trocar alhos por bugalhos

Adoro saladas, o tempero me importa, ou não tem nada, ou tem azeite especial, com acidez perto do zero, ou tempero no capricho (misturinhas) e…, algumas bobagens importam. Não compro roupas, não vou arrumar os cabelos, não me olho no espelho, mas sigo minuciosa com o azeite de oliva, com a manteiga então! Bem, o que eu gosto? De comer coisas boas, as mesmas. Hoje fiz feijão, e aproveitei para refogar couve, e a farofa! Ficou delícia. Não coloquei nada diferente no arroz: branco e, muito bom. Descasquei uma laranja. Estava/fiquei dentro do prazer. Céus! Como passa depressa o gostoso do prazer! A cozinha / minha meia cozinha, um caos, sou loucamente dispersiva. Colheres, vasilhas, copos e pratos e panelas e confusão. E por mencionar panelas, confesso ter apenas duas. Faço um passa para cá, depois ali, aqui, e bota nesta: confusão ao quadrado. Como sou apenas eu, se cozinho, sempre sobra comida. Congela isso, divide aquilo. Amanhã não quero pensar. (Droga!) Prazer de minutos, chatices multiplicadas.  Não vou fazer agora. Faço. Dor nas costas! Raios! Envelhecer me parece catastrófico. Vou contratar uma pessoa para me ajudar. (Ufa!) Num dia, no máximo dois, estarei implicando. Basta a faxineira. Eu tão neurastênica! Sei lá. Hoje acordei esquerda. Tarde. Esta coisa de sair da cama na preguiça da manhã acaba comigo. Assim mesmo vamos caminhar um pouco, já coloco as toalhas na máquina, fiscalizo os cheiros, fecho os olhos pra desordem. Troco a água dos vasos, corto os caules.  Flores me transtornam, iluminam meu prazer. Olho. Olho. Troco tudo de lugar! Céus! Ainda não consegui sair e a chuva está começando a pingar. Vamos assim mesmo. Esqueço de me pentear. Melhor ninguém me ver. Caminhamos na calçada molhada. Vamos. Apresso o passo, e voltamos correndo. Esquisitos passeios no cinza.  Direto ao banho. Troco de roupa. Eu desanimo. Dou uma passada de olhos pelo celular, um filho, outro, o que dizem os amigos, respondo. Estou enrolada na toalha. Sinto frio. Droga de frio! Droga de calor! Droga de vida! Irritada com isto e com aquilo, com tudo, e com nada. Por que escolhi viver assim? Por que fiz tudo ser do avesso? Por que não fiz melhor? Por que não estou casada? Por que espirro? Por que eu me irrito quando não estás aqui comigo? Por que não trabalho mais, onde está minha vida? Meus alunos? Meus amantes? Meus amigos? Por que desligo o celular e deixo o telefone tocar. Por que motivo irrito os queridos. E este silêncio todo! A chuva! Bom que a chuva se ponha a tagarelar. E começo a rir de mim mesma. Ia falar do azeite e das saladas. Eu guardo os vidros do Colavita, Olymp ou Herdade do Esporão, e tem o Mykono! Claro me excedo. Para que sejam úteis encho com álcool, nada com a epidemia, adoro desinfetar. Adoro arrematar a limpeza da cozinha com álcool no chão, nas bancadas, por tudo. E foi aí, nesta obsessão misturada com cansaço e cabeça viajando que aconteceu. Por algum motivo (esquecido agora) o vidro de azeite com álcool, igual ao que eu estava consumindo, estava na bancada, fora do lugar. Preparei uma salada maravilhosa: palmitos, tomates especiais, alface crespa e lisa…, dos deuses! Cozinhei ovos naquele dia, estava eu tão alegre e festiva! Arrumei a mesa no capricho. O que fiz? Claro! Em vez de pegar o azeite, que ainda estava dentro do armário, despejo álcool do vidro bonito e decorativo! Droga! E se coloco fogo na casa? Vou precisar de uma babá. Escondo o desastre. Na verdade, os filhos iam mesmo rir. O neto ficaria preocupado. Alhos e bugalhos! Hoje acordei aborrecida com a vida e com as escolhas. Por que escolhi / e sigo escolhendo isso e não aquilo? Por que a escravidão de limpa lava, e pendura. Passa, cozinha, desinfeta. Separa. Todos dividem o fazer. Tu fazes isso, eu aquilo. Ou mexes na panela do molho, enquanto eu descasco as frutas. NÃO! Não seria e nunca foi assim: detesto alguém mexendo nas minhas panelas, ou me cercando enquanto cozinho. Detesto cozinhar com/junto ou aquela coisa de partilhar / dividir: enquanto a água do macarrão ferve, tu ralas o queijo. Não! Adoro cozinhas fechadas / privadas / sem bisbilhotices. Na verdade, estes cheiros/perfumes (como as pessoas dizem) se misturam com vida partilhada. Não sei compartilhar afazeres, brincar junto, dividir. Detesto a mão do outro, a conversa, o palpite no que estou fazendo. Loucura e mais loucura. Uma coisa de cada vez. Nada de romance no meio da faxina, nada de pés passando enquanto tiro o pó, nada de conversas enquanto trabalho. Obsessiva. Ou viver num hotel, ou não fazer nada dentro de casa, apenas escrever, ler e escutar música, tocar piano, pintar meus quadros. Ser servida e ser amada. Os dois lados não funcionam juntos. Tenho que aprender a ligar no automático. Se começo a pedir um favor, pode escrever, que logo abuso da gentileza. Adoro mandar. Faz isso, faz aquilo… E estou fazendo cada esquisitice! Descobri na terceira máquina de lavar, que estava usando dois amaciantes diferentes, um deles cor de rosa e outro azul. Jurava que o azul era o sabão. Água, luz e dinheiro jogados fora! Insisto em não usar óculos. Nunca precisei de óculos. Fico a repetir irritada.  Nem para ler. Bem, agora mudou tudo. E eu me pergunto até quando ficarei assim esperneando? Dois minutos os óculos no nariz, outra meia hora a procurar o dito que larguei, nos lugares mais incríveis, estes dias procurei na geladeira. Ficou enorme a minha confissão. A ideia era contar dos maridos e destes dois casamentos desencontrados da Beth que eu sou. Fica para mais tarde. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres com chuva e cinzenta faz tempo! Céus! Fiquei de ligar para um amigo! Ufa! Haja coisas para fazer! E desencontros para me confundir!

