Estou grávida

livro e mulheres criança

Qual o fato novo para mudar radicalmente? Estou grávida. Parece extraordinário que esteja neste estado. Entre livros e quadros, o beijo. Estou grávida. Altera tudo. Precisava confessar.  Na brincadeira o abraço do abraço o beijo agora reflexão. Não posso fazer nada. Já te disse que os filhos, os filhos chegam antes dos amores. Não é pecado. Sou abençoada. Depois que nosso filho nascer, eu me ponho a te esperar, de certo virás me buscar, e  nunca mais nos deixaremos. Abraço erotizado outro beijo. Amar sem tempo livre livres no embalo. Pés enterrados no barro da argila, e o grande Xico Stockinger  fará novas escultura em bronze, ou ferro e madeira. Seremos o amor do amor aos setenta, aos oitenta anos.

Acabei dormindo na madrugada, agitada. E às cinco da manhã levantei louca de sono. Não estou ainda desperta. Sinto frio. De natureza acalorada, mas de noite, preciso de cobertas  e meias de lã.  Falar/saber de você é estar/ficar completamente desperta  alerta. Sim, sou cheia de medo. Contida, lenta, tensa, contraída, assustada. Tímida, alguém já me disse.  Atordoada agitada súbito no turbilhão. Preciso voltar a dormir. Apaixonada pelo texto do irlandês John Banville… Puro prazer.  Repeti tanto te gosto te gosto te gosto te gosto que parece surrealista expressão não sentimento. A ficção tem voz e cheiro, e  aparência.

“E, eu estava me apaixonando por Chloe — ou melhor, estava apaixonado, porque a coisa já tinha acontecido. Experimentava aquela sensação de euforia ansiosa, uma sensação feliz de um despencar irremediável, que todos aqueles que sabem que devem ser a parte atuante do amor sempre sentem nesse começo vertiginoso. Porque, mesmo naquela tenra idade, eu sabia que há sempre alguém que ama e alguém que é amado, e, nesse caso, sabia muito bem qual dos dois eu ia ser.”(p.141) John Banville, O mar, Nova Fronteira,  Rio de Janeiro, 2007. Por que escrever quando todas as coisas já foram ditas todos os recursos usados. Por que amar quando as histórias de amor são as mesmas, iguais.  Por que perguntar a resposta. Continuo empilhando livros que não lerei. Esquisito sabor de amoras e pitangas gosto fresco de outono secura por dentro certeza incerta. Livros pelo chão, roupas nas cadeiras objetos passeiam a minha volta.  E a droga da memória se remexe, e o mundo me atordoa. A perna segue doendo. Vou colocar os tênis caminhar com a Ônix. Tenho mais do que posso ser…Em excesso transbordo. Cuida bem de ti meu querido amado. ElizaBeth M.B.Mattos – abril de 2017 – Torres

