O tempo e nós. Vivo sem me preocupar com o tempo, apenas vivo. Sei bem que lá, mais adiante, precisarei contar /dar conta deste tempo. As manhã em sala de aula: momentos especiais, faço o que gosto, appreendo com eles, esqueço de mim, e recomeço. Lamento que terminará em julho, o curso. Mas não se pode lamentar. Não posso romper com tudo aquilo que me machuca, tudo que machuca faz parte da minha história e está dentro/contando / sendo este tempo. Recomeçar, o desafio, começar/iniciar/conseguir, não desesperar. Adivinhar o que não foi escrito e perdoar. Tenho atravessada a dor. Não dizer / o não escrito não pode ser sentido. Estou de volta. Incerto caminho. por que depositei confiança completa? Para eles eu era o brinquedo, não a pessoa. Brincar de marchand / brincar com arte / brincar com vitrine… A cada onda o castelo desmancha, as ondas atravessam a minha necessidade, e saem a se esparramar sem que eu possa entender. Bebo uma enorme quantidade de água, mergulho. Vez que outra, no mergulho, fecho os olhos, e vejo o interior confuso, egoísta, enxergo as carências desarrumadas… Ora! A vida é tempo, e o tempo nunca será perdido / nem perfeito…Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2023 – Torres
Li tudo / reli a carta. É esquisito o diálogo, bom de repassar, de tentar, ao reler, reerguer a vontade de acertar. Não vou retomar e ou escrever agora, A proprietária do apartamento q eu estava, em Petrópolis, reclama de um vidro quebrado. Fico aborrecida e tensa. Reclama das contas que chegaram (q eu ia pagar, é claro), contas telefônicas… Hei de me ver livre de tudo. este é o sentido da noz-casa. Pequena, nossa, inviolável. Quanto aos 16 anos, um ato falho! Nasci em 1946, casei em 1968, dia 9 de fevereiro, muito quente). Nada confere com as datas que te mandei. Eu me separei com 26 anos: três filhos. Céus! Luiza nasceu em 1985. Já com dezoito anos a minha bebê. As contas e os números me assustam, Sou lenta. lentíssima, eternamente assusta. Vontade de que tomem conta de mim, para sempre cuidem de mim. Vou correndo recolher as contas lá da moça, e, responder sobre o vidro quebrado. Ah! Um lindo apartamento, uma linda vida, um bom susto!
Carência é a falta que sentimos de nós mesmos. Carência nós temos de todas as necessidades internas de nossos talentos enterrados… enterrados tão distantes, num jardim desconhecido, talentos que não florescem, não brotam, não saem da terra. Carência somos nós esquecidos de nós mesmos, mediocres, pedintes de um olhar, ou de um toque que nos diga: volta, volta, eu te preciso, tu existes no meu mundo, ou meu mundo não existe se tu não estás nele… Volta. Acorda! Não és a sombra de um sonho és tu comigo. Ou apenas tu sendo pessoa, inteira.
Como posso te consolar? Nos percalços deste nada que nos afunda, (as duas) na inércia – ficamos sendo mendigos da luz de sermos nós mesmos. O que me consola? Se tu estás do outro lado, livre, quieta, feliz ou infeliz, diz/conta amiga, diz da tua alma, derrama teu cheiro, teu toque naquilo que importa, não naquele que te ameaça…. Vira as costas. Pensa que o outro, amiga, é sombra nas sombras do desejo criado/inventado. Pedaço do teu barro , da tua fantasia interior: um nada se não está em ti / contigo. Será vazio se em ti não há o completo. Se o riscares da tua vida, ele desaparecerá. Agora círculo de fantoches, tu fazes viver ou morrer.
Enche a alma do teu poder. Eu ando solta, projetos soltos, projetos de fazer isso e aquilo. Procuro um tempo vazio. Um espelho de alguém-eu para esquecer-me do interior de ser eu, ou ser tu.
