Clarice Lispector

Então isso era a felicidade. De início  se sentiu vazia . Depois seus olhos  ficaram úmidos: era delícia, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinada docemente, aos poucos. E o que é  que eu faço? Que faço  da felicidade? Que faço dessa paz  estranha e aguda, que já  está  começando  a me doer como uma angústia,  como um grande silêncio de espaços? A quem dou minha felicidade, que já  está  começando a me rasgar um pouco e me assusta. Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, muares de pessoas não tem coragem de pelo menos prolongar- se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é  sentir – se feliz e preferem a mediocridade. Ela se despediu de Ulisses quase correndo: ele era o perigo.” (p.76-77) Clarice Lispector-  Uma Aprendizagem ou O livro dos prazeres 

Tem sempre um perigo gente por perto, mais do que muitos precipícios e armadilhas. Ela sabia da vida e das coisas e de escrever. Estamos a homenagear a única, a especial LISPECTOR. Eu a conheci na casa do meu sogro Vianna Moog. Tão mágico, tão único, que depois do Boa Noite eu fiquei muda. Exuberante. Fumante. Incomum. Inquieta. Enfim: a Clarice Lispector que conhecemos pelos seus escritos. Livros e correspondência. E, como não podia deixar de ser, uma beleza exótica. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2020 – Torres

a gente se esconde na vida possível que encontra para viver, escolhida ou imposta, certa ou errada

…somos nós/sou eu/ és tu a respirar. Gostava de ter cabelos compridos. Gostava de ter tempo no meu ócio organizado. Gostava de brincar. Gostei de namorar, dançar. Do prazer alegre. Gosto das pessoas. Do beijo. E das palavras. Minimamente encontrada, minimamente perdida, talvez achada (Céus!) e feliz, talvez. E gosto muito de Árvore de Natal enorme / grande / ou pequena a iluminar este mês de dezembro. Até gosto de quem não gosta de nada disso. Elizabeth Mattos – dezembro de 2020 – Torres

Da leitura da tetralogia de YUKIO MISHIMA

Juventude, empenho em mudar/ transformar. Marcar a ferro cada geração: jovens definirão o jeito/ a forma/ a política / o entorno / o mundo / o jeito de ser. Trocam / alteram / desenham roupas. Sublinham rituais. Penso no quanto fui omissa, alienada e subserviente. Nada fiz de relevante, ah! esta pequena história de moça bem-educada, comportada (ou nem tanto!) de nada serviu. Enfiada em belos vestidos, exigente para bainhas bem-feitas, e cores, e tecidos ou sei lá o que exatamente. Escovar muito e muito os cabelos. Caminhar pela praia, chegar ao rio Mampituba. Dançar, dançar, dançar e, ainda, dançar. Hoje, as academias. Exercícios. O corpo sadio. Alimentação. O brilho de uma prática agregadora. Sentada na minha velha, velha, velhíssima cadeira, enquanto leio, a pensar, espio pela vidraça e vejo velhos, jovens e crianças na calçada, a grande maioria caminha num ritmo de exercício… Este movimento alegre no final da tarde me fez pensar no que era/foi e como era… Claro! Onde estarão, em outras cidades, estes jovens, estes velhos… Ninguém espera acontecer, faz acontecer. E volto para minha mansa / quieta / rotina de ser eu. Como foi, exatamente, chegar a minha serenidade agitada? Claro, Yukio Mishima conta/explica/ narra a história do Japão, atravesso o tempo. Vejo as montanhas, campos de amoras, caquizeiros, cerejeiras, carvalhos, rios, templos, devoção, crisântemos selvagens. Atravesso o livro com o coração aceso. Vou para tão longe! Entendo o Budismo, quero chegar a Confúcio. Acompanho os olhos de um leão em Isao, acompanho a reencarnação. Volto para cumprir/realizar o que não foi possível naquela vida, a outra, mas precisa ser feito. E o feito escreve a história do mundo. Somos flores, não pessoas, somos uma parcela mínima, e gigantes. Somos pássaros. O essencial importa, não o amontoado de palavras vaidosas, o silêncio real. Mas nada sei do essencial. Vejo o Sião se transformar numa monarquia constitucional. E a tarde na beira da Lagoa do Violão me parece tão extraordinariamente perfeita e adequada. As tardes de sono empurram o cansaço do meu corpo, estou revigorada. E posso fazer/ fazer/ fazer/ e também seguir lendo. Tudo me parece tão singelamente natalino! Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2020 – Torres

Yukio Mishima

O verão ameaça / sufoca, mesmo na madrugada (que deveria ser diferente),

Está tudo tão / tão, completamente, parado! Beth Mattos – dezembro de 2020 – Torres

“Tudo era em vão. Lembrou – se de um velho poema que um kendoca experiente lhe ensinara:

Tentar não pensar

já é pensar.

