazio. Tão lentamente! Não percebo. De repente transparente, ou oca. E também devagar reconstruo um lugar, uma possibilidade remota de encontrar o começo, o recomeço. Suponho que vai chegar colorido, se fazendo ora música, ora desenho, depois um conto, ou até uma risada. Abro os olhos e lá está, outra vez, o amor.

De alguma forma, trazemos de volta alegria e tempo e força de tudo o que foi como um acerto de luz e sombras. O agora não será como foi antes, nem como se deseja, o agora será a possibilidade de amar outra vez. Será amor, o amor somado aos outros amores. Equacionado e dividido, mas inteiro porque somos únicos neste hoje. Matemática de amor… Então, um novo amor, mais ou menos confusa, ou muito atrapalhada, inexplicável, apenas a sentir… Ok. Um novo brinquedo sério, pode ser assim? Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

Beth Mattos – Hípica de Santo Amaro – São Paulo / SP

coração desnudado

“[42] O gosto do prazer nos prende ao presente. A preocupação pela nossa segurança nos deixa pendurados ao futuro. / Aquele que se apega ao prazer, isto é, ao presente, causa – me a impressão de um homem que rola por uma ladeira e que, tentando agarrar – se aos arbustos, acaba por arrancá – los e por carregá – los na queda. / Ser para si mesmo, antes de tudo, um grande homem e um Santo. (p.59) Charles Baudelaire – Meu Coração Desnudado – Editora Autêntica – tradução e notas – Tomaz Tadeu – 2009 – Belo Horizonte

Do prazer de ouvir tua voz: paz alegria e coisas boas. Obrigada. Então, semente amorosa e amiga germina feliz naquele canto cuidado do jardim. Amanhã regarei com carinho: teu abraço aqueceu corpo e coração. A paz abençoa o inquieto espirito avoado. Beth Mattos

na mesa

Quando o sono chega, enorme, avassalador: palavras, objetos e pessoas se encolhem… Os três pontos russos como soldados de guerra vencida, obedientes, voltam às caixas empilhadas em cima da cômoda. Roupas na cadeira, brinquedos pelo tapete, cortinas entreabertas, e o cheiro de Natal invade o quarto: atravessa a ponte iluminada da Lagoa do Violão.

Na mesa, espalhados meus sonhos. Desarrumados, empilhados meio aos pratos, copos, travessas e bandejas. Revoltados saltaram dos armários, vieram se exibir. Deixei todos por lá, desarrumados. Ontem dormi tarde, numa novidade colorida. O bolo e o chá ficaram surpresos… Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

ansiosa e perversa

Atordoada com tuas palavras, teu recuo, tuas incertezas cravadas/enfiadas na caverna. Outra vida, sempre outra vida, e não se pode dividir, desnudar. Sabes o que acontece? O impossível possível encontro fora do lugar, atrapalhado no tempo, encolhe. Tudo perder.  O teu desejo, ou o meu desejo se espatifa/esfarela na quimera/no sonho. Já não lustro nem encero o assoalho, não lavo todos os copos, nem surpreendo a casa com flores. Sentimento asfixiado na ansiosa e perversa agonia de esperar. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

amor

O amor tem sombras e contornos perfeitos, basta sossegar o olhar.

Parece / aparece o doce encanto da certeza. Do absoluto.

Observo ela se movimentar leve e solta, confiante. 

Elizabeth M.B. Mattos / novembro de 2020 / Torres

Não tenho círculo nenhum de amizades, sou uma pessoa solitária.” […] É uma vida chata, Van. Gosto…ah, de um monte de coisas, continuou num tom de voz pensativo e melancólico, […] Gosto de pinturas flamengas e holandesas, de flores, de comida, de Flaubert e Shakespeare, de fazer compraras, esquiar, nadar, dos beijos das Belas e das Feras, mas tudo isso, sei lá como, este molho e todas as riquezas da Holanda só formam uma espécie de camada fininha sob a qual não há absolutamente nada, exceto, é óbvio, tua imagem, e isso só faz é aumentar a profundidade do abismo e os sofrimentos […] (p.349-350) Vladimir Nabokov – Ada ou ardor

Depois do sentimento, do livro a se fechar (a leitura se esgota, os livros se fecham, o tempo deixa de pipocar). Depois do tédio deste cinzento cinza do dia, o susto e o farto/cansado de um fazer monótono: lavar, guardar, dobrar, passar, limpar e arrumar. Obcessivamente belo, obcessivamente sentido. Fecho as janelas. E fecho / tranco a vontade de dizer/falar. O corpo dói, reclama o movimento, ah esta minha audácia! E se fosse tudo diferente? Se eu pudesse ter quem me fizesse o jantar, cuidasse. Dividir o tempo em languidez e doçura? Será igual? Não vai mudar?

Quero te dizer, teus olhos cheios de luz mudariam o tempo: eu seria alegre e faceira e…, todos os projetos se realizariam, felizes para sempre. Morrer foi tão absurdamente definitivo! Elizabeth M.B.Mattos / novembro de 2020 / Torres

Mas eu não desisto de ser feliz. Não desisto de sonhar. Não desisto do colorido, nem de te amar…

chuva

o céu vai descendo até cair em chuva cinzento…ah! vontade tão grande de se deixar ficar porque chove. Chove no teu abraço e no teu beijo…Beth Mattos /novembro de 2020

passado espiando, mas é apenas uma foto…

O corpo amolecido e farto. De certo/ com certeza/ os excessos se acomodam prazerosos no amanhecer. Depois do café.

Perfumes virtuosos do sono da noite. Amolecida / preenchida.

A caminhada curta se fez meditativa: os olhos se fecham. Esta luz cinzenta, brilhante da manhã entra/fere como agulhas espetadas nos meus olhos. Caminho sonambula. Penso nas pílulas escolhidas, naquelas abandonadas: química de equilíbrio. Viver mais, conversar mais, dormir mais, fazer comedidamente. E o azul, o alaranjado, aquele vermelho, as riscas pretas, o lápis, a borracha e os pincéis. O desejo abusivo de atravessar. Por que não posso pintar, desenhar ou aquarelar atravessada de certezas prazerosas? Tenho/preciso lutar a cada amanhecer com este amontoado de palavras exibidas/ exigentes. Ah! Vou fechar os olhos mais vezes, vou fazer nada, esmaecida nestas pinceladas aguadas. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 –