Amós OZ

“Para um lugar em que se possa estar sozinho e onde acontecem coisas não planejadas, coisas que não são nenhum elo na corrente nem mais uma etapa positiva ou negativa ou grave. E ser um homem livre.“(p.189) AMÓS OZ, no livro UMA CERTA PAZ .

Diz /escreve com intensidade. Os livros trazem inquietação, ansiedade pela liberdade. Não é questão política, mas ter ar e direitos como todos. Respirar sem medo. Que o outro não seja muro ou obstáculo, mas alguém para estender a mão, acarinhar. Precisamos uns dos outros, mas livres e com amorosidade. Elizabeth M.B. Mattos – 28 de dezembro de 2018 Torres  morre Amós OZ aos 79 anos.

Os livros de Amós Oz sempre me tocaram, ou me responderam, ou me levaram às questões importantes e inquietaram. Escrever. Escreveu tanto! Traduzido em muitas línguas: lutou, trabalhou, se fez presente… Um especialista das grandes solidões e dos verdadeiros amores. Que os livros estejam disponíveis nas melhores livrarias, que não seja esquecido. Beth Mattos ! Ele fez a diferença enquanto viveu, seguirá, silenciosamente o seu trabalho nas releituras e edições de sua obra. Como Philip Roth! Ele também importa.

infindáveis

Não tenho tempo de ler todos os livros nem autores que selecionei  nas minhas infindáveis listas… alguns, ficaram perdidos no proibido de uma juventude atabalhoada, invertida. Não pude amar para sempre nem contar as histórias de desejo e esquecimento, nem enumerar as raivas, justificar o rancor. Terá sido o caminho tenebroso e cruel o único possível? Não sei explicar porque os amores não foram justos e eternos e divertidos. Alguém escreveu que o melhor momento acontece num átimo…, como que no impossível do possível. Não sei o motivo de não amar o acessível e virtuoso. Desejar o proibido, a negação. De repente estendes a mão, mas tão encabulado!  Eu também não sei fazer/dizer …, como tu, sou esquiva. Não. És inteligente e consciente. Eu, descabelada.  Irresponsável. No meu medo escondo o conforto da ternura mansa, então … Estas leituras picadas dizem tanto e tudo. Vou picotar o texto. Vou adaptar. Vou traduzir do meu jeito. Vou lamentar. Georges Bataille impossível, não consigo. Elizabeth M.B.Mattos – dezembro de 2018 – Torres

 

loucura, igual

Setenta ou setenta e dois, logo setenta e três, loucura igual. Enquanto sentir  imaginar posso transgredir, arriscar, porque respiro. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro 2018 Torres

Liévin continuava sempre no mesmo estado de loucura, em que lhe parecia que ele e a sua felicidade constituíam o objetivo principal e único de tudo o que existia e que agora, ele não precisa pensar nem se preocupar com coisa alguma, pois os outros estavam fazendo e continuariam a  fazer tudo para ele.” (p.433) Liev Tolstói Anna Kariênina

euuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu hoje

pudor da idade

“Durante toda a noite pesadelos circulam pela minha cabeça como a água pelas guelras de um peixe. Quase de madrugada acordo para descobrir que a casa não foi reduzida a cinzas nem fui abandonado em minha cama como um doente incurável. ”(p.251) Philip Roth  O professor do desejo

Não quero terminar o livro, este nem vou começar. Outros gostei tanto!  Escreve/diz o que não posso dizer, sequer pensar … Entrega total. Idade define a leitura? E autores. Sinto medo. Ou levanto barreiras. …, qualquer coisa de pervertido na palavra, ou acanhamento meu? Falta coragem! Ele, o grande. Tantos livros lidos. Agora engasgada. Uma vez me disseram, com orgulho: li O Teatro de  Sabbah -, tanta pompa nesta afirmação! Eu tinha lido O fantasma sai de cena.  Gostei muito e muito e muito. …, Animal agonizante. Vi também o filme baseado no livro. Comprei e li outros livros dele, outros.  … , e agora a confissão:  não consigo terminar O teatro de Sabbah, recomeço e largo. Pudor? Não sei. Inadvertidamente comprei O professor do desejo. Outra vez, não consigo ler. Serão leituras barradas pela idade avançada? Estou tão tão e tão petrificada? É isso envelhecer? Censura na clausura. O que será? Já não posso ler o que desejo, ou  … ? Não. Autor fantástico. Tradução boa, editado pela Companhia das Letras. O  tema: sexo desejo. Desgoverno, sensualidade. Luxúria. Idade interfere. Não sei se é bom ou ruim. Fico penalizada. Beth Mattos – dezembro de 2018. Empacotando livros para presentes.