mulher e o cão

Escultura de Xico Stockinger

Para GUSTAVO JOSÉ

Contar histórias não sei. Não tenho jeito. Não lembro, escorrego, dou voltas. Não chego. Se te escrevo, eu te sinto, então, eu te digo. Se escrevo volto ao começo recomeço. Explico. Olho para trás e te vejo. Posso dizer você. Você está perto. Estou outra vez na rua Viúva Lacerda, Humaitá, Rio de Janeiro. Muito perto o Parque Laje, logo o Jardim Botânico. Janela bem aberta. Vejo o Cristo Redentor. Aqui é pequeno. Sempre é pequeno onde estou. Do jeito que faço do jeito que é pequeno no teu abraço. No silêncio automóveis circulam na avenida. Ônibus e vozes na calçada.  Sou eu a conversar com Castanheda atenta A Erva do Diabo. Leio releio, sublinho, rasuro. Onde estarão aqueles livros todos?  Olho pro nada vendo enxergando tudo. De Krishnamurti trouxe quatro volumes de São Paulo, depois comprei outros apressada, e me perdia naquele dizer comprido de explicar e voltar ao começo nunca chegando ao fim. Eu penso que entendia. Noites em claro mergulhada nesta certeza  de incerteza que é o nada, mas sou Eu. Adoro lembrar da Ponte Aérea, das galerias de arte, da sopa no final da noite. Daquela pressa para chegar e trabalhar no dia seguinte. Desta juventude insone que me persegue. Até das freiras do Colégio da Providência, em Laranjeiras. Daquela menina/mulher que se imagina comportada segura no pequeno apartamento da rua Viúva Lacerda. Ou era na rua Vitor Hugo quando eu pensei grande me surpreendi adolescendo na rua André Poente com a Ramiro Barcelos.  Huxley me consome. Confundo tudo. Bebo mais água, muita água. Eu me importo com a lucidez. Passou tanto tempo! Cabeças Trocadas de Thomas Mann.  Ou Demian de Herman Hesse. As Cônegas não me levaram para o Convento, eu me apaixonei, como as outras, pelo Frei Celso enquanto meditava naqueles maravilhosos Retiros. Entre palestras orações e silêncio. Missas gregorianas, latim, vozes e  mais muito silêncio. Mato fechado nas vizinhanças da escola e também amoras e pitangas. Não esqueço daquele avental com bolsos enormes cheios de pedras e folhas. E o silêncio, as nossas celas monásticas. Oitenta anos agora. Já cresceram filhos netos. Já não vou ao cinema, nem me debruço na janela. Nem vejo o mar ou sento em escadas. Ipanema tão longe! E eu gostava daquele mar. Voltava de ônibus com a roupa molhada no corpo atravessava a rua olhando sorrindo. E depois a Prudente de Morais e aquela sofisticação com cerejas naturais, muita música, muito embalo e tanto mimo! Agora já não como pipocas, nem fritas com cebolas. Ainda gosto de alho, de feijão com farofa. Adoro manteiga. Sou gulosa. Não sento mais naqueles sofisticados restaurantes da Lagoa Rodrigo de Freitas apenas tocando na sofisticada comida de aromas, nem uso veludo italiano camisas de seda, sapatos altos. Não falo francês, nem compreendo o italiano. Não vou a Buenos Aires, nem a Búzios. Não falo espanhol. Ainda ouço as canções francesas, e me agarro nos livros esquecidos da Gallimard. Não vou viajar, não gosto, não quero, mas Nova Iorque me chama, atrai. Vou me perder por não compreender inglês, mas sei de pessoas, de cheiros, de toque. Ouço vozes. De repente acordo em Berlim. Elizabeth M. B. Mattos, Torres. E falo e leio e gosto, e sou metade francesa, metade carioca e leio e te penso. E sei que despertar/acordar ainda pode ser melhor.

Recado urgente

Porque nos pensamos nos queremos: sem histórias ou amoras ou azuis.  Sem plural no singular nós nos queremos. Hoje agora nos queremos. Tanto faz enamorado velho ou velho enamorado. Somos. Por favor, diz alguma coisa, não vai com a sombra, não liga para este jeito azedo desconfiado de ser eu. Não quero esperar. É urgente. Elizabeth M.B. Mattos abril de 2017 – Torres

Apaixonar desarruma

Colocar ordem no caos não sublinhar expressões  amorosas. Abandonar este surto de paixão que domina, floresce, desarruma. Dependência um do outro. Planando no silêncio, fora da realidade. Há  cada um  seu pequeno/grande universo. Sem abismo, sem precipício. Sem voz. Não sou Não és. Quero ordem e silêncio.

E eu te abraço cansada, apaixonar desarruma … Elizabeth M.B. Mattos

Junto com o amor

Junto com o amor este enamoramento apressado urgente e cheio de agora de sempre. Perturba. O arrebatamento não tem idade. Enlouquece num quero não quero como se  fosse possível manipular ou negociar. Fantasia/ ideia/ palavra do outro que fica nossa. Incerteza nossa que fica dele/dela.  E eu te digo: não me esquece, fala, diz. Sonho que acorda. Despropósito. Anarquia. Loucura porque te quero perto.

