Vou até Porto Alegre,
Outra vez na corrida.
E já me agito inquieta. Onde estão os óculos?
Se tu estivesses a me esperar! Já faz um ano.
Se existir outro mundo,
Quem sabe volto a te encontrar! E.M.B. Mattos – fevereiro 2018
Vou até Porto Alegre,
Outra vez na corrida.
E já me agito inquieta. Onde estão os óculos?
Se tu estivesses a me esperar! Já faz um ano.
Se existir outro mundo,
Quem sabe volto a te encontrar! E.M.B. Mattos – fevereiro 2018
Domingo. Outono. Arrumações que se transformam em preguiça, curiosidade. Vontade de escrever, conversar. Estou de um lugar para outro, sem foco. Lavo a louça aspiro tiro o pó. Arrumo a cama leio dois parágrafos escrevo outros dois. Olho pela janela. Tomo um banho. Volto. Caminho com a Ônix, volto. E o dia terminou. Esquisito. Estou atrasada nas notícias nos afetos, nas minhas intenções. Esta ansiedade me surpreende. Tudo misturado. Tudo remexido, não apenas gaveta, armários livros. Revistas. Louças. Fotografias. Queria ordenar / arrumar a casa, deixar catalogado este amontoado de papel. Jogar fora o que não serve. Como que preparar o amanhã. Se eu morrer ninguém vai entender/ achar nada. Fogo. Uma grande fogueira. Esquisito. Na verdade nos preocupamos com o depois. Mas o depois, no depois, nada deste hoje/agora importa. Seremos outros, noutro mundo. Se retornar não saberei o que fui, ou como foi. A vida se apertada como um novelo de lã dificulta tudo. Haja paciência e calma! Nada de tesouras, ou puxões. Há que se conseguir devagar puxar a lã pra tricotar. O quanto devagar é a questão.
Quis te contar que os episódios de dezembro, simultaneamente, seguem vivos, presentes, e me aborrecem, incomodam. Por que não posso ser livre, solta e produtiva! Não. Vou arrastando o tempo. Bicho esquisito o ser humano! Esquisita compulsão. A pressa tem o sentido do mais em menor tempo. Recuperar o tempo perdido, suponho. Suponho. Perdido em quê? Suponho tantas coisas! Deveria me preocupar com o meu nada, meu vazio, meu difícil, minha língua ferina, minhas mágoas, esquisitices. Este marasmo difícil! Não consigo acomodar as coisas, nem o pensamento. Móveis caixas seguem empilhados. O apartamento se aperta nesta confusão! Assim mesmo ajusto aqui ali troco as tomadas. Compro panelas. Leio. Espero. Escrevo. Caminho. Gavetas prateleiras, eu mesma. Que desordem! Paradoxalmente gosto deste sossego vazio. Questões políticas me inquietam. Eu volto. Elizabeth M.B. Mattos – Torres – março 2015
“Somos vítimas da ideologia quando ignoramos que vemos o mundo por intermédio de nossas ideias. Em consequência, acreditamos que nossas ideias são o real, o que nos torna desconfiados em relação a todo dado ou experiência que contradiga nossas ideias: é o real que está errado quando contradiz a ideia.” (p.70)
” A desilusão necessária traz sempre o desânimo, que provoca o fechamento cínico sobre si mesmo ou traz de novo, à baila ou ao trono, os antigos mitos abandonados: a decepção pode até não passar de uma pausa antes de nova ilusão. Quanto a mim, já conheci uma época de grande decepção e de uma dúvida radical, os anos 1956-1958, marcados pelo relatório K., a ‘Revolução húngara’, o ‘Outubro polonês’, a derrocada da IV República francesa ante a revolução argeliana” (p.80) Edgar Morin – Para sair do século XX
Ideias retiradas do cotexto, ao fazer isso nem sempre explico o que o autor quer dizer. Peço desculpas, aviso. Vale uma leitura completa.
