…,

não sei te explicar, o tempo do dia, ou as horas, iguais. Sensação de ( a explicação seria interna / minha e pessoal ) dias enormes / populosos e ruidosos que se encontram, no mesmo mês, no vazio silencioso, precioso. Esta oscilação eu explico com a tua presença, ou tua ausência, tua palavra ou o teu silêncio. Concluo: eu existo porque tu estás / porque tu és / não sou eu, mas sou a sombra deste poder que tens. Aonde guardas esta energia toda? Guardados misteriosos…, as caixas. As viagens intermináveis, este ir e voltar, mais sair do que estar. O teu mundo rotativo, iluminado. E tua voz que sorri a cada palavra. Não sei explicar. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres

Na tua sombra eu me escondo, e tudo vejo. A tua sombra se move: eu vejo o sol, a luz, depois adormeço. Tenho que acordar a madrugada do teu sonho para ser eu. Enquanto dormes eu vivo. Sinto tua falta sempre / todos os dias, mas sobrevivo ao teu silêncio, meu amado.

olhar atento

Desculpa a demora: ao escrever aceito tua ausência. O dia acordou desconfiado: sol, depois cinzento esquisito. O inverno se agarrou na estação do frio, parece normal. As coisas se acomodam/organizam depois do vendaval. Aturdida com tua visita penso devagar. Aquela pressa de terminar, sacudir a vida pra tirar a poeira, ligar o rádio, sintoniza na vida feliz…ah, não consegui. Estou no teu bolso! Tantas vezes gostei de passear escondida! Apenas teu olhar importa. Pego o lápis, o papel, desenho teus olhos, escrevo um bilhete. Agora, apresso-me na carta. E apresso-me em te dizer que logo estaremos juntos, outra vez. Vou dormir o dia inteiro e guardar, nos lençóis, o peso da vida. Obrigada por teres vindo e…, um beijo, outro beijo, um abraço, e leva a saudade inteira. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres

sem descanso

Alma, temeroso pássaro, / A toda hora perguntas: / Quando virá repouso, quando virá paz, / Depois de tanta luta? / Ah, eu sei: mal chegam dias sossegados, / Uma nova saudade já transforma / Cada caro dia teu em um tormento. // E, mal oculta no abrigo, / Vais procurar novos dissabores / E cheia de impaciência incendeias / O espaço como a mais nova estrela. Hermann Hesse TRANSFORMAÇÕES

blindados / somos, os dois

Acordo querendo te dizer, soltar alegria, festejar teu jeito de olhar, e de dizer as coisas, de sentir, lembrar de nós dois a dançar, concentrados, preocupados com a perfeição de sermos os caçulas. Na convivência, a seriedade. As fantasias, se existiram, foram apertadas na seriedade, éramos amigos. Transitamos por casamentos perfeitos, extraordinários, não foram casuais. Bonitos, inteligentes, quase perfeitos. Nós éramos perfeitos? Pois é, talvez a questão seja esta, por que nos queriam tão certos / tão conviventes / tão adequados? (LFCC) Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres

envelhecer o tempo

O tempo envelhece, nós somos parte ínfima deste envelhecer, o esquisito deste tempo somos nós a envelhecer…

Um estranhamento.

Congelo a memória, e depois, com o sol ela vai derretendo, aos poucos aquela água transborda, as pétalas pesam… as pétalas das rosas do jardim da Marina.
Aquela história, aquele colorido, aquele tempo encolhido, enfiado na caixa amarela, a remexer a memória do tempo, não apenas o meu, tanto tempo!
Angélica / Lygia Bojunga Nunes: o teatro, os alunos a Escola da Vila São João – alegria de

alegria, de lecionar, de estar lá, e o poder envolver o tempo!

De viajar / acertar Limoges, estar na França.
Depois a nostalgia, a despedida pode ser um encontro / e foi perfeito ir / voltar / estar e ter Torres.
A Dark, fazenda Santa Branca – Rio Pardo também, Santa cruz do Sul – seria eu? Outra vida a passear!
É o tempo passando / ou sou apenas eu a envelhecer? Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres –
As cores do cabelo, as possíveis, a mutação! Mutações!
Ana, eu, Luiza e Cláudio Bohrer

em silêncio

Em silêncio deveria permanecer quando a

Quando ficamos em silêncio, nos tornamos desagradáveis, disse Edgar, quando falamos, nos tornamos ridículos. Estávamos sentados há tempos diante das imagens no chão. Minhas pernas adormeceram de tanto sentar. Com as palavras na boca, pisoteamos tantas coisas quanto com os pés na grama. Mas também com o silêncio. Edgar fazia silêncio.” Herta Müller – Prêmio Nobel de Literatura 2009, nasceu na na Romênia em 1953. Tradução Cláudia Abeling – título original Herztier

quando desagradáveis em silêncio porque…

quando falamos, ridículos, (porque temos que nos explicar, esmiuçar, dizer o mesmo sentimento repetidas vezes), o mesmo…

as pernas adormecem “de tanto sentar”, de irem aos mesmos repetidos lugares / adormecem de cansar, eu poderia dizer? um texto é muito maior do que as palavras, claro, ela sabe dizer…

pisotear com os pés e com as palavras. Elizabeth M.B. Mattos – eu ouso continuar – 2022 – Torres

atravessar

Perco o fio, e, enrolada nele, a vontade de escrever / ou será a vida afogada nesta chuva invernosa, neste cinzento completo. Falta o cheiro da estação. Tanto frio eu sinto, ou este frio eu penso!? Não sei. Escuto vozes, eco, arrastam-se os risos protegidos do vento! Vou preparar a coragem, ando lenta lenta! Lenta! E a leitura desviada, presa na segunda guerra, logo a narrativa de outras guerras! Nós gostamos da batalha! Não é estranho?! Estar perto seria mais fácil sem o ciúme apertado do amor, apenas sentir! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres, parece mais frio que o outro inverno, mas é apenas o frio…

Herta Müller

uma pista / uma pedra / o frio do lençol

” Georg escreveu: As crianças não falam frase nenhuma sem: ter de. Eu tenho de, você tem de, nós temos de. Mesmo quando estão orgulhosas, elas dizem: Minha mãe teve de me comprar sapatos novos. E está correto. Também sinto isso: Tenho de me perguntar todas as noites se o dia vai chegar.” (p.139) Herta Müller – Fera D’Alma

tu e o vento / tu e tua beleza / tu / tua instabilidade alegre

se eu pudesse dizer, abrir aberto o desejo fechado, eu te contaria todas as histórias, e tu compreenderias

se eu pudesse…

eu queria que o amor brotasse de novo, assim como a grama cortada. Ele deve, desta vez, eu te prometo, crescer diferente, assim como os dentes das crianças, o cabelo, as unhas. Ele deve crescer como quiser e tu entenderás do céu, da calma, e da paciência.

tão cansada passei o dia, dolorida, cansada. Assustei-me com o gelo do lençol e depois com o calor que veio quando me dei. E dormi a tarde comprida, e entrei na noite. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 –