Portanto, até mesmo ‘Não pense!

não se deve pensar. ” (p.223) Yukio Mishima Cavalo Selvagem

“chutamos o balde”

Chutamos o balde. O meu pai organizou tua chegada. Casa espaçosa, enormes janela festivas. Uma espécie de escritório ateliê. Luxo de sofás brancos. Nas paredes quadros do Eduardo Vieira da Cunha. Alegria em sorriso largo. Escancarada descontração. Descalços, rimos muito, sem planos: a pandemia limita a vida ao jardim de rosas da Marina. Pitangueiras, um gramado ensolarado. Imediatamente te levei uma pilha de papéis. “Vais me ajudar a montar um livro, quando tudo se resolver, a publicação. Vais cavar meu sonho!” Eu jovem, muito jovem neste dezembro. Tu com teu sorrisão! Como faz frio nos enrolamos numa manta como dois meninos. Fiquei tão pequena ao teu lado! No fundo da sala, em baixo da escada que leva ao solário baldes coloridos, deveriam ser uns dez ou quinze. Rimos muito. Quatro horas da manhã! Vou voltar para a cama… Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2020 – Torres

Eduardo Vieira da Cunha

o peculiar dos segredos

Há algo de muito peculiar nos segredos. Há certas coisas que, pelo próprio fato de serem tão simples, tão bem conhecidas, se tornam secretas. Seja como for, aqueles de nós que conhecem esses segredos carregam, de fato, uma pesada responsabilidade.

Se a pequena verdade vira / ou se transforma em som/palavra, o constrangimento. Existe qualquer coisa de secreto que se esconde na dobra do vestido. Na cortesia. Existe o secreto que salva. Depois de pensar e pensar. Abro o armário para a limpeza anual, a contagem da guerra. Devagar arrumo aqui, ali. Ainda não encontrei o livro do Alberto Maravia (faz semanas que procuro), e me aborreço com as perdas… Copos se foram, um pires. Dois pratos. Inventário amoroso. Do meu farol a música. Sou útil. Podes ver, fotografo.

E apesar de que nós conduzimos este povo ignorante, e que persiste em sua ignorância, passo a passo ao longo da estrada que leva à felicidade suprema, ele desanima, pois o caminho é íngreme. Logo dão ouvidos ao diabo que sussurra: ‘Olhe aqui, veja como este caminho é mais fácil’. E quando eles veem como é encantador o outro caminho, com flores em profusão de ambos os lados, atiram – se nele de cabeça e acabam mergulhando no abismo da ruina. Como os empreendimentos econômicos não são nada benevolentes, devemos previr que uns dez por cento se tornarão vítimas, enquanto os restantes noventa por cento serão salvos. Mas se não tomarmos nenhuma medida, será a totalidade dos cem por cento que irá alegremente para a destruição. Suponho, então, – replicou o Visconde de Matsudaira -, que os dez por cento que são os agricultores devem resignar – se a morrer de fome?“(p.165) Yukio Mishima Cavalo Selvagem / Mar de Fertilidade vol. 2

O segredo se movimenta inquieto quer saltar / se libertar: a conversa precisa existir/acontecer completa, sem rastejar nem reticências, mas nunca acontece por inteiro. Não se trata de confissão. Dou voltas, e voltas, a cada um seu próprio rumo. O inesperado. Não vais resolver. Há qualquer coisa de sério a ser dito, mas eu não falarei/não direi: meu pecado, não denunciar/ não expor, apenas escutar, covarde? Ou cautelosa. Vou escolher um sorvete, logo vai parar a chuva. Dezembro diferente. O livro de Yukio Mishima empurra a noite. […] “se mantivermos nossas reservas monetárias a um nível adequado, evitamos uma queda em nossa taxa de câmbio, e ganhamos a confiança das nações. Essa é a única maneira de o Japão se dar bem no mundo.” (p.161)