ENCRENCA da memória voluntária ou memória da indigência ou ainda emocional e apegos / prisões em todos os estágios. Esforço para seguir sendo. A verdade que busco está em mim, o amor que sinto pela vida está em mim. Cada pequena decisão de ir ou de ficar, ser ou deixar de ser está escondida dentro de mim. Encontro inesperado, e poderoso preenche o que não tenho. Contigo desenho o arco-íris: azul amarelo vermelho verde. Sem angustia eu te procuro, vou ao teu encontro todos os dias da saudade. Perto desejável seguro, só tua voz me importa. Bromélias margaridas e hortênsias. Pessoas não são de papel. As letras se desenham pela vida vivida: a tua e a minha. Não sou a menina bonita da tua meninice, nem tenho o colorido das tuas lembranças, mas estou viva. Elizabeth M.B. Mattos julho cinzento de 2018 agarrada no tempo perdido de ser com Marcel Proust porque Frank Wan oferece estas voltas retornos e encontros: citações ilustradas. Estamos de mãos dadas, e a porta está aberta, posso sorrir.
“ Em breve, maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadir-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. Este prazer logo me tornaria indiferente às vicissitudes da vida, inofensivos seus desastres, ilusória sua brevidade, tal como faz o amor, enchendo –me de uma preciosa essência: ou, antes, essa essência não estava em mim, era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, moral. Se onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não deveria ser a mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde apreendê – la? […] É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. ” (p.71) Marcel Proust No caminho de Swan – A procura do tempo perdido – tradução de Mário Quintana – editora Globo – São Paulo – 2006
“Et bientôt, machinalement, accablé par la morne journée et la perspective d ‘ um triste lendemain, je portais à mês lèvres une cuillerée du thé où j’avais laissé s’ amollir um morceau de madelaine. Mais à l’ instant même où la gorgée mêlée des miettes du gâteau toucha mon palais, je tressaillis, attentif à se qui se passait d’ extraordinaire em moi. Um plaisir délicieux m’ avais envahi, isole, sans la notion de cause. Il m’avais aussitôt rendu les vicissitudes de l avie indifférentes, ses desastres inoffensifs as brièveté illusoire, de la même façon qu’ on opere l’ amour, em me remplissants d’ une essence précieuse: ou plutôt cette essence n’ était pas em moi, elle était à moi. J’avais cesse de me sentir medíocre, contingente, mortel. D’ où avait pu me venir cette puissente joie? Je sentais qu’ elle était liée au goût du thé et du gâteau, mais qu’ elle le dépassait infiniment, ne devait pas être de même nature. D’où venait-elle? Que signifiait – ellle? Où l’ appréhender? […] Il est clair que la vérité que je cherche n ‘ est pas em lui, mais em moi.” (p.45) Marcel Proust Du Côté de chez Swann A La recherche du Temps Perdu – Bibliothèque de la Pléiade – 1954 – Bruges

Rio de Janeiro – 1972 com Ana Maria, Pedro, e Joana
Invernoso cinzento. Como os domingos da infância, a descascar laranja, frente ao fogo, aconchegada em sonhos. Criança, protegida de mim mesma. Se o príncipe aparecer e me olhar e se apaixonar e me levar no amor, eu vou. Então, serei grande forte poderosa. E serei feliz para sempre.
Salman Rushdie: “Todos os anos por eles vividos, de desejo, amor, casamento, filho, infidelidade (sobretudo dele), divórcio, amizade estavam no abraço que ela lhe deu naquela noite”. (p.22) Joseph Anton Memórias. Estou neste abraço. Um livro dentro do outro, uma história dentro da outra, um sentimento dentro do outro, e não sou eu. Letras. Livros: és tu a me perseguir. Vou volto, estou. Corro, saio. Esqueço, depois lembro. Uma condenação. Castigo. ‘Eu penso muito e deixo cantos mágicos para flutuarem sem riscos de perdas’ ou ‘ na nossa idade a profundidade está na alma e a vida tem que ser leve e as andanças superficiais, nada em exagero ou profundo. Fortuito, esporádico e seremos e serás o que queres ser’. E eu não sei o quero ser, fico fragilizada na fantasia das tuas palavras. Lembrei do filme de Stanley Kubrick -, De olhos bem fechados. Perigosa fantasia. O que se diz ao outro gruda, fica como cicatriz. Sussurraste