lamúrias

Ninguém sabe o que fazer ou como ou deixar de fazer …, comédia ou tragédia …, suicídio ou vida lenta. Arrasto correntes, pesa o meu passo. Chá ou café, água ou vodca. Desmaio ou sono. Ninguém pode dizer nada. A memória acelera impossível, desgovernada. Estou menina enroscada nos sonhos das letras. Agora estas lamúrias comezinhas e inúteis. Fizeste bem ao te instalar no meio do mato, fizeste bem. Caminhar na areia da praia. Fizeste bem em te mudar para a cidade fervente. Fizeste bem em me esquecer … Elizabeth M.B. Mattos dezembro de 2018 – Torres

rendas guipures

Eu me atirei para ler Anna Kariênina de Tolstói, tradução (árduo trabalho) de Rubens Figueiredo. Desencontro encontro. Vida no campo versus o mundano, beirada e dúvida. A magia dos escorregões e sacudidas. Descrições minuciosas[…],” mas sim de preto, num vestido de veludo de corpete rebaixado, que deixava à mostra cheios e torneados, como que em marfim antigo, o colo, os ombros e os braços roliços, de pulsos finos e minúsculos. O vestido era todo ornado de guipures venezianas.” (p.89) Citações, minhas guipuras venezianas. Química e tato e desejo e vontade e palavra virada prazer = satisfação agrilhoada! Que 2019 aproxime a bondade, ainda teremos risadas e sossego.Elizabeth M.B. Mattos – Torres 2018

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do amor

O amor é assim mesmo, concentrado. Nunca diluído. …, e fica enorme dentro daquele ínfimo momento, Frank Wan -, roubei tua citação. Tanta certeza tenho disso! Beth Mattos
Só se ama num momento. E é este momento que regressa sempre.
Henri-Pierre Roché

On n’aime tout à fait qu’un moment. Ce moment revenait toujours. 
Henri-Pierre Roché, Jules et Jim

apartamento da mãe em Torres e eu

CARTA ROUBADA

O roubo das cartas não foi resolvido. (Ele não me devolveu as cartas, as minhas, porque quer as de Iberê.) Eu mesma não me importei. São minhas! As desaparecidas. Nada que eu possa ter escrito importa mais do que as cartas dele. Antropofágico. Edgar Allan Poe me devolveu a carta, Eduardo não.

Real ficção.  Inventa – se vida: plenitude e urgência… Onde / com quem estarão as cartas? Não sei exatamente -, ou não importa se eu sei. Elizabeth M.B.Mattos – Torres 2018

“- Bem, posso arriscar – me a dizer que o papel confere ao seu possuidor um certo poder numa esfera em que tal poder é de imenso valor.”  – O chefe de polícia adorava a linguagem diplomática. […]

– Está claro – disse eu -, como você observou, que a  carta ainda está em posse  do ministro, e  é essa posse, e não qualquer uso da carta, que garante o poder. Com o uso o poder deixa de existir.” Edgar Allan Poe

IBERÊ estas cartas

A maldade é um sopro, uma intenção. As cartas, reunidas, a história. Ou apenas  imaginação.

nudez pecaminosa

Volto os olhos e te vejo. Infância juventude e este doce envelhecer no teu abraço, pecados. Não me converti em estatua de sal. Nem fui amaldiçoada. Ninguém me apedrejou. Caminho por Porto Alegre. Sim. Foi preciso tirar as roupas, rir em voz alta, choramingar pelas praças… Gritar. Escabelar-me. Voltar a Rua Vitor Hugo, ao Petrópolis Tênis Clube, as calçada da Fernandes Vieira, pegar o bonde João About, voltar ao cinema Ritz, assistir a missa na Igreja São Sebastião. Entrar no Colégio Santa Inês, dividir a merenda com a Maria do Carmo. Chegar à Escola Estadual Rio Branco, rever as professoras. Espiar pelos muros do Colégio Israelita. Voltar pra casa caminhando pela Avenida Protásio Alves. Depois comprar balas no bar Tupi antes de ficar sentada sob os jacarandás. Ver as bonecas na vitrine. Sentir o inverno, também o verão assim desnuda. O sol queimando a pele! Preciso deste palco, desta retomada penosa para voltar a ser quem deixei pra trás … Preciso rever. Olhar a menina que brinca no pátio da casa de Ipanema. Aquela que pula no sofá contigo. A mesma que entra nos caixotes pra poder cantar, falar… Choro com espanto. Nada escorreu como deveria ter escorrido. As sutilezas da proibição são urtigas. Estou me repetindo, já disse isto antes. São aroeiras que me queimam! E pensei em jasmins… Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2013

Sem Título-16