



O tempo se arrasta, constrangimento covarde. Vou criar outro caminho, outra coragem, outro empenho, e vou te ver em Paris, em Limoges, ou onde estiveres. Podes rejeitar, eu aguento. Eu aguento porque te quero, sem consciência nenhuma neste querer. E.M.B.Mattos fevereiro de 2020 – Torres
quero me esconder no sono,
e o sono se espalha pelo chão, e desaparece enfeitiçado de palavra, e me sufoca
quero voltar, e sem caminho/ou estrada/ ou sentido eu me perco
olhos nos teus olhos, eu me perco de mim, em ti
sem rumo, não estou, encolho na tua voz
e não chegas
beth mattos / Torres / fevereiro de 2020

“Os apuros de Giacometti com um rosto japonês. O professor japonês Yanaihara, de quem fazia o retrato, teve de atrasar dois meses a partida porque Giacometti nunca estava satisfeito com o quadro e o recomeçava todos os dias. O professor voltou ao Japão sem seu retrato. Esse rosto sem asperezas, mas grave e doce, devia desafiar o seu gênio. Os quadros que subsistiram são admiráveis de intensidade: algumas linhas cinzentas, quase brancas, sobre fundo cinza quase preto. E o mesmo acúmulo de vida de que falei. […] Poo desenha com precisão – sem dispor com arte – o forno e a chaminé que estão atrás de mim. Sabe que deve ser exato, fiel à realidade dos objetos.
Ele: É preciso fazer exatamente o que está diante de nós. Digo sim. Em seguida, após um momento de silêncio:
Ele: E, além disso, é preciso também fazer um quadro. (p.64-65) O ateliê de Giacometti – Jean Genet

Volto ao retrato aquarela de Carmélio Cruz: meus dezoito anos. Cabelos despenteados se desenham no detalhe do pincel. Penso nos retratos de Goya, e no fantástico, na violência da guerra. Alberto Giacometti não encontra, no rosto do professor, alma-artista.
“Essa capacidade de isolar um objeto e de fazer afluir nele suas significações próprias, únicas, só é possível pela abolição histórica daquele olhar. É preciso que ele faça um esforço excepcional para se livrar da história, sem se tornar uma espécie de eterno presente, mas antes, uma corrida vertiginosa e ininterrupta do passado para o futuro, uma oscilação de um extremo ao outro, sem repouso.” (p.48)

Alguns livros pequenos e intensos voltam. Assim arte e desejo se abraçam… E o esforço o método a vontade acontecem / se realizam num único e certo e possível esforço. A lágrima de um soluço. Perfeita. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2020 – Torres

Tento usar o sistema, atrapalhada. Noite sem dormir. Cedo caminho até a praça. Chuva miúda. Preciso de uma xícara de café. Noite branca. Agitada na imobilidade exigida/posta e assustada… Há cinquenta e dois anos atrás eu estava me casando com Geraldo na Igreja São José em Porto Alegre. Um dia de verão quente. Muito, muito, muito quente. Persigo o número 9 nesta matemática de infinito. (09/02/2020 07:13:43)
No mesmo dia viríamos para Torres. Lembro da nossa juventude. Esticar os lençóis e arrumar o tempo de ser marido e mulher. A ideia do para sempre e sempre… Casamento de verão! Fora do lugar. Sabíamos inventar, inverter e ser apenas a vontade da urgência, a nossa.
A fugir e a me esconder da sombra. Escamoteio pensamento. Perco o rumo. Atrapalhada no viés. Ser eu comigo… Emaranhado de sol sem sombra, com frescor de primavera. Ou verão tão e tão completamente escondido noutro verão. Todos os velhos aparelhos eletrônicos obsoletos me fazem falta. Não me renovo. Esta noite eu senti frio. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2020 Torres
Sombrio e lento… Tomaria uma xícara de chá com uma enorme fatia de bolo de chocolate, ou bolo de laranja. Ou uma xícara de café com torradas e mel. Ou sou eu a tricotar e a esperar o inverno. Onde estarás? Estou.
Fio desconectado: perigo. Limpeza e gramado: cheiro verde e azul. Flores floridas: rosas, crisântemos, saudades com extremosas. Beth Mattos – fevereiro de 2020

