Não insiste, desiste

Não arrasta tua conversa pelo fio, não entra nesta linha. Vai para a calçada, para o cinema, ou abre o livro. Não, nada disso. Vai para dentro daquela alma que se esgaça, ou vai para perto e bem perto deste teu sorriso de Gioconda. Não insiste, desiste. Esta coisa de ter fio, ter monitor, ter aparelho, ter certezas exaspera. Vai achar no jornal o bom anuncio que explica onde está o bom emprego. Vai fazer o curso, olhar os lados que são sempre o que está em frente e não vemos.  Vai beijar, experimentar que é tempo. Descasca o pêssego porque as bergamotas e as laranjas estão secas, é verão. As uvas chegam em caixas. Isso é bom. Sai do vento. A janela, nem pensa. Vai nadar nas ondas do repente.  Ou faz a faxina, lava os vidros, arruma outra vez todas as gavetas. Não arrasta tua conversa pelo fio.bergamotas

Rasgar o vento

Sufocamento de azul, ou do lugar. É preciso abrir os pulmões rasgar o vento. Sem constrangimento recolher o medo, a tralha, a pilha.  Entrar no vagão e já instalada sonhar. Sem repuxar isto ou aquilo, justificar ou explicar. Olhar pela janela [ …] olhar pela janela.

Que silêncio explícito e sublinhado. Larguei tudo naquele pátio da rua Vitor Hugo… Jacarandás, liberdade e brincadeira. A risada. Tão bom!  Sou a caça, a presa aflita. Tens razão, meu amigo amado, há qualquer coisa de dramático. Vou tentar robotizar.  Preciso resolver. Outro lugar, outro caminho, outro cabelo, outro azul. Mudar …

Vamos nos encontrar naquele café da esquina. Larga tudo. E vem …

Quando a noite se transfere para dia e o dia se estende ventoso, é verdade, mas quieto quieto e quieto, dizer se mistura em histórias de sonho. Escuta o apito do trem navega de navio voa de avião, ou entra no automóvel e engarrafa.

frances

Lara Valentina

Verso  como Açoite

“Não fosse o estrondo

não teria acordado

com o açoite desse verso.

É o som do verso que me fere

ou a imagem tão antiga que me engasga?

Já é dia quando sou atacada

indefesa na cama

ou é a luz de cabeceira que me cega:

acabo de deitar e vem o estrondo

me trazer o verso

no instante em que adormeço

como o açoite.”

Lara Valentina Pozzobon da Costa,USO INTERNO, 7Letras,2016

… tem tanto e tanto neste livro que eu nado. Um texto, e o subtexto.

” elas não sabem, mas o subtexto vem junto e empurra as palavras mais para o lado, mais para o meio ou para a borda do sentido que elas deram para a fala

elas pensam que dizem o que pensam mas o subtexto vem no tom, nem sempre tão flagrante quanto o do sonho mas continuamente distorcendo e fazendo deslizar as intenções [ … ]  em meio a todos os textos e subtextos emaranhados  todas as palavras desarmadas e despidas de receios tolos uma chance um encontro para ficar [ … ] ” (p.22-23)

Lara Valentina Pozzobon da Costa,USO INTERNO, 7Letras,2016

violação de intimidade

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Demolição do antigo chalé. Desmantelamento. O que é íntimo num repente exposto. Violado e mutilado. Propriedade do segredo aberta, derramada pela calçada. A casa tem o desenho de quem se esconde por detrás de suas paredes. Portas abertas ou fechadas. Abrigo, ou possível reserva, esconderijo.

