da madrugada

(…, coisa da madrugada)

Por que te escrevo? Porque estás a ler, e preciso de ti. Mas não choramingo. Não, não quero te pedir nada, nem que olhes nos meus olhos, passou tanto tempo desde o primeiro dia que nos encontramos! Já sei o que sentes. Estás acomodado/ instalado na vida, – e lembranças disparatadas te assombram. Já tens o gosto acomodado na memória organizada do reencontro generoso, e do pequeno prazer de ser tu contigo. Eu atrapalho. Mas repito, preciso de ti. Lembro como és envolvido, abarrotado de tarefas e exigências. Não quero te pedir nada. Mas não vou esquecer de nós dois. Então eu te conto como sou, porque não sabes, não podes saber tudo. Ainda não sabes (sorrindo). Mais ou menos agitada dispersiva quieta inquieta curando apalpando esquecendo. Mãos na terra cavoucando, mãos nas nuvens. Apago equívoco para te gostar do jeito certo de gostar. Escrevo a lápis, e vou e volto com a borracha. Espalho anotações. Amontoo prazer para te entregar, desordenado, mas nosso. Pega agarra. Sou desorganizada, tu não imaginas o quanto! Ficarias logo aborrecido comigo se eu te perguntasse dos óculos. E a xícara, o casaco (sorrindo) espero que não brigues comigo. Lembras quando deixei queimar a panela Creuset (maravilhosa!), e tiveste uma inundação em casa, um cano com problema num dos banheiros…  Estávamos juntos naquela confusão. Fogo e água. Aquela febre que não cedia, ardia. Perguntas inquietas, paciência. Teu sorriso. Estico o braço para tocar no abraço, depois vou recuando, não virás, não irei. Posso esperar. Não vais acreditar na vontade grande que tenho de te olhar quieto, retraído, tu também esperando. Outras vezes te sinto feliz, esparramado na cama. E sei que sentas para ler, escrever, vagamos pela nuvem virtual, estamos viciados. Vejo pouco televisão, saio pouco, e gosto de andar de camisola pela casa. Faço chá de madrugada, escuto música e respiro. Abro as janelas. Gosto do vento fresco da noite, e acho uma droga que envelhecemos/ envelheço…, afasto este desgosto e penso nas noites ao relento, respiro. Devem existir outras vidas, outras formas de prolongar /esticar porque não damos conta de tanto fazer e tanto sonho! A menina se apressa dentro de mim, espia e aguarda, dá gargalhadas quando me impaciento. Então espero ela adormecer para sossegar o espírito e agradecer. Afinal estás aí do outro lado, mesmo se choro, se suspiro, eu te tenho / penso, e sou feliz para poder derramar tudo no teu colo quando chegares.  E qualquer claustrofobia se desarruma quando me sinto feliz como agora. E volto para os objetos amontoados. O desfazer. Coisas me atrapalham, mas não consigo me livrar dos livros. Vou limpando uma estante depois a outra, decido que não lerei este nem aquele outro livro, jogo na caixa. Preciso separar os preteridos / esquecidos e dos que não me querem / rejeitam, dos amados, deste amanhã que ainda teremos. Fiz tantas mudanças ao logo do tempo! Estive a morar aqui e ali. Estes dias lembrei de Montevidéu, da casa e das tardes enormes, do leite do doce da boa comida, das bicicletas dos meninos em grupo com as mochilas nas costas, do fogo da lareira, do bom queijo ralado na massa, o bom vinho e a preguiça. Por que te conto estas histórias? Gosto que me escutas, gosto de te embalar. Enquanto digo/ alongo as palavras. Eu te beijo, e te aperto e assim mesmo fechas os olhos. Estamos um a pensar no outro. Cada um amolecido no próprio corpo. O meu falante, o teu silencioso e amoroso. Como os dias eram enormes, como viver tinha um tempo um tempo um tempo, como vou te explicar… E com tamanho de vida inteira. Sentia saudade das crianças, sempre senti saudade dos filhos, já te contei isso, na minha vida de ser gente grande, mulher, bem, antes dos dezessete anos eu queria apenas ficar gente grande e escrever, mas depois, – esqueci todo o resto. Comecei pelos bebês, pelas crianças. E agora quero te amar assim, devagar com os olhos, com o pensamento, com todas as estas coisas boas que guardamos um para o outro. Elizabeth M.B. Mattos março de 2018 / volto em junho de 2019 perdida no computador. Deves estar do outro lado a me esperar. Eu sigo em Torres, definitivamente.

