Madrugada tépida: silêncio manso, gramado quente. Ontem! Balões no céu nublado, brisa morna. A praia abraça inquietos apaixonados. Tepidez.
Troco os lençóis da cama: desejo fresco. Notícias se pacificaram? Assusta o desgoverno de indivíduo assassino. (céus) Desequilíbrio, vidas perdidas. Temperamento exaltado incita a imaginar uma esfera degradada transformada em monstro malévolo, odioso descontrole. Posso pensar primavera? A passarinhada se agita nas ramas: voz da manhã. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres
Bule de Chá parece ser um ponto da minha relação… Eu gosto e ela não gosta. Normal!! A vida vai se amansando e vamos tocando as obrigações contra o tempo e escolhendo qual nós vamos eliminar da nossa extensa lista…
Li o seu texto e cada vez que leio a Elizabeth fico pensando que o seu texto reflete a sua vida mesmo. Transitas pelas coisas e fazeres, tanto na rua quanto no seu quarto, mas fazes de tudo um pouco, mas não terminas nada. Talvez para poderes voltar àquela coisa ou fazer, para pegar um pouquinho de cada coisa sem perder as outras. Segues floreando a vida em pedaços e partes nem sempre contínuas.Acho que sou muito parecido contigo. Não tomes como crítica, mas tome. Lendo os seus textos me parecem sempre os mesmos. Mudas o local, os detalhes, mas a história é sempre a mesma. Retalhos.Minha vida parece estar bem parecida com isso. Giro, giro, giro e estou no mesmo lugar, fazendo as mesmas coisas, enfrentando os mesmos problemas de sempre. Acho que não mudamos e temos a ilusão de achar que mudamos. No fim somos nós mesmos.
Tens razão neste ir e vir ficando no mesmo lugar… Detalhes de um grande vazio? Um ponto, um texto. E todos juntos, a vida. Variante ou limitado? Uma tela preta, um ponto branco, pode ser nada e um imenso e novo olhar de dentro para fora, a explosão…, ou o começo. Bule de chá vermelho pintado/imaginado/idealizado, ou descrito. O começo. E nada. Tens razão. Parece ruim, mas nem tanto… É o olhar sob o objeto, sob o texto, ou perdido. Algumas afirmações na entrevista de Philip Roth com O’ Brien me fizeram pensar, e te escrever. A leitura dá estas voltas, instiga, desafia. Como ir ao baile de fantasia todos os anos com a mesma fantasia, mas nunca será a mesma sendo. O livro. Imaginas ir ao mesmo baile (anual) trocas a fantasia, o autor. Nós diferentes e os mesmos. Que bom teres escrito! Hoje vi o filme francês Entre os Muros da Escola: impressionante. Voltei (entrar na história/estar no meio da emoção/ doer junto faz parte) estupefata! A imigração, a integração. Eu na vida do outro, o outra na minha vida: explosão. Adaptação cruel, necessária, a única possível? Violenta, palavra certa. Todas as adaptações se assemelham… Como a banal relação de homem e mulher: nem sempre falamos/dizemos/temos a mesma língua, o mesmo manejo, somos do mesmo quarteirão, mas nós nos desejamos. A comunicação atrelada aos princípios: há que encontrar o ponto comum para saltar/começar e recomeçar. Adaptar, retomar referências: vencer barreiras, às vezes, intransponíveis como mostra o filme, (serão?), e também soluções e leveza ao final da batalha.
