somos personagens, nem sempre sabemos qual é a história principal, tantos são os enredos
Mês: outubro 2021
erros refletidos
“Não cometer uma ruindade gritante é um modo de tomar consciência de que não se é mais jovem. […] O útil seria nunca falar em juventude na história, mas deixar adivinhar isso, justamente pela recusa de se soltar. Talvez quando muito, no título: Juventude terminada. E, no fundo, o pensamento: Aí está, não farei mais essas coisas; cometerei agora erros refletidos, erros de limitação, não de universalidade”(p.161) Cesare Pavese O Ofício de Viver
Erros irrefletidos, igual complicados. O erro fundamental será sempre aquele que não se pode consertar; (risos) na verdade, não consegui acertar, estar equívoco, sempre?! Uma constante. Distraída, confundida. Apreender sem interromper o vento / a brincadeira: impossível. O melhor momento? O das bonecas, fossem de papel, pedrinhas, de pano, de louça ou os maravilhosos bebês com rosto de louça. Os brinquedos nos carregam…e atrapalham, a vida do faz de conta importa mais do que viver. Ou estou sempre brincando? No faz de conta. A pensar! Festas, risadas, o sem compromisso, o jogo… Fazer comidinhas, embalar os bebês, trocar as roupinhas, lavar as panelinhas, empurrar os carrinhos, chutar a bola. O exercício. Ler e escrever foi tipo tortura. Esconderam o sol, tiraram a sombra, desligaram o som. O silêncio ficou feio! Bem! Inventa -se, imagina- se e até governar / ter poder pode ser tão, estupidamente, artificial! E aquelas reuniões enfadonhas, eles brincam de decidir, mas jogo de tabuleiro pode ser, levemente, complicado. (risos) Céus! Estou misturando reis com presidentes, e os chefes…, os que mandam, decidem. Crescer pode ser enfadonho quando não é mais descobrir. E descobrir pode ser…,não sei.
“Não traí porque nunca me fizeram pertencer.” Esta frase me faz pensar. O que seria/será trair? Não estar em tentação. Seguir a natureza, o natural, e acontecer = paraíso. Eu me expresso mal ao dizer, “nunca traí”. Há tantas formas de não estar aonde deveríamos estar! E tantas e inúmeras traições! Equívocos. Prisões e paraísos. A doçura da paz e flores! A voz, a tua voz e teus olhos apertados! O embalo. Eu te agradeço! Preciso contar, voltar, repetir, dizer, e, depois negar. Esta ventania que não termina! Será o vento? Ou este avesso do tempo? Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres assobiando dia e noite – e o mar enroscado, com sol a espiar, mas logo espreguiça. Volto a juventude iluminada, caminhar de pés descalços faz bem, comer batatas fritas e bifes acebolados, entrar no mar, banho de chuveiro, tempo demorado na banheira, a nudez, o sono com sono, os beijos, a magreza saudável, engordar sem medo. Avião. Ficar quieta em casa. A limpeza. Fazer aniversário. Esperar o verão. Esperar o frio e muitos cães.
se eu fosse apenas eu
se eu fosse apenas eu, tomaria uma xícara de café com leite, escutaria música e voltaria a dormir, se eu fosse apenas eu, as horas seriam preenchidas com o livro escolhido, ou eu telefonaria. Eu telefonaria para saber de ti…, eu te acordaria, ou eu te interromperia, ou eu iria te encontrar. Quantas vezes peguei um táxi às duas, ou as três horas da manhã para te ver!? (risos) Quantas vezes não te deixei dormir? E, eu, eu se fosse eu estaria te amando desorganizada e. Tu estarias me amando com todas as gentilezas possíveis e abrindo todas as janelas, e as portas-janelas. Nós começaríamos o dia agora/outra vez: a noite chegou para contrariar a natureza, nós dois acertaríamos ser dia outra vez. E tu estarias entre indignado e risonho… Fui me olhar no espelho: o rosto levemente inchado, deformado, meu rosto. O pescoço me dói, as costas…, vou esquentar o leite. Comer um pedaço de pão. Caminhar na calçada um pouco a pretexto de levar a Ônix, não vou ligar a TV. Coloquei um disco na vitrola, tenho dor de cabeça, mas preciso ‘maneirar’ com os comprimidos, controlar as pílulas. Eu deveria ter dormido na hora do sono, fui esticando…fiz isso, aquilo, e mais aquilo, pra escapar, prolongar, errado. A rotina. A rotina exata, ,milimetricamente, a mesma. Qualquer coisa fora da emoção, somando, sacudindo, e acontece assim…desarruma tudo. E estas pessoas novas precisam ser controladas. Precisam se adaptar. Céus! O leite vai esfriar. Vou tentar descobrir o livro. Estou detestando todos os assuntos possíveis: quero uns beijos distraídos, quero beijos e aconchego. Talvez a Magda traga o livro certo para “me agarrar”, ou eu talvez eu devesse fazer uma pequena viagem, ou até o Rio de janeiro, ou até Florianópolis e andaria de bicicleta…caminharia, e tem o aniversário da minha sobrinha, da minha irmã, sairia da casca. OU talvez amanhã eu vá passear pela cidade. Fazer compras. Chamar a moça para lavar os vidros. Talvez eu devesse sair…Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – sair de Torres e festejar as festas