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Podemos descrever a sala vazia, silenciosa e limpa. Espelhos, colunatas, e o cheiro da madeira. As venezianas escancaradas. Vemos poltronas, mesas. As cortinas esvoaçam …  As camas de madeira pintada de branco. Laqueadas. Tanta coisa secreta e poética e viva numa casa!  A pensar. A casa é o teu lugar mais secreto. O sonhador aquele que mora se sente no secreto de seu segredo protegido por ela. Gostaríamos de escancarar todas as portas, e gostaríamos de nos abrir, mas …. Quem enterra um tesouro se enterra com ele. O segredo é um túmulo, não é à toa que o homem discreto se gaba de ser o túmulo dos segredos. Toda intimidade se esconde  dentro da casa. É no interior que a vida desabrocha. Na intimidade. E eu penso: ninguém me vê mudar. Mas quem me vê? Eu sou meu esconderijo.  E a casa meu cofre. Agora ruína exposta. Virada e aberta exposição. Destruição … assim, aos olhos de qualquer um. E toda a história íntima espicaçada. Demolição, ou vândalos. A abandono completo …. É preciso estar presente, presente à imagem no minuto da imagem. Pela explosão de uma imagem, o passado longínquo ressoa em ecos, e não se sabe, nem se adivinha em que profundidade esses ecos vão repercutir.

Nestas fotos a vida se desmancha …. Não tem passado, nem futuro. Agora, apenas a explosão. O cofre foi arrombado. Elizabeth M.B. Mattos – Torres 2016

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DEVANEIO DE VERÃO

(De volta ao começo das tentativas, aqui o primeiro texto a ser revisado, o entusiasmo. Publicado como Tinta dos autógrafos, também no Amoras com o título de Fragmento. Sinto que preciso repassar, reeditar tanta coisa!)

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Errei o caminho naquele fatídico dia 11 de novembro de 1998. Deveria ter caminhado para a Feira do Livro, sem me demorar nas vitrines da cidade. Sem pensar em tecidos. Deveria ter permanecido sentada no banco da  Praça da Alfândega. Deveria ter esperado quem me esperava.

Errei o rumo… Entrei na única e possível loja de tecidos de Porto Alegre: abre em óleos aquarelas panos e cheiros: telas com rendas, algodão, tecidos coloridos. Deleitada pelas sedas de amarelo ouro azul celeste preto com verde desmanchado em rosado  e o branco, mas fechado na palha seca do Manabu Mabe. Compro um tecido, metragem para casaco: seda com roxo castanhos pontos vermelhos em tinta derramada. É o pano usado pelo pintor  Ernst L. Kirchnner[2] no seu autorretrato.  Saio da loja como a Mariana de Sir J. E. Millais[3], idealizo seu  vestido de veludo medieval: a corrente da castidade e a preguiça aberta diante dos vitrais das Virgens, e, como ela, também, não sento na banqueta de estofado vermelho. Atravesso os olhos pela janela, como no quadro, e, volto para Porto Alegre de 1998. Sonho com as pilhas de tecidos cheirosos do incenso e da madeira lustrosa do mogno. Espio, através dos vidros dos  armários fechados, as preciosas e rebordadas rendas. Toco de leve no quadro de um Cristo pendurado entre estantes pintado por Geroges Rouault[4]:  A cruz domina a composição e ocupa toda a tela. Cores ricas e formas rudemente desenhadas aumentam o poder desta imagem de salvação. Toda a realização, inclusive as densas linhas que contornam as áreas de cor, lembra os vitrais… Lembro, agora, o quadro do pintor Graham Sutherland[5]  onde a figura de  Somerset Maugham  está toda em tons de amarelos, castanhos e dourados com a manta vermelha. Escolho estas cores em tecidos de algodão que misturados à seda farão o vestido longo que eu quero usar na dança, depois de beber o vinho e…E então será como O beijo de Gustav Klimt, onírico. A luxúria e a decadência. Devaneio.  Reproduções dO Livro de Arte de Mônica Sthahel[1]O

Deixo a memória presa em tempos de antes: vejo a minha mãe costurando e bordando com o Glauco Rodrigues a renda  de um vestido de princesa que Tânia vai usar no seu baile de quinze anos no Clube do Comércio. A sala de jantar se transformou em atelier de costura. Desenhos  do Glauco. A sala tem  portas de ferro envidraçadas que se abrem para o jardim de interno da casa na rua Victor Hugo, 229. Estamos todos lá. Não seguro a memória, nem o retorno utópico de luz, nem a sombra que a saudade traz. Outra vez alimento o devaneio.

