amor necessário

Talvez eu possa alegar, em minha defesa, que a vida em certas fases transcorre com incrível rapidez. Mas chega o dia em que é preciso começar/recomeçar a viver a nossa última vontade antes de largar seus restos, e, a urgência não pode ser adiada. Nitidez ameaçadora, já se passou quase um ano… Espero, enquanto me movo de um lado para outro em atividades insignificantes e tolas, a mudança. Falo, tenho prazer em falar demais. Vivo com a tenacidade de um pescador que baixa suas redes no rio vazio, não faço nada que corresponda a pessoa que eu sou, e talvez faça isso intencionalmente. Espero atrás da minha própria pessoa, na medida em que a palavra intencionalmente designa a parte de um ser humano formada pelo mundo e pelo curso da vida (o curso da vida define muito mais, ou quase tudo). Desespero manso e calmo retido na vontade, aumenta a cada dia. Estou na pior situação e desprezo minhas omissões. Grandes provações serão privilégio de grandes naturezas? Não. Certamente não. As mais simples naturezas têm muitas crises. Assim, na verdade, não resta neste abalo senão o resto inabalável que todos nós possuímos. Não é coragem, não é vontade, não é confiança, é simplesmente capacidade de agarrar-se tenazmente em si mesmo. Difícil! Aquilo que foi picotado, jogado no lixo, um bilhete indesejado, para ser reconstituído precisa de paciência e amor. Amor tão esvaziado! Mas, necessário. Exibo as fotos da mulher, do que restou no tempo…, sem sustos, meu amigo, cada um no seu posto: a observar. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2022 – Torres – um respiro, um expiro, um jeito novo

janeiro de 2022 – Torres

empurra desânimo, puxa coragem

Esta coisa de contar, e dizer o que importa. Onde está a coragem? Antes de pensar / antes de abrir os olhos já estou a censurar a confidência, a memória. Desânimo, sentimento intrometido. Este desgosto raiz! Faltou leveza: uma mãe exigente, pontual, atenta, artista, forte, inteligente e feminina. Um pai generoso, carinhoso, envolvido, alegre e decidido a ser desdobrado entre amor e o prático, o possível e o tudo. Nunca deixar faltar. O excesso. As histórias cruzadas o descrevem de mil maneiras curiosas, um amigo me diz, lembro do teu pai, gostava de futebol. Verdade, adorava escutar rádio, mas não perdia os jogos, qualquer jogo. Adorava o mar. Era um excelente caminhante, existe isso? E aqueles olhos arregalados e tranquilos nos davam paz. Eles gostavam de cães de gatos, do fogo, da água, da música e de estarem vivos. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2022 – Torres

Quando conversar será se narrar/ se explicar, mas c, também, costurar palavras e jeitos nas tuas, nas minhas palavras desajeitadas, e, desconfiadas. Estares por perto tem cheiro de fogaréu, de céu aberto, descobertas, e me dá um medo desgraçado de voltar a ser eu. Faz tanto tempo que não sou! Fácil deixar de existir: aos poucos nos escondemos na voz e no abraço dos filhos. Assim, passamos a ser parte da vida ganha/descoberta de cada um. Depois os netos a correr, dançar, ou pintando, sendo Valentina, sendo o novo e a força, o medo, e a coragem como Lucas e João. Sobra uma fresta para ser eu. Mas, estou, sempre, apenas espiando…

pandemônio

“Precisava desanuviar-me e pensar com calma. Fui andando pela rua Posadas na direção da Recoleta. Minha cabeça era um pandemônio: um amontoado de ideias, sentimentos de amor e de ódio, perguntas, ressentimentos e lembranças misturavam-se e apareciam sucessivamente.”