ao meu ouvido: Vê onde escondeste a tua vaidade, fulgor, brilha na intensidade de fazer o tempo voltar para trás’ e ‘ volta a ser aquela que caminhava distraída e acabou rainha, não decapita teu reinado’. Não deverias ter dito. Carrego solidão (e preciso esclarecer, sou povoada por dentro, solidão tem um gosto de amargura e tristeza, talvez não seja exatamente isto, mas a escolha de morar/ viver sozinha porque desapaixonei, ou porque egoísta esqueci, ou as portas se fecharam. Claro que eu vou perder ‘a sensualidade de envelhecer junto sem vergonha da nudez’, como eu te perdi, ou como sonho, acordei, …) E não pensar/ imaginar que poderias viajar ao meu encontro para me despir, lentamente, levando cinquenta anos até terminar…, seguir pensando assim deixa de ser solidão, vira sedução. A palavra atravessa o corpo em gozo. História travada. Incansável e interminável confidência. Fantasia naquela taça de vinho, e no teu abraço. Para sobreviver a tentação fico imobilizada. Lento processo ao esquecimento. E de repente, eu te penso do amanhecer ao sono.Se as escavações chegam ao corpo, bem, às vezes, já é tarde demais para o amor… Espero este entardecer e o sentimento desaparecer / morrer. Não haverá mais corpo não haverá sentimento nem desejo. Feliz e completo N A D A. Sem lágrima. Quando estou a me afogar fico a me debater até o final, até a exaustão. Insisto, grito. Engulo água, agito pernas e braços insisto. Na exaustão, então, eu me afogo com o sentimento. É pela imobilidade que morro. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2018
“Um inferno secreto, povoado por fantasmas de amores perdidos, de antigas personalidades… enquanto outra metade faz suas piadinhas trocando olhares maliciosos. A menos que sucumbam também. ” (p.189)
“ E começou então um período que, quando depois pensava nele, parecia um país em que havia aportado por acaso, que nem sabia que existia, um lugar de encantamento, uma paisagem como de sonho, com sua atmosfera própria, forte, com uma língua que se conhece apenas em parte ou que foi esquecida. […]
Mas não havia como duvidar, quando estavam juntos havia um prazer, um bem-estar, um a diferente da vida cotidiana. Um lugar encantado onde todo podia ser dito. E não era o caso de duas pessoas com grandes curiosidades uma pela vida da outra. Se ela não estava muito interessada na dele é porque não conhecia nada semelhante […]
Quando as pessoas contam a própria vida, quer dizer, a própria história -, geralmente, não revelam muito de si mesmas. Não de fato.” (p.61-62)

“Apaixonar-se é lembrar que somos exilados, e por isso é que o sofredor não quer ser curado, mesmo quando grita: ‘ Não posso suportar esta não-vida, não posso suportar este deserto.”(p.360)
ou
” Resista, resista. Logo, logo uma porta vai se fechar dentro e você, porque isso que você está sentindo é intolerável. A porta vai ficar lá fechada a vida inteira: se tiver sorte, não vai se abrir nunca, e você não vai se lembrar da paisagem que habitou – por quanto tempo? Mas tempo de criança não é tempo de adulto. Você vive numa eternidade de solidão e dor, que é um verdadeiro inferno, porque o inferno é essa falta de esperança. Você não sabe que a porta vai se fechar, acredita que isso é que é a vida e que assim tem de ser: vai ser sempre mal-amada e vai ter de vê – la amar aquela pequena criatura que você tanto ama porque acha que, se amar o que ele ama, ela acabará amando você. Mas um dia vai entender que não importa o que faça, por mais que tente, nada adiante. E nesse momento a porta vai se fechar e você estará livre.” (p.357)
As citações são do livro AMOR,DE NOVO de Doris Lessing – tradução de José Rubens Siqueira – São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
As histórias a serem contadas são todas perigosas e reais, e este danado novo encontro protelado se derrama no dia que amanhecemos juntos, adormecidos um no outro. O desejo se aquece, e volta para nós dois. Por isso te amo. Sigo distraída a caminhar ao teu encontro. Beth Mattos

A manifestação artística é rica e transgressora, sem limite. Se organiza e desorganiza. Passa de um lado para o outro. Não existe pintor escritor escultor músico, nem apenas cientista, mas expressão.