Dia 12 de novembro de 1988. Estou vestida com uma calça verde escuro e uma blusa de cambraia também verde. Ao pescoço sete correntes de ouro. A aliança do meu pai no dedo anular, – amuleto. Arrumei os cabelos num lenço de algodão pintado à mão, também pelo Glauco. Quero ver o quadro  O par  de Glênio Bianchetti, –  óleo de diferentes tons de verde. Aquele da minha lembrança. Antes de entrar na Loja de Tecidos paro na calçada, como a buscar o rumo, penso na sala de leitura, ou  era uma biblioteca com portas – janelas abrindo para o alpendre dos antúrios,  a pequena-grande sala. Onde ela, minha mãe, pendurou o quadro, em cima da lareira. O vermelho do fogo e o verde do quadro. Certamente, na mesa redonda com gavetas redondas. Ali estaria o prato de porcelana branca alemã com limões e peras. Os detalhes.

Olho para a porta. Entro. Agora quero voltar a pisar nos tapetes persas e comprar o possível.  Ele usa um terno bege de linho. Caminha ora pelo encerado da tábua corrida, ora pelos vermelhos dos tapetes. Camisa branca de uma cambraia leve, não usa gravata, tem os primeiros botões abertos. Um homem bonito e bronzeado. O rapaz, cabelos puxados presos por um elásticos, traz na bandeja de junco água fresca e dois cálices pequenos, e desaparece por uma porta estreita no fundo da sala. A loja está silenciosa, nenhum cliente. É a hora mais quente do verão. Sigo olhando entre os panos abertos nos balcões os olhos escuros deste homem intrigante. Reparo nos gestos lentos.  Escuto a voz mansa, cadenciada  a explicar  mostrar os tecidos…  Estou, eu e ele, ele e eu, constrangidos sem saber exatamente o porquê. Sem falar levanto os olhos para as estantes, busco ver o melhor, o mais bonito. As peças abertas; posso escolher. Tocar.

 Esqueço a Feira do Livro. Compro nos tecidos a luxúria. Metamorfose  perigosa. Penso que  céu ar terra  cores figuras e sons e todas as coisas exteriores que vejo são apenas ilusões e enganos. Penso que o gênio maligno do desejo se serve para surpreender o desejo. O amortecimento do afeto, a drenagem do fluxo vital é responsável pela presença da beleza. O corpo transforma a distância em alienação. Sou colorida e madura. O desejo está nas minhas mãos.

É o agora não o antes que nos faz ser feliz.

….se a Feira do Livro na Praça da Alfândega não estivesse também pândega com a patronessesse embaixo de um elegantíssimo chapéu de palha, com batom bem vermelho, saia longa correndo pelas pernas e olhar vago de musa desmaiada, eu não teria sorrido. Bem, por que descrever o outro lado? Depois dos sonhos este ficou distante, interminável. Transpiro esperando o teu autógrafo, fico numa fila enorme. Se eu não entrasse na Loja de Tecidos seduzida por cores, cheiros e frescor.  Se…, nos teus braços, na tua voz estivesse a salvo, mas nada disto aconteceu.

Eu retorno à Loja de Tecidos no dia seguinte. Os pedaços ficam. Incansavelmente, exijo a repetição da mesma história. O reencontro da identidade, em si mesmo, fonte de prazer. Repetir os acontecimentos deste lado da vida é no princípio do prazer.  Não quero outra vez o prazer. Ou eu quero? Retorno. É mesmo prazer.

Deixo-me queimar. Estou como as mulatas do Caribé: elas estão sentadas. É fevereiro de 1999. Estão aqui na minha casa, Torres; invadiram as cadeiras; deitadas em meu sofá, preguiçosas e vazias. Entraram. Lânguidas e queixosas. Úmidas e solitárias como eu, e nos observamos. O quadro O Muro Rosa nunca será vendido: renegado, embora tenha circulado pelos jornais paulistanos. Ele é mais do que a síntese que qualificou o artista baiano-estrangeiro Caribé. O que eu faço com elas? Observo o quadro que traz de volta a rua Victor Hugo e a menina Elizabeth com seu vestido de casinhas de abelhas e os sapatos de pulseirinha da Casa Seabra.