Não somos diferentes. Tu e eu nos sentimos menores porque não temos o resultado em cifras, o dinheiro importa sempre. Sabes o que encontrei dentro do livro GOG de Givanni Papini? Nove mil cruzeiros. Dinheiro de aulas particulares – Santa Cruz do Sul. Acuada pelo casamento falido, trabalhava para poder ir embora. Guardei dinheiro dentro do livro, certeza de que não esqueceria. Paguei um preço para sair desta relação. E o dinheiro, não sei quanto seria hoje. E a contabilização? Perdi, foi complicado, mas decidi que irei em frente: deixei enterrado naquela casa juventude, alegria. Levei comigo coragem. Não sei quanto em valor perdi, quantos reais… Torres esperava por mim: caverna, refúgio, ar e terra, mar. E o quanto tenho deixado para trás? Consegui sair da casa, daquela vida. Um preço. Sempre etiquetando. Tens razão, eu estou sempre a me colocar na liquidação. Os outros são/tem os melhores resultados. Repenso a vida e na outra vida: carros, casa, restaurantes, etiquetas. Eu sigo entre o quarto e o quarto. Não contabilizo mais, ou ainda… Assim mesmo, ao te escrever, eu me sinto ótima. Por quê?
Amanhece. Penso.. As pessoas que admiro tem melhores preços, lucros. E talvez sejam melhores do que eu, ou não. Mais felizes… Como escreves: No fim somos nós mesmos. E diferentes. Não sei se melhor ou pior. Apenas diferente. E sem dinheiro ( seguido arrepio, parece que não saio do lugar. Vive-se a supervalorização do dinheiro como medida de boa vida. Pensa. Se morássemos numa cidade de pescadores ou uma ilha: pescaríamos, entraríamos no mar, dormiríamos na rede. Seria como o homem que ascende o farol… Morar no farol poderia ser iluminar? E acordaríamos com o sol, dormiríamos com a noite… Parece igual, mas não é… Outras pessoas atravessam ruas, enfrentam o trânsito, comem, às pressas, olham e conversam com as mesmas pessoas, equacionam e resolvem outros problemas, nós pescamos o peixe. Para eles não basta o peixe, querem o peixe limpo, cozido… Trabalham de sol a sol para comerem o mesmo peixe. Dificuldades e escolhas diferentes. A grande história, o grande romance, o sucesso ou o fracasso na ponta/ no meio/ no fim da vida… Adaptação sufoca. Somos todos sobreviventes. E sabemos que não tem pote de ouro pra pegar no fim da rua, não na nossa rua…Todos os dias já, já dia vencido. O tempo atropela… Ainda não compreendi a diferença entre comprar o bule vermelho porque é belo (beleza, aliás, importa e percebo), e ou comprá-lo como utilitário? Ou ainda não comprar, apenas ficar desejando…Esta coisa de não valorizar o fazer, mas o ter/possuir. Não tenho o bule vermelho. Enfrentar os mesmos problemas num tempo determinado de tempo, não toda uma vida do mesmo jeito… seria simplificar demais, a questão do circular. Acorda! As vitrines, não têm todas, os bons produtos, algumas estão vazias (estilo), mas nós nos vemos/olhamos e desejamos a distância. Desejamos porque a vitrine sem mostrar, exibe. Parece, mas não é, para saber/escolher/ querer isto ou aquilo, e mesmo sem precisar queremos. E o que importa? Nos dar conta precisamos apenas saber/conhecer…, pois é. Absurdo, mas antes de ver, saber. Acho que tu tens apreendido muito sobre qualidade. Eu te amo. Como vês pela hora, perdi o sono. O filme me agitou…Tanto quanto o livro do Roth… Um beijo. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres
Presunçosa sou eu, insisto. Calor e sol! Imagino tua academia de energia, feliz, livre: apenas tu. Inteligência e cuidado, não lamentes o limite de conhecer e ou desconhecer, sou tua velha, tua amiga anciã, acredita, esta história de pessoa definir limite e ter desenho do próprio perfil, baboseira, não funciona. Ninguém sabe nada de nada; todos erram. Admiro quem és, do exato jeito de seres. Escrever? Vício, como a leitura: um jogo, às vezes acerto, mas perco mais e muito, e feio, de goleada. Não se pode chegar ao ano certo: quando converso contigo / ou penso conversar visito o real, por um segundo abandono a fantasia. E inverto tudo. Beth Mattos – setembro de 2020 – Torres
