Implacável voracidade do tempo

Que beleza. Quanto ainda tenho a aprender. Não queimei nada, mas ainda assim as páginas em branco se sucedem quer eu queira quer não. É a implacável voragem do tempo.” Eduardo. A. Costa – 2017

Releio as cartas que te escrevi, as que ficaram guardadas tanto tempo! E a estranheza volta. Dou-me conta o quanto endureci depois do L. A., – o quanto fiz de conta que não sentia, e me estraçalhava. Eu tinha apenas, ou já dezenove anos, mas fiquei com cento e noventa. Não sei explicar, mas percebo através das cartas que te escrevi o quanto o talho foi profundo. Meus pulmões se encheram de mar de rio, de desespero neste mergulho, e dou-me conta que NUNCA mais respirei com liberdade, não me curei e…  Não sei se foi por ele, deveria ter recorrido a terapia, mas uma Beth mais leve, mais suave teria emergido. Não tenho medo nem do amor, nem da vida, continuo a mesma mulher de sempre, como pude escrever isso? Que enganação! Amar sem bobices e medo tinha sido o teu conselho! Se tivesse ido mais fundo não teria sobrado nem mesmo o sonho. E eu repito as notícias são sempre as mesmas porque o homem é sempre o mesmo, sim isso segue sendo mais ou menos verdade, não somos exatamente os mesmos, mas sofremos repetidas vezes o mesmo mal… Tão igual, tão monótono, tão duro e doce como sempre será. O castigo de Sísifo é o nosso, o mesmo, carregar a pedra. Será que ele ia mesmo me deixar vestida de noiva esperando por ele no altar? Eu teria entrado na igreja? Será que foi seu pai ao desmanchar nosso noivado, desmanchar o compromisso alguns meses antes que me salvou? Será que eu fui mesmo salva? Até hoje não sei o que aconteceu. As respostas poderiam mudar o sentido. O sentido que nunca encontrei nestes trajetos amorosos. A carta é datada de 20 de setembro de 1967, outra de 19 de setembro de 1967, quantos anos soterrada! Sobrevivi. O fato pode ser corriqueiro, os amores são mesmo despedaçados, interrompidos, alagados. Alguém é abandonado, sofre, alguém segue em frente. Uma história como muitas outras. Mas estas cartas achadas que tu guardaste mais os anos todos e os meus esfarrapados amores explicam uma dor espichada, esquisita, não é mesmo? Sempre esperando, sempre sonhando, mas apavorada de medo …  E levantando a bandeira de autonomia e liberdade, distância. Minhas cartas estão sem nexo perturbadas perigosas e contraditórias, buscava uma explicação.  Foi inesperado, revoltante, assim eu te escrevia para contar o rompimento. Rio de Janeiro, 15 de setembro de 1967 … eu desesperava sem saber, sabendo, é claro, eu choraria a vida inteira…  Faz uma semana que estou aqui, faz uma semana que espero cartas tuas.  E segue assim:  Mágoas e dores adormecidas e quase esquecidas, …e termino dizendo que passou aquela imensa piedade que sentia de mim mesma…  Nunca passaria, nunca esqueci aquele jeito errado de amar o amor que não era, afinal, amado. Como estou sendo tola! Que revolta ódio eu senti, podes imaginar ou calcular foi inesperado e revoltante … estas releio, e te respondo hoje, retomo o discurso, sigo/escuto o eco … penso que deverias colocar todas no envelope, selar e encaminhar, poderia chorar mais, poderia romancear menos, poderia não sei o que fazer…  Estou lendo fotografadas. No entanto elas existem estas cartas. Elizabeth M. B. Mattos /Liza/ Beth ou Liz – 2017 Recife

cartas do passado

“Pensando bem: o texto revelado esfarinha-se como se poeira tivesse sempre sido, mas preserva o conteúdo da matéria. Muito o que pensar sobre isso a partir de Brennand.” E.A.Costa – 2017

E eu sigo escrevendo a partir/por/ pensando Brennand…

A CERÂMICA foto linda UMA só peça

Foto de Luiza Mattos Domingues – Recife, maio de 2017.