sem data

Quisera ter amado mais, e não ver poeira na estrada, mas sentir o constante palpitar de saudade…  Ao ter teus braços no meu corpo estremecer. E o amor voltasse/fosse/continuasse. Oxalá não me sentisse vazia como agora. Quisera o beijo sem equívoco sem lamento. Não percebeste o particular encontro. Haja perdas! Tudo ficou menor. Jamais seremos Tristão e Isolda nem Abelardo e Heloísa. Jamais teremos o sabor da vitória ou da consciência: absurdo fardo carregas.

Assim, amar-te foi equívoco. Prosaica igualdade! Luta perdida, a tua, a nossa. Sempre haverá dignas diferenças e imundas lutas, vergonha, roubo! Que jeito sem jeito… Elizabeth M.B. Mattos (sem data)

 

 

morte norte

Se eu pudesse dizer, se eu pudesse abrir aberto este desejo fechado… Estaria, ainda uma vez, solta e livre. Olhos frestados, adormeço.

Lenta, lentamente, desço as escadas do viaduto, ao lado da igreja. Embarco, sem bagagem, no último ônibus. Sigo / vou rumo ao mar, aquietada desta saudade doente. E não estarás lá. Não estarás. Então, como me pedes, esqueço, não penso, adormeço.

Escondida nas letras, possíveis palavras. Caminho no escuro, possibilidade impossível. O o tempo inquieto espera. Tu e eu não esperamos, inquietos no tempo, olhamos através/pelo aberto olhar triste… Já passou. Outra vez a fechadura arrombada. Larga memória de uma lágrima.

Quando eu te escuto a ler poemas pelo fio, eu te vejo nas palavras. Ouço pela metade, escuto o aperto da tua dor. Quando te escuto, ouço o feitiço. Tua voz agarrada ao passado fechado, sem presente, sem fita nem surpresa… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2006

 

azul pode ser feio?

Uauuuu! Encontro casual entre elevador e a porta do prédio, entre a poeira (da obra), e o azul do dia: humor encasmurrado, feito cascão! Esta analogia eu fiz, cruel! Vida nos grilhões, arregaçada. Mulher encapsulada, arrogância sem voz… Não posso deixar sem registrar. Morar em condomínios tem espantos azulejadas, o jardim precisa de gramado e sorrisos. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

 

o feio azul…

Paulo tem razão, a cada linha um jeito novo de se esconder, se perder mais um pouco, ou se reconhecer. Fernando segue escrevendo a própria vida numa reprise de desconexões porque se descobre numa cidade desconhecida, a sua velha meninice pulsa. Magda viaja entre amigos inquieta, fortalecida. Ana Cristina mergulhou nas imagens da lente, e se inquieta entre Portugal e o Rio de Janeiro: o tempo, um minuto. Sérgio agarra lasca redesenha a vontade sensual permanente da juventude. André se aquieta e mistifica o poder, depois se entrega, como um menino, para a beleza melancólica da paz. Simone cuida da vida com gentileza atenta. Celso pensa e eu penso Celso, temos um abismo a nos separar. Gustavo persegue as sombras enquanto eu choro. E o meu amado aproveita os dias para me esquecer e fazer assados neste inverno. Eduardo espia o mundo com sua lente de pesquisador e devolve tudo em letras e acertos. Francisco consome amor e música com olhos verdes de desejo alegre. Paulo Sérgio se prolonga na magia de ser jovem amado bonito e genial. Aos internautas o mundo dos boabás e descobertas: ouro com hora marcada.

baobassssssssss

– se tu vens, por exemplo, às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração…É preciso ritos.

