Silêncio e susto se avizinham. Limpo, limpo, aspiro, seco, lavo, e lavo. Obsessivo. Esparramo livros pelo tapete, descuidada.
Inquietude barulhenta. E a chuva do calor. Sou eu a pensar o proibido. Beth Mattos – outubro em Torres com tanta chuva! Necessária e importante tempestade…
água, água
Raios, trovões e tanta chuva! Venta. Vidraças fustigadas, pelas frestas, água e água. Transtornado desconforto. Será medo? Desacerto. Indiferença?
Chove, alaga. O trágico e a verdade se alternam. Eu me reconheço vulnerável, despreparada, sem voz. Sinto o cheiro do medo. Recuo, depois avanço. Dúvida, depois certeza. No envelhecer o bom fica perto, o descuido se afasta, e o medo persegue. Sinto frio. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2019 – Torres
azul quente e redondo

Dia de sol azul, quente e redondo. Domingo penteado, cada pedaço de luz uma invenção. A lua revirou a noite, e bocejou e cantou, exibida! Minha insonia revirou a casa, e se perfumou com o jasmim miúdo da varanda. Tua voz me espanta e surpreende. Estranho telefonema! Desejos de verão! Ao mesmo tempo a força do tempo retorce a memória. És uma pedra obstáculo, preciso da liberdade, das minhas pequenas vagas e confusas escolhas! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2019 – Torres

transcrever
Escrever como exercício de leitura, escrever para não esquecer consoantes duplas, e redobrar atenção, dificuldade a ser vencida.
“ Sa tête bourdonnait, ses artères battaient, et ses yeux étaient pleins des torrents de lumière. Rouge et or, sous ses paupières closes. Or et rouge, dans son corps. Immobile, engourdie sur sa chaise, un instant, elle perd conscience…” Romain Rolland L´âme enchantée
Seus olhos cheios de torrentes de luz, tomados de luz estão seus olhos, ou derramam luz teus olhos, ou ainda, teus olhos me iluminam. Dourado e vermelho, no teu copo… Teu corpo! E qualquer texto/poema atravessa o possível do som. Segue orquestrado pela beleza colorida. Interrompo o fluxo, desligo as luzes, fecho os olhos: preciso adormecer. Fuga estúpida / ridícula e escura. Paraliso. E consigo. Depois vou voltar devagar a tradução, e ao impacto. Ainda é sábado. Não tem chuva, e o sol apenas se esconde faceiro. E o dia feriado festeja crianças, e pais por terem crianças a festejar. E todos voltam para a Nossa Senhora Aparecida! E.M.B. Mattos – festejamos entorpecidos, esquecidos.
Nossa Senhora Aparecida
Neste dia de Nossa Senhora Aparecida minha mãe morreu, o pai perto do Natal. Num verão de tanto calor! Tia Joana no hospital, sadia, ia apenas fazer exames. Eles se foram nesta ordem, seguindo ao chamado. Viveram na mesma casa – rua Vitor Hugo, 229. Agregadora / generosa / amiga, minha mãe. Seguraram sua mão estendida os irmãos de criação Júlio, Clóvis e Telmo. Comprou a casa de Guaíba, onde moravam. As histórias se perdem, e a memória vai picotando no tempo. Somos a próxima geração nesta roda. A cada dia uma vibração extraordinária, porque sendo verão, o corpo aquece. Beth Mattos – outubro de 2019
falado demais
Vivendo sob o fogo, ou absurdamente protegida. O sol, o calor atravessa os vestidos de verão, e o calor se acende mesmo na sombra. É o verão. A praia acorda cheia de braços e pernas. A areia nem responde, mas o mar resmunga. Somos/estamos/és/sou Torres. Sigo lenta, e desorganizada. Quanto mais tempo tenho para fazer, mais desordem, mais revirado… A amiga socorre, o aspirador surpreende, os pintores avançam, as pessoas acordam cedo. Os atalhos são passeio. Sigo feliz / surpreendida quando conversamos! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2019 “Por que as pessoas se fecharam em sua concha e vigiam cada palavra? assustadas, cada gesto? Têm medo de tudo – se falam com sinceridade – têm receio de ter falado demais, Só nos bailes de máscaras é possível dizer a verdade. Ora a vida não é um baile de máscaras!”(p.84-85 e 86) Marina Tsvetáieva – VIVENDO SOB o FOGO – Confissões
Tudo que a gente faz é tão estranho: as pessoas se encontram por acaso, trocam ideias de passagem, às vezes, até impressões íntimas, e apesar disso, se separam, estranhas, distantes.
De uma espiada numa das revistas que vocês têm na sua casa, uma coisinha à-toa ( acho que se chama ‘Outono’ ou ‘Quadros de Outono’. Há uns versos maravilhosos que terminam assim
…“E todos estão sós”…