Par coeur carnet carioquice pernambucana

Onde eu moro é pequeno, assim mesmo eu me perco…  reivindico jardim e perfume. Mundo  que ameaça. O pequeno que assusta! Arrasto a mesa para dentro da cozinha, o espaço se abre… E o danado do medo aperta. Questiono se posso gritar, ou te abraçar e mandar beijos e beijos. Reinvento, recomeço a história. Arrastei a mesa, e instalei como se fosse novo laboratório. Química física, virgulas e cartas, outro texto, outra memória, ainda Recife Porto Alegre já sei par coeur e Torres é tão enorme quanto São Paulo! Eu me perco. Eu me perco. O Rio de Janeiro mergulha em tintas filosóficas:  carioquice é vício. O biombo mudou de posição a luz. Estou filtrada dominada. Assim mesmo pisco, aperto os olhos, esqueço os óculos e me incomodo, refaço e penso a mesma coisa para tirar a cisma, e dizer o óbvio. Estou no meio do baile, e a música me agita, não vou dançar assim mesmo tenho o carnet  lotado de nomes, serão valsas, gingas ou mazurcas. Não sou radical, nem definitiva, eu divago. Não é o outro, mas também o outro com braços amorosos e beijos. Depois me dou conta que sem beijos afagos e gracejos sou livre agitada inteira, e eu. Queria ser do jeito que era, mas não tem mais era, apenas foi, e um passado definitivo, morto, triste, ou apenas vivido. Ser/ter vivido já é enorme. Se tudo ficou desarrumado é hora de luz e ordem, serenidade trabalho. Silêncio. Adolesço mas envelheço mansa, e feliz. Elizabeth M.B. Mattos – Recife, junho de 201718

France, dezembro 2001 – Mont Saint Michel

EU ME ESCONDENDO

LINDA NA SOMBRA

Recife, Pernambuco, 2017 – fotos de Luiza Mattos Domingues

Bem ou Mal – Deborah Brennand

OUTRA PLACA DE BRENNAND NUNCA INERTE

JANELA COMPLETA LINDA FOTO

O NOME DO LIVRO * 1987  Diário de FRANCISCO BRENNAND, volume II (1980 -1989)

“12 de abril – 10 h

A surpresa de encontrar pela manhã um poema de Deborah. Em treze versos curtos e livres de qualquer convenção, ela diz mais da solidão do que eu em centenas de páginas escritas, bradando súplice contra o esquecimento. Os poetas têm certamente esta vantagem: a sua linguagem é quase sempre exata. E o que dizem – apesar de uma aparente obscuridade – acerta, de vez, os ponteiros de todos os relógios.

O tempo parece parar sob este céu imenso … Todavia, é preciso lembrar o poema inteiro, que me apresso em transcrevê – lo: Bem ou Mal

Deborah Brennand

 

O bem seria escrever

com letras alvas.

Tão claro o tempo passa,

longe, nas aleias do jardim!

 

O bem seria deixar, nas rosas,

enferrujar um esplendor de sangue

ou, na oitava luz da Lua,

erguer da face o véu escuro.

 

E o mal?  – são as pedras,

soltas no caminho, brutas feras,

vigiando em silêncio, vigiando,

se a brisa segue e eu fico

sob este céu imenso, sozinha. “

PREDIO LINDO

Fotos de Luiza Mattos Domingues Recife, maio de 2017

MANUCA LEAL e a memória

Generosa referência da memória que abraça e retoma, retorna. Uma palavra, e, súbito volta o tempo, revigora… A boa trilha. O que o outro lembra importa. O agora permanece esticado, permanente. Constato. Estamos para sempre presos na memória do outro. No depoimento, a voz das estórias voltamos. E fico em longas e amistosa conversa… Elizabeth M.B. Mattos: fotos de Luiza Mattos Domingues Recife, maio de 2017

