pontos de silêncio (para J.C.K.C.)

” As cidades se reconhecem pelo andar, como as pessoas. Abrindo os olhos, o recém-chegado deduziria o mesmo da vibração do movimento nas ruas, muito antes do que qualquer detalhe típico. Ainda que fosse só imaginação, não importa. A supervalorização da pergunta: onde estou? vem do tempo dos nômades, em que era preciso registrar os locais de pastagem. Seria importante saber por quê, ao falarmos num nariz vermelho, nos contentamos que seja vermelho, sem nos importarmos com o tom especial de vermelho, embora este possa ser descrito com exatidão em micro milímetros, pela frequência das ondas. Mas numa coisa tão mais complexa como a cidade em que nos encontramos, sempre gostaríamos de saber exatamente que cidade é. Isso nos distrai de pontos mais importantes. Portanto, não se dê valor maior ao nome da cidade. Como todas as cidades grandes, era feita de irregularidade, mudança, avanço, passo desigual, choque de coisas e acontecimentos, e, no meio de tudo isso, pontos de silêncio, sem fundo; era feita de caminhos e descaminhos, de um grande pulsar rítmico e do eterno desencontro e dissonância duradoura das casas, leis, ordens e tradições históricas.” (9-10) Robert Musil O Homem sem Qualidades

semente

Não acontece/ não explode a vontade! E mesmo assim sinto o gosto perfumado da expectativa. Palavras fervem, saltam, mas se atrapalham amontoadas… Sentimentos contornados pela confiança, recheados de desconfianças. Não posso esquecer da vida a seguir/ a se multiplicar. Outra vida! Nem da caminhada, nem das aquareladas expectativas: memória, lembrança, ou passeio pela calçada!? Quero uma madrugada insone, lua, estrela, noite de verão… Quero. E gosto, gosto de te pensar, gosto de te gostar, meu querido. A cidade se agita dentro do feriado espichado! Areia vento e gente e o mar se prepara! Imaginação! Festejo o verão, guardo as tuas sementes, e vou arrancar dos cadernos as histórias… ElizaBeth M.B. Mattos / tem um gosto de tempo de ontem neste meu hoje. Novembro de 2021 – vou ter que tentar outras vezes! Vou ter que querer e desejar com mais força! E a mágica entra devagar no meu corpo.

friso

Repassar o já dito: prazer. Caminho de espinhos. Gramado macio: teu olhar inquieto, se resolve… Tanto para contar/refletir neste sentir, escoa vontade / gozo / palavra. Agitação no vagar da escuta. Estás aqui, tão bom! Para escrever o tempo se arredonda. Voltarei no teu sorriso, na resolução dos pequenos grandes desastres. Este cinzento arranha a vontade, e os desejos dão coceira pelos braços, pelo corpo…Que o vento chegue, que a chuva molhe: grama, colorido. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2021

Os cadernos vazios e o caderno do sonho

” Alguns tinham uma ou duas frases na primeira folha, com a caligrafia do Aníbal. Muitos estavam totalmente vazios. Por que o Aníbal nunca passava da primeira página?”

A história de amor, a mais intensa, a verdadeira e quente história de amor, extraviadas, ou esquecidas, na primeira página… Se muito precisava ser dito, ou se existe o conclusivo “e foram felizes para sempre” não é mais história de amor. E o texto, o esforço para escrever está todo neste caderno fechado, escrito, ou apenas…ou apenas a intenção de escrever. Esquisito isso de viver. Se passou pelo cartório com termos e acertos, garantias…, o porquê desta cerimônia!? Fica mais fácil desfazer, e, as garantias serão sempre financeiras, nunca amorosas. E o palco ajuda a ter certeza, ilumina a fantasia. Estas histórias, as amorosas, apenas a vida assina, no final… E. M. B. Mattos /novembro de 2021 – Torres

conforto do palco

“Como é melhor nossa situação no palco! Quem não me acredita?

Ninguém ousa falar. Tomam notas. Escrevem depressa.