“Eu já disse que faço uma ideia bastante desagradável da humanidade; devo confessar que dos cegos não gosto nem um pouco e que sinto perto deles uma impressão semelhante à que me causam certos animais frios, úmidos e silenciosos, como as cobras.” (p.52) Ernesto Sabato O túnel

Alguns livros são perfeitos: forma e ideia, e, o necessário da perfeição em literatura. Este é um deles. Talvez, depois de atravessar outra vez, o mesmo caminho, eu possa me fazer entender. Vais ler? Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2022 – Torres a pensar nesta beleza única / particular que atravessa o que vejo quando olho pela janela.

o toque

O corpo, as voltas do corpo. A descoberta do toque perfeito: apenas com tua própria mão. Como o olhar: nenhuma descrição/ou reprodução encontra o contorno perfeito / o certo. Há o desvio. Quando passas a mão pelo teu próprio corpo, tu o sentes, e o sabes / e o reconheces. O prazer de ser, não o outro a te descrever. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2022 – Torres


Com Pedro Moog na Lattoog

São Paulo, na Alameda – cliques de Ana Moog – janeiro de 2022

charlatão

“Permita-me dar à palavra ‘charlatão’ o significado que ela deve ter em vez do significado jurídico. De acordo com a lei, charlatão é qualquer um que trata pacientes sem possuir um diploma oficial que prove que ele é médico. Eu preferiria outra definição: charlatão é todo aquele que efetua um tratamento sem possuir o conhecimento e a capacidade necessários para tanto. Firmando-se nesta definição, aventuro-me a afirmar que – não somente nos países europeus – os médicos formam um contingente preponderante de charlatões na análise. Eles com grande frequência praticam o tratamento analítico sem o terem aprendido e sem compreendê-lo.”(p.208) Sigmund Freud A questão da análise leiga in Freud Biografia de René Major e Chantal Talagrand

Quem tem amor a vida obriga-se a prestar atenção.

nenhuma gota de chuva

Não sei quantas vezes virei/revirei/ ou dei voltas. O mundo de cabeça para baixo, nem sei quantas vezes vou conseguir virar, e acordar e levantar, dar risada e ter força e fazer: sigo lavando a roupa, passando, fazendo a comida, e já um pouco sem vontade de caminhar…, comprar, comprar um chapéu, voltar e ir. Depois ficar. Dormir mais e acordar depois de dormir. Quantas vezes vou conseguir virar o mundo de cabeça baixo, e fazer de conta que está tudo certo? São as palavras! Não é o mundo!? Tudo fantasia e invenção! Dolorido! Dói mesmo, mas o que posso fazer para melhorar? Tirar a roupa? Entrar no mar e voltar perfeita, bonita, feliz!? Elizabeth M.B. Mattos – janeiro e 2022 – Torres. Nenhuma gota de chuva!

família eletiva

Amor de transparências, ausências carregadas de tantos plurais, e golfadas de ar. Pelas bordas, pelas frestas, pelo porta aberta, o vento, e mutação. Galhos das figueiras! Particularidades azedinhas do doce de leite! Sou eu a me reconhecer no amor: então, vale o céu cinzento.

família eletiva que os anos desenham: sem surpresas irmão, filhos mães e pais, tios, primos e amigos.

E, o mais estranho nesta passagem de vida, nesta temporada de epidemias e doenças e provações, estamos a sobreviver, sim, queremos seguir, mas as relações, os encontros e desencontros, atropelam. Penso no fantástico livro A Montanha Mágica. Não estou sabendo explicar, ou a vida explode em amor explícito, ou fica como um rastro…Pablo Neruda, Thomas Mann, Virgínia Woolf, François Mauriac ou Ernesto Sabato, ou todos eles, e os que chegarão. Ou Pablo Picasso, Iberê Camargo, apenas os gigantes, ainda Paulo Hecker Filho. Ou Karl Ove Kausgard, por que o esqueci? Porque são muitos amores amados, e, ainda Flávio materializa o impossível, a cinza, o nada. Não existe meio termo, mais ou menos. Amanhã tento explicar. Tenho protelado tudo, como se o dia fosse maior, e a noite um cochilo, mas não tem sido assim, preciso reagir. Roberto? Onde estão as tuas cartas? Atravessadas. Preciso sentar conversar e beber café, comer bolo. Rir um pouco. Preciso saber de ti. Geraldo, tu não consegues me explicar, não consigo entender, não consigo aceitar o entre atos. Como escrevi antes, estou encolhendo. Fico aflita, ansiosa, inquieta, atenta, mas sigo encolhendo. O amor de transparências, ausências carregadas de tantos plurais, e golfadas de ar. Pelas bordas, pelas frestas, pelo porta aberta, o vento, e as mutações… Os galhos das figueiras! E as particularidades azedinhas do doce de leite! Sou eu a me reconhecer no amor: então, vale o céu cinzento. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2022 – Torres