porque dão felicidade

Sem jeito de dizer e querendo contar, descrever. Teclar e escrever manso sobre a história sem vento nem ventania, sem desejo ou sei lá quantas estórias ditas histórias (gosto desta invenção da ortografia de estabelecer a diferença entre o real e o inventado), quando penso suponho que inventado faz mais sentido. Desarrumado, assustado no meio das armadilhas das palavras. Já me aconteceu de ser pressionada a viver o inventado/fantasiado, neguei tudo. Apaguei o bom e tudo ficou falso. De outras alegrias descobri não serem inventadas, aconteceram. Um jeito de acontecer tão distraído, nem me dei conta da felicidade.  Naquele dia comemos maçãs, bebemos vinho, e eu desastrada falei/contei nos/dos idealizados (eternos) e atuais / presentes amores cambiantes, os mesmos: cercam o passado, o presente (aquele momento), e estão/são o futuro. Gosto confidencial das relações que se impõe.  Empilhadas /embaralhadas as cartas, e os quatro curingas. Mais fácil vencer o jogo. Gosto de cartas. Dos jogos. Magda e eu ficávamos hipnotizadas. Qualquer jogo. Fosse o pingue pongue de mesa, Banco Imobiliário, tênis, e ou espiar o basquete ou o futebol. Nas piscinas do Petrópolis Tênis Club inventávamos competições.  Apostávamos corrida e jogávamos amarelinha. O jogo amanhecia e entardecia: damas, dominó ou xadrez. Girar, arriscar, picar/quicar. Fascinadas. E jogávamos a vida com bonecas: príncipes e princesas de papel. Desfiles e competições. Inquestionavelmente, competir é mesmo um vício.  Não pelo jogo em si, nem pelo primeiro lugar, mas pelo desafio. Li bastante, muito ou quase toda a obra de Henry de Montherland, grande jogador! Perigoso romancista. Perfeito. Cruel. Maravilhoso.  Não se consegue parar… Importante! Estas questões sérias e definitivas: vida a ser aberta/descoberta… Depois, anos depois, Amiel.