des fazer / des costurar / desimaginar

Os vidros cheios de maresia, de terra. Através dos vidros…,(tudo o que observo,/olho nestes três pontinhos). O sol veio. Logo desaparece. Vontade chega forte, voluntariosa, mas, desaparece. O café com leite, delícia. Depois, a surpresa deste vagar cansado, manso. Sem respirar, por quê? A pandemia com gosto/cheiro forte, mas logo se dissolve: desmancha com o vinho. Não consigo segurar / agarrar: os dedos perderam o comando, a mão, a força. Bobagem! Vou encontrar a fresta, o bom desenho. O quadro de mulheres, o livro se abre em / com explicações. O gosto me agarra pelos calcanhares, eu me sento, outra vez, contrariada. Se a tarde caminhou tão apressada, eu preciso descansar. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – impaciente, ranzinza, mal humorada

“Só os estranhos pensam uma biblioteca apenas como um conjunto de livros. É muito mais: não é preciso ter lido Borges ou Foucault para saber que, para quem estuda, a biblioteca é o compêndio do mundo, senão o próprio mundo; e os livros, todos os livros, são a chave para tentar compreendê-lo. A biblioteca particular do intelectual, então, é “um diário íntimo”, o espelho de uma aventura humana: os livros lidos, os nunca abertos, os encontrados após uma longa busca, talvez por acaso, num sebo, aqueles recebidos por pessoas amadas, ou menos amadas; as dedicatórias, os catálogos dos museus e das mostras visitadas; as marcações rápidas, as anotações nas margens brancas, os papeizinhos redigidos, confiantes de que, no momento certo, servirão. Nos livros ficam cartas, bilhetes de viagem, papéis de hotel; há até quem esconda dinheiro nos livros. Mas, sobretudo, a biblioteca é ordem: para que seja possível reencontrar entre tantos livros os de que precisa, eles devem (ou deveriam) ser organizados segundo uma taxonomia a mais pessoal que se possa imaginar.”
“[…]a arte é busca, e não representação, da verdade.”
Giulio Carlo Argan A Arte Moderna na Europa de Hogardth a Picasso
12 de outubro
a mãe morreu neste dia da Nossa Senhora! não lembro da chuva. hoje chove bastante…. eu estava longe, na fazenda. quando o pai morreu eu também estava longe, quando tia Joana morreu eu estava perto. minha tia mãe, brigava comigo, e eu brigava amando, acostumada, moldada, do jeito dela / do meu jeito de querer, desconfiada. íamos para o colégio, almoçávamos juntas, dormíamos no mesmo quarto, o dia e a noite, minha tia Joana! a mãe morreu de manhã no dia da Nossa Senhora Aparecida! ninguém ia morrer, ou adoeceu para morrer, ou era hora, ou…, não era para ser, aconteceu quase no susto. aconteceu para ser assim, rápido, cedo, sem conversa, sem medo… como os anjos são anjos este morrer do pai, da mãe e da minha tia Joana, só aconteceu… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

Minha tia, minha mãe! Joana de Athayde e Anita de Athayde Mattos
infantil embalo de criança
deve ser isso
Deve ser isso mesmo viver: esperar, desesperar, montar / fazer, acreditar, e, tudo desmoronar. Recomeçar. Estudar. Estudar. E o tempo, desespero no vento de outubro. Queria o verão das férias, dos anos… Não estou num bom dia! Não achei a linha certa, nem a possível agulha, nem… Vou beber o tal chá. Tentar terminar o livro, E esperar o próximo feriado. Recolhi todos os ovos, como tu mandaste. As galinhas estão inquietas porque já parece anoitecer, e eu cansada sem ter feito nada. Desculpa.
Dançar no baile / na festa, não com o par certo, mas o possível: e não desanimar, sempre se apaixonar, pelo impossível, o menos possível mesmo. O prosaico. Não ver nada / atordoar e não dizer. Claro que não posso voltar nem desfazer, foi tudo mais ou menos assim, atrapalhado. Éramos tão jovens! Estupidamente jovens! E eu? Cega. Tinha lá minhas metas: escrever histórias, abrir o silêncio, encontrar o lugar certo. Ficar longe, e remexer naqueles guardados, também ler os livros certos. Empilhar os necessários, ler. Ler. Ler. Revejo corajosos e elaborados textos/histórias. Costurados, deveriam estar alinhavados, mas agora engessados / não, viraram pedras, não sei esculpir, nem consigo aumentar o verde, trazer o vermelho, desenhar os olhos, abrir as janelas. Reescrever? Impossível. Tudo é supérfluo. Vou voltar para as cobertas. Estou com medo do verão! Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2021, como assobia o vento! Vem deitar também.