A infância bem como a memória histórica são fontes de erros, enganos e ilusão. A imaginação, descaminho e confusão. Já estive, no sonho, neste lugar, junto ao fogo, embora estivesse completamente nua.

Outra vez pensarei que o céu, o ar, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores que vejo são apenas ilusões e enganos. Reconstruí um homem  com cera, sem cor. Hoje ele tem a tez escura, olhos pretos. Nariz grande, braços e mãos de pescador. Quente e terno. Estou toda no desejo do corpo dele.

Comprei flores.  Baú com chave para guardar as cartas. Um relógio de marcar tempo e lupa de aumentar tempo. Um par de brincos torcidos no ouro com pérolas pendentes. Ametista em bruto. Levei dois cálices para água, dois para o vinho. Muitas frutas lustradas, cheirosas na pequena cesta italiana. Chás, os mais variados. Ervas naturais. Hortênsias. Duas garrafas de vinho. Pintei os cabelos com mechas coloridas. Seduzo com bilhetes telegramas e letras derramadas. Compro As Cartas ao jovem poeta de Rainer Maria Rilke, nas margens faço letras de amor: confissões, paixão molhada. Releio Paris é uma festa de Hemingway e recomendo que Não apresse o rio (pois) ele corre sozinho  de  Barry Stevens. Vesti uma roupa de mulher e invadi a calçada. A loja dos tecidos e das cores. Mercadoria primorosa que veio das Índias, da China, Paquistão e da África: exóticos tecidos e aquelas tela atrativas.

Entro na loja, sento na poltrona que é quase parte da vitrine. Os tecidos se derramam como cascata,  sedução. Depois, apoio meus braços na borda da mesa que exige dois castiçais de prata e um prato de porcelana inglesa.  É a antessala das prateleiras e dos tecidos. Uma sala de chá à inglesa? Não, estamos em Porto Alegre. É verão. Jacarandás roxos ipês amarelos e o verde por tudo. Calçadas pequenas. Velhas casas tombadas, tomadas pelo comércio. Com os pacotes pesados volto pra casa e descrevo a paixão.

Antes entrego os presentes ao rapaz, com envelope selado.

Pensei o piquenique do amor!  Paro outra vez, para olhar os quadros pendurados nas paredes recobertas de madeira: são reproduções emolduradas com luxo barroco.  As molduras tomam uma parede inteira: o retrato de Yvonne Lerolle de Maurice Denis,1897[6]. Também outra analogia, A jovem professora de Jean-Batiste Siméon Chardin[7], vigorosas figuras iluminadas: mestre e aprendiz. Ainda aquela tela nas dimensões de 80X120, um pouco mais, um pouco menos Uma visita agradável de William Merritt Chase,1895, óleo sobre tela, quadro grande. Duas mulheres elegantes estão sentadas num sofá, conversando. A luz do sol invade o aposento, iluminando os tons da paleta clara do artista. Não é uma cena posada formalmente, mas uma cena típica do dia-a-dia.  Pudesse eu pintar aquela loja com a luz da sensação inteira de acolher, abrir e fechar. Possível descrever? Mais adiante, numa parede só para aquela tela, entre duas prateleiras enormes carregadas de veludos e cetins pelos dois lados, temos O devaneio de Dante Gabriel Rossetti[8]. O próprio quadro não dá qualquer indicação quanto à natureza ou ao tema do devaneio desta bela mulher, embora esteja tão absorvida por ele, que o livro e a flor foram largados em seu colo. Os vários matizes do verde que a envolvem, nas dobras de seu vestido, e as folhas das árvores que a emolduram contribuem para a sensualidade geral desta pintura.   Agrada o verde pousado na sala dos tecidos: os olhos abertos da figura feminina em devaneio. Este verde sobe pelos dedos longos que prendem o galho frágil de um arbusto: mistura da roupa, também, verde, cetim brilhante com jardim de Rossetti, o pintor. Os olhos.

