Arandela

A chuva começou na madrugada. Acordei pra escutar o frescor da noite. Não gosto de quebrar sentimento, depois não sei consertar. A chuva foi forte, grossa, agitada, mas logo terminou. O abraço se desmancha sozinho. Medo de estar presa, estou sem força para abrir o alçapão. Tudo pode ser diferente, se eu ceder… Um dia a mãe fez um poema com a palavra arandela! As velas estavam acesas… Saudade das certezas! Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2012

Irritação abafada

No apartamento de cima, o toque – toque de saltos altos irrita. Os ruídos da geladeira também interferem. Ainda o quebra-quebra de algum apartamento em reforma. Sinto-me presa. Súbito desassossego dentro de mim. Ainda não encontrei o lugar certo para trabalhar. Estou engasgada com a memória: ganchos do tempo usados para justificar neurastenia, irritação, venenos. Relação conflitada entre pais e filhos. Direitos e deveres. Crianças precisam de atenção, modelo, compreensão e lazer. Se as trajetórias servissem para pontuar! Queixas constantes. O bom se alarga num prazer confuso. As possibilidades se misturam: raiva, mágoa com alegria, conquistas e beijos! De que jeito se processa o processo? Elizabeth M.B. Mattos – Porto Algre

Pra não esquecer do Paulo

“P.Alegre,24 de setembro de 1997.

Elizabeth: Leio-te e já estou te mandando o meu palpite. Tens ímpedo articulado, a confirmar o papo do telefone. Aprecio mais a carta para mim, pelo pé no chão de um relacionamento. As outras várias páginas, no conjunto, circulam em torno de um tema, a satisfação ou insatisfação erótica. Claro que isso conta, mas fica geral demais no tom de desabafo empregado, não chegando a ser crônica nem diário, que pedem mais objetividade, experiências vividas. Mas na cálida e pronta verbalização, mostras ter atingido um patamar que já é uma conquista. Devolvo os originais para o caso de precisares deles e te abraça o Paulo Hecker Filho        

P.Alegre, 2 de outubro de 1997.

Elizabeth: Dizes para ‘o filho escrever quando aflito’, falas em terapia e cura pela escrita. No entanto escrever mesmo é antes um seperávit de vida que um déficit e se pode definir o talento como ter o que dizer. Quem sabe sob essas duas colocações, descobres novos caminhos, já que escrever por escrever, publicar para publicar meio mundo faz e só se engana. Cordialmente, Paulo Hecker Filho   

P.Alegre, 2 de outubro de 2005.

Beth: Afável tua última. Quer dizer que estavas de bem contigo mesma. Talvez por admitir a idéia dada de desistir do sedutor e outros possíveis. Os demais fazem parte mas não resolvem a nossa vida. Manderlay é intocável, não têm desculpa esses erros na projeção. Esquece o ressentimento e vai de novo sem falta. Também segunda-feira no moinhos  O mercador de Veneza atrasou quinze minutos, por defeito no rebobinar, se escusaram. Esqueci porque O mercador não dá pra perder, com soberbas atuações de El Pacino e Jeremy Irons. Mando dois livros de poemas para o Rio, a ver se saem em escala nacional. Mas não conto muito. Mesmo assim, sem ficar esperando, espero… Abraço, Paulo”