assim Paulo
Assim, Paulo:
Estou a pensar neste “gosto que olha”, neste gosto que lê. Associações pessoais, únicas. No monólogo. Na conversa. Onde a conversa?! Tão difícil! Ou mesmo inútil. Idiomas diferentes, desconhecidos. Não convergem nem explicam. Qual planeta? Terra, ou Saturno? Marte ou Vênus? Em qual rotação? Qual pressuposto? Qual bagagem? Uma mochila ou uma mala com rodinhas? Sacola ou valise Onde estão os afins, os pares? Sinto-me / estou estrangeira. Fotografaste meu quarto, as plantas, também as pedras e concluíste: “estás protegida, estás feliz, bonita e bem”. A voz da Luiza me faz falta, seu olhar castanho, os cabelos, o corpo, a minha Lú. Sabes que o Flávio já está com sua identidade italiana? E que ela me mandou uma écharpe verde, modesto presente segundo ela, mas, do meu, gosto digo eu. Adoro lenços e mantas como se o inverno pudesse ser permanente na minha vida. Junto ao fogo e ao vinho. Isto traduz o Sul, mas, se o mar estivesse aqui com suas falaises e ventania e maresia eu estaria melhor. E se meus olhos pudessem olhar e ver a filha eu estaria mais feliz. Sinto falta dela: como se eu desejasse o começo. Que tudo recomeçasse, desde a gravidez… Como se eu devesse a ela uma vida. Ela me sabe inteira, e eu? O q eu sei da filha? Quero mais. E não posso tocá-la. Escrever é pouco, não sinto o cheiro. Sinto saudade. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2021 – numa velha / antiga lembrança de 2004
amar é proteção, e
Amar é proteção. Esvaziar esperança, desespero. O vento acinzenta mais o dia, não sei se quero dormir, escrever, ouvir música, ou ficar em silêncio. Deveria ter sol num dia comprido como o de hoje. Eu deveria estar animada. O sol demora para chegar, mais preocupada eu fico… Será um verão colorido, escaldante, superlotado? Deve ser o susto esticado do frio! Como será voltar a ser como era? Como será voltar? Ou não. Terei que recriar. A energia se desprende por um nada. Escrever tão complicado! Pensar tão complicado! E as calçadas estão cheias. É o feriado. Ansiosos ou inquietos, ou distantes, ou esvaziados. Presos. E por que a sensação de encolher? Tudo é sintético, prático, posso jogar na máquina de lavar… Secar o casaquinho em cima de uma toalha, e na grama quente, ao sol, outra toalha bem fina em cima. Descascar laranjas. O sol seca, perfuma, mas desbota também, estou confusa. E a louça deveria ser seca imediatamente, almoço sem vestígio. Vontade de comer um pudim de leite doce, leve, com calda. E a comida teria sido feita na hora. E as vozes deixariam a tarde maior, não o dia inteiro se espreguiçando, mas as coisas sendo feitas. Escrever pesa, e se arrasta sem vontade. A pensar que faço tanto força para ser eu mesma, mas todos os dias quero ser outra. Por que minhas unhas deixaram de ser polidas e bonitas? Aquela alegria desapareceu, talvez tenha apenas se escondido. Não basta carregar alegria renovada, há que cuidar e distribuir com gentileza. Os sabonetes devem ser perfumados, os lençóis limpos, as cobertas ventiladas, a poeira? Está ventando. Que dia tão cinzento! As buganvílias se entusiasmaram: dois ramos começam a florir. Vou cuidar do meu olhar, deste ver e ouvir exaustão. Por que estou tão cansada?!

visível
Dia completo: afeição. Teu carinho, o meu. Nunca estamos em nós; estamos sempre além; já te disse uma vez. Sinto o beijo, teu abraço. Sinto o cheiro / perfume de rosas, ou seriam dos jasmins? O brilho retorna no sonho. Eu te sonho no meu azul, mas estou a ver o teu verde. Rever o sonho, num repente, já é passado. Volto. Noutro sonho, projeto e ele fica futuro. Posso me balançar e me divertir porque estás perto de mim! Teu abraço. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres





Cesare Pavese
“As coisas são alcançadas quando não as desejamos mais
A única regra heroica: ser só, só, só. Quando passares um dia sem necessitar ou sentir a presença alheia, em qualquer gesto ou pensamento que tenhas, poderás chamar a ti mesmo de heroico. Ou ao contrário, ser Cristo – isto é, anular -se. Mas disseste ontem – ninguém renuncia ao que conhece – e tu conheces coisas demais.” (p.207) Cesare Pavese O Ofício de Viver
As coisas de viver me parecem esquisitas, mas a disposição. Ou melhor, as coisas de viver se amontoam. Não encontro os pincéis certos, perdi o fôlego, as telas em branco me assustam. Sequer releio, sequer faço a correção, ou tento. Quase desisto, sem motivo nenhum, chorar seria perfeito. Acertar o estabelecido, alguma coisa ficou acertada, confirmada, não comigo. Falta entregar a coragem, e sentar. Então, eu caminho de uma calçada para outra. Beth Mattos, não eu – em outubro de 2021. Não vou desistir. Uma vez uma poeta, uma amiga, intrigada me perguntou das citações, não soube responde. Não sei responder , ou dizer as coisas, enveredo para o prolixo, e depois, já é tarde. Os livros fazem aquela conversa de repetir, repetir. E.M.B. Mattos