ESCULTURA CERÂMICA

“Parabéns amigo e aliado de longa data… A Cerâmica e a Casa grande do Engenho São Francisco tanto quanto a casa da Praia em Candeias me traz boas lembranças, desde criança. Gostava de andar nos cavalos e tomar banho na praia de Candeias de águas rasas e coqueirais desérticos. Obrigado também pelos prazeres da  minha adolescência, quando pude participar dos almoços de domingo, com Deborah, você e convidados, sempre falando de cultura … Saudades de Aloísio Magalhães, Pio Guerra, Marcelo Mario Carneiro Leão e André, meu padrinho Ariano Suassuna, Bebe Seixas, Luiz Tavares, de Zélia, Maria Carmem, Hilda, Maria Dulce, Tânia … e tantos outros, e os de fora , muitos levados por Cesar, Donald Schuller, a linda Lina Bo Bardi, Pietro Bardi, Niemeyer, Burle Marx, Carlos Néjar, Pontes, Ledo Ivo, Antônio Houaiss, Álvaro Lins, José Guilherme Mérquior, Jorge Amado e Zélia, Mauro Motta, Marcos Vilaça, o Grande Eduardo Portella, (padrinho de um de meus irmãos) Nélida Pinõn, Hilda Hilst, Afrânio Coutinho, Ivan Junqueira, o pintor João Câmera, escultor Abelardo da Hora e tantos outros. Isso sim era uma verdadeira Academia de aprendizado …, mas só seis faziam parte da ACADEMIA DOS EMPAREDADOS, Você, Cesar, Marcelo, André Bebe Seixas e Ariano.
Obrigado também, por me ajudar no início de meus negócios,
sendo dos meus primeiros clientes.  Todo esse trabalho de restauração, e antes de tudo instalação de uma nova Industria, inclusive, dando segmento as peças de porcelanas iniciadas por seu pai, e o senhor Ricardo Lacerda, porcelanas que faltavam no mercado para o nordeste pobre e sul longe, … comparáveis as Villeroy, Bosh, Lomonosov, Braz Gil e outras, tudo isso foi o resultado de muita dedicação, foco, trabalho duro e incansável e vontade de se realizar…
Você conseguiu! É Um Vencedor, dos grandes e Eterno…O tempo não acaba a Obra, … você já tinha dito que talvez precisasse ter duas vidas para completar as obras … as obras já estão completas, mas as duas vidas com toda sabedoria nos traria mais e mais o que há de melhor. Você na escultura e Balthus na pintura, sempre estiveram ligados a sexualidade. Como você disse, eu digo, a melhor maneira de viver é não ter medo da morte. Você já diz que tem medo do sofrimento. Com a morte só se perde o presente. Mas não o passado que já não temos e nem o futuro que não teremos. Você diz que começamos a morrer ao nascer. Schopenhauer, dizia que o erro é nascer, mas uma vez nascido, devíamos fazer de tudo para ter uma vida a menos sofrida possível.
Outro dia comentei que se muitos dos nossos grandes artistas morassem fora seriam tão grandes ou maiores que muitos que estão por aí na Europa e EUA. Mas como você diz, a lucidez, os hábitos, valores, mas sobretudo a cerâmica, embora em ruínas, as estruturas para a obra estavam aqui em Recife mesmo. E tudo que você vislumbrava, com certeza, estava aqui. Mesmo sem a ajuda dos irmãos e primos, mas com o incentivo de seus amigos entre eles, Cesar, e a lealdade dos seus assessores mais próximos… a obra se realizou e está viva, e está aqui. Um sonho, a velha fábrica abandonada se tornou a realidade: Oficina Francisco Brennand. Pessoas com sobrenomes Brennand tem muitos…
Mas, apenas um Brennand será eterno e inigualável. O abraço de sempre, meu de meus irmãos e de Jazette … Vida longa desejamos, e ainda estendido a Nenem, Mary, Pierre, Victória, e In Memorian a Deborah,a Deby de sempre, alegre e defensora e criadoras dos animais. Enfim a todos. ”