Amar o amor

Dividimos por categorias nossos afetos. Quando jovens queremos amar o amor. E os amores atropelam a vida: misturados, sobrepostos como roupas de vitrine: blusas sobre camisetas, mantas, casacos sobre saias sobrepostas. Volume. Acúmulo de graça. Sim, namorar, beijar e abraçar é  a graça. Graça de estar vivo. Então,  atropelamos o amor com conversas confidenciais. Atropelamos o amor com vinho e morangos. Atropelamos com ciúmes e lágrimas. Atropelamos com tapas e beijos. Tudo o ser amado, e amante escuta, gosta. Cheira e aperta, acha graça nesta graça. O amor dos vinte anos é assim em camadas coloridas, turbulentas, ferventes. Depois vem o desejo de confiar, excluir, engolir o amor todo e escondê-lo lá dentro na caverna gulosa. O outro não é da vida, mas propriedade exclusiva. O outro não é parte da cebola desfolhada ou rosa mas, único, exclusivo. E o único fica vazio, o vazio de estar/ter envelhecido… Ficamos nus. Sem roupa e sem cor, ao natural; o susto. Esquecemos que ainda assim é vida a vida.  É vida mesmo sem o amor amor, aquele já gasto/esvaziado pelos jovens. É vida na lágrima e  vida na febre. É vida na saudade. É vida pra se fazer… nova. Tudo abastece a chama de amar o amor: olhar o rio, o mar, as flores e o céu, as árvores. Varrer a casa, pintar, bordar, escrever, consertar… Elizabeth M.B. Mattos – Rio de Janeiro –  2012

 

Conversa com Arthur

Com Arthur o tempo e o espaço. E um gramado…

Beth:

Estou no meio da chuva, do vento, do cinza. Descobri que este é o lugar mais visível da ilha. Tranqüilidade interna, difícil conquista.Pouco a pouco retorno aos velhos hábitos de sono, enfrento as noites com menos angústia. Chove tanto! Tanta coisa a ser feita! Por que me arrasto assim no tempo de pensar? Os projetos começam na madrugada, e se esfumam ao amanhecer…

Arthur:

Estás propondo fazer exercício para  acolher com doçura às pessoas? Alienação necessária para interagir com os outros por alguns momentos… Depois, o suspiro de alívio, e retoma-se as esquisitices… Por que não uma grande paixão, Beth? Teus projetos já não se esfumaçariam pelo amanhecer…

Beth:

A temperatura nos engana nesta Primavera chuvosa. Os polens se misturam no ar… Incita, transborda sensualidade. Compreendo bem o que propões. O exercício de acolher importa. Pessoa, de um modo geral, não tem disposição interna para o outro… Nos confundimos com prazeres pessoais porque transitam na periferia da cordialidade, da gentileza amável. Há que rir! Mas jamais desistir. Ser social, tarefa de vontade. Outro fato efetivo: sem a propositada solidão, sem recolhimento voluntário acabamos passando na vida como estranhos a nós mesmos. Parece inusitado, mas não é… Para encontrarmos o eixo, entrar no âmago há que ser solitário.

Arthur:

Não é exatamente alienação. Ato social: esforço para pertencer ao grupo.

Beth:

Como aplacar as incongruências, o sentido emergencial?  Com energia vital limpar, ordenar, empilhar, perfumar. O trabalho físico  alivia o corpo. Como declarou o nosso atleta, ‘não penso quando estou nadando, apenas nado’, e ele vence seus próprios recordes… Assoberbada por sensações físicas eu me sinto bem.  O outro, claro, também  alimenta. Para o artista, este vazio é necessário. Bom dividir a cama,  mas neste momento, melhor dividir o texto. Se Vênus voltar ao quadrante eu me atiro… Paixão! Outro abraço colorido e quente como deve ser. Vou beber um copo de vinho, e deitar na grama. Reafirmo: o social, uma tarefa de vontade. Elizabeth M.B. Mattos

Interdições do amor

O fio do ontem, e do amanhã no hoje. Duplo na desconfiança do primeiro movimento que geralmente é o bom. E nós não o consideramos bom. Recusamos, escolhemos o segundo momento. Uma elaboração secundária, a  inteligência não permite saboreá-lo. O espelho, estamos lá e cá, ao mesmo tempo…Trágica impossibilidade do imediato. Desconfia-se do imediato, precisamente, porque se  duvida que seja o imediato. Aqui está o sentido da  reminiscência. Nada jamais é descoberto: tudo  é reencontrado pela memória. Em suma, para ser real é preciso copiar alguma coisa, repetir alguma coisa, fixar-se em algo já conhecido, real, pelo menos para nós. E o segundo lance  parece a repetição de alguma coisa já vivida, inacabada, mas sentida, e, definitivamente vivida. Talvez estas emoções não sejam nada mais do que a desconexão, o abandono a esta lembrança de luxo do presente, enquanto que, para a percepção atual, só são úteis certas lembranças do passado.