A sensação de felicidade que experimento não me ocorre exatamente como um turbilhão, está mais próxima do prazer e da tranquilidade, não importa, tudo é felicidade!”(p.35) Karl Over KNAUGARD – A morte de meu pai

estalar os dedos

2022 – janeiro e perfume de jasmim

Trago/viajo com minha mãe: a espiar este mês de janeiro. Acendo um cigarro, e bebo um café preto enquanto Françoise Hardy diz seus poemas sonoros. A eletrola-presente se refestela rodando os velhos discos de vinil. Preparo a casa: preciso escrever cartas prometidas, principalmente, ao Flávio Xavier, claro, ao Roberto, e ao Paulo, minha amiga Ana Cristina, Joana e Luiza. Também responder ao meu filho Pedro, a Marta. Ana Maria, sem cartas, as conversas não terminam, com sol, sol e nossa preguiça. Uma carta para Suzana, escuto os sinos do Guaíba, fidelidade importa. Ao JMCL, ao André, ao Geraldo e ao Lucas, um desenho para Valentina. Para o João escrevo todos os dias antes mesmo de abrir os olhos. Vou colocar Yves Montand: Sous le ciel de Paris – Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2022 – Torres

memória ativa, não a esquecida…

É da memória que sai/jorra a vida: sem lembrar deixo de ser. O nada, enfraquece, e sem perceber/ ou percebendo eu encolho. Diminuir é igual a não pensar / não poder. Repetir também não é um bom sintoma. A vida precisa inovar / fortalecer na memória, neste fazer prosaico, como respirar… Sim, eu compreendo quando me dizes, mesmo sem estar aqui, mas esqueço que vivemos uma história de vibrações, ficou perdida, não achas? Estou tentando voltar / refazer: conversar a conversa que perdemos, tu e eu, por estarmos focados no paralelo…convicções diferentes? Não. Urgências desfocadas… Agora estou em todos os lugares, como uma dispersão distraída. Eu já fui para tantos lugar, fui para ser eu, para conseguir entrar em mim eu me mudei… Coloquei âncora, tentei cavar fundo / adubei para ter boas raízes. Nem o barco ancorou, nem floresci onde pensei ser árvore. Esquisito isso. E agora eu perco as coisas, banais objetos: a cola que corri para comprar, o sonho que estava acomodado naquela estante, os cadernos onde anotei detalhes. Escorregou o sorriso, também a vontade de caminhar, tropeçou. Preciso emagrecer, ser vaidosa, trocar o vestido. Colocar a vida no bom lugar. Céus! E agora não é tarde? Ou ainda tenho os trinta anos prometidos? Tenho o teu abraço? Ah!! eu deveria correr ao teu encontro! Estou presa nas minhas limpezas inacabadas, na desordem distraída e caótica deste dia de querer lembrar / deste tempo de esquecer / acendo as luzes, e adormeço. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2022 – Torres


Rio de Janeiro – 2022 – a virada – Joana e as luzes de Copacabana

espanta-me, em verdade, o que fizemos, tu e eu

My face in thine eye, thine in mine appears, / and true plain hearts do in the faces rest; / Where can we find two better hemispheres, […] Whatever die, was not mix’d equally; / If our two loves be one, or thou and I” John Donne The Good- Morrow (p.41)

A minha face nos teus olhos, e a tua nos meus, aparecem / Que os corações veros e simples nas faces se desenham; / Onde poderemos encontrar dois melhores hemisférios, […] Só morre o que não foi proporcionalmente misturado / E se nossos dois amores são um, ou tu e eu nos amamos

Sou duas vezes louca, eu sei, por amar, e por dizê-lo.

Espanta-me, em verdade, o que fizemos, tu e eu ? / Até nos amarmos?

I wonder, by my troth, what thou and I / Did, till we lov’d?