Não complica, não sou ninguém, nada. Tenho olhos apenas para ti. e, se ficar ao teu lado, vou te cuidar. Elizabeth M.B. Mattos julho de 2018
Isadora dançou sem sapatos, vou dançar para nós…
“[…] percebi que o desejo da arte, como o desejo do amor, é uma doença que nos deixa cegos, e nos faz esquecer o que já sabemos, ocultando a realidade.” Orhan Pamuk
Pensei: não tanto na arte, mas nesta desenfreada busca de amor. Do amor sem memória pessoal / real. Numa dimensão reservada às palavras. Memória do outro a me assombrar. Tua voz a ressoar/soar. Elizabeth M.B.Mattos – julho de 2018 um sábado com sol e azul e vento.
“Se pudermos aprender a parar de pensar em nossas vidas como uma linha correspondente ao Tempo de Aristóteles, dando valor a nosso tempo por seus momentos mais profundos, cada um por si, esperar por oito anos à mesa de jantar de sua amada deixa de parecer uma obsessão estranha e risível […]” (p.311) O museu da inocência Orhan Pamuk
Esticaria a mão para acariciar teu rosto, os olhos marejados.
…, quando uma memória de amor persegue fico a viver / ler em todo livro a descrição, o outro lado, a volta. Reencontro do que sequer existiu. Atravesso o real. As memórias arregalam os olhos …, ouço o desejo: It’s now or never
” Se eu não acreditasse de todo o coração que a felicidade absoluta neste mundo só pode acontecer quando se vive no presente e nos braços de uma mulher, eu teria escolhido esse instante como o momento mais feliz da minha vida. Pois eu tinha concluído, a partir das palavras da mãe de Füsun e dos olhares magoados e enfurecidos da própria Füsun, que ela não conseguira convencer – se a encerrar sua relação comigo enquanto eu vivesse! (p.133) Orhan Pamuk Museu da inocência
Se eu acreditasse que a confidência desencadearia desejo, se eu pudesse imaginar as dimensões …, se eu pudesse ter feito perguntas no aberto daquele momento…, se eu não fosse assustada passiva, mas corajosa, eu poderia dizer que foi o momento mais feliz da minha vida este encontro tardio. De repente, proibida de dizer de sentir de extravasar, sufoquei, mas não morri. O proibido eterniza. Espera o permitido. Lucidez e crueldade. Defesa. Porque aquele não era, certamente, o momento mais feliz da vida dele. Elizabeth M.B.Mattos – julho de 2018

https://www.letras.mus.br/elvis-presley/31452/traducao.html
Um carta de Iberê Camargo
Porto Alegre, 20 – 2 – 91
Querida Beth,
Continuas a guria bonita que sempre foste. Não percebi a gordura de que falas, talvez pela posição do corpo. Como tens falado muito na pintura do cabelo arrisco minha opinião sobre o assunto: acho que se deve sempre usar a cor que assemelha à natural, para não criar visual disparatado. Recebi um carinhoso cartão da Ana Maria, linda Alemanha. Fiquei muito contente e vou responder. Eu continuo com meu problema com a rinite ou coisa parecida. Ontem procurei o médico que me fez as aplicações de cobalto para saber se havia errado no local da aplicação. Felizmente não há motivo para preocupação. Tudo está bem. Quanto ao problema da renite propriamente, é preciso saber a causa e descobrir a cura. Como experiência aboli o uso da terebintina [..] Pode ser que a causa esteja em um destes produtos. Essa coisa me enfurece, não sou de aceitar mazelas, nem limitações. Estou também enfrentando muitos outros problemas […] Acho que vou entrar numa briga […] Beth, muito carinho, muita saudade
P.S. Não fiques preocupada
um bilhete de abril de 2005 de P.H.Filho: Opções de leitura para Beth […] e a lista dos livros a serem lidos.
um poema – bilhete de Jean Jacques:
Ô, toi, ma douce Colombe
Venue des terres lointaines
Auras – tu apaisée mon âme
Dans tes étrentes pour l´eternité?