SIMBOLO de BRENNAND

Lomonosov porcelanaVilleroy

Balthus lindaaaaaaaaaaaaaaaaBalthus lindaaaaaaaaaaaaaaaaBalthus lindaaaaaaaaaaaaaaaaBras Gil

ELE soube escrever coisas duras sobre as mulheres, ou viu assim mesmo como bruxas…

OUTRA PLACA DE BRENNAND NUNCA INERTE

SORRINDO SORRINDO ESTA

MARAVILHOSA ESTA

NÓS DOIS BRENNANDBRENNAND FALANDO comigo

DE COSTAS no ATELIER LINDAAAAAAAAAAAAAAAAAA

LINDAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

27 de fevereiro de 1975

Yara a quem nunca vi, me sopra um beijo na boca por telefone. Ela frisa:’Um beijo na boca’. É estranho e comovente o poder de entrega das mulheres, mesmo quando mentem, mesmo quando fingem. Há sempre algum capricho nesta espécie de doçura feminina que é superior a qualquer forma de dissimulação ou impostura. Elas se entregam mesmo quando violadas. São verdadeiras, mesmo quando falseiam a verdade.

As mulheres, no conceito medieval – quando emergiam do império das trevas e que estavam sempre envoltas com bruxarias -, não eram definidas como criaturas malignas, e sim como o próprio mal: para um bruxo dez mil bruxas…

FRANCISCO BRENNAND

PROPRIEDADE SANTOS COSME E DAMIÃO FRANCISCO BRENNAND e eu

PROPRIEDADE COSME E DAMIÃO

PREDIO LINDO

TODAS AS FOTOS foram tiradas por LUIZA MATTOS DOMINGUES, Recife, maio de 2017.

Propriedade Santos Cosme e Damião

9 de março

Deixo aos vários futuros (não a todos) meu jardim de veredas que se bifurcam.

Manhã preparando recortes de papel (notícias sobre mim mesmo) num caderno; aplicada tarefa de alguém que pretende colocar sua vida em ordem, numa corrida pacífica para o nada. Enfim, uma espécie de testamento jornalístico e sem valor algum. De contrapartida, a repentina ousadia de queimar – sem nenhuma hesitação – grande parte de meus cadernos de 1964 a 1974. Quando eu dei entrada definitiva nos portões desta velha Fábrica (2 de novembro de 1971), eu sabia que um novo destino faria o seu trabalho e que a Providência (como quiserem entender) me seria favorável. E não foi por outra razão que tive o trabalho de copiar neste caderno um trecho de Wagner, como se eu próprio o estivesse escrevendo. É estranho, mas é verdadeiro: “Estava convencido de que seus erros e as falhas de seu caráter eram secundários. Manifesta-se em mim uma vontade mais forte do que o valor de minha personalidade. É a tal consciência deste fato que já não me pergunto se quero ou não quero. Quem a isso se encarrega é o maravilho gênio que hei de servir, porquanto me resta de vida e que me ordena cumprir aquilo que só eu sou capaz de fazer.

Depois da destruição pelo fogo – não numa fogueira comum, mas utilizando um forno cerâmico contínuo, em forma de túnel, usado para queima de material refratário de alta temperatura (1.400 Graus C) – pude verificar, ainda na entrada do forno (cerca de 300 Graus C), os cadernos se retorcerem agonicamente, como almas penadas nas chamas do inferno, à espera da fatal condenação. Não foi uma brincadeira, e sim um ritual. Só desta forma eu poderia seguir o exemplo de Pasternak: “Deixa em branco algumas páginas da tua vida. ” (p.263) Diário de Francisco Brennand

 O Nome do Livro Volume I (1949 – 1979)  Recife/ Rio de Janeiro:  Inquietude, 2016.