Assim caminha o amor, descabelado a se pensar a caminho, ou todo ajustado, arrumado, penteado para o amor certo, na hora certa! Perdendo os pedaços no meio do caminho, distraído! Saudoso, abençoado e dadivoso: esparramado…

” – Que é um rito? – perguntou o principezinho.  – É uma coisa muito esquecida também. – disse a raposa. – É o que faz que um dia seja diferente de outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo,  possuem um rito. A quinta – feira então é um dia maravilhoso! Vou passear até a vinha.  Se os caçadores dançassem em qualquer dia, os dias seriam todo iguais, e eu não teria férias.” (p.99) Antoine de Saint-Exupéry  O Pequeno Príncipe

Este sol devolve colorido brilho cintilante. Hoje de manhã, tropeço numa nuvem escura saindo do elevador, com um tapetinho enrolado em baixo do braço,  cabelo escorrido,  expressão escorrida. Tudo cinzento e seco. Deve carregar o peso por dentro num esforço espicaçado sem som… Sacudi o meu sorriso e escutei os piados e gritinhos alegres da passarinhada nos hibiscos. A Ônix nem se desviou, correu sacudindo o rabo para a liberdade da calçada, eu segurei a porta e a nuvem passou. Entrei na manhã ensolarada, quase noves horas… Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2019 – Torres

P.S. Vida: todos os minutos se misturam no eterno.

Sendo assim, pensou, será que minha vida é apenas um processo de reprodução, de materialização, de uma imagem latente que guardo em mim? Até que ponto eu sou responsável por estar completamente perdida?” (p.99) Haruki Murakami 1Q84 (Livro 2)

Não sei nada de viver nem de nada. Vou devagar, distraída, sacudida, meio perdida!

 

 

 

velhos amores

Velhos amores também ficam velhos! Engraçado. De repente passou… Dois maridos, dois amores amados. Relacionamentos tempestivos e intensos, ficaram na estrada. Lembranças, passado. Estar pendurada na memória! Respirar hoje para o amanhã. Posso dizer/inventar / contar novas estórias. Não posso te esquecer. RESILIÊNCIA. Estás do outro lado. Não imaginas o quanto te desejo grande / enorme e apertado. Já tão tarde! Coloquei / colocaste / colocaram barreiras invisíveis. Envelhecer, as cordas se esticam traiçoeiras, não te preocupa mais, temos outras vidas. Teu poder, devolvo. Venceste! Ser amor amado hoje não importa, já é amanhã, e foi ontem ainda que cozinhamos juntos. É o tempo que envelhece, a terra, nós somos eternos. Quando espio para a tua vida, e te procuro do outro lado da cerca, eu explico: esqueci de te dizer O B R I G A D A! Basta apagar a luz e somos nós em 1963, não esqueci do biquíni preto, da areia, e lembro de ti menino! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

EDITAL do casamento com Jorge

Ao escrever, eu me liberto! Não importa se não respondes. Sou das missivas, e tu gostas de estar do outro lado!

 

Aquarela do artista plástico Carmélio Cruz – Porto Alegre 1964

desordem

Estranho efeito! Desordem no espelho: tudo fora do lugar num descuido completo e preguiçoso. Um dia azul verde  enrolado no xadrez  do xale macio de um inverno que, talvez, aponte. Os pés em meias de lá. A pele macia e doce sustenta / conversa com o imponderável. Se estamos vivos tudo é possível, inclusive, sentir doer, perder os pedaços porque envelhecemos. Somos parte deste todo que se despedaça, sem referência, apenas se despedaça… livro de iberê e danúbio.jpgEscreve Danúbio no seu livro SER OU NÃO SER ARTE (p.61) : “Vicent nasceu morto. Irmão  homônimo  do pintor Van Gogh,  esperança para a família,  herança  nominal de um esperado vencedor. O cognome maldito pesaria como traumática cobrança.  Recusado como homem e artista. Fracassado.” E transcreve de Vincent escrita no hospício de Arles para a irmã Wilhelmine. ‘Se eu tivesse elevado minha voz desde o começo,  em vez de me calar em todas as línguas do mundo!’  Segue: Arrependimento do pintor. Van Gogh  vendedor de objetos de arte,  Van Gogh pregador religioso,  Van Gogh socorrendo a mineiros explorados no Borinage,  Van Gogh aprendiz desenhista,  Van Gogh apaixonado frustrado,  Van Gogh sustentado pelo irmão,  Van Gogh mutilado, Van Gogh internado no hospício  de Arles,  Van Gogh apedrejado e batido pelos intrusos antropófagos, Van Gogh suicidado pela sociedade. A carta: ‘É   muito provável  que eu ainda venha a sofrer muito. E,  para lhe dizer a verdade,  isso não me agrada, pois em hipótese alguma eu desejaria uma carreira de mártir. Porque sempre procurei algo diferente do heroísmo, que não tenho, que evidentemente admiro  em outros, mas lhe repito, não acredito que seja meu dever ou meu ideal.’.