E junto o destempero. Elizabeth M.B.Mattos

Lembrei de te dizer

Lembrei varias coisinhas pra te dizer antes de viajar. Acordei agora, estou querendo fechar as malas.  Sigo estranhando este ir vir… Bom estar contigo! Ao chegar em casa o cheiro forte da limpeza com querosene, gimo cupim. Enfrentei. Dormi antes da noite chegar. Amiga, estou sufocada nos desinfetantes. Intoxicada. Sim, adorei o que mandaste: mel delícia, canela gosto. Estou ouvindo Stevie Wonder escrevendo cartas, melhor dizer postando emails e lembrando dos gloriosos trinta anos. Do Marco Frignani quando desembarcou com as cerejas de Modena. Do Rio de Janeiro. Boas lembranças. Aqui arrumo, arrumo e tudo segue lento. Confesso que a mala está por fazer. Não penso na viagem: limpo esfrego, dobro, estico, separo… Guardo tanta roupa para depois de emagrecer, ou caso engorde um pouco  mais! E quanta tralha no fundo do armário. O marceneiro AINDA não colocou a porta. A Ana me fez um rocambole de/com goiabada divino, comi inteiro. Que gulosa! E fico pensando que é tão bom ser magra, elegante. Roupas bem frouxas, soltas no corpo. Detesto engordar, mas como gosto de comer! Dançar. Caminhar na beira da praia. E dormir. E também engordar comendo chocolate. Ler, não fazer nada e tudo impecável e perfumado. Que bom estar viva! Assim eu me sinto aqui. Se morássemos mais perto talvez estivéssemos tricotando. Estou com o cesto de lãs coloridas a transbordar.  Beth Mattos, Torres.

Cordas do piano

Extenuada, cansada. Sensação de impotência. Gratidão porque escuto o céu e a noite. Desligo o mundo, logo amanhece. Tudo parecia / ia ser fácil. Fiz o meu melhor, penso. Preciso descansar. Como se faz para interromper inquietude/desencontro/aflição/ turbulência…  Quero horas inteiras para a preguiça. Um não fazer nada com vagar. O lado suave organizado e manso da vida prometida. Que chegue depressa o aconchego do embalo. Há de ser sempre exigente apenas respirar? Hoje estou cansada. Ontem também estava. Quero de volta a energia vital. Quero de volta a menina encantada. Quero outra vez o quintal com jacarandás. Posso confidenciar, mas por favor, estou cansada, exausta, traga rosas do jardim, esquenta o leite, e preciso da coberta perfumada, outro travesseiro. Senta ao meu lado, diz que amanhã vai ser mais fácil. Deixa eu ficar quieta. Deixa eu chorar lágrimas. Lê o livro das AmorasAzuis desde o começo. Deixa o piano tocando… Pode ser Chopin Mozart Schumann se são cordas do piano, gosto. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2017 – Porto Alegre

Comer laranjas e ver televisão

Devagar, hora a hora, dia a dia, como se o tempo fosse um banho de acidez, vou vendo com mais nitidez o negativo da fotografia. Imagem-duplo: a memória-lembrança. Esgaçado sentimento da inércia. Perdas inseridas no limite do não aconteceu. Por que não disse isso, perguntei aquilo, não fiz assim…; miúda saudade de conversa pequena. Do cheiro, do sorriso, da fala. Saudade física. O corpo se ressente. Saudade fervente/estranha/ inquieta do agora do que não existe. Ávida presença-ausência porque sendo já não é mais. Lamento a perda neste beijo ansioso. O corpo fala, o discurso se contradiz. Tudo importa, mesmo o tempo que não teremos. Abraçar e me aquietar no teu abraço. Se existisse um sempre que este sempre fosse você.  Quero mais amor raiva alegria frustração tristeza nostalgia, lágrimas. Vou quebrar este tudo. Esparramar terra no gramado, cavoucar canteiros. Pensar gerânios margaridas hortênsias. E sombra. Vou passar roupa, esvaziar armário, encher gavetas, limpar, polir, lustrar, fazer feijão, assar o peixe com manjericão. Cozinhar legumes comer laranjas. Ver televisão. E.M.B. Mattos – abril – 2017 – tuas margaridas do campo, crescidas!