Quanta saudade! Coisas esquisitas me acontecem. Inclusive um novo namorado… Mas bem velho, presta atenção! Destes encontros que chegam para te dizer que as coisas não podem ser sempre horríveis. Noutra carta eu te conto da galeria, e de como as coisas se desenham… Estou a pensar como será a vida mais adiante…Volto a te escrever amiga. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2023 – Porto Alegre – todos os médicos agendados.
Um pouco do nada tira/revira a vida do lugar, talvez a gota que transborda o copo já pelas bordas, o tom da voz, a roupa que despe e mostra mais do que esconde ou tapa, um som… O não dito, mas expresso. O que não foi lido. Verdade: um amontoado de não, não, não = nada. A carta que não foi escrita, o telefone que não tocou, a gentileza não feita. A poeira. A dor desajeita do que não tem conserto. Claro! O sol, o vento, a limpeza, ou a música resolvem… A boa comida, o copo com água fresca…
A tal vontade de bandeira. O sono… Silêncio arrumado!
Explicar não, dizer sim. Estar, ser, muito mais do que ter. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro 2023 – Torres
impaciente com a potencialidade / o poder do outro, quero engolir, sem mesmo ter/sentir o gosto…, apressada, e a pressa (ah! danada pressa!) é para viver, vou tropeçando. Largo os brinquedos, rasgo o vestido, não escuto a mãe…brincar/descobrir eu comigo, inquieta e impaciente. E parece tanto, tanto tempo! E não é nada… Ia ser chuva, mas só ameaça, ia ser festa, foi apenas um bolo! Elizabeth M.B. Mattos janeiro de 2023 – FT desapareceu, um fantasma que se esqueceu de dizer a verdade, eu sei. Não temos coragem de ser nós, sem o outro, somos o arremedo possível /imaginação!
catilindasilvade fadilhaencilhadaJOENDÍSSIMA rosa roxa, dália aberta;venntt0oo quente no avesso. inverno frio e calor quentíssimo na dobra do jornal… aguada temperança, madrilhença luadepapel no mel. louca/caótica/mentira verde a florir florirjasminzenda.
eu disse desejo objetivo, vazio, depois as cores – móveis, quadros.
desenhar o desejo voando…
estou prestes a compreender, ou, prestes a me debruçar naquela velha quietude alegre.
dela brota pensamento e o pensamento fica objetivo e se multiplica / fica visível, e eu atravesso sem medo.
a sombra no fundo do meu cérebro a se mover.
gosto de pensar que estou montada nas costas do mundo, vejo tudo e todos, deste lugar as possibilidades variantes, as rendas do céu, o lugar de onde eu sinto o gosto do poder e atiro as palavras como rede.
a desordem colorida das soluções
leitura exige /pede/ invoca cenário / não o que acontece no livro / no texto, mas no meu pensamento afogado no banho / na água do chuveiro, depois, depois chega aquela angústia, ou aquela falta, aquele erro.
não abri a porta e não te deixei entrar.
volta, entra na minha vida e fica,
as portas estão abertas…
ah! onde escondi o meu jeito particular /especial de sentir?
preciso acordar da leitura e descascar os figos, abrir o abacaxi, fazer o suco, voltar a cozinhar… marcar hora no médico, pegar o ônibus, conversar, olhar, e ir.
as revistas (lembro da mãe com as revistas, do pai com os livros, do silêncio, das risadas, das lareiras e cheiro de bolo)
como se a mesa onde apoio o livro, a cadeira onde sento, a luz do dia ou da noite / fosse o cenário.