Escrever mais e muito, e ler mais e muito. O picote da leitura. Ler e a reflexão que se joga no papel afoita. Possíveis reencontros imaginados, reais. Emaranhado de emoções. Lucidez, meio a febre, ao desejo se transforma em terror. Se olho velhas fotos o azul me acompanha… Se volto às noites de espera, se volto a tua voz, se volto a te pensar no amor. O espanto do reencontro. Qual das vozes usaríamos? Que surpresa descobriríamos ao rosto envelhecido? Como seria a visão do amor gasto/usado e desaparecido? Qual imagem escolheríamos depois desta exaurida espera. Qual nova história de amar nos contaríamos? Elizabeth M.B. mattos – setembro de 2020 – Torres
“Eis o que às vezes acontecia comigo: depois de passar a primeira parte da noite sentado à escrivaninha – aquela parte em que a noite se arrasta pesada morro acima -, eu emergia do transe induzido por meu trabalho no exato instante em que a noite atingia seu ponto culminante e hesitava no topo, pronta para rolar rumo à névoa da madrugada; levantava – me, sentindo frio e totalmente exaurido, acendia a luz do quarto de dormir e de repente me via no espelho. Então ocorria o seguinte : durante o tempo em que estivera mergulhado no trabalho, tornara – me um estranho para mim mesmo, sensação semelhante à que se pode ter ao encontrar um amigo íntimo após anos de separação – por alguns instantes lúcido mas entorpecidos você o vê sob uma luz inteiramente diversa, […]momentânea sensação de estranheza.” (101) V. Nabokov Terror in PERFEIÇÃO e outros contos – 1996 Editora Companhia das Letras: São Paulo
Escrever mais e muito, e ler mais e muito. Traz de volta o tempo, não é bom nem ruim, ter o tempo a disposição quieto diante da nossa vontade manipuladora. Sou eu mesma a ir e voltar. Sou eu mesma a construir e demolir. Assim o amor. Assim o encontro. Assim mesmo, o poder. E devagar, tão lento, e tão devagar a vida desaparece neste morrer aos poucos que se confunde com sobreviver, suspira ou sorri rindo. Aos poucos. E eu gosto. E tu gostas de saber que ainda te amo.
tenho uma ideia a meu próprio respeito/imagem mais , ou menos livre. Agregadora /idealizada, ou mais ou menos comum, contudo, não é a verdade. Não a palavra que defina o fato / nem a pessoa/ nem uma ideia ou fantasia. Não consigo fazer real o Eu despido, nu pronto para ser ele mesmo. A cada passo uma direção nova/outra uma tentativa de revelação confessional, e mais nos afastamos da verdade -, o /DES / velamento transforma o velado / o escondido em mais mistério/aumenta o mistério, e fico mais distante ainda da possibilidade de RE /VELAÇÃO . É uma velação / um esconder constante que se repete…
Não deveria estar naquele lugar, não dveria estar com aquelas pessoas
O impulso de carregar , guardar, fazer, desaparecer aquele objeto certo/único
A idade envelhecer / exige exercício de largar / distribuir / entregar:
DESPEDIDA CONSTANTE
quando a cabeça se solta a pensar desgovernada, não escreve, mas sente, e de todos estes pequenos sentires nascem flores, tantas flores! Tenho que prestar atenção. Beth Mattos
Fico a pensar em ti como se estivesses a minha frente, sem falar. Então, eu me transporto. E tu estás sem palavra a me olhar. Quieto. O tempo nos devorou, nada a dizer ou fazer. Encabulados, não dizemos nada… Desaparece a lógica. Nós olhamos quietos. Esperamos. Alguém toca a campainha, fico constrangida e me apresso. A vizinha explica qualquer coisa que não lembro. Ela se desculpa. Sinto o rosto quente, vermelho. Não convido para entrar. Estás olhando pela janela. Se pudéssemos acender um cigarro e fumar! Nos ocupar com a fumaça. Ofereço um vinho, quem sabe uma caipirinha, ou um whisky? Abres um sorriso iluminado e me dizes: tão cedo! Olho para o relógio. Ainda não são oito horas. O azul se faz dia, devagar. Eu me sento ao teu lado. Levanto. Vou passar um café, e cortar uma maçã, (adoro maçãs), queres uma fatia de pão? Sacodes a cabeça sem falar. Desespero na timidez. Não sei o que fazer.