Estamos representando uma peça em que tanto o autor como o diretor nos abandonaram e fomos deixados por nossa própria conta. Não temos ninguém a quem recorrer, a quem consultar. […]

Eis o que chamamos de pausa dramática! […]

O caminho da felicidade está semeado de pausas. O humor não passa de uma questão de senso de tempo, de ritmo. Exatamente como as lágrimas criam tristeza, o riso cria prazer. Como a fala cria uma conexão, a pausa cria uma profunda consciência dessa conexão.” (p.154-155) Yoram Kaniuk – A ressureição de Adam Stein

Representar pode exaurir, cansar…, assim mesmo salva porque faz rir. Demora -se meses para entender, ou um ano, passado o texto milhões de vezes…, desta vez represento eu comigo mesma, no tom correto. Amar vale sempre, chorar também, gargalhar, claro! E as leituras alimentam a ideia de encher cadernos, acreditar, no dia de contar história. Sempre difícil! Inventar esbarra com a verdade. E a boa mentira se transforma em flores quentes. Depois a surpresa da linguarice (língua solta com vaidade de ator). Se sei guardar segredos, tu sabes bem pisotear neles. Alguém agarra as pontas do teu laço de fita, desfaz o laço, abre a tampa da caixa, e, depois de uma surpresa arrastada de memória, confidencias, pontuação, recomeço, loucura de intimidade, apenas interrompe tudo (a tal pausa) coloca a tampa, colhe todas as margaridas, e dá as costas. Estupefata eu me pergunto pela tal coragem de ser pessoa, ou pela juventude repassada, onde está mesmo “a última Coca-Cola da festa?” Uauuuu! Gostei das histórias, ajustei as verdades, limpei a fantasia, usufrui e, depois, recolhi tudo para plantar noutro canteiro…Sou feliz porque teimo em ser feliz. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2021 – Torres

Informalidade do amor, ser dois, ou três, ou existir / respirar exige fantasia, invenção, improvisação…Apreendi contigo: vale um talento espiar pelo muro e saber/descobrir as invencionices do vizinho. Não acredito que possas ler os livros empilhados na garagem. Nem imagino que escrevas poemas, sei do gosto da boa cozinha, e, gosto de te pensar cuidando do jardim, dos cães.

como fantasmas

” Ela falava com a voz mansa de uma pessoa a quem um desastre amorteceu a voz. Ele sentia-se invadido não de tristeza, remorso ou pena, mas de espanto. Como é possível? um dia uma pessoa é jovem, se casa, e um outro dia cai em si e a vida passou como um sonho. Olharam-se curiosamente, pensando em como era possível que se tivessem perdido um ao outro, vivendo na mesma casa tantos anos e circulando pelos corredores como fantasmas.” (p.126) Walker Percy A Segunda Vinda Editora Francisco Alves

praga/peste com licença para matar

…passeio pelas ruas de Torres: prédios frente ao mar com sol! Óculos escuros e chapelões se refestelam ao sol. Os outros edifícios, todos os outros, a espiar pelas janelas, ou a se divertir com quem fica em casa. Praias lotadas / guarda-sóis a fofocarem e a se baterem / segurarem uns aos outros. A beleza cheia de pernas e braços! Papel pelo chão, carrocinhas com sorvete…,e, o perfume das frituras na Praia Grande! Salva – se, das torres de cimento, nostálgico, o rio Mampituba!

Sobrevier mesmo esmagado, desgovernado, é preciso! Praga / peste! Licença para morrer no meio deste descaso: pobre meio ambiente! Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2021 – Torres

sangra a dor

Sangra, acontece agora… A injustiça dói. Os acertos doem. O verão entra nas pontos dos pés e se insinua… Sairemos juntos a rodar pela cidade lotada. Edifícios, por todos os lados, devoram velhas e majestosas casas! Da praça – gramado, estacionamento. Os vândalos com suas papeladas acertadas e gordas fossem os donos! E a música toca. Dinheiro. Não existe mais nada do que era, apenas o mar e as pedras. Soterraram / arrancaram / vandalizaram em prédios / construções. Que haja saneamento! Vou dar as costas, esconder a cabeça, fechar as janelas. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2021 – Torres

brinquedo

Brinquedo esquecido no fundo do baú, no sótão, ou no porão. Alguém lembrou de guardar. E se nada disso aconteceu, as lembranças / os mecanismos internos o devolvem. Neste sonho eu com as duas irmãs: eufórica e dançando nesta visita mostro a casa, os espaços: as janelas majestosas, e o pequeno jardim. Sempre pequenos os meus jardins, mas floridos, cuidados e, de certo, mágicos, encantados, porque eu os desejo assim.

Amanhece cinzento. Um domingo cabisbaixo, desajeitado. Como será este novembro que prepara o dezembro. Noutros anos eu já me envolvia com fitas e surpresas. Este ano será aquele ano da verdade sem fantasia, apenas ela, e no despojamento a nudez será brilhante, festiva e erótica. Estaremos atentos aos pequenos trejeitos. Sempre o feitiço… Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2021 – Torres