O lobo comeu Chapeuzinho Vermelho

Reluta para começar a mudança. Talvez seja o medo. Todos os dias risca o calendário depois da meia-noite: marca o tempo. Lê até os olhos arderem. Junta letras mecanicamente. Escuta os ruídos das pessoas que se movem no apartamento de cima. Coloca o livro aberto no lado esquerdo da mesa, escreve. A luz fria do computador permite que mesmo no escuro siga teclando aleatoriamente. Interrompe a escrita. Enjoada corre ao banheiro e vomita. Vomita agarrada nas bordas do vaso sanitário. Apóia-se nos braços, ajoelha-se. Mesmo tonta consegue arrastar as pernas até o lavatório. A água escorre nos pulsos, aproxima o rosto: várias vezes enche as mãos em concha para molhar o rosto.Ter o tempo todo, todo o tempo livre imobiliza. É justamente quando começamos a nos dar conta que não é o fator tempo que impede de agir, mas a abundância de tempo que paralisa. Esta disponibilidade enlouquece. A disponibilidade. O silêncio enjoa. Se conseguir arrumar as gavetas, limpar o quarto… A inércia limita. Caminhar no parque, ou verdejar a planta do vaso com boa água, e terra preta. Olhar as pessoas dentro dos olhos, ou ser gentil? Andar com pés descalços, sentir a água no banho como se fosse mergulho no rio, no mar. Enfim, a natureza precisa entrar no corpo. Beber ilusão. O trabalho das pequenas habilidades parece tão pouco importante! Por ser habilidade tem caráter banal de facilidade,não confiamos no que é fácil. Estranho que estejamos sempre buscando o complicador. Haverá sentido na sobrevida?  O bom desempenho interior, o grau de felicidade, Agora, sabendo da doença, desta súbita partida, quer arrumar a casa, limpar todo medo de morte. Aos menos neste ano que a vida seja serena e ordenada. Que as expectativas estejam na beleza da ordem.  Abre o armário e esvazia as prateiras baixas: todas as botas, sapatos em caixas ou saquinhos. E não encontra o outro pé do sapato verde de camurça do Rui. Supomos que a roupa traga altivez, o luxo da gola de vison, sapatos verdes? Arrumar o armário é  rever a história. Olhar, olhar a caixa entreaberta com um pé do par de sapatos como se este destino tivesse ainda outro significado. Um pé do sapato de camurça verde. Estes pedaços de pedaços. Encontrar a boneca vestida de Chapeuzinho Vermelho. Por loucura volta às caixas do corredor da área de serviço. Surpresa! Mais livros, outros livros. Começa a empilhar pelo quarto na tentativa de novas descobertas. Soterrada. Após esta invasão o esvaziamento. Coragem para enfrentar a limpeza. Limpeza do inútil. O Brasil não é um país onde se possa viver em segurança Temos que descobrir qual o lugar seguro para viver. Adaptação. A casa, o silêncio.  Quisera compreender o ciúme.  A boneca vestida de Chapeuzinho Vermelho que o lobo devorou. Quer ver-se ao espelho. Doente, limitada, faz cruzes no calendário.  As mães não se dão conta de que a infância desenha  o caráter nas repressões, nas ausências.

August Strindberg

O processo de divórcio transcorria com bastante lentidão, interrompido de quando em vez por uma carta amorosa, um grito de pesar, promessas de reconciliação. Depois, de súbito, um adeus irrevogável. Amei-a, fui amado por ela, mas odiamo-nos desse ódio de amor que mais aumenta com a ausência

(p.31) INFERNO