…e, já se passaram tantos anos! jeitos e expressões, não conseguimos segurar… não sei mais como eu sou, não sou
O tempo enrosca / apavora o amor amado: escabela o sentimento. Arranca a tal da lógica. Que situação! Não deveria ter dito aquilo / pensado assim / feito deste jeito. Não deveria ter escrito, não deveria ter atendido ao telefone… Desespero outra vez. Sento ao teu lado. Encosto o ombro, tu te surpreendes. Não resisto. Eu te beijo. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres
Casamento desfeito, acerto de ir ficando e deixando, e se lamenta o bom, amole o coração, depois enraivece. Dinheiro ataca, grita, esperneia. Separações com dor e ressentimento. Negócios perdidos/ errados, amores passados, outros atravessados. Insistente e belo, corajoso, inconsequente. Vais chegando, vais ficando, e vou indo, e nós estamos aqui e agora numa encruzilhada de prazer, porque assim rejuvenescemos. Terapia e palavras e palavras das terapias. Risco. Vou certeza e largo/permito. Acerto. Aceito. Recomeço a fantasia lúdica. Na contramão de ser eu/ sou tu. Um emaranhado, eu sei. Eu te persigo. Tiras minha roupa, visto a coragem. Não corro, não me escondo, enfrento o meu corpo, e o teu. Acerto. Aceito.
No galpão, empilhado, amontoado passado, com frestas. Hoje levarei as tabuas empilhadas para trancar/ vedar. Fechar/pregar/ acabar com o vento da primavera. Preparar nosso verão. Tua voz indefinida e titubeante não ajuda nada. Eu te peço o martelo e pregos, anda! Vamos terminar tudo de uma só vez, numa tarde. Ah! Este danado poder, do lugar certo em hora errada… Somos avessos, tu e eu ao inverno gelado, explicas. Precisas do sol. Encolhemos o apertado desejo: alegrias passadas, vamos, tu e eu, a diminuir a coragem. Vamos nos aquecer com o mesmo casaco verde, e com risos, ao sol.
Se eu fosse certeza doce, ou ainda tivesse aquele campo ao lado do teu, o campo das margaridas exibidas. Pularia a cerca, enfrentaria o rasgado do arame farpado para roubar tuas maçãs E tu, gentil, de certo abririas a porteira para pedir o pão perfumado do forno campeiro. Os cães lamberiam minhas pernas. E tu acariciarias com os olhos. Tudo tivemos. Tudo perdemos. Sedução aberta/forte que segura tua vontade, agarra a minha incerteza.