Aflita neste dia “engraçado ” indefinido, “torto”, um dia assustado, Somos este/um/ o amontoado de palavras a ser escolhido/ assimilado, depois selecionado.  Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres

“Ninguém é constrangido, ninguém é explorado, ninguém representa um papel interesseiro. Todos oferecem o seu talento, ou algum dinheiro, e contribuem, conscientemente e alegremente para a obra comum, para a superior finalidade que brilha ante seus olhos. Até o amor-próprio a concorrer à ação coletiva, sob pena de prejudicar-se fazendo-se notar.

16 de fevereiro de 1871 (meia-noite) Compreendemos as mulheres como a língua dos pássaros, pela intuição, ou de modo algum. O trabalho, o estudo, o esforço aqui não servem de nada: é um dom ou uma graça. Para compreender estes enigmas vivos, é preciso amá-los; mas isso não basta, pois podemos adorá-las sem nelas chegarmos a ver mais claro. […] O indivíduo de lucidez parece um feiticeiro. Mas é um libertador, e as mulher bem o sabem. Para ele, as confidências, porque ele sabe compreender e consolar. Para ele, a gratidão apaixonada, porque ele tem a chave dos corações e porque guarda fielmente os segredos. Felizes e afilhados da fada, porque dão felicidade. Quem conhece a linguagem dos pássaros é iniciado em muitos outros mistérios. É rosa-cruz de nascença e grão-mestre na franco-maçonaria do amor.” (p.319)Henri-Frédéric Amiel Diário Íntimo

temporada de jogos sem plateia, apenas os jogos

Temporada dos jogos. Não consigo assistir, ou entender, nem torcer. E gosto. Fico a voar… Desanimo. Passo ao xadrez, movimento as peças: escuto música. Insisto. Absurdo tempo de te perder! Escapa… queria de volta avaliação / lucidez e ilusão. Quero guardar/esconder/expor/jogar histórias no tabuleiro. Escuta / fala comigo e agarra o meu lado esquerdo. Os pecados gritam / ouve, por favor escuta as histórias que quero te contar / escuta todos os silêncios a me acarinhar. Atropelo. Misturo criancices e descobertas, aventuras, as minhas e te envio com as flores. Impaciente eu. Distraída. Bons jogadores não se importam se o adversário ganha pontos ou vantagens, até trapaceia… Importa o jogo. Aposta. Desafio. Não quero reclamar, apenas eu me estranho. Eu te estranho. Eu te desejo. Apago memória e lembrança, a morte se aquieta na passagem… Eu perdi, eu fiquei. Já passou. Não choro, nem reclamo, nem lamento, nem volto. Teu jeito distraído. Sem me esperar na rodoviária, entrar no ônibus sem olhar para trás. Coisa tua de ir sempre assim em frente. Não esperar. O meu limite bate com o teu. Somos o jogo natural. Da memória / do escamoteado daquele tempo inconsequente e bem do nosso jeito! Não lamento nada. Eu me surpreendo. Outras regras/normas/ jeitos de fazer. Tu menino! Eu não sei. Teus olhos, o meu espelho. Bom que a noite faz sombras. E o escuro nos embeleza, e o tato perfuma e delicia… A sedução arranca o medo. Jeito preciso, eu vou vestindo a luxuria, e me esqueço do resto… Escuto tua voz, e volto ao Rio de Janeiro a te esperar surpresa. Volto ao mar. Volto a jogar cartas. E sinto o gosto do sorvete com calda de chocolate. Eu também gosto de espiar, e concordo com a Lucila, desconverso com a Sonia. Igual dançamos e vamos trançando/tramando livres a história daqueles veraneios inesquecíveis. Acelerada no tempo, insisto em te prender, não quero que vás, mas apressado voltas. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres

Clave de sol

Recorto a lembrança e colo figuras coloridas. Imagens em branco e preto. Desenhos. Uso boa tesoura, cola e imaginação. Tenho a história toda. Colo no caderno de capa amarela. Abro o fichário escolar, aquele com repartições a identificar matérias e professores: neste um vaso com flores e também xícaras, no outro duas bonecas de pana, sentadas numa gaveta: na foto aparecem as camisetas dobradas de tal forma! Milimétrico. Naquele recorte um urso branco, enorme. Algumas folhas brancas, perfeitas para matemática. Logo me distraio e vou colorindo os quadradinhos. Ah! Os pincéis molhados, um quadro inacabado. Estas folhas quadriculadas cheias de uma matemática imaginada. Sigo a folhear as revistas. Recortar, colar.  Todos os dias, repasso aulas de história, culinária e geometria. Também ciências. O risco dos bordados e latim, um pouco de inglês com letras desenhadas. Escrevo. Identifico cores. É o tempo desmaiado a cantar. Solfejo. Clave de sol. Identifico. Dó Ré MI FÁ SOL LÁ na musical memória. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres

como vou te explicar

Meu querido: nada mudou. Pessoas atrapalhadas, coisas fora do lugar, e não se sabe qual o lugar certo/bom… O fogo avança, queima. O dinheiro acaba/termina. Esqueço o limite. Vou pedir isso ou aquilo, e peço. Não sinto vergonha.

O sentimento queima no poder, nesta manipulação. Que me dês coragem…, mas não basta, nada chega ao suficiente. Não tenho coragem… Eu te espero.

Volto as leituras cansadas, esgotadas, e perfeitas. Corro atrás do sono, mas não chego. O amanhecer me vence, eu me rendo. Carrego cintilações da noite neste amanhecer. Volto a escrever nos cadernos, na memória. E, súbito, sinto felicidade a explodir. O filme, o piano toca as carícias. Quando vens me ver bebo o vinho, sinto o cheiro e estremeço no teu sorriso. Entendo teus olhos, teus dedos, tua voz se confunde com o mar. Tu me devolves o mar. Então não sinto medo, mas prazer.

As rosas perfumadas, abertas: pinceladas de alegria. Dádiva. Estar assim apertada no teu abraço. Não tenho medo. Sou poderosa, e o peso desta alegria me devolve a tranquilidade. Obrigada. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres

encolher

O fogo. A chuva e a beleza: somos nós. É o gosto do amor: festa, abraços. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada…

Escolher, não encolher… Envelheço e vou diminuindo, mas, simultaneamente, me agito poderosa: sentimento, ridiculamente enorme/grande/ poderoso me devolve o mundo a ser reconhecido: o beijo, a audácia, a fantasia, e tua imagem volta para dentro da saudade. A tua alegria e a minha alegria se misturam. Saber Impotente riso. Não dizemos nada. E num repente eu quero amor, teu olhar, quero escutar o violão, e tua música. Ouvir tua voz a cuidar dos cães. Bebemos juntos o chá colorido deste setembro. Vamos ter flores todos os dias, e rir/chorar/falar/ e ler a música. Feliz porque me olhas! E eu te vejo entregue, estás aí a te perguntar: por quê? Por que não dançamos, por que não somos nós? É a droga deste tempo que engole os dias. Não importa o tempo, nestes minutos, nestas horas, somos nós… Dois dias de festa e gala: foguetes e flores! Sol e vento, a chuva voltando. E eu feliz, se posso ser assim borbulhante e feliz, podes me abraçar. E ficamos, por um minuto, apenas nós dois. Eu te acho tão lindo! Poderoso! E hoje fazemos juntos o almoço, cuidamos da casa, e depois, nos sentamos de mãos dadas a ver o novo filme. E já dormes. Busco a coberta. Abres os olhos. O jogo vai começar, e te animas enquanto eu cochilo! Elizabeth M.B. Mattos – setembro 2020 – Torres

devidamente empacotado

Consegui agarrar o dia com as duas mãos. Empacotei os festejos (que esperneavam na minha cabeça) para reavivar/ libertar no Natal. Festejar, motivo para isso ou aquilo, bem…Pode ter alguma coisa melhor do que bolo chá e conversa inconsequente, quer dizer, só/apenas amenidades?! Aos poucos vou me acostumando com a sinalização de aniversário, e vou transferindo (devagar) energia para o Natal. Pronto, empacotei setembro e 2020… Beth Mattos