Toquei nove vezes o prazer, agucei os sentidos.  Neste dia esqueci de voltar para casa. Perdi o entardecer do quintal. Fiquei presa na noite-verão de Porto Alegre. Agora, saio da loja: todo o verão de novembro entra, outra vez, no meu corpo.

Devaneios de verão. Perdoa meu amigo e espera o meu beijo. Vou voltar a trabalhar, acordar. As férias terminaram. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre – 2016

[1] Título original: The Art Book/1994 Phaidon Press limited/1996 Livraria Martins Fontes Editora Ltda.,São Paulo, Brasil, para a presente edição/ Tradução Mônica Stahel

[2]Ernest L.Kirchnner Auto-retrato com modelo 1910,óleo sobre tela,149,9X100,3,Hamburgo.

[3] Sir J.John Everett Millais1896 Mariana.Óleo sobre tela, 56,7X49,5.Coleção Particular

[4]Geroges Rouaul 1936Cristo na Cruz.Aquatinta sobre papel.64,8X48,7.Coleção Particular.

[5] Graham Sutherland,Retrato de Somerset Maugham.1949.óleo sob tela 137cmX64cmTate Gallery,Londres

[6] 1897Óleo sobre tela,166X78.Musée Départemental du Prieuré,Saint-Ggermain- en- Laye

[7] 1736,óleo sobre tela 62X66.National Gallery,Londres

[8] 1880.Óleo sobre tela 159X93, Victoria na Albert Museum,Londres

Almoçar contigo

Eu te confesso, não sei por que estou triste, mas isso me cansa.

Estás apaixonado! Repito.

São muitos livros. Ou apenas alguns, ou todos. Impossível ler assim um depois do outro. Ou é apenas este que não consigo largar? Amanhã, na batalha, pensa em mim. Se possível ler Marías em espanhol. Leio em português, editado com cuidado pela Martins Fontes, Javier Marías, Madri, 1951.

Estou a pensar nestas marcas definitivas e escondidas da infância. Afinal somos sem saber que somos.

Os livros abrem caminhos, escrevem o que nunca se imaginou possível. É uma nova experiência. Um fragmento e a imaginação rola… E não vais ficar nem triste nem cansado, apenas apaixonado.

“Nada lhe vinha à boca e não havia expressão em seus olhos, quero dizer nenhuma expressão reconhecível, das que costumam ter um nome dado pelos adultos – de perplexidade, de ilusão, de medo, de indiferença, de confusão, de aborrecimento -; seu cenho levemente franzido devia-se a seu despertar indeciso, a nada mais, pelo menos foi o que disse a mim mesmo. Levantei-me com cuidado e me aproximei lentamente dele lentamente, sorrindo-lhe um pouco e dizendo-lhe em voz muito baixa, num sussurro: ‘Você tem de ir dormir de novo, Eugenio, é muito tarde. Vamos, tem de voltar para a cama. ’ Da minha altura pus a mão em seu ombro – na outra ainda o sutiã, como se fosse um guardanapo usado. ” (p.24)

“Mas naquela noite não estavam dormindo, é possível que nenhum deles, ou não inteiramente, como se deve, a mãe seminua e fora dos lençóis, indisposta, com um homem velando-a a quem conhecia superficialmente. ”(p.27)

Arrumei a mesa e fiz uma salada de rúcula, alface e tomate. Depois ou antes, como gostares. Tenho ameixas. Um copo de vinho pra cada um… Depois vamos assistir O Mercador de Veneza. No fim da tarde tem Grenal.

Tão bom almoçar contigo!

Pequenos prazeres

Começo a trabalhar o silêncio, abastecer a tranquilidade. Entrar dentro do desejo. Acreditar no que deve/é/ser o estar aqui e agora. Alimentar o prazer. E me sentir inteira.

Nesta agitação fervente e intensa, e com tantos e tantos planos, a vida se alarga nos pequenos prazeres. As buganvílias entram pela janela.