Completo o bordado com pontos apertados, apressados. Fecho os olhos no teu abraço desajeitado. Fecho os olhos. Entramos. Diminuo o som da música, perfumo os lençóis. Eu te sonho e tu me beijas. Este lado do quarto não conheces. Céus! Não fomos para a academia acertar os pontos da autoestima. Olhos fechados, encolhidos embaixo das cobertas. Não basta? Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2020 – TORRES
” Elícia – Estou indo mal com este luto. pouco visitam minha casa, pouco passam em frente. Não me dão alvoradas, nem canções dos amigos, nem há facadas ou barulhos de noite por minha causa; e o que mais sinto: nem dinheiro nem presentes tem entrado pela porta. De tudo tenho a culpa, que se seguisse a que me quer bem, a verdadeira irmã, quando fui lhe contar o triste assunto, não estaria agora só entre paredes, com ninguém querendo me ver por repugnância. É o diabo ter dor por quem não sei se eu morta também teria. Ela ousou me dizer a verdade: nunca mostres mais dor pelo mal ou a morte de outro do que ele teria por ti. Se eu morresse, G. não ia deixar de se divertir; por que, louca, me aflijo com ele degolado? Bem podia ter me matado impetuoso e doido como era, como fez à velha que eu tinha por mãe. Vou seguir a ideia de Areusa, que conhece melhor o mundo; vou procurá – la seguido e tratar da vida. Sua conversa é agradável e doce, a ação suave. Não se diz em vão que vale mais um dia do homem a par, que a vida inteira do ignorante e simplório. Vou largar luto, tristeza, lágrimas, que tão prontas me vieram. Aas sendo o primeiro que ao nascer fazemos, chorar, não estranha que seja mais fácil começar do que parar. Para isso sirva o bom senso, vendo a desfiguração e sabendo que o enfeite torna a mulher bonita, mesmo que não seja, e a velha, moça, e a moça, ainda mais. Não são outra coisa as cores e os pós do que a isca para os homens. Ande, pois, meu espelho que tenho os olhos abatidos; andem, minhas toucas brancas, minhas gorgeiras bordadas, minhas roupas de noite. Vou fazer uma tintura para os cabelos que já perderam o louro; feito isso, recolho as galinhas, faço a cama, que a limpeza contenta o coração, varro a frente e molho a rua, para quem passe sentir que a mágoa já se foi. Mas vou antes visitar minha prima para ver se Sósia foi lá e o que houve com ele, que não mais vi depois que lhe disse que Areusa queria lhe falar. Queira Deus que a ache só, que nunca está sem galã, como uma boa taberna não fica sem borrachos.” (p.180 -181) Fernando de Rojas – tradução de Paulo Hecker Filho – Editora Sulina A CELESTINA – Tragicomédia de Calisto e Melíbea
Fernando de Rojas nasceu em Montalván, por 1465 e se estabeleceu em Talavera de da Reina e ali morreu. A Celestina, já é lida em 1492, se bem que editada em 1499, com fulgurante êxito e traduções para todas as línguas. O autor tinha menos de trinta anos quando a concebeu.
O destaque no texto foi feito por mim, tanto me identifiquei com as dores engavetadas /enlutadas.
“Para isso sirva o bom senso, vendo a desfiguração e sabendo que o enfeite torna a mulher bonita, mesmo que não seja, e a velha, moça, e a moça, ainda mais. Não são outra coisa as cores e os pós do que a isca para os homens. ”
O amor hoje e o tempo agora…, mais forte e poderoso do que nunca foi o amor de ontem. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres
Sem luxo, nada do supérfluo, apenas tu e eu, nós dois no espaço de ser/ter um do outro. Parece nada: feijão com arroz, laranjas e couve. Céu aberto (com sol, como gostas),
cheiro de mar
cheiro de mato
cheiro de vento
Sem luxo nem supérfluo.