particularidade ou curiosidade

Perder coisas obvias. Não se trata de encontrar ou precisar muito, ou médio ou nada daquela coisa perdida. De repente eu quero aquele casaco. Não. Não está na gaveta. Será que resolvi colocar num cabide? Não. Claro, deve estar naquele outro armário. Não. Não coloquei ali. Pendurado na cadeira, esquecido, o coitado! Não, já percorri as cadeiras, poltronas, os sofás. A corda de pendurar roupa da área de serviço. Droga! Onde está? Claro! Devo ter dado para alguém…Não. Não perdi na rua. Estaria vestido. Bom. Não sei. Melhor esquecer o casaco. Não vou sair por aí a perguntar. Logo a filharada se preocupa. Vou esquecer. Pronto! Achei, estava na outra gaveta. Bom. O bom foi a ordem refeita. E troco tudo de lugar. Vou dormir tranquila. A pensar. Deixar tudo nos mesmos lugares não seria melhor?! Seguir a rotina, ou reinventar o armário no dia seguinte. Onde será que coloquei aquele copo? Beth Mattos – setembro de 2020 – Torres

comprar e prazer

O poder de comprar/possuir/ arrematar o desejo ultrapassa a questão de ter ou não ter dinheiro. O supérfluo escorrega nesta ladeira. Assim se presentear pode ser maior e melhor do que receber presentes. A liberdade de escolher/derreter ou se afundar no prazer de levar para casa o objeto do desejo. A vitrine segue tendo uma função. Céus! Por um momento o hoje fica maior e melhor, e a tristeza e inquietude que terei amanhã parece um rasgo de tristeza, não o problema. Festejo. Beth Mattos – 2020 – Torres

constatar não é julgar

Enigmas da convivência da dita fala/narrativa confessional. Apontamento da voz amiga a escorregar com fatos pessoais, a dividir, não exatamente, a pedir opinião, apenas falar: fiz isso, fiz e aquilo. Entrei ali, caminhei por aqui, vi assim e assado… Desconcentrada da própria voz, do próprio gesto, ou tão concentrada num palco atento, imóvel, expectante. O teatro, quem são os atores sem a plateia? e vice-versa. A opinião chega apressada, engasgo o café. O que será que quer dizer isso? Imediatamente me ocorre que não importa a idade. Esbarrar no outro sexo, o desejo pulsante de se misturar sentimentos sobe até a gargante e sai num grito alegre em direção ao estar junto. Ativados sentimentos humanos e abertos e livres a qualquer momento. A dita, e maldita, solidão não funciona. Há que esticar a mão para tocar, trocar um beijo. Há que se banhar, perfumar e levar flores! Não importa se proibido ou permitido, se o sinal é vermelho, amarelo ou verde. Compulsão. Também aquele desejo de aproveitar desta ou daquela acolhida, deste ou daquele bom jantar, desta ou daquela festiva ocasião. O impulso para se jogar ao mundo, a este mundo transitório e rotativo extrapola qualquer palavra. Importa é fazer. E penso, o inverso, o recluso, o esquisitão que se consome nele mesmo, a misteriosa mulher das flores e dos espinhos. Também ela é compulsiva na sua forma de empurpurar, não ir, não fazer, não querer a multidão da praia, ou o vento risonho das praças, nem as pernas a balançar nas rodas de chá, nem aqueles almoços comemorativos a encerrar anos e anos de turmas necessárias, períodos a ser comemorados. Se escolhemos ter um par carregamos braços e pernas diferentes, ora os nossos, ora os do companheiro. Dividem. Partilham. Ideias ou compulsões, jeitos e trejeitos. E o sorriso de um já está no rosto de outro, e assim se assemelham… Engraçado! Partilham amigos, risadas, dias de raios e trovões ensolados! Ah! Que esdrúxula a vida de ser dois! Que perdida a triste a vida de ser um. Elizabeth M.B. Mattos 2020 TORRES