não consegui
Tanta voz me atropela! Estupefata. Saio devagar a procurar o meu Eu perdido.
A palavra EU é um detonador de sentimento sem arrazoado, puro sentimento a balançar no desgoverno.
Acho / penso / imagino que não há forma / jeito, para a reinvenção… No meio do terremoto, do desastre, sem papéis, sem fotos, sem referências, escondida, lá estou esquecida e completa: Eu. E tão, absolutamente, imprecisa! Que agitação!
Doméstico quieto e ruidoso, remexido. Deve existir esconderijo! E não deve ser na palavra, nem no silêncio, mas na transparência… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2019 – Torres
Epístola aos Gálates capítulo- 16 versículos 32-33
O homem paciente vale mais do que o valente; e o que domina seu ânimo, mais do que o conquistador de cidades.
amoroso
Sim, Simone, a carta se esparrama na amorosidade e no encantamento dele por ela. Roberto e Anita (meus pais) tem uma linda história de amor a ser lembrada. Tua observação me fez/faz pensar no peso e nas particularidades da vida deles antes e depois de se encontrem… Ela chegou a me instigar a escrever, anos de 1945 e 1950 e depois 1960… e antes, e eles e nós. Ambos me escreveram muito, sempre morei longe, mas paradoxalmente, com eles, tão perto… Vou revirar minhas lembranças. Poemas e cartas da mãe já publiquei muitas no Amoras, as dele não. Acho que é a primeira. Tenho lindas cartas de amor dele para ela, e dela para ele. Brigas/ desentendimentos e tanto amor! Elizabeth M.B. Mattos 2019 – Torres
sentaram-se

Estes romances portugueses dançam, a língua sonora do embalo da canção. Portugal doce! E eu devo caminhar por estas pedras a reconhecer o meu pedaço apartado, e reencontrar outra memória que lá enterrei. É a saudade do meu pai que me sacode, a presença da minha mãe e a carta encontrada/guardada:

Torres, 12 de abril, quinta-feira
Elizabeth
Recebi duas cartas tuas e hoje escrevo[…] Aqui passo bem recordando meus dias passados e na sala estou me vendo sempre com a Anita, olhando o quadro do pintor Klimt – ele se parece muito com tua mãe: o mesmo jeito, a mesma postura de quando a conheci, em 1937……
Tudo aqui me traz recordações, boas, graças a Deus! Vejo vocês a meu redor, relembro as passagens dos nossos verões e penso o quanto valerá para ti este lugar que tanto amo e me agasalha na minha velhice. […]
Fragmentos de uma carta do meu pai. Eles me sacodem. Respinga ausência. Eu já costurava a vida com Jorge, em quem ele confiava… Nosso casamento lhe tirou aflições. Céus! Eu tinha trinta e dois anos quando nos casamos, – de alguma forma, ainda não tinha saído de casa… Meus três filhos eram/foram também as crianças do meu pai e da minha mãe… E.M.B. Mattos
Sentaram-se ao pé de um fio de água, um ribeiro pobre. A Adelaide ficou sentada no chão, continuou abraçada à mala, a olhar para os homens que cortavam lascas de pão, ofereceram – lhe um pedaço, recusou, ou a olhar para dentro da noite, desconsolada. É a ausência que faz nascer o pensamento.” (p.97) José Luís Peixoto LIVRO

O beijo – GUSTAV KLIMT 


uma foto tirada pelo meu neto João Brentano – beira do rio Mampituba – Torres
boomerang
A consciência de estar só é sempre na penumbra, na nostalgia de ser dois, assim diz Gaston Bachelard, e nada é fixo para aquele que, alternadamente, pensa e sonha. Amanhecer na luz azul e azul, magia do dia… É preciso sonhar muito – sonhar tomando consciência de que a vida é mesmo um sonho, e de que sonhamos para além do que já vivemos, a percepção do vivo está logo ali no amanhecer, no presente do hoje: a verdade diante dos olhos.
Minha mãe nasceu em outubro, e morreu em outubro de 1987. Foi como perder / arrancar um pedaço vivo. Difícil de curar!
1994 – Búzios – dias felizes, especialmente tranquilos. Férias. E o pai, presente. Saudade enorme. Repassei/repensei/revivi alagados olhos verdes a cada sonho. Por que não esgotamos o amor. Sentir é o mágico da permanência! Eles não desaparecem… Voltar a Torres para apertar / amarrar sentimentos. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2019 – Torres
Coisas da vida! Eu sou velha demais e você demasiado novo, e os boomerangs acabam sempre por voltar nem que seja nas pontas dos pés, à noite, num assobiozinho envergonhado escreve Lobo Antunes. Memória de Elefante