EXPLICANDOOUVINDO E SORRINDOFALANDO LINDA braços abertosMARAVILHOSA ESTASORRINDO SORRINDO ESTATOCANDO NELEBRENNAND FALANDOSORRINDO SORRINDO ESTA

EXPLICANDO O ESPAÇO muito boa

DEDO EM pé ACRESCENTAR

SAINDO com ÓCULOS PRETOS

SOU EU SÉRIA E BONITA SERENA

Experiência visual e humana aqueceram minha alma. Afinal viver importa. Estar vivo, continuar fazendo e sendo e amando. Recife foi/é importante: eu me senti, especialmente, viva e natural. Eu comigo mesma, incompleta e inteira. Agradeço minha filha Luiza ter tido a paciência e a amorosidade de ESTAR completamente comigo neste momento.  Recife, 11 de junho de 2017, aniversario de 90 anos de Francisco Brennand – Elizabeth M. B. Mattos – junho 2017 – Torres

ele pisa na grama, pisa nas flores

“Primeira Carta

Pense no quanto você não conseguiu prever o que aconteceria, meu amor. Quanta infelicidade! Fomos traídos por falsas esperanças. A paixão em que você depositava tantos planos de alegria não lhe causa hoje senão extrema angústia, só comparável à própria crueldade da ausência que ela mesmo provoca.”(p.17)  Mariana Alcoforado, Cartas de Amoro , Editora Imago, 1002

MURANO Itáfia foto Marina Ppeifer

Murano, Itália. 2017 foto de Marina Pfeifer

 

F. A. Travassos

Recife,

Perto do Capibaribe,

10 de junho. 2017

Meu querido,

Escrevo todos os dias. Não é saudade da voz do olhar nem da ausência, mas saudade de mim mesma. Saudade distraída e atenta, sonolenta, mas acordada. Coloquei cravos no vaso de Murano. * Debruçada na memória releio as cartas que mandas de Longéia. Sinto e pressinto. Não existes, eu te invento, e eu te amo de amor assim mesmo, e assim mesmo inventado eu te leio neste papel feito de azul. A luz ilumina o quarto. Depois de dez ou oito dias com chuva e chuva o sol, sinto frio, não tão frio, mas ainda assim mesmo frio, mas o rio se ilumina. E a grama do jardim fica verde. E o sono demora para chegar, e as notícias do Brasil são as piores possíveis, entristeço, mas não digo nada, já não faz sentido dizer qualquer coisa, nada muda/ou se transforma, tudo fica. E segue a loucura de revirar/reinventar o absurdo. O picadeiro do circo tomado. Lembras do poema daquele que diz ele pisa na grama, pisa nas flores arromba nossa porta e / porque não dizemos nada este invasor mata/destrói, não é assim o poema, mas é este o dizer: o nada nos elimina, então, por favor, meu querido, diz. Para nós eu danço, danço todas as tardes, escuto música, e me debruço na janela, a janela do nosso quarto embora todas as outras estejam abertas, escolho a nossa. E escuto o silêncio povoado de memória e papel. “Quando o barco perde a praia quanto tudo diz adeus e se apaga a luz do céu. Histórias que não voltam mais…”. Eu te beijo, eu te abraço e também não digo nada, espero esperançada que voltes logo, e me acordes. Elizabeth M. B. Mattos / Torres

FALANDO LINDA braços abertos

* Em 1291, o prefeito de Veneza, Itália, ordenou que todas as fábricas de vidro mudassem para a ilha de Murano para prevenir que possíveis fogos das indústrias afetassem a cidade de Veneza.[1] Desde então, o vidro de Murano é reconhecido por sua beleza e cor.

O VIDRO NO FOGO

A.M. Cailleteaux

Croisset,

perto de Rouen,

4 de junho. 1857

Senhor,

A carta elogiosa que me escreveu faz com que seja um dever responder francamente sua questão.