Releio este e aquele livro para agarrar este sol de hoje, porque tudo é dolorido. Despedaçado. Uma sequência de perdas. É constatação, e de repente, preciso do heroísmo. Agarrar o cotidiano / segurar a vela da jangada mesmo que as lágrimas e os soluços me sufoquem. Envelhecer: um relâmpago de lucidez. Insperado, ligeiro / passageiro. Como um sonho? Desejo, confiança na voz do soluço… Saudade. Saudade do teu urgente dizer! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

enxurrada de amor

PITANGAS AMORAS AMEIXAS: pomar da lagoa.

Jasmim em tufos. Alameda de camélias. Abertas rosas gordas a desfolhar. Vejo pitangueiras floridas. Amoreiras modestas, atrasadas, e apenas uma ameixa amarela. Araçás verdes, sem fruto. Cheiro de mar … e uma esperança desesperançada de viver para sempre. Irei sob protestos agarrada amorosamente neste galho de vida, e …cheia de pensamento engraçado. A morte virá, eu sei. Penso na vida. O corpo descreve/conta/explica curiosas histórias. Floresta campina, e sonhos … Desencontro. Bafo quente do último olhar. Alguém virá me chamar, dizer meu nome, e dar a mão. Outra vida se estica e o sorriso alegre acolhe. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2018, já em Torres.

Se tivesse / se fosse / se o tempo voltasse! Uma luz / chance / outra volta / não sei. Queria poder enxugar tuas lágrimas e te cuidar!

de te pensar

Porque acordo e sinto dor no corpo,

porque acordo, e não tenho corpo.

Porque acordo, e sei que dormes.

Enfim, afinal, o que posso mudar?

Reconheço o balanço do tempo

 

Já tanto envelheço, – estupefação,

e agora / hoje desperto a te esperar.

Vem! Chega perto, e toca meu corpo, – eu respiro.

Deita ao meu lado,

e respira respira…  Eu respiro.

A juventude volta, fechamos, nós dois, os olhos

e já amanhã… Somos nós dois, lado a lado. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2019 – Torres

 

 

caminhante solitário

Depois da mensagem: “caminhante solitário”

Alvoroço agitado dos pardais. O sol entra esparramado pelas vidraças. Cães ruidosos. Preciso fazer, mas estou nas memórias. E voltas. Escuto a voz rouca. Imagino que precisamos ficar mais velhos para então, olhar nos olhos um do outro, e falar, falar. De todos os que foram, os que ficaram… E destas incertezas evidentes. O chá gelado, uma torrada sem geleia, as empadinhas de siri vendidas na praia. Mate gelado na praia de Ipanema, Leblon. Nunca estivemos no Rio de Janeiro. O bom da lembrança é que dançamos, inúmeras vezes dançamos. Embora eu sempre me escondesse no imponderável, nunca nos teus braços. Certeza do não ver / pensar ou explicar. Estarei encabulada retraída, desconectada, escondida quando chegares. Sonolenta. Indefinida forma de ser gente. Como um novelo de lã que não se abre, mas enrosca, aperta e comprime. Não consigo tecer. Impossível olhar zombeteiro de uma lembrança audaciosa e preguiçosa. Vontade de te tocar. Já é tarde. Eu sei… Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2019 – Torres