margaridas-brancas

Clarice Lispector para Fernando Sabino e XICO STOCKINGER e Beth Mattos

da correspondência ao trabalho…

Missivas atravessam o olhar, o tato, o olfato, o gosto mesmo quando o mundo todo é/seja apenas silêncio. Beth Mattos

FOTO

Tomo menos  milk-shake e levo uma vida diária vazia e agitada. Passo o tempo todo pensando – não raciocinando, não meditando – mas pensando, pensando sem parar. E aprendendo, não sei o quê, mas aprendendo. E com a alma mais sossegada (não estou totalmente certa). Sempre quis  ‘jogar alto’, mas parece que estou aprendendo que o jogo que o jogo alto está numa vida diária pequena, em que uma pessoa se arrisca muito mais profundamente, com ameaças maiores.Com tudo isso, parece que estou perdendo um sentimento de grandeza que não veio nunca de livros nem de influência de pessoas, uma coisa  muito minha e que desde pequena deu a tudo, aos meus olhos, uma verdade que não vejo mais com tanta  frequência. Disso tudo, restam nervos muito sensíveis e uma predisposição séria para ficar calada. Mas aceito tanto agora. Nem sempre pacificamente, mas a atitude é de aceitar.” (p.201) CorrespondênciasClarice Lispector.  Organização de Teresa Monteiro. Editora Rocco, 2002.

xico stockinger

Xico, em pouco tempo conseguimos reunir o material para o corpo do livro. Realizar esse trabalho foi também provar das receitas culinárias, estar presente na intimidade da família, chegar perto. Agradeço a tua tenacidade, organização. Empenhados, ameaçados por computadores, limitados aos horários da rotina do trabalho, não desistimos. Neste momento quero agradecer aos amigos Flávio Tavares, Walter Galvani, Paulo Hecker Filho e Roberto Acízelo Quelha de Souza, importantes. (p. 103)  Elizabeth Menna Barreto Mattos, no livro  Xico Stockinger Memórias da Editora ARTES E OFÍCIOS Porto Alegre, RGSul, 2002.

Entre todos os gêneros a correspondência/ missivas me agrada pelo imediato, o desnudado, e assim mesmo mentiroso universo das palavras. O artista deforma ao informar. As pessoas pensam e fazem diferente do que pensam porque se dobram às exigências do outro, do entorno, da sobrevivência. Então tudo é sempre camuflado, mesmo sendo aberto. Irreal mesmo tangendo o real. E se nos jogamos de muito alto e de no muito fundo, não resistimos. Então! Cuidado! Assim mesmo tentamos este transloucado movimento de ir…, mesmo sem vontade ou querer. Quando penso no pequeno livro MEMÓRIAS do Xico Stockinger penso que os caminhos são perigosos. O maravilhoso no artista é o silêncio absoluto, tens razão, mas apenas este sentido lhe faltava … e tudo mais era mais. Quando escrevo, nada me assusta. Escrevo. Se respondes então posso gritar, dançar. Aqui está  um pouco desta estreita fronteira entre poesia, ficção e realidade a que se refere Celso Aquino Marques. As histórias da feitura/ construção de um pequeno livro.” Elizabeth M.B. Mattos – 2017 – Torres

A lista

Também eu quero a lista. A lista dos livros essenciais. Também eu quero me aproximar deste alicerce que construíste. Também eu quero procurar. Se a  casa da rua Vitor Hugo existir e se souberes o caminho… Ouvir o que tens a contar pode me ajudar a escutar o que tenho para me dizer. Eu preciso me apreender para te compreender.

O amor se espalha. Quando / quanto menos se espera volta como onda cheio de força. Esqueço idade,  já nasci velha. Envelheço como menina ansiosa, barulhenta.  Encantados. A vida leva a vida traz. Este mar  somos nós, eu e tu. Estou a esperar a voz, o olhar: tua voz. Olha para mim. Elizabeth M.B. Mattos