balanço

Acordei cedo hoje! Dormi cedo. Hora errada, pobre da Ônix!, esquecida na varanda-canteiro alarmou o prédio, e CÉUS! Como responder e agradecer e pedir desculpas? Revolução. Fechei janela e apaguei a luz, dormi outra vez. Dormir: passar o apagador num quadro de giz. O livro terminou. Estou naquele período intermediário, sem vontade de fazer limpeza / ordem, ou qualquer coisa prática. O tempo? Estranho! Um novembro frio. Sinto a garganta. Espero não me resfriar. E me enrolo nas mantas. Talvez chova, talvez fique apenas cinzento. Pessoas caminham nas calçadas, dia começa. Amanhece. Liguei o rádio. Arrumei as camas. Passei o café. Esquentei pão. Nada de regime. Quero emagrecer: ao longo do dia me concentro na dieta, mas amanheço com pão e manteiga. Automático. Vício. A geladeira, coitada! Cheia, lotada! Como se aqui vivesse uma família inteira. Não. Sou apenas eu: gulosa e compulsiva. As frutas pintam a casa, dão toques de vida e cor e ainda perfumam… Viver em sabor de chocolate, a doçura de ser amado / amada / acarinhada. Céus! Preciso organizar e fazer e ter e ser e começar e fazer/ e fazer e fazer… Alugo uma casa e alugo um jardim, planto roseiras e cravos e crisântemos. Pequena fantasia. Estica na janela: olhar perdido! Eu a vejo se movimentar, penso na Mabel e no Bento, por que não estou numa casa? Com árvores, jardim, cheiro de mato e vida nova… Vida nova. Será o mar o bruxo do tempo! Preciso arrancar memória, passado. Depois transformo em jardim sem inço, sem rosetas, apenas jardim… Outra vida. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2020 – Torres

sem estrela

Como era estranho ter uma impressão tão misteriosa, porém tão distinta, de já ter estado ali! Talvez isso se relacionasse a uma experiência real. Talvez quando criança seus pais o tivessem trazido àquele lugar. De qualquer modo, sentia que a forma daquela casa se preservara perfeitamente em seu coração, como um jardim pequenino mas cheio de detalhes, envolto em bruma.” (p.120) Yukio Mishima Cavalo Selvagem – Mar da Fertilidade vol.2

Talvez o único lugar definitivo de minha vida tenha sido perto/junto de meu pai e de minha mãe. Não sei bem riscar / determinar. Se quando criança, ou jovem – mãe ao me socorrerem de inquietudes. Se do tempo dos desenhos aleatórios de um Rio de Janeiro triste que eu vesti / pintei de alegria. Não existe lugar seguro. Todos podem ser tenebrosos e incertos. Infância seria o bom país, mas escutamos/sabemos das barbaridades / insanidades que ocorrem. Depois, depois sem pai e sem mãe; uma luta cega no tempo. No casamento certezas ambiciosas e corajosas, mas violadas. Há quem se volte para a luta engajada, e arraste ideal. Ao resultado pífio de uma decepção lavada. Com certeza no braço do amado seria a paz , um jeito certo / ou esquerdo de acertar a quietude. Depois vazio. A idade descreve outro mundo, outro rumo, outra força ” tudo isso era estranho ao seu modo de pensar” -, qual será meu modo de ser, quem eu sou? As palavras escorregam: pelo fio telefônico, por uma carta encabulada, um pensamento desarrumado. Uma incerteza. Queria tanto descansar a cabeça, esticar o corpo num lugar colorido. Encher de gostosura uma xícara de chá. Saudade de abraçar e ficar muitas horas, sem relógio, a dizer o impreciso. Caminhar por atalhos e chegar ao mar… Hora esquisita de contar o tempo: sou a loucura deste vazio. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2020 – Torres sem eco, sem chuva nem vento. Deve ter estrelas no céu, mas não vejo.

…, não sei! beijos embrulhados

Sentei para escrever sem foco, sem assunto. Dezembro chegou, o ano termina. Expectativa pessoal zero/oca, não sei. Vou sacudir o Natal. Bom! Esforçar – me. A vacina bate em várias portas: o vírus, talvez, deixe de assombrar. Serão chuvas, depois ventos. Seca e frio congelado. Estes fenômenos enrijecem o corpo. Descrevo o amor: descongela, esfria, desaparece na ventania. As certezas chegam lentas e famintas. Passo os últimos lençóis, as fronhas da semana, e aproveito o encerado do assoalho, a limpeza. Imagino organizar outro armário, revisar o conto de Natal, amontoar papéis. Olhar pela janela o castanheiro. Tirar fotos. Olhar revistas. Passar um café. Descobri que estou no tempo dos dinossauros: uso pó de café, coador, e aquele jeito já passado de passar café. (Claro! não deve ser apenas eu.) Sem máquina. Sem micro-ondas, sem panelas mágicas, faço tudo como era antes, e gosto. Corto meus cabelos com uma tesoura de picote (ficam engraçados), e este não cuidado, claro! Deve ser o novo cuidado. (Repito a mãe: cabelos jeitosos, fartos, arredondava os seus em casa). Adoro tesouras!  Prazer em abrir gavetas. Roupas, quinquilharias, o passado tão, milimetricamente, dobrado, ordenado. Prazer! Elizabeth Mattos – dezembro de 2020 -Torres

beijos embrulhados, o presente, no futuro vira carinho e amorosidade / Natal feliz?! esforço e alegria