 

p.22-23 ” Compreendeu que tinha feito recuar, pouco a pouco, para a velhice, para ‘quando tivesse tempo’, tudo o que torna doce a vida de um homem. Como se realmente se pudesse ter tempo um dia, como se se ganhasse, ao cabo da vida, aquela bem-aventurada paz que imaginamos. Mas a paz não existe. Talvez não haja vitória. Não existe uma chegada definitiva de todos os correios.

p.107:“: há um momento em que nos sentimos vulneráveis; então, como uma vertigem, os erros atraem-nos

Voo Noturno Antoine de Saint-Exupéry

jovem amor amado

Ficou o rastro da saudade apressada, conversa inacabada. O vento de Torres te acompanha. Encrespa a Lagoa do Violão sonoramente. Sinto o gosto doce do bolo de nozes, e das frutas. Uma delícia se mistura à memória de nossas memórias. O chá perfumado. As folhas no fundo da xícara também perfumadas. E o detalhe se amplia na imaginação do amor.  Quero sublinhar a visita. O encantamento do aconchego. A certeza que bons encontros, ou reencontros alongam alegria. Abastada e generosa é a vida que passa por este olhar alegre e se aquece no abraço. E a conversa de amor sobre amor se repete. Envelhecerá o amor como nosso corpo envelhece? No corpo o tempo deixa marcas. Segura, agarra os sinais.  É a natureza, mas o amor não envelhece. Passa pelas marcas do corpo, e se inscreve ampliado. O amor com o passar deste mesmo tempo cronológico fortalece, enrobustece, dinamiza o jeito de amar o outro.  Embeleza. Que contraponto curioso amiga!  Se o corpo envelhece apesar dos tratos, dos cuidados, passa por cima das vaidades, das ordens, dos exercícios, do desejo de ser para sempre apenas belo, o sentimento de amor rejuvenesce agigantado. Esta química resulta positiva. Sim, amiga, seremos eternamente jovens para o amado amor. Sempre jovem. Foi esta confissão que te foi feita. Se o amado te olha bela, serás mais bela amanhã, depois de amanhã, e assim sempre. Se assusta pensar que passados cinco anos, dez ou dois já não serás a mesma. Repito. Não serás a mesma no teu espelho, na fotografia, mas aos olhos dele, aos olhos do amor amado, floresces, em primavera. Terra cuidada, adubada. E teu corpo mais jovem do que jamais foi, será por mais tempo amado.  Curva perfeita porque existe amor. Esta química só resulta positiva. Simples assim. A idade avança, e no amor, no bom amor a idade não importa, estratifica. O perfeito é o agora, hoje. O amor no tempo se agiganta, ou se alonga, enorme e jovem, belo. Festivo e iluminado. O amor se amplia criança, eu te asseguro. Deixa o tempo ir. Ele voltará, o teu amor. Elizabeth M.B. Mattos – 2016 – Rio de Janeiro

Sem nenhum sentido

tinteiro

Fui reler cartas que te escrevi…  As mesmas e repetidas histórias de abandono, de beleza, e de silêncio velado, como criança que se faz aparecer, e depois envergonha. Neuroses não curadas, o meio fato, ou a meia verdade. O mesmo passado num ensaio repetido sem que exista o definitivo. Escrita circular.  A mesma história desorganizada, sem desfecho, sem sentido. Infinitas vezes contada, e se interrompe no mesmo ponto… Colorido difuso, sem desenho. Sem consistência. Olhada do lado avesso, ou do direito, pelos lados, mas inconclusa. E me surpreendi com este emaranhado de lembranças. Sim deveria ser organizada, objetiva. E o inconstante vem junto neste modelo inacabado… E faz muito tempo alguém me disse que se lesse uma carta minha de 50 anos atrás, ou 45 anos atrás ou da semana passada, ou 20 anos ou um mês seria a mesma coisa. O mesmo interrompido e lamuriento fato. Será viver uma insistência enlouquecida de dizer, gritar e nunca compreender? Elizabeth M.B. Mattos – 2016 – Torres