Ele. Jean Giacometti volta no tempo, na marca: a escultura, o desenho e a palavra. O físico. Guarda-se o prazer de posar, de ser pensado, de conversar de estar para sempre arte. Então eu posso compreender o prazer.
” Todo homem terá talvez sentido essa espécie de pesar, se não terror, ao ver como o mundo e sua história se mostram enredados num inelutável movimento que se amplia sempre mais e que parece modificar, para fins cada vez mais grosseiros, apenas suas manifestações visíveis. Esse mundo visível é o que é, e nossa ação sobre ele poderá nunca transformá – lo em outro. Sonhamos então, nostálgicos, com um universo em que o homem, em vez de agir com tanta fúria sobre a a aparência, não somente recusando qualquer ação sobre ela, mas desnudando -se o bastante para descobrir esse lugar secreto, dentro de nós mesmos, a partir do qual seria possível uma aventura humana de todo diferente. Mais precisamente moral, sem dúvida.”(p.11) Assim escreve Jean Genet – O ateliê de Giacometti – precioso volume / livro com fotografias de Ernest Scheidegger numa edição da Cosac & Naify
E o escrito faz referência ao agora hoje, no entanto como ontem, sempre. A arte eterniza o pesar, o grosseiro e as manifestações visíveis… O nostálgico sonho de agarrar o amor amável se despedaça. E qualquer palavra esticada para te alcançar soa inútil/falsa. Escutas apenas a tua própria voz. O medo te consome na inquietude escondida de não estar/não ser/ ou colecionar vidas. Não sei se teremos outra, ou se já vivemos e o colchão macio das encarnações nos afunda. Não hoje então, nem nunca. E a brincadeira do corpo se desfaz inútil. Somos prisioneiros da imaginação. Nunca estivemos / nem fomos / nem seríamos amigos porque nossa humanidade é invisível. Sinto raiva neste equívoco. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2020


Dizer isso ou aquilo, colorir cadernos, ventilar armários e gavetas, trocar de casa e de jeito se acomoda em semana chuvosa. Manhã de frescor curiosando casaquinho. Volto a caminhar, volto a cozinhar, aspirar, e a tecer intrigas contra o vento. E as palavras se fecham fáceis. Abusivo sentimento de paz. Afinal acontece! A cada um sua volta inquieta, mas o disfarce eficiente se espreguiça. Muda a temperatura.
Voltar a Porto Alegre acende o gosto da novidade. Prazer interno rotativo, novos pesos e e medidas. Em Torres a permanência da beleza, o recuo certo. Pequenas e soltas caminhadas matinais e noturnas se vestem de liberdade. Então recuo. Assim mesmo faço/proponho viagem para medir o espaço, pendurar cortinas, embelezar a possibilidade e curiosar. Ah! Quando o medo do novo vira monstro e a mão do amigo generosa resolve!
Uvas e abacaxis, e pêssego: leveza a mesa. Cheiro bom de noite! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2020 – Torres
A mesa de jantar era para que dez pessoas se sentassem a volta, confortavelmente. O luxo, um acerto de conforto. Assinatura do poder. O alcance que eu tive/tenho sendo visceral se diluiu no que de fato transcende poder e coisas e matéria. Escolhi amores amados! Crianças se aconchegam no cheiro e sobrevivem indiferentes, ou transparentes ou renegadas.
Superei. Atravessei o fosso, venci o medo. Agarrei o galho daquela árvore. E nem o vento, nenhum raio nem as chuvas mudaram minha posição. Devo ter recebido tudo o que precisei para sobreviver e crescer.
Estou a me debater na crueldade, neste desprendimento dilacerado e maléfico. Mergulhei no sentimento desconfortável/estranho de não me importar. A energia se derrama na limpeza, no esforço para manter o cheiro perfeito da casa. Janelas abertas, móveis escovados, roupas lavadas e louça a brilhar. Não tem verão nem inverno. A temperatura adequada para ser agasalhada por um cobertor e lençóis perfumados. Preencho o prazer com o cansaço prazeroso de fazer. Não penso ternamente em ninguém. Não amo mais. Preparada estou para a batalha final, indiferente, anestesiada pela vida. Cansei de mendigar. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2020 – Torres
Susto, medo, espanto e violência. Tempo despreparado para respirar ou ordenar. Vento violento vento, incontável bola de fogo. Estradas não levarão a lugar nenhum. Os rios darão as mãos aos mares. Vamos assistir ao espetáculo a surpreender o inevitável! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2020 Torres