Não, senhor, nenhum modelo posou para mim. Madame Bovary ‘’e uma pura invenção. Todos os personagens deste livro são completamente imaginados, e Yonville-l’Abbaye é uma região que não existe, tal como Rieulle etc. O que não impede que aqui na Normandia, queiram descobrir em meu romance uma multidão de alusões. Se eu tivesse procedido assim, meus retratos seriam menos parecidos, porque eu teria em vista as personalidades, e eu quis, ao contrário, reproduzir tipos.

É uma das mais doces alegrias da literatura, senhor, essa de despertar simpatias desconhecidas. Receba também a manifestação da minha. Com minhas saudações. (p174) CARTAS EXEMPLARES, Gustave Flaubert, Organização, prefácio e notas: Duda Machado. Editora Imago, Coleção Lazuli.

 

não posso mais dançar?

…voltei de Recife, mas não cheguei tanto este jeito esfarelado esquisito e engraçado de ser me aborrece…  Diferente entre nostálgico irritado e triste. Um pedaço tomado por angustia sem entender aquele outro pedaço que exige e quer vida abraço beijo abraço e risada, outro beijo. Faz muito tempo que não consigo chegar dentro de mim nem entender quem sou e por que sou assim lenta e acelerada. Talvez a idade, estes danados setenta anos que logo serão setenta e um, dois e quatro. Estes anos me adolesceram, e me rejuvenesceram, no entanto, as dores ficam. Os joelhos, a perna esquerda, as costas, os olhos! Ah! Queria/gostaria que eles enxergassem mais e melhor. Repudio este fazer desorganizado, e este sentir dolorido. Nostálgica, apegada e distante. De noite perambulo, olho para o céu e para a chuva e espero. Quando jovem o vazio e o desespero, a lágrima alimentavam.

gostava de vestir fantasia de moça recolhida, entristecida, romântica enquanto séria e expectante. A moça que escrevia, lia e alimentava ilusão de que o amanhã seria enorme, imenso, vasto e infinito. Foi com estas fantasias que ele e eu nos vestimos. O inverno nos surpreenderia abastecidos e saciados. Então eu me pergunto por que acordei se não posso mais dançar? Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2017 – Torres

do corpo junto ao corpo

Tenho certeza que a angustia o aperto aquela dor que sufoca só diminui com o abraço, o beijo. Não resolve esconder a lembrança ou a saudade ou a vontade de nada fazer. Não consigo dormir, não consigo pensar. A cabeça ferve, e um cinzento cinza se espalha pelo céu e pelo mar, e se confunde …, mas o mar, o mar tem magia na onda que brilha … a natureza responde e o temporal não termina … e a chuva lava e leva e nada resolve. Quero abraço, abraço, e mais abraço, … nenhuma voz, beijo e beijo, só a quietude de um abraço manso contínuo … importa a quietude do abraço, do corpo junto ao corpo. Elizabeth M. B. Mattos Torres junho de 2017

 

“A meu ver, o pecado original foi comum aos dois sexos, mas compreendido de maneira diversa por cada um desses incomunicáveis parceiros. Talvez seja esta uma das consequências mais dolorosas da queda: homens e mulheres estigmatizados por uma saudade louca do seu perdido companheiro e sem possibilidade alguma de resgatá-lo. ” (p.299) Diário De Francisco Brennand, O Nome do Livro, Volume II 1980-1089

do eu e do meu

“A amizade dos dois jovens se baseava na divergência entre seus sentimentos do eu e do meu, os de um ansiando pelos do outro. Pois a encarnação causa isolamento, o isolamento cria diferenças, a diferença provoca comparações, das comparações nasce desassossego, o desassossego faz surgir o espanto, o espanto tende para a admiração, a admiração, finalmente, tende para o desejo de troca e união Etad vai tad. Mútuas. Isso é aquilo. O preceito se aplica sobretudo à mocidade quando o barro da vida é ainda maleável e os sentimentos do eu e do meu ainda não se petrificaram na divisão da personalidade isolada. ” (p.12-13) As Cabeças Tocadas, Thomas Mann, Ed Globo, Porto Alegre,1945.

As cabeças trocadas