Ah! Não posso te contar
do tanto
do tudo
do nada
Não posso te contar, eu e tu/tu e eu, parece pouco, meu querido, parece tanto! E tu sabes. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres – JMCLX
Citação de Stefan Zweig: “Toda matéria possui certa medida de resistência, além da qual a elevação não é possível, a água tem seu ponto de ebulição, os materiais seu ponto de fusão, e também os elementos da alma não fogem a essa lei irrevogável. A alegria pode atingir determinado grau, qualquer acréscimo já não será percebido, e assim também ocorre com a dor, o desespero, a depressão, repugnância e o medo. Quando cheio até a nossa, o vaso interior não absorve nem mais uma foto do universo.“(p.137-138) Stefan Zueig – Êxtase da Transformação
Quero saber / saber deste homem/menino; descobrir quem és, sem me importar com certeza ou ciência, certo ou errado… Sabes bem de ti mesmo, sabes o suficiente. Não precisas convencer ninguém, nem a nós dois, nem a ti mesmo. Assim, deste jeito que és, como és. Engolimos problemas, complicações, e seguimos tu e eu, amorosos. Ignorância é Paraiso. Por que este interesse em autoconsciência e lucidez? Sem penitência o amor, nem consequência ou consciência. Pareces apressado, estourado, mas não és. Mistura magias: as negras e as boas magias: feiticeiro inconsequente. Ativo. Não te atormentes com o que não deu certo / ou com o que podia ser diferente… És/ou tentas ser um indivíduo de lucidez (citação de Amiel) “indivíduo de lucidez parece um feiticeiro” … Tua vida faz círculos, em algum deles te sentes preso. Isso alucina. Aquieta. Depois de adormecer, depois de acordar, depois de cair, e, depois de levantar…, de cair e levantar, tu acordas, dás um passo, e pronto, saíste do círculo. Consegues. Estás no outro tempo: no outro círculo, o olímpico…Como feiticeira eu te denomino herói. Aquele que vence um dia depois de outro e depois se arrepende, mas ama o amor, amo o dia tanto quanto o entardecer e a noite porque nos abraçamos enlouquecidos. Do jeito que sou/do jeito que fiquei abarrotada de feitiço, felicidade. Seduz. Desespera, e espera. És tu meu amado. Senta e fecha os olhos, um segundo. E já és outra vez menino. Difícil ficar homem, adolescer, também envelhecer. Envelhecer dói como crescer, depois, ora, depois nos beijamos quietos. Divino isso. Esta receita das misturas tu mesmo assinas. Registras e vendemos em vidrinhos reaproveitáveis: álcool, desinfetante, detergente, amor, raiva e desejo. Volto ao que escreves, aos teus sentires. Pontual. Verdadeiro. Eu te abraço. Teu mistério, meu objetivo. Eu apreendo. A passo pequeno, chego onde estás. Ao teu lado sou eu. Comigo és tu. E estás descalço. Sem correções meu querido, nem conhecimento de defeitos e muito menos de qualidades. Joga fora o excesso, fica a existência melhor quando descuidada. Estoura os balões, não quero aprender nada. Sem correções. Adoro o teu, o meu conhecimento incompleto de qualidades ou defeitos. Gosto da existência desamarrada a surpreender. Sem manual. Esquece arestas. Pelas frestas entra vento, entra calor, pelas frestas entra o teu amor. Conta outra vez e mais outras aquelas histórias loucas de marcar amor em cada mesa, em cada tapete esticado, na areia da praia…, na loucura de querer sem poder ter, mas igual livre/rei/ com luz e sol. Calor da tua pele. Deixa de questionar, segue voluntarioso, temperamental e amoroso. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres
“Primeira prensa é apenas porque o azeite não foi fervido. Prensado a frio. E não coado. Persistem impurezas. Aprendi a gostar, quando conheci. Mas não se encontra fácil. Correto quanto ao destino: nunca para cozinhar.” […]
“Por fim, saindo da cozinha, além destes dois, o ‘desde’, em quantidade certa, é genial para algumas coisas específicas. Estes últimos dias, sobretudo os últimos, tem sido de mergulhos…, não sei exatamente onde…, mas perto do convencimento de que nossas “convicções” não são tão convincentes, para os outros, e nem para si próprio. Sempre é tempo de ser melhor, o que exige um crescente e permanente autoconhecimento, do qual careço muito. A idade e velhice podem ser comparadas os copos, com certa quantidade de líquido. Ângulos diferentes para a mesma quantidade de líquido: meio…, cheio ou vazio. Nós nos fazemos velhos, ou nós nos fazemos jovens. No pensar, no vestir, no comportar-se, enfim em tudo. Uma opção do ser humano. A beleza da velhice é incomparavelmente igual, ‘estranho não, incomparável e igual?’ à beleza da juventude. Explorá-la permanentemente deve ser mistério e objetivo. Não de sofrimento.“