um bilhete de Flávio Tavares:
ElizaBeth, caríssima
O meu artigo deste domingo não é poético de jeito nenhum. Escrevi –o em verso, apenas isso. Poesia não é verso. E verso não é poesia. E o reverso? Se o reverso do verso, pode ser poético. Lê de novo, preferentemente no jornal em papel, não na versão eletrônica, e verás que é apenas verso, não poesia. Que a benção do natal se renove pelo ano inteiro,
Búzios, sob chuva, 23.12. 2006
uma carta de Paulo Hecker Filho
Alegre, 28 de novembro de 2003
Só tu, Beth,
Com que paixões sonhas! O Schüller tem 350 anos e, apesar disso, continua bem casado. Anaïs e Miller já eram horas e continuas só neles desde que nasceste. Miller nem sempre é bom e Anaïs nem sempre superficial. Pelo menos lê a revista que deixei na tua caixa de correio. Vais me ver dizendo que não é tanto o sexo que move as pessoas, mas a procura de serem aprovadas. Manda uma crítica geral que o editor, Gilberto Wallace, anda pedindo. Léo Dexheimer sobressai em nosso contexto, bem mais sutil que a maioria. Conta que gosto do que faz e tenho gravuras suas nas paredes. Bicotes
Outra carta de Paulo Hecker Filho:
P.Alegre, 21 de junho de 2004
Beth,
Recebo tua agitada carta. Não te preocupes com aniversários, sobretudo meu, não dou bola. Nem com saúde, ainda mais minha, que sempre foi bem, e continua, eu não mereço! Mas tudo isso é educação. Na verdade, tua preocupação se escreve com um f e um t. E ela está aí, ao alcance da tua mão e dando sopa em vários canais de tevê, velhinha, velhinha. No vídeo ao menos, foi –se aquele menino irresistível, querendo e conseguindo beijinho. Anoto isso para ver se te acalmo um pouco. Já é preciso alguma decisão para […] f e t, ainda mais que andas em meias chiques, outro departamento. Claro, se ele sorrir, estás perdida, mas pelo menos no canal 2 estava muito despenteado para chegar a sorrir. Não te julgues a injustiçada. Só eu conheço mais três viúvas de Flavinho e, como me dou com pouca gente, devem ser trinta, tens muita gente solidária. E trinta, hem, para um Tavares só, […] Ao leres esta, ele já deve ter voltado para Búzios, te deixando mais em ti. Nárrame tu life.
Um fragmento de carta de Roberto Acízelo Quelha de Souza:
Rio, 12/07/83
Querida Beth, recebi tua carta de 04/07, tão cheia de carinho, amizade e saudade. Fiquei, porém, sem saber se você teria recebido uma carta que te escrevi em junho, se não me engano em 17/06, dia do aniversário da Fátima, pois você não faz referência a ela. De qualquer modo, estou certo de que você entende por que, já há bons meses, minhas cartas se tornaram breves e pouco frequentes. Por mais que eu queira manter contato regular e estreito com você, como – vá lá a palavra – antigamente, a vida anda uma dureza só, não havendo tempo para tudo o que é verdadeiramente essencial. Nossa vida aqui permanece a mesma: Letícia […] Eu estou de férias […] Eu Fátima e Letícia pretendemos sair um pouco do Rio […] Finalmente, agora, começo a sentir o desafogo das férias, fui ver para você aqueles casos do MEC e do DETRAN. […] Pelo que vejo no noticiário as chuvas devem continuar até o fim da semana, o que nos inquieta, considerando as cenas que acompanhamos pela TV e as notícias do jornal. […] é o pouco que a gente pode fazer, além da comoção, o sentimento de solidariedade, a tristeza por todo esse sofrimento do nosso pobre povo (no momento, que triste país o nosso, arrasado pela natureza no Sul e no Nordeste, por motivos tão opostos, mas principalmente arrasado por um governo de cínicos, incompetentes e corruptos.) Bem, querida Beth, já escrevi mais do que previa. Deixa eu escrever as procurações, antes que a Leticinha acorde do soninho de depois do almoço, dificultando qualquer iniciativa que não gire em torno dela. Um beijo, cheio de saudades. Beijos nas crianças. Abraço no Jorge.
Relendo as cartas penso em fazer referência a vida pessoal, alongo a história de cada missiva. Elas já são a narrativa. A do Iberê me leva a Porto Alegre depois do incidente trágico no Rio, e no final, ouso dizer, a não adaptação do meu amigo. Já o poema da Jean Jacques para a França. Para Limoges, para Juliette, minha orientadora do Doutorado. Flávio Tavares conheci na casa de Iberê. Faço ponte entre os dois. Paulo Hecker Filho acompanhou a Beth de Torres de mudanças, de tantos momentos! E a carta do Roberto desenha a volta para o Rio Grande Sul. Acorda o tempo carioca que foi tão importante! Elizabeth M.B.Mattos – julho de 2018 – Torres