a informação real e aquele desejo imaginado de voltar, subir a escada e abrir a porta…
por que não consigo abrir a porta? Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2023 – Torres
Preciso urgente delas, de uma certa ousadia: preciso do passado, esquecer de mim agora, repassar o tempo e cometer imprudências, todas. Ser obrigada a descer no passado, voltar naquelas viagens, remininiscências da infância, saudade desta esquecida memória, ou doutras épocas da vida, ou abraçar esta com carinho, sem desprezo. Gritar na noite. Imaginar que posso viver aqui ou acalá, e que dormir é sempre exaustão de amor. O recomeço. O estado de espírito levado pelo descaso. O tempo passado que desce neste caminho: quero todas as estradas que não passei. A atuação / influência do outro racaí sobre nós, e nossa escolha, como foi para o outro? Não sou tão independentes como imagino e muito menos livre. A outra pessoa está dentro de mim alimentando meu esperíto ou sugando minha energia. Preciso me desviar do que é negativo, mas já não sei mais como agarrar alegria. Nem sei como agarrar o tempo. A percepção determina, vou arrumar minha mala, vou pegar aquele ônibos, vou conseguir. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2023 – Torres
Um golpe – uma quebração de estrutura, tempo. A loucura. Este desespero raivoso atinge a todos. OU não muda nada…estamos caindo…
Acometida de inquietude. E não entendo… É um fragmento que traz uma história inteiro /completa: carrega /mostra, aponta um caminho. Uma carta inacabada / um eixo. Era para K esta carta / era quem eu acordava no meio da noite. E as imprudências cheias de urgências, morar na Farias Santos, atravessar a Praça da Nações e ter medo porque éramos Luiza e eu tão sozinhas! Éramos tantas! E o trabalho me consumia.
E Torres ficou sempre a nos esperar… É bonito aqui, mas lá também era perfeito. Quero a vida de volta. Deixamos de ser nós duas. Somos uma só. Eu bem o pressentia; era fatal… em meu redor tudo são destroços de mim. Por que isso e não aquilo? As minhas grandes saudades estão presas…
[…] Era um espírito original e interessantíssimo; tinha opiniões bizarras, ideias estranhas – como estranhas eram as suas palavras, extravagantes os seus gestos. Aquele homem parecia-me um mistério. Não me enganava, soube-o mais tarde: era um homem feliz. Não estou divagando: era um homem inteiramente feliz – tão feliz que nada lhe poderia aniquilar a sua felicidade. Eu costumo dizer, até, aos meus amigos que o fato mais singular da minha vida é ter conhecido um homem feliz. […]
Tem razão, muita razão! É uma coisa horrível esta vida – tão horrível que se pode tornar bela! Olhe um homem que tenha tudo: saúde, dinheiro, glória e amor. É-lhe impossível desejar mais, porque possui tudo quanto de formoso existe. Atingiu a máxima ventura, e é um desgraçado. Pois há lá desgraça maior que a impossibilidae de desejar! …, e o maior vexame que existe é viver a vida. Não me canso de lho gritar: a vida humana é uma coisa impossível – sem variedade, sem originalidade. Eu comparo-a à lista dum restaurante onde os pratos sejam sempre os mesmos, com o mesmo aspecto, o mesmo sabor.
E creia que não é preciso muito para chegarmos a tamanha miséria. A vida, no fundo, contém tão poucas coisas, e é tão pouco variada… Olhe em todos os campos. Diga-me ainda não enjoou das comidas que lhe servem desde que nasceu? Enjoou-se, é fatal, mas nunca as recusou porque é um homem, e não sabe pode nem sabe dominar a vida. Chame os mais belos cozinheiros. Todos lhe darão légumes e carnes […]
E ele explica todas as situações… Atravessa páginas, e por todos concorda-se.
É bem certo. Eu sou feliz. Nunca dissera a nunguém o meu segredo. Mas hoje, não sei por que, vou lho contar a si. Ah! Supunha nesse caso que eu vivia vida?… Triste ideia fez de mim! […]
Eu consegui variar a existência – mas variá -la quotidianamente. Eu não tenho só tudo quanto existe – percebe? -; eu tenho também tudo quanto não existe. (Aliás, apenas o que não existe é,… Ah! O ideal… O ideal… Vou sonhá-lo esta noite… Porque é sonhando que eu vivo tudo. Compreende? (p.151-159) Mário de Sá-Carneiro Antologia Organização, apresentação e ensaios – Cleonice Berardinelli